segunda-feira, 17 de março de 2014

Poemas russos


Como toda poesia prospectiva, a poesia Russa cobre uma estética temporal; tecendo reflexões sobre a instabilidade do ser humano e sobre sua mais completa indestreza quando se trata de ser alteridade.

Ao travar conhecimento com o trabalho de tradução de poesia russa realizado pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, em parceria com Boris Schnaiderman, percebemos estar diante de uma seara literária maior e mais vasta do que supúnhamos a princípio.

Muitos dos nomes que já faziam parte de nosso repertório, como Maiakóvski (sob a repu­tação de “poeta do comunismo”, e que nos atingia, sobretudo, através de sua biografia) e Boris Pasternak (que conhecíamos de Doutor Jivago, mas cuja produção poética ignorávamos), revelaram-se grandes surpre­sas, uma vez lidos e observados mais a fundo. Outros que conhecíamos bem pouco, como Anna Akhmátova, e outros que desconhecíamos por completo, também nos foi possível ler, em grande parte, nas antologias organizadas pelos Campos e por Schnaiderman – Antologia de poesia russa moderna, publicada pela Editora Brasiliense, em 1968, e Poemas de Maiakóvski, pela Perspectiva, em 1982.

Nas poesias selecionadas, o leitor poderá conhecer um pouco mais sobre o processo de tradução empreendido pelos irmãos Campos e por Boris Schnaiderman, assim como outros tradutores de poesia russa.



Nacos de nuvem
Vladímir Maiakóvski
Tradução de Augusto da Campos

No céu flutuavam trapos
de nuvem – quatro farrapos;
do primeiro ao terceiro – gente;
o quarto – um camelo errante.
A ele, levado pelo instinto,
no caminho junta-se um quinto.
Do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.
Um sexto salta – parece.
Susto: o grupo desaparece.
E em seu rasto agora se estafa
o sol – amarela girafa.

1917-1918



Sóis

Marina Tsvetáieva
Tradução de Aurora Foroni Bernardini

O sol é um só. Por toda parte caminha.
Não o darei a ninguém. Ele é coisa minha.
Nem por um raio. Nem por um olhar. Nem por um instante. A ninguém. Nunca.
Que morram as cidades numa noite constante!
Nos braços vou apertar, que não possa girar!
Faço as mãos, os lábios, o coração queimar!
Se desaparecer na noite infinita, no encalço hei de correr...
Meu sol! A ninguém o darei!


fevereiro de 1919


A Tchaadáev

Alexander Púchkin
Tradução de José Casado

Amor, glória quieta e esperança
Foram nossa breve ilusão;
Passou dessa quadra a folgança:
Sono, matinal cerração.
Mas arde em nós inda vontade:
Nosso impaciente coração
Da pátria sob autoridade
Fatal ouve a convocação.
Aguardamos com fé estuante
Da hora da liberdade soar,
Tal como aguarda o moço amante
A hora do encontro regular.
Enquanto o ardente coração
Incitam honra e liberdade,
Do íntimo a nobre agitação
Demos à pátria, amigo, e à idade.
Crê, camarada: elevar-se-á
Feliz estrela de almo dia;
Do sono a Rússia acordará
E na aversão da autocracia
Teu nome e o meu escreverá.



Eu, Rússia


Anna Akhmátova
Tradução de Lauro Machado Coelho

Não estás mais entre os vivos.
Da neve não podes erguer-te.
Vinte e oito baionetadas.
Cinco buracos de bala.
Amarga camisa nova
cosi para o meu amado.
Esta terra russa gosta,
gosta do gosto de sangue.


16 de agosto de 1921



“Para meus versos escritos num repente,”

Vielimir Khlébnikov
Tradução de Augusto de Campos

Hoje de novo sigo a senda
Para a vida, o varejo, a venda,
E guio as hostes da poesia
Contra a maré da mercancia.


1914



Sierguéi Iessiênin
Tradução de Augusto de Campos

Pobre escrevinhador, é tua
A sina de cantar a lua?
Há muito o meu olhar definho
No amor, nas cartas e no vinho.
Ah, a lua entra pelas grades,
A luz tão forte corta os olhos.
Eu joguei na dama de espadas
E só me veio o ás de ouros.


1925




 Poemas russos, 
Organizadoras
Mariana PithonNathalia Campos
(2011)
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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