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domingo, 21 de julho de 2013

Primeiro trabalho filosófico do jovem Nietzsche: 1862


                                               APÊNDICE: FADO E HISTÓRIA


Se pudéssemos contemplar a doutrina cristã e a história da Igreja com olhar isento e livre, teríamos de expressar opiniões contrárias às ideias geralmente aceitas. Porém, desde os nossos primeiros dias estreitados no jugo do hábito e dos preconceitos, e pelas impressões da infância inibidos na evolução natural de nosso espírito e condicionados na formação de nosso temperamento, acreditamos dever considerar quase um delito, se escolhemos um ponto de vista mais livre, a partir do qual possamos emitir, sobre a religião e o cristianismo, um juízo imparcial e adequado aos tempos. Uma tentativa como esta não é obra de algumas semanas, mas de toda uma vida. Seus fundamentos devem ser apenas a história e as ciências naturais, para não se perder em "especulações estéreis". Quantas vezes toda a nossa filosofia não me pareceu uma torre babilônica: alçar-se até o céu é o objetivo de todos os grandes esforços, o reino do céu sobre a Terra significa quase o mesmo. Uma interminável confusão de ideias entre o povo é o triste resultado; grandes reviravoltas ocorrerão, quando a massa perceber que todo o cristianismo se baseia em conjecturas; existência de Deus, imortalidade, autoridade da Bíblia, inspiração etc., sempre serão problemas. Eu tentei negar tudo isso: oh, demolir é fácil, mas edificar! E mesmo demolir parece mais fácil do que é; somos tão intimamente condicionados pelas impressões de nossa infância, as influências de nossos pais, nossa educação, que esses preconceitos profundamente enraizados não podem ser facilmente removidos por argumentos racionais ou por simples vontade. O poder do hábito, a necessidade de uma coisa mais elevada, a ruptura com tudo existente, a dissolução de todas as formas da sociedade, a dúvida, se já por dois mil anos a humanidade não foi desencaminhada por uma quimera, a sensação da própria ousadia e temeridade: tudo isso trava uma luta sem decisão, até que experiências dolorosas, acontecimentos tristes conduzem de novo o nosso coração à velha fé da infância. Porém, observar a impressão que essas dúvidas causam no ânimo deve ser, para cada um, uma contribuição à sua própria história cultural. Não podemos pensar senão que algo tem de permanecer firme, um resultado de todas essas especulações, que nem sempre pode ser um saber, mas também uma fé, sim, algo que mesmo um sentimento moral às vezes incita ou amortece.

Assim como o costume é produto de um tempo, uma direção do espírito, também a moral é o resultado de uma evolução geral da humanidade. Ela é a soma de todas as verdades para o nosso mundo, é possível que no mundo infinito não signifique mais que o resultado de uma direção de espírito no nosso; é possível que dos resultados de verdades dos diferentes mundos se desenvolva novamente uma verdade universal. Pois mal sabemos se a humanidade mesma não passa de um estágio, um período no todo, no devir, se não é uma arbitrária manifestação de Deus. Não seria o homem apenas a evolução da pedra por intermédio da planta, animal? Já se teria alcançado nisso sua perfeição, e não haveria nisso também história? Jamais tem fim, esse eterno devir? Quais serão as molas desse grande mecanismo? Estão ocultas, mas são as mesmas desse grande relógio que chamamos história. O mostrador' são os acontecimentos. A cada hora avança o ponteiro, para recomeçar sua ronda após as doze; começa um novo período do mundo [...]

Tudo se move em círculos imensos, sempre mais amplos; o homem é um dos círculos mais interiores. Querendo medir as oscilações daqueles exteriores, ele terá de, a partir de si e dos círculos mais próximos, abstrair aqueles mais abrangentes. Os mais próximos são a história dos povos, da sociedade e da humanidade. O centro comum de todas as oscilações, buscar o círculo infinitamente pequeno, é tarefa da ciência natural; agora, que o homem busca simultaneamente em si e para si este centro, percebemos a importância única que a história e a ciência natural devem ter para nós. Mas na medida em que o homem é arrastado nos círculos da história universal, surge essa luta da vontade individual com a vontade geral; aqui se insinua este problema infinitamente importante, a questão do direito do indivíduo ao povo, do povo à humanidade, da humanidade ao mundo; aqui se acha também a relação fundamental entre fado e história. A mais elevada concepção da história universal é impossível para o homem; mas o grande historiador, tal como o grande filósofo, torna-se profeta; pois ambos fazem abstração dos círculos interiores para os exteriores [...]

Não nos vem tudo ao encontro no espelho de nossa personalidade? E os acontecimentos não dão apenas o tom do nosso destino, enquanto a força e a fraqueza com que ele nos atinge dependem tão-somente do nosso temperamento?.. O que é isso, que puxa fortemente a alma de tantos homens em direção ao trivial, e dificulta um mais alto vôo das ideias? Uma conformação fatalista do crânio e da coluna vertebral, a condição e a natureza dos seus pais, o cotidiano das suas relações, o ordinário do seu ambiente, mesmo o monocorde do seu lugar natal. Fomos influenciados sem ter em nós a força para uma ação contrária, sem nem mesmo
perceber que somos influenciados. É uma sensação dolorosa, haver cedido a própria independência numa aceitação inconsciente das impressões exteriores, haver sufocado faculdades da alma pelo poder do hábito, e a contragosto haver enterrado os germes do extravio no fundo da alma.

Em medida maior, voltamos a encontrar tudo isso na história dos povos. Muitos povos, atingidos pelos mesmos acontecimentos, foram influenciados da maneira mais diferente. Portanto é algo restritivo, querer impor a toda a humanidade alguma forma especial de Estado ou de sociedade, como estereótipos; todas as ideias sociais e comunistas sofrem desse erro. Pois o homem nunca é o mesmo novamente; mas tão logo fosse possível revolucionar todo o passado do mundo através de uma vontade forte, passaríamos a ser deuses independentes, e a história do mundo nada seria para nós senão a nossa própria ausência sonhadora; cai o pano, e o homem se encontra de novo, como uma criança brincando com os mundos, como uma criança que no rubor da manhã desperta e sorridente afasta da fronte os sonhos terríveis.

A vontade livre aparece como aquilo sem vínculos, arbitrário: é o infinitamente livre e errante, o espírito. O fado, porém, é uma necessidade, se não quisermos acreditar que a história do mundo é um sonho incerto, as indizíveis dores da humanidade são invenções, e nós mesmos joguetes de nossas fantasias. Fado é a infindável força de resistência contra a livre vontade; livre vontade sem fado é tão pouco concebível como espírito sem real, bem sem mal. Pois só a oposição cria o atributo... Talvez, assim como o espírito é apenas a substância infinitamente pequena, o bom apenas a mais sutil evolução do mau a partir de si mesmo, a livre vontade não seja senão a mais alta potência do fado [...]

Na medida em que o fado aparece ao homem no espelho de sua própria personalidade, a liberdade de vontade individual e o fado individual são dois opositores dignos um do outro, por isso "sujeição à vontade de Deus" e "humildade" não passam de um véu para o covarde temor de afrontar com decisão o destino. Mas quando o fado, enquanto delimitador último, parece mais poderoso que a livre vontade, não devemos esquecer duas coisas, primeiro, que fado é somente um conceito abstrato, uma forma sem matéria, que para o indivíduo há apenas um fado individual, que fado nada é senão uma cadeia de acontecimentos, que o homem, tão logo atue, criando assim seus próprios acontecimentos, determina seu próprio fado, e sua atividade não começa apenas com o nascimento, mas já em seus pais e antepassados. Livre vontade é, do mesmo modo, apenas uma abstração, e significa a capacidade de agir conscientemente, enquanto sob fado compreendemos o princípio que nos conduz na ação inconsciente, no qual está sempre em jogo uma direção da vontade que nós mesmos ainda não necessitamos ter diante dos olhos como objeto [...] Portanto, se não tomamos o conceito de ação inconsciente simplesmente como um deixar-se levar por impressões anteriores, desaparece para nós a distinção rigorosa entre fado e livre vontade, e ambos os conceitos se fundem na ideia da individualidade.

Quanto mais as coisas se distanciam do inorgânico, e quanto mais a educação se amplia, mais se torna marcante a individualidade, mais diversificados os seus atributos. Força interior, espontânea, e impressões exteriores, sua alavanca de evolução, o que são, se não livre vontade e fado?

Na livre vontade está para o indivíduo o princípio da singularização, da separação do todo, da absoluta irrestrição; mas o fado torna a colocar o homem em ligação orgânica com a evolução geral, e o obriga, na medida em que busca dominá-lo, ao livre desenvolvimento de forças contrárias; a livre vontade absoluta, sem fado, transformaria o homem em Deus, o princípio fatalista em um autômato.

O fato de Deus ter se feito homem indica apenas que o homem não deve buscar no infinito sua felicidade, mas fundar na Terra o seu céu; a ilusão de um mundo sobre terrestre levou os espíritos humanos a uma atitude equivocada perante o mundo terrestre: foi fruto de uma infância dos povos... Em meio a difíceis dúvidas e lutas a humanidade se torna viril: ela reconhece em si o começo, o meio e o fim da religião 

(Anotação da mesma época: abril de1862)


Nietzsche afirma que teria escrito seu primeiro "exercício filosófico" aos treze anos de idade-, este é o ensaio que pode ser visto, com propriedade, como seu primeiro trabalho filosófico. Foi escrito no começo de 1862, aos dezessete anos, e apresentado à "Germania ", a pequena sociedade lítero-musical que Nietzsche havia fundado com dois amigos. Nele é surpreendente encontrar - em forma embrionária, naturalmente - os temas e preocupações centrais do seu pensamento adulto, as questões que encontrariam sua formulação mais acabada em obras como Além do bem e do mal e Genealogia da moral. O que aqui publicamos é o texto ligeiramente condensado, tal como foi apresentado por Richard Blunck em 1953, em sua biografia do jovem Nietzsche (depois continuada por C. P. janz). Tradução Paulo César De Souza.


quarta-feira, 11 de maio de 2011

Complexidade da sociedade moderna: Niklas Luhmann e sua postura iconoclasta.


Segundo o filósofo Jean Paul Sartre somos seres em situação. Não escolhemos o país a data, a família e a classe social em que nascemos e isso implica em nossa situação.  Porém, da mesma forma somos seres de liberdade, podemos escolher o que fazer com nossa situação no mundo. Na década de 1990, logo com o fracasso do bloco socialista, a tensão político- ideológica é amenizada. Porém, outras questões ainda preocupam governos, movimentos sociais e cidadãos: problemas ambientais, desemprego, desigualdade social, intolerância religiosa. Nesse contexto, o que você tem feito para compreender a situação em que vive? Todo o sentido da filosofia contemporânea deveria girar em torno desse eixo: instigar questões sobre a situação do sujeito no mundo.  Vivemos em um planeta que pede socorro, contraditório.  De um lado temos os grandes feitos da ciência: sofisticação tecnológica que de maneira benéfica, facilita uma razoável integração de pessoas e bens em especificas partes do mundo. No entanto, quais são essas partes especificas? Quem está desfrutando dos grandes feitos tecnológicos? Apesar do bom domínio da tecnocracia e sua legitimação, por que as expressões primeiro mundo e terceiro mundo são tão familiares em nossos dias? Por que um abismo separa os povos do mundo? Segundo Sartre o homem nada mais é do que ele faz de si mesmo. Então o homem nesse discurso é um ser auto destrutivo? Por que as adversidades do mundo se mostram tão construtivas como um câncer. Seria a natureza do homem egoísta e cruel?  Nossas escolhas nada mais fizeram do que erguer um muro de perguntas e dúvidas acerca de nossa essência. Ou pior, exteriorizar a incompetência do homem em pensar o todo. Nós homens do conhecimento não nos conhecemos? (Como diria o “diabólico” Nietzsche) O certo é que, todos estamos no mesmo barco e o mar que navegamos infelizmente não está pra peixe. Enfim, à luz dessas reflexões temos que deduzir que: o sentido da coletividade humana que, ao longo de toda era mergulhou em meio a tantas possibilidades de existência, continua “arcaica” visto que as pessoas se tornaram cada vez mais estranhas uma às outras. Pois é, Renato russo tinha razão: vamos celebrar a estupidez humana...demasiada humana. 
Qual sua postura perante esse quadro? Qual o sentimento que lhe toma quando seus direitos são violentados por uma política destruidora? Qual o futuro que podemos garantir vivendo em plena cultura do medo? Ficar calado? Gritar para surdos? Ou se trancar em uma sala de aula para debater ideias e conceitos vazios em quanto que o mundo lá fora se arrasta e definha como um paciente em estado terminal? Com se sente perante a situação em que vivemos? Um fraco? Um forte? Ou pior, um covarde? Pois bem, o caos está sobrevoando em nosso planeta como um fardo. Presenteia as sociedades com coroas de espinhos. Tudo está fora do lugar. Praticamente acordamos com uma tapa na cara todos os santos dias. O sistema atual não apenas esmaga, cada vez mais está sendo competente em alienar as pessoas. Eu não tenho culpa, você não tem culpa. Mas então, quem realmente é o responsável? No momento deixemos de lado essas perguntas e vamos para pra pensar de forma livre, com uma postura nobre. Pensar diferente pelo menos uma vez na vida. O Filósofo Nietzsche disse que as coisas grandes exigem que falemos com grandeza. Porque não pensar grande?  Por que não pensamos uma forma, um método ou teoria que garanta nossa dignidade? Feitas essas considerações uma sociólogo que desperta atenção por sua postura firme e polémica é o Niklas Luhmann. Difícil de compreender pela maioria dos seus contemporâneos (mais habituados a evocar os "clássicos" em sinal de veneração): assumindo assim uma postura própria de um verdadeiro iconoclasta e um crítico, que sabe o que falar e quando é necessário manter silêncio, fala e criticar apenas quando isso é absolutamente indispensável para focalizar melhor o seu próprio pensamento. Produzindo textos até a sua morte em 1998. Luhmann deixou uma obra numerosa e abrangente com uma terminologia tão complexa como a sociedade que o mesmo analisava. Escreveu mais de trinta livros e cerca de trezentos artigos. Seus temas? Os mais variados, uma miscelânea de problemáticas. Com uma coerência que lhe é peculiar, seu pensamento abraçou questões sobre direito, tratou de forma minuciosa temas que remetiam a pedagogia, não deixou de analisar a religião, pensou a economia e o que pesava na transformação de uma cultura. Desde o início de sua trajetória não se deixou perder em seus planos inovadores e instigantes: Elaborar uma teoria específica e aplicável. Sua visão do todo traz a luz uma teoria que pretende ser universal, capaz de abarcar tudo o que existe, revelando-se uma teoria geral da sociedade. Para dar conta disso, a teoria mostra-se complexa e abstrata e contém uma vasta terminologia. Existe um encadeamento de ideias que constroem uma estrutura aplicável à sociedade inteira. Cada conceito em seu devido lugar e cada especulação, racional em sua amplitude. Ao invés de limitar a fundamentação de suas teses aos clássicos da sociologia, Luhmann foi ousado pensou grande utilizou conceitos dos mais diversos trabalhados em outras áreas. Contrário aos princípios tradicionais, seu pensamento provocou o tradicional pensamento acadêmico, que não acredita que uma única teoria possa, de modo plausível, analisar diferentes esferas sociais. Enfim, não seja covarde, não seja um fraco, seja grande.
                                                                                                                   


Por Claudio Castoriadis
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