sábado, 4 de junho de 2011

Platão, o ditador.

                                         Karl Popper
Considero o respeito pelos grandes nomes da filosofia clássica uma falta de bom senso e uma postura mal inclinada, uma piada contada de maneira sutil durante séculos que de engraçado apenas temos sua desfigurada mascara totalitária. Será que ninguém nunca parou, ao menos por um momento, para pensar que os grandes monstros da tradição filosófica na pior das hipóteses foram em sua grande maioria um grupo que delimitou uma elite dogmática da mais infeliz má fé? Ora, minhas observações não são aleatórias, elas estão embasadas pelo que entendo por liberdade plena, e também ganham relevância na figura do destemido Karl Popper. Se durante anos o filósofo Nietzsche foi mal quisto pela academia, um tipo de fenômeno que tentaram de toda forma abafar usando argumentos, retóricos e manipuladores, que felizmente não foram bem sucedidos. Pois bem, senhores eruditos, O Karl Popper assim como o autor de Zaratustra vai ser outro “sapo” que os contemplativos e covardes acadêmicos terão que digerir. Que por sorte, o mesmo com toda tranquilidade que lhe é peculiar não foi vítima de tantas apropriações ideológicas de quinta categoria. É certo que Nietzsche ficou louco e morreu sem muita chance de defesa, porém com toda sua irreverência causou um estrago nos centros acadêmicos, isso, é indubitável. E agora o Karl Popper aumenta o estrago na tradição iniciada pela epopeia do angustiado Nietzsche com toda a elegância e simplicidade de um grande gênio.

Elegância que o mestre Popper demostrou na noite de sexta-feira, 25 de outubro de 1946, quando na ocasião a associação de ciências morais de Cambrigde reuniu-se para uma discussão que de imediato deveria ser proveitosa, visto que o orador da noite era o doutor Karl Popper. Sua intenção era apenas apresentar seu artigo intitulado “existem problemas filosóficos?” seria mais uma instigante palestra se entre os ouvintes não estivesse o presidente da associação, o então cultuado professor Ludwig Wittgentein. O que de fato aconteceu naquela noite não se sabe ao certo. O que ficou registrado foi a arrogância do professor Wittgenstein que imerso em fúria teve a postura de um atiçador de fogo saindo da sala em disparada. (Que falta de elegância professor Wittgentein). Todo esse drama por tão pouco: uma mera discursão acerca da moral.  Em resposta quando perguntado pelo alvoroço, Popper apenas provoca dizendo que um bom exemplo de princípio moral seria não ameaçar os palestrantes com atiçadores. (Será que o grande Wittgentein teve um sono tranquilo nessa noite?). Então, como bem sabemos para o Ludwig Wittgentein tudo se resume a linguagem, proposições metafísicas, da ética e da religião são desprovidos de sentido porque tentam ultrapassar o limite da linguagem. Popper em sua inocência filosófica discordou e então uma palestra que era voltada para filósofos e estudantes findou em uma tragédia cômica. Da pra acreditar?

Mas voltemos a questão dos monstros da tradição. Segundo o mestre Popper a filosofia profissional não tem produzido grandes coisas e ainda alerta que ela carece urgentemente de uma defesa, uma defesa de sua existência. O próprio Popper como filósofo se declara culpado e assim como Sócrates, faz sua defesa. E se defende atacando muitos filósofos que ao seu vê não chegaram a produzir algo de bom. Por isso cita quatro dos mais importantes- Platão, Rume, Spinoza e Kant.  Platão, segundo Popper, foi o maior, o mais profundo, e o mais dotado de todos os filósofos. Porém, tinha uma visão de vida humana que ele considerava repulsiva e deveras horripilante. Nossa!!! Mas porque tanto desprezo pelo Platão e sua turminha de intelectuais? O grande problema dessa gama de pensadores e a tantos outros filósofos profissionais que lhe sucederam, era acreditar em uma elite. Uma simples crise de ego no Reino encantado da Filosofia? Que lástima. Platão inflamado em sabedoria achava que os sábios, os senhores filósofos, deviam ser os ditadores, aqueles que deveriam preservar o bem está da razão – absolutos das regras. Nossa quanta responsabilidade. Deve ser por isso que desde Platão, a megalomania tem sido a doença profissional mais difundida entre os filósofos. (intrigante, eu sempre achei que megalomania e Filosofia fossem antípodas). Enfim, como exemplo desse lado tão ridículo da tradição, Popper refresca nossa memória ressaltando que no décimo livro de As Leis, Platão inventou uma instituição que inspirou a inquisição, e um detalhe importante, o sábio Platão chegou até mesmo perto de recomendar campos de concentração para a cura das almas dos dissidentes. Acusação contundente pela parte do Popper, praticamente aproximando a figura do Platão com a de Hitler. Teria algum fundamento tais acusações?  Mas o argumento de Popper é preciso e razoável quando diz que Platão e muitos pensadores seriam mais honestos: tivessem eles convencidos de que, embora brilhantes, talvez; não estavam dando um passo no caminho da verdade. E sim alimentando a ideia de uma elite filosófica e intelectual. Interessante, o nazismo desde o início de sua hegemonia também alimentava essa ideia política e mesquinha. Não foi em nome da liberdade e de uma elite superior, que o chefe de estado Hitler justificou a matança em massa de judeus em campos de concentração?  Uma verdade que deflagrou psicoses de massa seletivas? Com isso uma pergunta deve ser feita: Devemos contemplar um tipo de filosofia “seletiva” que limita a liberdade que em nada assegurar a liberdade individual?  Covardia e preguiça são fatores, que segundo Kant, diminuem o homem. Mas não será a busca da verdade, “única e indiscutível”, um estimulo a covardia e preguiça do homem? Enfim, senhoras e senhores, em que tremenda saia justa nosso querido Karl Popper deixou os grandes nomes da filosofia.


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