sábado, 14 de dezembro de 2013

Capitalismo: regras para barbárie humana


Considere o seguinte cenário. Ideias modernas, retóricas emancipatórias, confrontos ideológicos, forças, pressões, transtornos que, constroem, destroem e permeiam ações políticas. Tudo isso equivalente ao efeito de nivelamento massivo do pensamento ocidental; uma síntese do impulso inconscientemente cruel capitalista; a contraface das manifestações de junho de 2013 no Brasil. Vivemos numa época propicia para o fardo cultural. A essa retificação devemos ressaltar todo um processo histórico marchando na Europa emergente desde a revolução industrial - o crescimento descomunal das cidades, violência, divisões abstratas, afetos à deriva desatando novos sofrimentos que fluem, flutuam, transcendendo o sentido; na maioria das vezes, tudo com tamanha agilidade que nem sempre conseguimos tomar atitudes sensatas para nos posicionar socialmente. Tudo pode ser abordado como sintoma de uma crise sistêmica da acumulação capitalista.

Apesar de tantas reviravoltas, e isso é importante, o sistema maquinário está longe de desaparecer, é alarmante essa complexa rede de mecanismos entranhada no neo liberalismo. Talvez nesse contexto, poderíamos discernir um horizonte como um "palácio de cristal" - um lugar estranho e esférico - globalização - tal pensada pelo filósofo Peter Sloterdijk.

Nesse monstruoso palácio, os governos não só transformam materialmente a realidade socioeconômica, política, jurídica e social, também conseguem que esta transformação seja adotada como a única saída possível para qualquer crise em larga escala global. Legitimando leis da competição, desencadeando novas formas de organização, valores, tecnologias e artifícios que permitem ao sistema vigente seu autocontrole. Nesse clima evaporam os últimos vestígios de um projeto quantitativo, orientado pelo valor de troca, bem como as estratégias estatais que abrangem um ou mais ciclos conjunturais. A própria pesquisa dos fundamentos é solapada pelos ideais da renda máxima a curto prazo. Quanta engenhosidade escravagista, por meio da automatização esporádica, racionalização e fermentação da globalização, o capital subtraiu de próprio punho o alimento da força de trabalho humano. Em tal circunstância o sistema frenético, ávido de valorização, começa a devorar sua própria carne.

Tempos difíceis onde se leva a sério a monopolização do mercado. Com isso a alienação do mundo instiga um processo mais antigo que seu estado atual. Na verdade, é imanente ao próprio devir da Modernidade. Os modernos, de Rousseau a Max Weber, foram explícitos nesse diagnóstico.

No Oriente Médio, o fundamentalismo islâmico vem se consolidando como uma potente força política. Em outras regiões pós-capitalistas do bloco ocidental, um determinado, esclarecido ou não, socialismo segue obstinado na linha de frente combatendo um batalhão de forças oposicionistas. Recentemente a Ucrânia atravessa por uma fase conflituosa; enfraquecida por dificuldades econômicas, se recusou a assinar um acordo de associação com a UE que previa a colocação em andamento de um acordo de livre comércio alegando que uma crise com Moscou provocaria perdas econômicas ao país. Esta mudança de opinião foi a causa da maior onda de protestos registrados nesta ex-república soviética desde a Revolução Laranja de 2004.

Palco da disputa entre a União Europeia e a Rússia, os interesses europeus, são geopolíticos, explicitamente imperialistas. Uma estratégia para afastar a Ucrânia da influência tradicional da Rússia. Mais uma crise emplacando a redoma  escarnecedora capitalista. Fica a pergunta: a União Europeia tem o direito de interferir nas questões internas da Ucrânia? De crise em crise o capitalismo segue com suas chagas.

Em 1971, Mészários suscitou a questão da crise estrutural global do capital. apontando as mudanças que ocorreram no interior do capitalismo como no sistema pós-capitalista soviético. No caso, o sistema soviético fracassou em sua tentativa de erradicar o sistema do capital. A lição que ficou: não é suficiente expropriar os expropriadores se a dominação do trabalho que sustenta o domínio do capital não for dizimada em sua estrutura e superestrutura, dinamitar o sistema e na mesma medida o encanto do capital.

Mészáros defende que as ideias socialistas são hoje mais relevantes do que jamais foram. Segundo o filósofo, o avanço da pobreza em países ricos demonstra que há algo de profundamente errado no capitalismo ao quantificar certos fenômenos, que hoje promove uma "produção destrutiva". Não se pode negar que a pressão do tempo e os atuais conflitos das situações históricas de hoje tendem a nos desviar do sentido prático socialista. Mas, o princípio orientador de combinar crítica com genuína autocrítica será sempre um requisito essencial.

Malgrado de modo assim grosseiro, o capitalismo, dinamicamente, acaba por ser tão salutar quanto um câncer. Mesmo com esse diagnóstico, sua influência pode obter apoio massivo, como visto recentemente na Ucrânia. Para entender o esqueleto desse sistema efêmero é necessário visualizar o que esta acontecendo na história social e econômica de uma época. É a história econômica que nos dá a chave para compreender todas as crises profundas que se deram até hoje. Na ideologia, utopia, seja religiosa, política ou existencial.


Por Claudio Castoriadis
Imagem: Banksy




Dica de leitura

MÉSZÁROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.
 
KURZ, Robert. (1997) Os Últimos Combates. Vozes, Petrópolis, RJ

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