domingo, 29 de setembro de 2013

Emmanuel Levinas: a ética como responsabilidade incondicional




Emmanuel Levinas, aclamado por muitos como um dos maiores filósofos da ética do século XX, era discípulo de Edmund Husserl. Seus primeiros estudos e publicações, a começar pela tese de doutorado em filosofia de 1930, que versava sobre o papel da intuição no trabalho de Husserl, dedicavam-se à exegese e à interpretação dos ensinamentos do fundador da fenomenologia; essas obras são testemunhos explícitos dessa dívida intelectual. Tal ponto de partida determinou, em grande medida, a trajetória da própria obra de Levinas, embora seu modo de argumentação e seus métodos, mais que seus objetivos cognitivos ou seus achados e proposições substantivas, fossem, em algumas poucas questões cruciais, o oposto dos de Husserl.

Antes de tudo, não se deve esquecer que o que Levinas deve a Husserl é o audacioso feito da redução fenomenológica, nas palavras do próprio Levinas, aquele ato de violência que o homem impinge a si mesmo, a fim de se reencontrar consigo como puro pensamento e o estímulo, o encorajamento e a legitimação para uma coragem ainda maior de permitir que a intuição de uma filosofia precedesse (e pré-formasse) a filosofia da intuição (LEVINAS, 1970).

Embora, Levinas (1997), em muitos pontos do seu pensamento, por um lado, tenha-se mostrado em oposição a seu professor de filosofia (Husserl), usa a metodologia do mestre para reafirmar a autonomia do mundo sobre o sujeito: não sendo enfaticamente um projetista e criador, como um Deus, o sujeito é conclamado a existir pelo ato de assumir a responsabilidade pela indomável e inflexível alteridade do mundo. Por outro lado, se, para Heidegger, o Ser era “desde o princípio” ser-com, para Levinas, é da mesma forma ou ser-para. O eu nasce no ato de reconhecimento de seu ser-para-o- Outro e, com isso, na revelação de sua insuficiência como mero Ser-com.

Trilhando o itinerário preconizado e testado pela redução fenomenológica de Husserl e mobilizando as ferramentas de “colocar entre parênteses” a epoché (separação, eliminação, suspensão), Levinas desenvolveu estudos e pesquisa no sentido de explorar a “ética pura”, absoluta, primitiva, extemporânea e a-territorial e não adulterada por misturas ilegítimas, heterogêneas, acidentais e dispensáveis, e do puro significado da ética que tornam todos os outros significados atribuídos e imputados concebíveis, ao mesmo tempo em que também os colocam em questão e sob avaliação.

Apesar de lecionar que a ética é a interrupção da fenomenologia, ao mesmo tempo, Levinas atesta que essa interrupção consiste no próprio cerne do fenomenológico. Destaca-se que seguindo o itinerário da redução fenomenológica e mobilizando as ferramentas da epoché, Levinas iniciou um inventário da “ética pura” e do puro significado da ética que tornam todos os outros significados possíveis, e que também os colocam em questão e avaliação. Esse empreendimento conduziu Levinas, não a uma subjetividade transcendental, mas à impenetrável alteridade transcendental do Outro.

Segundo Lévinas,  o último estágio da redução fenomenológica seria a alteridade, essa irredutível exterioridade do Outro que desperta o eu para suas próprias e singulares responsabilidades éticas, e, assim, contribui para o nascimento da subjetividade e da sociabilidade.

O mundo socialmente construído, em que o ego se encontra imerso, interfere na confrontação de um eu que pensa e sente em relação com o Outro. E faz isso reduzindo a modalidade do ser-para, por natureza sem fronteiras e sempre subdefinido, a um conjunto finito de ordens e proibições.

Seguindo Husserl, Levinas empreendeu uma exploração e busca das “coisas em si”, em sua interpretação, a essência da ética; e ele a encontrou na extremidade distante da redução fenomenológica, uma vez tendo “posto entre parênteses” tudo que fosse acidental, contingente, derivado e supérfluo, sobreposto à ética no curso do estar-no-mundo do homem. E, como Husserl, produziu um inventário das constantes da existência moral e das relações éticas, ou seja, elaborou os traços da ancestral condição de que parte toda existência moral e para a qual ela retoma a cada gesto moral.

As categorias, tais como “O Outro" e “o Rosto” são nomes genéricos, mas, em todo encontro moral localizado no coração do mistério da “lei moral dentro de mim”, cada nome representa apenas um ser, nunca mais que um: um Outro, um Rosto. No outro extremo da redução fenomenológica, nenhum nome pode ser colocado no plural. A alteridade do Outro é equivalente a sua unicidade; cada Rosto é um e único, e sua singularidade desafia a impessoalidade endêmica da norma .

É sua inflexível singularidade o que torna redundante e irrelevante a maioria, ou talvez tudo, que preenche a vida cotidiana de todo ser humano de carne e osso: a busca de sobrevivência, autoestima ou autoengrandecimento, a convergência racional de fins e meios, o cálculo de ganhos e perdas, a busca de prazer, o desejo de paz ou poder. Ingressar no espaço moral de Levinas requer afastar-se por um tempo dos negócios cotidianos do viver e deixar de lado suas normas e convenções mundanas.



Referências 

Alexandre Alves. M . DA FENOMENOLOGIA À ÉTICA: UMA BREVE ANÁLISE DESDE O PENSAMENTO DE LEVINAS

LEVINAS. E. Humanismo do outro homem. Trad. Pergentino S. Pivatto. Petrópolis:
Vozes, 1993.
LEVINAS. E. Ética e infinito. Trad. João Gama. Lisboa: Ed. 70, 1988.
LEVINAS. E. Entre Nós: Ensaio sobre a alteridade. (1991). Trad. Pergentino S.
Pivatto. Petrópolis: Vozes, 1997.

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