quinta-feira, 30 de maio de 2013

Rimbaud: desmembramento dos sentidos ultrapassando a linha do delírio.




"Jamais pratiquei o mal. Os dias me serão leves, o arrependimento me será poupado"

Rimbaud



Revolucionário do seu tempo, a poética de Rimbaud ultrapassa a linha do delírio, do desmembramento dos sentidos apresentando um mundo novo. Com isso, temos um autor autentico com uma obra sufocante, provocante. Uma nova estratégia da linguagem. Certamente é preciso cautela e estômago para uma bem sucedida aproximação com seus textos. Afugentar leitores, talvez seja essa a sombra que paira em seu estilo? Sua fosforescência desconstrói a barreira das línguas. 


De acordo com o crítico Hugo Friedrich, o poeta fez ir pelos ares não só sua própria produção inicial como também a tradição literária que se achava atrás dele, além de criar uma linguagem que, ainda hoje, se mostra produtiva na lírica moderna. "Sua obra corresponde a essa impetuosidade. É exígua; mas a ela se pode aplicar uma palavra-chave de Rimbaud: explosão." diz o crítico.

Poeta Maldito, maldição constitutiva da poética e visão de mundo. Encarnou o desconhecido rasgou o invisível e inaudível. Em Uma temporada no Inferno, criou o monólogo do exilado no mundo – “Por ora sou maldito, tenho horror à pátria” – que perdeu a memória – “De nada mais me lembro anterior a essa terra e o cristianismo – e tem o “sangue mau”. Um selvagem da “raça inferior”, além de longínqua: “meus pais era escandinavos: vazavam o flanco, bebiam o próprio sangue”. Identifica-se aos marginais e párias; aos criminosos: é “o forçado intratável contra quem se encerram as grades da prisão”. E por fim verberou "Chega de frases. Não vejo a hora em que tombarei no vácuo". Conhecido pelas longas e rotineiras caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, atrelado em ocupações para ganhar a vida. Rimbaud aprendeu uma porção de línguas, para findar, finalmente, na África, perdendo-se na teia de aranha por ele mesmo tecida entre Aden e DjibutiZeilah e Harar, onde cumprira o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições chegando a morrer como um mártir aos trinta e sete anos. Temperamento forte, para muitos estudiosos o seu destino estava sacramentado: solidão. Terrivelmente só.

Rimbaud, o poeta perverso. Entre aqueles poemas iniciais, “Os poetas de sete anos”, em que se descreve como menino que “Teimava em se trancar no frescor das latrinas / Para pensar em paz, arejando as narinas”. Encontra-se com uma “pirralha infernal”, filha de oito anos do “operário ao lado”, que lhe pula às costas: “Ele por baixo então lhe mordiscava as popas, / porquanto ela jamais andava de calcinha”. Observa Calasso: “Até então a literatura vivera ignorando tudo isso. Nenhum escritor, nem mesmo Baudelaire, ousara mencionar cenas desse tipo”. 



Depoimentos



André Gide

Rimbaud era para mim como um poeta demoníaco, um "poeta maldito" entre todos e gostava de o ser, com a ajuda do álcool, o "famoso gole de veneno" que ele nos convida a beber e que eu degustava com prazer, mais embriagante que qualquer outro vinho, que não podia convir senão aos fortes, eu pensava.

A que estranha danação ele não arrastaria todos os outros?

Rimbaud, com seu individualismo exacerbado, sua insubmissão. O selvagem Rimbaud. Ele assusta... mesmo preso!

... Há o que ele quis dizer, o que pensamos que ele quis dizer; mas o que ele disse sem o querer e contra si mesmo.

Rimbaud continua um mestre admirável na arte de escrever, um inventor de formas cuja originalidade não foi esgotada por nenhum de seus inúmeros imitadores.


Henry Miller

Creio que há muitos Rimbaud neste mundo, e que seu número crescerá sempre. Creio que, no futuro, o tipo Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o tipo Fausto.

Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez. Ele tem a coragem de se aventurar lá onde nenhum branco jamais pôs os pés, mas ele não é capaz de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes.

Une Saison en Enfer: este livro é a última palavra do desespero, da revolta, da maldição.

Ele combateu até o extremo limite de suas forças. E é por isso que seu nome, como o de Lúcifer, continuará glorioso.

Nele havia luz, uma maravilhosa luz, mas ela não devia se espalhar antes que ele morresse.




Dica de leitura


Uma Temporada no Inferno
Arthur Rimbaud
Tradução de Paulo Hecker Filho
74 páginas
LPM POCKET
2002






Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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