quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Mestre e o idiota: Dostoievski

O Idiota é sem dúvidas uma das obras-primas do autor russo Fiódor Dostoievski, um romance que explora uma perspectiva especificamente existencialista. Livro criado na cidade de Florença, entre 1867 e 1868, ao longo de quatro meses. Vale lembrar, que ao trabalhar nesse romance o escritor foi profundamente influenciado pela clássica novela de Cervantes, Dom Quixote. Há várias semelhanças entre o herói espanhol e o príncipe russo Míchkin. Mesmo o autor russo não gostando da roupagem cômica explorada na novela de Cervantes. Publicado em 1869, este volume perturbador foi, na época, sucesso de crítica. Nele Dostoievski narra a história de um príncipe herdeiro que, por alguns anos, permanece na Suíça para se recuperar de uma enfermidade conhecida como idiotia. Ao se considerar curado ele retorna para reivindicar o trono da Rússia. Nesta mesma ocasião ele conhece a inconstante e imprevisível  Aglaia, uma das filhas do casal Epantchiná, com quem ele tem remoto parentesco, e passa a nutrir pela jovem uma profunda afeição. O príncipe, que também é epilético, é a encarnação da bondade, da sinceridade, da fantasia e da inocência, qualidades que muitas vezes são confundidas com patetice e estupidez - Não se surpreenda com qualquer semelhança com a figura do Jesus Cristo.
Na verdade, porém, Míchkin é mais perceptivo, sagaz e inteligente que muitos daqueles que o injuriam e perseguem. Ele tem o poder de vislumbrar o interior das pessoas, de conhecer a essência dos que o cercam. Assim, o príncipe conhece muito bem cada ser a sua volta, embora ninguém sequer desconfie disso. O protagonista deste romance, além de ser o último de sua linhagem familiar, parece também ser o único remanescente de uma Rússia mais verdadeira e correta, idealizada, de certa forma, pelo autor. Desencantado com seu país, ele retrata nas páginas desta obra momentos intensos e terríveis. Sucedem-se convulsivamente episódios nos quais o dote combinado em uma transação de noivado é queimado em uma lareira; uma crise convulsiva no meio da escada de um hotel causa profunda confusão; uma mal sucedida cena de suicídio se desenrola publicamente; um homicídio inesperado choca os leitores. São atos dramáticos como estes que compõem O Idiota. E, como sempre nas criações de Dostoievski, estão presentes questões que assombram sua existência, tais como os surtos convulsivos, a crise financeira, autodestruição, a humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio e o vício nos jogos. Ele também enfoca, na tentativa de resgate o passado de sua terra natal, as problemáticas do nacionalismo típico da Rússia e da religião católica na região eslava. O escritor russo inflama sua obra com precisas interpretações de natureza psicológica, narrativas inquietantes e humor corrosivo. Sua visão de mundo e seus ideais delineiam cada página de O Idiota, bem como os lances de sua própria existência, como a epilepsia que o assediou por toda a vida e as mulheres que ele amou. Enfim, Fiódor Dostoievski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa, sendo considerado referência para o existencialismo: "O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoievsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo." JEAN PAUL SARTRE. O reconhecimento definitivo de Dostoievski como escritor universal surge somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances, que além dessa belíssima obra O idiota, lembremo-nos também de Crime e Castigo e seu último romance, Os Irmãos Karamázov, que foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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