terça-feira, 31 de julho de 2012

NIETZSCHE: O PROBLEMA DA CULTURA RACIONALISTA: A ÉTICA E O OTIMISMO SOCRÁTICO


3.     O PROBLEMA DA CULTURA RACIONALISTA: A ÉTICA E O OTIMISMO SOCRÁTICO

                                                                    
Dando continuidade em nossa análise da moral ficou claro até o momento que o problema da decadência da cultura também é o problema da influência do cristianismo. Porém esse tipo de influência que o Nietzsche compreende como sendo uma doença que propagou na cultura europeia não se deve apenas ao cristianismo. Tudo que foi dito acerca dos custos negativos da moral acaba dando cor e contorno de certo modo à problemática marcante de nossa pesquisa: Sócrates. Nele se encontra latente o suposto veneno que se alastrou até nossos dias, principalmente entre os chamados livres pensadores, os democratas, os socialistas, até mesmo naqueles que recusam as igrejas instituídas.
Em tudo que até agora foi chamado de religião, educação, cultura e moral, existe o inegável contágio do modo de interpretar o mundo pela ótica do ressentimento, termo cunhado pelo Nietzsche para distinguir aqueles contrários às forças primordiais da vida ou forças vitais da cultura. Seguindo esse raciocínio não é difícil entender que Nietsche enxergou uma Europa que agoniza em plena decadência ou, dito nos termos nietzschianos, total niilismo, onde o homem moderno, esse que se apresenta como sendo um religioso sem Deus, adquire explicitamente as feições indeléveis do imperativo categórico da moralidade: sejamos o contrário dos maus, sejamos bons!
O sentido real dessa máxima que a princípio aparenta um código de conduta louvável já foi problematizado nos dois primeiros capítulos. O mais importante agora é tentar compreender de onde e como Nietzsche chegou a essa conclusão acerca da moral e, por conseguinte da cultura. Duas conferências pronunciadas no inverno de 1870 tratam do drama musical grego e precisamente da relação entre Sócrates e a tragédia. A civilização helênica estava para Nietzsche profundamente marcada pela força do mito, sendo digna de admiração e veneração a própria essência do helenismo representado sobretudo nas figuras de Homero, Hesíodo, Píndaro e Ésquilo.
Portanto, quando se trata de considerar o diagnóstico de Nietzsche sobre a história do Ocidente como sintoma de decadência, deve-se sempre levar em conta que ele principia sua crítica contrapondo a cultura moderna ao sentido trágico da cultura grega. Com isso podemos chegar à seguinte conclusão: o auge e declínio do pensamento ocidental dá-se em dois momentos: um percurso trágico de Píndaro, Ésquilo e demais referências; e um outro teórico principiado em Sócrates em todo o pensamento posterior. Uma passagem do livro Nietzsche e a Justiça, de Eduardo Rezende, embasa bem essa questão:
O problema da valoração dos valores morais subjacentes aos modos de vida acompanha o pensamento nietzschiano desde o início. Sua obra primeira, o Nascimento da Tragédia, coloca desde logo a pergunta sobre as razões pelas quais a civilização trágica grega sucumbiu ao contrapor-se a uma distinta maneira de conceber o homem  (2004, p. 1).
Porém, sem dúvidas, a pergunta de imediato que surge é: por que uma reflexão da história humana de caráter psicológico e social encontra em Sócrates um objeto de análise? Frente a um leque muito amplo de possibilidades e domínio da sua crítica, Sócrates é enfatizado como precursor da degenerescência do pensamento ocidental. Com isso, o desafio de nossa pesquisa não é apenas interpretar o que Nietzsche entende por decadência, mas, o de construir uma reflexão que permita relacionar a influência de Sócrates na situação do pensamento ocidental. Para tanto, vamos nos ater em uma passagem de sua primeira e grande obra filosófica, O Nascimento da Tragédia:
Sócrates achou que deveria corrigir a existência: como precursor de uma cultura, de uma arte e de uma moral totalmente diferentes, ele, o solitário, avançou, com ar de desprezo e de altivez, no meio de um mundo cujos últimos vestígios são para nós objeto de uma profunda veneração e fonte das mais puras alegrias (2007c, p. 96). 


Nietzsche

 Uma Compreensão da Cultura do Ocidente

Como Sintoma de Decadência Moral


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Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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