sábado, 29 de março de 2025

Emmanuel Levinas: a ética como responsabilidade incondicional

Emmanuel Levinas é amplamente reconhecido como um dos maiores filósofos da ética do século XX. Discípulo de Edmund Husserl, seus primeiros estudos e publicações, iniciando com sua tese de doutorado em 1930 sobre o papel da intuição na obra de Husserl, foram dedicados à interpretação dos ensinamentos do fundador da fenomenologia. Essas obras refletem sua profunda dívida intelectual para com Husserl, influência que moldou significativamente sua trajetória filosófica. No entanto, embora Levinas partisse do pensamento husserliano, em questões cruciais sua abordagem se distanciava, chegando mesmo a se opor à de seu mestre.


O que Levinas herda de Husserl, antes de tudo, é a redução fenomenológica, que ele descreve como um "ato de violência que o homem impõe a si mesmo para reencontrar-se como puro pensamento". Essa técnica fenomenológica não apenas ofereceu a Levinas um método de investigação filosófica, mas também um impulso para explorar uma intuição filosófica que antecede e molda qualquer filosofia da intuição (LEVINAS, 1970).

Embora, em muitos aspectos, Levinas se posicionasse em oposição a Husserl, utilizou a metodologia do mestre para reafirmar a autonomia do mundo em relação ao sujeito. Para ele, o sujeito não é um criador absoluto, como um Deus, mas alguém que assume a responsabilidade pela alteridade do mundo. Além disso, se para Heidegger o Ser era, desde o início, um "ser-com", para Levinas, ele é essencialmente um "ser-para". O eu se constitui no reconhecimento de sua responsabilidade para com o Outro, revelando, assim, sua própria insuficiência como mero ser-com.

A partir da redução fenomenológica de Husserl, Levinas desenvolveu uma investigação sobre uma "ética pura", ou seja, uma ética absoluta, primitiva e independente de influências externas. Ele buscava um significado ético essencial, que tornasse possíveis todos os outros significados, mas que também os questionasse e avaliasse. Curiosamente, ainda que sustentasse que a ética interrompe a fenomenologia, Levinas também afirmava que essa interrupção é, paradoxalmente, parte do próprio cerne fenomenológico.

O último estágio da redução fenomenológica, segundo Levinas, é a alteridade: a irredutível exterioridade do Outro, que desperta o eu para suas responsabilidades éticas e, assim, contribui para o nascimento da subjetividade e da sociabilidade. No mundo socialmente construído, no qual o ego está imerso, há uma tendência a reduzir a abertura infinita do ser-para a um conjunto de normas e proibições fixas.

Levinas seguiu Husserl na busca pelas "coisas em si", mas reinterpretou essa busca como uma investigação da essência da ética. Ele encontrou essa essência no extremo da redução fenomenológica, ao "colocar entre parênteses" tudo o que é acidental, contingente ou derivado da experiência mundana. Assim como Husserl elaborou um inventário das constantes da consciência, Levinas fez um inventário das constantes da existência moral e das relações éticas, delineando os traços fundamentais que sustentam toda moralidade.

Dentre as categorias fundamentais do pensamento levinasiano, destacam-se "O Outro" e "o Rosto". Embora esses termos possam parecer genéricos, cada encontro moral se dá com um ser único, irrepetível. No extremo da redução fenomenológica, a alteridade do Outro equivale à sua unicidade: cada Rosto é singular e desafia a impessoalidade das normas universais.

Essa singularidade radical do Outro torna irrelevantes muitas das preocupações cotidianas do ser humano – como a busca por sobrevivência, poder ou prazer. Ingressar no espaço moral de Levinas significa afastar-se temporariamente das convenções e normas do mundo para abrir-se à responsabilidade infinita pelo Outro.

Referências:

- ALVES, Alexandre M. "Da Fenomenologia à Ética: Uma Breve Análise desde o Pensamento de Levinas".
- LEVINAS, Emmanuel. *Humanismo do Outro Homem*. Trad. Pergentino S. Pivatto. Petrópolis: Vozes, 1993.
- LEVINAS, Emmanuel. *Ética e Infinito*. Trad. João Gama. Lisboa: Ed. 70, 1988.
- LEVINAS, Emmanuel. *Entre Nós: Ensaio sobre a Alteridade*. (1991). Trad. Pergentino S. Pivatto. Petrópolis: Vozes, 1997.


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