sábado, 24 de agosto de 2013

Melancolia chique


 
Melancolia chique é a nostalgia por uma inexistente idade de ouro, que pretende enobrecer menos o passado do que o presente do crítico. E, naturalmente, o instante idealizado coincide com as suas idiossincrasias. Daí, a dicção apocalíptica, que não se cansa de trombetear a morte da crítica literária e o vazio da produção artística atual.

Esse motivo é a própria imagem do eterno retorno, embora seus partidários se considerem
inaugurais. Truque de mágico aprendiz: o anúncio periódico do colapso da crítica e da crise da literatura confere capital simbólico ao apressado coveiro; afinal, em princípio, o redator de obituários deve estar vivo...

Em sentido mais generoso, ou menos bélico, Reinhart Koselleck identificou o vínculo estrutural que associa crítica e crise como traço indissociável da modernidade política. De igual modo, Imannuel Kant imaginou um olhar crítico que não deixa de ser um antídoto contra o apocalipse contemporâneo — adiante, retomarei sua lição.

A melancolia chique é um lugar-comum — e não deixa de ser divertido o desejo de originalidade que estimula seus adeptos. Por isso, sem nenhuma pretensão de exaurir o tema, importa observar sua última emergência.

Um ponto de partida conveniente é o artigo de Flora Süssekind A crítica como papel de bala, publicado no Prosa & Verso em 24 de abril de 2010. Num esquecimento surpreendente da máxima de Tirésias ante a fúria de Creonte — “(...) É um feito, então, matar um morto?”1 —, Flora aproveita-se de textos escritos por ocasião da morte de Wilson Martins para reiterar, ainda uma outra vez, o diagnóstico cadavérico: “o apequenamento e a perda do conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”.

O artigo gerou reações, cumprindo a contento a função compensatória dos obituários, mas, salvo engano, não se destacou a recorrência do modelo Et in Arcadia ego... Nesse caso, Arcádia é o parque temático das preferências do crítico, que convenientemente se esquece de explicitar seus pressupostos. Só se pode decretar a falência de uma atividade quando se mantém como contraponto um ideal normativo de como ela deveria ser exercida. O problema não é a norma — sem critérios não se pode pensar! —, porém a crença em sua “indiscutível” superioridade, o que leva à naturalização da própria visão do mundo e da literatura. Eis o colapso autêntico; aqui, quanto mais esbraveja, mais o crítico se fecha em copas, pois a tagarelice é a forma deselegante do silêncio.

Na outra ponta, Alcir Pécora publicou no mesmo Prosa & Verso, em 23 de abril de 2011, o artigo Impasses da literatura contemporânea. Seu título sintetiza perfeitamente o conteúdo, que já havia estimulado um debate do autor com Beatriz Resende, organizado pelo Instituto Moreira Salles. Em tela, modos opostos de leitura do calor da hora: de um lado, a crítica como espelho retrovisor; de outro, como abertura para um processo em curso.

Ora, a indiscutível importância dos trabalhos de Flora Süssekind e Alcir Pécora torna mais urgente a identificação da operação tautológica subjacente à melancolia chique.


Por fim, a revista Carta Capital radicalizou o procedimento. O número de 6 de fevereiro de 2013 estampou na capa a constatação em aparência irrefutável: O vazio cultural. A sutileza do subtítulo da edição foi retomada no editorial de Mino Carta, A imbecilização do Brasil.

Hoje em dia, portanto, a crítica vale muito pouco; a literatura, ainda menos; e a cultura, como um todo, nada. A melancolia chique veio para ficar?


Por João Cezar de Castro Rocha

Fonte:  WWW.rascunho.com.br
Foto: fonte web
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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