sábado, 18 de maio de 2013

Frida: "Nunca pintei sonhos. Pinto a minha própria realidade"



“Tia Fisita, eu tenho muito medo”, disse-lhe um dia a sobrinha. Frida acariciou seus cabelos e confortou a menina. Ao entregar-lhe a pintura de um autorretrato, tia Fisita disse: “Para você se lembrar de mim, Isoldita”. solda Kahlo, a sobrinha para quem Frida pintou uma lembrança, recordaria os momentos mais íntimos de sua família desde a célebre Casa Azul, onde os Kahlo viviam. “Que no me vean fea”, pedia a artista antes de receber visitas em seu ateliê, ou mesmo enquanto vivera por incontáveis meses deitada sobre uma cama. Após o banho, arrumava os longos fios pretos do cabelo com afinco. Gostava de lavá-los com frequência, secá-los ao sol, para depois iniciar o elaborado ritual do penteado.  Durante a estadia no hospital, era a sobrinha Isolda quem enfeitava com fitas coloridas o cabelo da tia, com arremates cuidadosos. Frida Kahlo, às vezes, gemia de dores. Uma poliomielite, contraída ainda criança, deixaria uma irreversível lesão em seu pé direito, o que lhe custara o apelido de Frida perna de pau. E foi o problema na perna que a fez habituar-se às longas saias, as quais se tornariam uma de suas marcas.

Ao contrário da maioria, Frida não via nas telas interesse enquanto jovem, mesmo que o pai, fotógrafo, tivesse como passatempo trabalhar as cores em tecidos. O desinteresse pelas artes plásticas, que depois a elevariam ao posto de “a maior do século”, dera espaço aos estudos para Medicina. Frida e mais 34 colegas seriam a primeira geração feminina da Escola Preparatória Nacional do México local onde conheceria Alejandro Gómez Arias, seu primeiro namorado.
Alejandro era o líder do grupo “Los cachuchas”, do qual Frida participava. Eram tempos de bruscas mudanças sociais no México. O mundo fervia entre litígios político-sociais emergentes. Na Rússia, há apenas oito anos, o Exército Vermelho derrubava o governo provisório dos mencheviques, instalado após a Revolução de 1917. Posteriormente, a morte do primeiro líder bolchevique traria tensão política à União Soviética. Na disputa pela sucessão do posto deixado por Lênin, de um lado estava Stálin, Secretário-geral do Partido Comunista e vencedor do páreo. Do outro, Leon Trotsky, que perdida a disputa, passa a sofrer com a política stalinista de caça, calúnia e difamação contra seus velhos e novos inimigos, entre eles o próprio Leon. Trotsky seria afastado do governo e do Partido Comunista e expulso da URSS, fixando-se, por fim, no México. Mais precisamente na casa dos pintores Diego Rivera e Frida Kahlo, já casados.
Era com Alejandro Gómez que Frida estava, aos 18 anos, em 1925, no bonde que se chocara com um trem. Com a colisão, estilhaços do para-brisa de um dos veículos perfuraram-lhe as costas, atravessando a pélvis e saindo pela vagina. Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón sofreu com hemorragias e passou por inúmeras cirurgias de reconstituição de partes do corpo, permanecendo em estado crítico por muito tempo. Com pequenos avanços em seu quadro clínico, Frida passaria a usar coletes ortopédicos de diversos materiais: couro, gesso, metal. E se a tia não podia andar, era a sobrinha Isolda que bailava pelo quarto e pela casa para animar os dias. 
Uma corda amarrada a uma grossa viga no teto, sobre a cama, seria seu apoio nas trocas dos coletes e também durante outras tarefas, como tomar banho. Estes coletes, frios, insípidos, teriam zelo distinto sobre os olhos e sobre a fantasia de uma artista presa à cama, delineada por curvas incorruptíveis de aparelhamentos cirúrgicos. A pintura “A Coluna Partida”, idealizada dezenove anos após o acidente, uma das mais célebres de sua carreira, tem como motivo uma Frida séria, seminua, conectada por cintos brancos com uma coluna de pedras desconexas em meio ao tronco a segurar sua cabeça. Nas telas, o espelho de sua personalidade incomodada. A ideia de expor cavaletes e telas sobre a cama fora iniciativa de D. Matilde, a mãe.
O intelectual e militante marxista Leon Trotsky, por convite do pintor Rivera, marido de Frida, instala-se na residência do casal durante seu período de isolamento político e social. Frida há muito já carregava notoriedade por seu trabalho, e seu temperamento incomum abrigava uma mulher audaciosamente pulsante, ao contrário do que muitos teciam, construindo a ideia de uma mulher amargurada e deprimida. O visitante conheceria tal força de muito perto.
Mesmo no México, o comunista tinha sua vida revirada. Era escoltado por seguranças e amigos, e seguidamente tinha sua intimidade espionada. Diego, que sustentava anseios políticos dentro do ideal socialista do hóspede, viria a desafinar a relação com ele a partir de disputas políticas. Mas não só. Dentro de casa ninguém precisava esconder o que muitos fora dela sabiam: Frida e Trotskymantinham relações íntimas. Mesmo que Rivera e Frida já não mais convivessem como cônjuges, o ciúme e o descontentamento incomodaram brutalmente o pintor Diego.
Na época da fundação da Quarta Internacional – a organização baseada nos conceitos de Leon para a fundamentação do socialismo – ocorrida no dia 3 de setembro de 1938, o estrangeiro deixava a residência Rivera para residir em uma casa própria, no bairro de Coyacán, nas imediações de onde Frida nascera. Dois anos depois, no dia 20 de agosto, a mando do oponente Stálin, Ramón Mercader furaria o crânio de Trotsky com uma picareta.
Após uma rápida separação, Frida e Diego voltariam a viver juntos. Juntos, mas separados por uma ponte. Os dois se conheceram no ano de 1928, quando Frida entrava para o Partido Comunista Mexicano. Diego, um muralista – prática estética em que se tornara respeitado – pintava nos muros por considerar a arte convencional bastante burguesa: as telas, após pintadas, eram comumente enclausuradas em coleções particulares. Frida, por ideais parecidos, buscou afirmar a identidade nacional mexicana através de sua obra. Com muita frequência seus quadros adotam temas do folclore e da arte popular do México. Entre 1930 e 1933, passa a maior parte do tempo em Nova Iorque e Detroit, visitando exposições, conhecendo artistas. Numa de suas exposições, em 1938, a crítica afirmava a mexicana como uma pintora surrealista. Ela mesma discordara: Nunca pintei sonhos. Pinto a minha própria realidade.
A artista considerada a maior do século XX, amava propagar alinhos de glamour frente às câmeras fotográficas e filmadoras. Adorava suas saias estampadas e suas joias pré-colombianas, falava sobre sua herança latina, que também estampava as particularidades do rosto. Em ocasiões públicas, nas cenas noturnas, na vida boêmia, entre conhecidos, em folias gracejadas, expressava sua seiva e grandeza, enquanto que em suas pinturas gritava dolorido um ser mordaz.
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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