sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Chinua Achebe: memória africana




Um dos fundadores do romance africano moderno, Achebe é autor de O mundo se despedaça, publicado originalmente em 1958, lançado aqui em 1983 pela Ática e reeditado pela Companhia das Letras em 2009. O livro vendeu mais de 8 milhões de cópias e foi traduzida para 50 línguas. -No obra, o escritor retrata a chegada de uma cultura estrangeira e a desestruturação ocorrida nas tradições nigerianas com a vinda do homem branco e europeu. recompõe as bases de uma cultura esquecida, aquela que existia antes da chegada do homem branco à Nigéria, aquela que grande parte dos africanos perdeu de vista e que está próxima de ser perdida para sempre. O autor oferece aos seus leitores uma possibilidade de redescobrir sua autenticidade, suas próprias raízes, para compreender quem são e de onde vieram. Nesse sentido, seu livro se constitui um esplêndido acervo cultural para conhecermos uma outra cultura e entender algo mais sobre a natureza humana, abordando o tema da humilhação imposta pela ação colonizadora e pela corrupção branca. Em 2007, venceu o Man Booker International Prize pelo conjunto de sua obra.

Certa feita, Chinua Achebe comentou de forma acerba o reparo a uma hipotética “falta de universalidade da literatura africana”: “…é claro que não ocorreria a esses críticos duvidar da universalidade de sua literatura. Pela própria natureza das coisas, a obra de um escritor ocidental é automaticamente modelada pela universalidade. São só os outros que têm de lutar para atingi-la… Como se a universalidade fosse uma curva lá longe na estrada, a que você pode chegar se seguir o suficiente na direção da Europa ou dos Estados Unidos, se você colocar uma distância adequada entre você e sua casa.” Achebe morreu em Boston, aos 82 anos, em 22 de março de 2013.


Por Claudio Castoriadis


Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Democracia inclusiva? Com a palavra o filósofo grego Takis Fotopoulos




Hoje enfrentamos uma crise multidimensional muito séria. Essa crise afeta todas as esferas da vida. Em outras palavras, trata-se de uma crise econômica, uma crise política, uma crise social, uma crise ecológica e mesmo uma crise cultural. Portanto a questão é, existe algum desenvolvimento comum, quer dizer, poderíamos encontrar uma causa comum para os vários aspectos da crise? Para mim, a resposta é sim. A causa é sempre a concentração de poderes em vários níveis. É a concentração de poder econômico, que leva à crise econômica, de poder político, que leva à crise política, e assim por diante. A crise política é um subproduto da dinâmica da democracia representativa. A Democracia representativa não é um sistema que sempre existiu - foi criada mais ou menos na mesma época do sistema de economia de mercado, 200 atrás, e a sua dinâmica nos tem levado à presente situação, onde já não são mais nem mesmo os parlamentos que tomam decisões, já não são nem mesmo os governantes, e sim claques em volta do presidente ou do primeiro ministro que tomam todas as decisões importantes. Isso gera uma imensa alienação. É por isso que hoje não temos mais partidos políticos de massa. As pessoas não se tornam membros de partidos como acontecia antigamente. E mais: hoje muitas pessoas já nem votam mais. Portanto, esta é uma manifestação da fantástica crise política que o sistema de democracia representativa passa neste momento. Por isso, se formos atentar para todos os aspectos da atual crise, veremos que a causa final atrás dela está na concentração de poderes, de alguma maneira. E é por isso que carecemos de inclusão democrática, porque a democracia inclusiva é a abolição dessa concentração de poderes em nível institucional, a abolição de concentração de poder em todas as suas formas e é a criação de condições de compartilhamento igualitário de poder, de poder político, econômico e assim por diante. 

Portanto, o projeto da democracia inclusiva, de certo modo, é uma síntese das duas maiores tradições históricas, a tradição socialista e a tradição democrática, e também das tendências que se desenvolveram nos últimos 30 ou 40 anos, os novos movimentos sociais, o movimento feminista, o ecológico, os movimentos de identidade de vários matizes, e assim por diante. Em outras palavras, o projeto de democracia inclusiva é uma síntese de todas essas experiências históricas, da socialista e também da tradição democrática e todos aqueles neo-movimentos sociais.



Ao interessados, confira o vídeo com a entrevista na integra onde o Takis Fotopoulos fala sobre o projeto de democracia inclusiva, concedida para série "Alternative Economics, Alternative Societies" em 19 Julho 2003.



Fonte:
Takis Fotopoulos
Democracia Inclusiva
Transcription of a video by O. Ressler,
recorded in London, Great Britain, 37 min., 2003
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Antonin Artaud – A realidade é doida varrida com um sapato na mão!




Antonin Artaud (1896 – 1948) ator, diretor, poeta e teórico francês,  soube remover a vida para o teatro, o teatro para vida. Contrário à sistematização das ações e da linguagem, questionou a cultura e o ser humano a partir de suas necessidades vitais. Lutou contra o formato e o conteúdo do teatro postergado de seu tempo. Com a proposta de instaurar uma nova linguagem. Rejeitando não somente as características do teatro tradicional, mas também, de modo geral, a racionalidade da sociedade ocidental, Antonin Artaud edificou propostas para um novo teatro;  uma nova maneira de apreensão do mundo. Atormentado e sensível, foi uma personalidade extravagante e costumava andar sozinho. Aos 15 anos começou a tomar ópio para aliviar suas terríveis dores de cabeça, depois teve crises de depressão. Devido a um incidente, é diagnosticado como louco. Internado em vários manicômios franceses, cujos tratamentos são hoje duvidosos, logo depois é transferido após seis anos para o hospital psiquiátrico de Rodez. Foi encontrado morto em 4 de março de 1948, em seu quarto do hospício de Ivry, bairro de Paris. Estava aos pés da cama com um sapato na mão. 
  
***

O Homem-Árvore

(Carta a Pierre Loeb) 

Antonin Artaud

O tempo em que o homem era uma árvore sem órgãos nem função,
mas de vontade
e árvore de vontade que anda,
voltará.
Existiu, e voltará.
Porque a grande mentira foi fazer do homem um organismo,
ingestão, assimilação,
incubação, excreção,
o que existia criou toda uma ordem de funções latentes e que escapam
ao domínio da vontade decisora,
a vontade que em cada instante decide de si;
porque assim era a árvore humana que anda,
uma vontade que decide a cada instante de si,
sem funções ocultas, subjacentes, que o inconsciente rege.
Do que somos e queremos na verdade pouco resta,
um pó ínfimo sobrenada, e o resto, Pierre Loeb, o que é?
Um organismo de engolir, pesado na sua carne,
e que defeca e em cujo campo,
como um irisado distante,
um arco-íris de reconciliação com deus,
sobrenadam,
nadam os átomos perdidos,
as ideias, acidentes e acasos no total de um corpo inteiro.
Quem foi Baudelaire?
Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?
Corpos que comeram, digeriram, dormiram,
ressonaram uma vez por noite,
cagaram entre 25 e 30 000 vezes,
e em face de 30 ou 40 000 refeições,
40 mil sonos, 40 mil roncos,
40 mil bocas acres e azedas ao despertar,
tem cada qual de apresentar 50 poemas,
o que realmente não é de mais,
e o equilíbrio entre a produção mágica e a produção automática
está muito longe de ser mantido,
está todo ele desfeito,
mas a realidade humana, Pierre Loeb, não é isto.
Nós somos os 50 poemas,
o resto não somos nós,
mas o nada que nos veste, se ri, para começar, de nós.
Um organismo de engolir vive de nós a seguir.
Ora, este nada nada é,
não é qualquer coisa mas alguns.
Quero dizer alguns homens.
Animais sem vontade nem pensamento próprio,
ou seja, sem dor própria,
que em si não aceitam vontade de uma dor própria
e para forma de viver mais não encontraram que falsificar a humanidade.
E da árvore-corpo, mas vontade pura que éramos,
fizeram este alambique de merda,
esta barrica de destilação fecal,
causa de peste e de todas as doenças
e deste lado de híbrida fraqueza,
de tara congênita, que caracteriza o homem nato.
Um dia o homem era virulento,
só era nervos elétricos,
chamas de um fósforo perpetuamente aceso,
mas isto passou à fábula porque os animais lá nasceram,
os animais, essas deficiências de um magnetismo inato,
essa cova de oco entre dois foles de força
que não eram, eram nada e passaram a ser qualquer coisa,
e a vida mágica do homem caiu,
caiu do seu rochedo com ímã
e a inspiração que era o fundo
passou a ser o acaso, o acidente, a raridade, a excelência,
talvez excelência
mas à frente de um tal acervo de horrores,
que mais valia nunca ter nascido.
Não era o estado de paraíso,
era o estado-manobra, – operário,
o trabalho sem rebarbas, sem perdas,
numa indescritível raridade.
Mas esse estado por que não continuou?
Pelas razões que levam o organismo de animal,
que foi feito para e por animais
e desde há séculos lhe aconteceu, a explodir.
Exatamente pelas mesmas razões.
Mais fatais umas do que outras.
Mais fatal a explosão do organismo dos animais
que a do trabalho único
no esforço dessa vontade única
e muito impossível de encontrar.
Porque realmente o homem-árvore,
o homem sem função nem órgãos que lhe justifiquem a humanidade,
esse homem prosseguiu sob a capa do ilusório do outro,
a capa ilusória do outro,
prosseguiu na sua vontade mas oculta,
sem compromissos nem contacto com o outro.
E quem caiu foi quem quis cercá-lo e imitá-lo
mas logo depois com muita força,
estilo bomba,
irá revelar a sua inanidade.
Porque devia criar-se um crivo
entre o primeiro dos homens-árvores
e os outros,
mas aos outros foi preciso o tempo,
séculos de tempo
para os homens que tinham começado
ganharem o seu corpo
como aquele que não começou
e não parou de ganhar o seu corpo mas no vazio,
e não havia lá ninguém,
e lá não havia começo.
E então?
Então.
Então as deficiências nasceram
entre o homem e o labor árido que era bloquear também o nada.
Em breve esse trabalho será concluído.
E a carapaça terá de ceder.
A carapaça do mundo presente.
Levantada sobre as mutilações digestivas
de um corpo esquartelado em dez mil guerras
e pela dor, e a doença, e a miséria,
e a penúria de gêneros, objetos e substâncias de primeira necessidade.
Os que sustentam a ordem do lucro
das instituições sociais e burguesas,
que nunca trabalharam
mas grão a grão amealharam o bem roubado
desde há bilhões de anos
e conservado em certas cavernas de forças
defendidas pela humanidade inteira,
com algumas tantas exceções
vão ver-se obrigados a gastar as energias
nessa coisa que é combater,
vão lá poder deixar de combater,
pois no fim da guerra e esta agora, apocalíptica,
que há-de vir,
está a sua cremação eterna.
Por isto mesmo eu julgo
que o conflito entre a América e a Rússia,
reforçado ele seja a bombas atômicas,
pouco vai ser
ao lado e em face do outro conflito
que vai repentinamente estalar
entre quem preserva uma digestiva humanidade, por um lado,
e por outro o homem de vontade pura
e os seus muito raros aderentes e sequazes mas com a sempiterna força por si.

  • ARTAUD, Antonin. Eu, Antonin Artaud. Lisboa: Hiena Editora, 1988, p. 105-110



Por Claudio Castoriadis

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Lima Barreto: literatura de comunhão entre os homens




A definição de “literatura militante” elaborada por Lima Barreto, à sombra de Jean-Marie Guyau — pensador que foi lido atentamente por Nietzsche —, impõe à obra literária “o destino de revelar umas almas às outras, de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento dos homens”. Em nosso país, onde, segundo Barreto, não há passado, mas só futuro, “nós nos precisamos ligar; precisamos nos compreender uns aos outros; precisamos dizer as qualidades que cada um de nós tem, para bem suportarmos o fardo da vida e dos nossos destinos”, dizia o romancista. E completava, depois de excluir do seu sonho os “cavalheiros de fidalguia suspeita” e as “damas de uma aristocracia de armazém por atacado”: “[...] Devemos mostrar nas nossas obras que um negro, um índio, um português ou um italiano se podem entender e se podem amar, no interesse comum de todos nós”.

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881 na cidade do Rio de Janeiro. Enfrentou o preconceito por ser mestiço durante a vida. Era sempre apontado como louco e beberrão, socialista e neurastênico. Com o modesto salário, passa a residir com a família em Todos os Santos, em casa simples, e na qual, em 1904, inicia a primeira versão do romance Clara dos Anjos. No ano seguinte começa o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, publicado em Lisboa em 1909.

Não foi reconhecido na literatura de sua época, apenas após sua morte. Viveu uma vida boêmia, solitária e entregue à bebida. Quando tornou-se alcoólatra, foi internado duas vezes na Colônia de Alienados na Praia Vermelha, em razão das alucinações que sofria durante seus estados de embriaguez.  

Felizmente, suas obras, romances e contos, têm sido traduzidos para o inglês, francês, russo, espanhol, tcheco, japonês e alemão. Teses de doutoramento o tiveram como tema nos Estados Unidos e na Alemanha. Congressos e conferências foram realizadas em todo o Brasil, por ocasião do seu centenário de nascimento (1981), resultando inúmeros livros publicados, entre ensaios, bibliografias e estudos psicológicos do autor e sua obra. Há, presentemente, um desabrochar de interesse entre os novos escritores brasileiros em favor da obra de Lima Barreto, tido como o pioneiro do romance social, e cuja produção literária - vasta, em proporção ao número de anos que viveu - ganha, a cada dia, o merecido destaque que lhe é devido. 




Bibliografia indicada:

- A vida de Lima Barreto
  Autor: Barbosa, Francisco de Assis
  Editora: José Olympio
  Temas: Biografia, Literatura Brasileira





Por Claudio Castoriadis

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