quarta-feira, 18 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL

Monografia defendida como Trabalho de Conclusão do Curso de Filosofia, para obtenção do respectivo título de Licenciado.
Orientador
Prof. Ms. William Coelho de Oliveira
DFI-FAFIC



 

                                                               RESUMO



Este trabalho trata da crítica do filósofo Nietzsche à moral e, por conseguinte, aos valores que permeiam a cultura ocidental. Avaliar esses valores consiste em pensar suas origens e como eles estruturam a moral. Em sua obra Genealogia da Moral, o autor constata dois tipos de moral: a moral nobre e a moral dos escravos. Daí segue-se uma avaliação acerca da moral, problematizando o valor dos valores: como os valores “bom e ruim”, criados por uma moral dos senhores, foram transformados em “bom e mau”, pela moral dos escravos? Mediante breve análise fica compreendido que permeia em nossa cultura a moral ressentida que se sobressaiu da moral do tipo nobre: uma moral contra os instintos vitais, responsável pela decadência da cultura europeia e pela asserção do cristianismo. Delimitado o problema da moral, tentar-se-á mostrar a degenerescência da cultura a partir de uma crítica ao pensador Sócrates. Ou seja, tudo que foi dito acerca dos custos negativos da moral acaba dando cor e contorno para uma problemática marcante dessa pesquisa: o otimismo teórico de Sócrates, que para Nietzsche ocupa um lugar central na história da decadência da cultura. Não obstante, o problema da cultura racionalista que finda na ética e o otimismo socrático será o argumento de Nietzsche contra a moral ressentida, do cristianismo e da metafísica.



PALAVRAS-CHAVES: Moral. Decadência. Sócrates.




                                                        

Explicar a análise nietzschiana acerca da cultura ocidental é uma tarefa cuja complexidade se exterioriza de imediato na interpretação do seu campo discursivo. Serenados conflitos tão clarividentes em seu trágico "evangelho", não apenas dificultam, como também instigam em destrincharmos seu complicadíssimo pensamento, este correlato da identidade própria de sua filosofia. No trabalho que nos propomos apresentar parcialmente, teremos como objeto principal trabalhar com imagens, conceitos, expressões, introduzindo ideias que certamente justifiquem a relevância da obra do filósofo Nietzsche ainda em nossos dias.

Nesse contexto, a noção de moral e sua estreita relação com a cultura será problematizada, partindo do princípio de que tais questões são de extrema importância na filosofia nietzschiana. Daí, conforme a leitura de sua obra, principalmente em sua primeira etapa, constantemente são empregados termos como degradação, decadência, degenerescência, quando o panorama da tradição ocidental é diagnosticado. Por sua filosofia se tratar de uma interpretação do corpo, na qual o papel do filósofo se delineia como médico da civilização, compreendemos que sua análise da cultura remete diretamente ao adoecimento drástico do tipo humano. Nesse ponto, foi com extrema audácia que Nietzsche aventurou-se por caminhos profundos, explorando e redescobrindo a natureza humana, problematizando os princípios dos valores éticos constituídos desde a antiguidade clássica até nossos dias.

Com rigor, Nietzsche denuncia uma lamentável depauperação impregnada em várias expressões culturais, principalmente na arte e na filosofia. Aos olhos de Nietzsche isso teve início desde a morte da tragédia grega, sendo consolidada com o domínio da razão a partir de Sócrates. Tal acontecimento deixa marcas indeléveis na modernidade, desqualificando a cultura ocidental. O homem cultuado na história europeia, segundo o diagnóstico de Nietzsche, se personifica na posição de animal doméstico, calmo e pacato, uma serenidade que mascara a degeneração dos instintos vitais na Europa.

 Dessa forma, a descrição de Nietzsche acerca da modernidade e, por conseguinte, da cultura europeia é no mínimo assustadora: esboça uma civilização que se encontra impregnada por uma espécie de “consciência formal” cujo triunfante “você deve” exalta virtudes que supostamente delineiam um padrão humano: o espírito comunitário marcado pela benevolência, diligência, moderação, modéstia, indulgência e a compaixão. Sua crítica dá testemunho inequívoco da dialética entre indivíduo e sociedade. Sua intervenção a respeito da cultura ganha sentido em seu rico diálogo, sempre problematizando as ideias modernas, tendo como referência central o espírito da antiguidade clássica pela qual Nietzsche desqualifica a cultura de seu tempo, por essa não alcançar uma visão abrangente e real sobre a vida. Ao invés disso a sociedade é tiranicamente governada por sentimentos fracos, cultivados por fortes modelos éticos, deixando de joelhos os filósofos e a ciência, perpetuando um novo tipo de indivíduo prisioneiro do imperativo categórico da moralidade.

Nesse contexto, nos situamos num campo de indagações no que tange à temática do nosso problema: o declínio da cultura segundo Nietzsche. Seguindo nessa linha de raciocínio as perguntas imediatas que surgem são: o que e quais são os sintomas da decadência cultural? Qual a relação entre cultura e moral? O que há de espantoso na religião judaica e cristã? Qual foi a principal causa da degenerescência da filosofia na Grécia? Como compreender a mediocrização do tipo homem? Por que a degenerescência da cultura se dá a partir de Sócrates? Qual seria a relação do mestre de Platão com o enfraquecimento e mitigação de certos impulsos vitais? Por que não existe um diálogo entre a cultura grega clássica com as ideias modernas? Até que ponto a moral se dirige contra os instintos da vida? Tal como entende Nietzsche, a moral tradicional passa por caminhos obscuros e antivitais, sufocando a produção das perspectivas e o estabelecimento dos valores, mas como se dá esse processo?

 Pois bem! O fio condutor para um desfecho satisfatório da nossa pesquisa será abordarmos a moral como problema central na análise nietzschiana da cultura. Com justeza, trataremos o tema da moral em dois momentos: no primeiro, a moral se exterioriza como sentimento dos costumes, delimitando nossa pesquisa em seu livro Aurora (1881); e no segundo, a moral será apresentada como antinatureza, delimitando tal problemática especificamente em sua Genealogia da Moral (1887). Se conseguirmos com a apresentação dessas ideias uma aproximação da moral como condição de existência, a partir de uma análise psicológica tentaremos logo em seguida ascender ao problema central de nossa análise: a degenerescência da cultura a partir de uma crítica à metafisica.
 Seguiremos, pois, consistindo em uma observação criteriosa pela qual possamos compreender o problema da cultura sem perder de vista o escopo dessa questão tão ampla, cuja problemática implica em trazermos à tona uma série de outras discussões: a crítica da linguagem, da noção de sujeito, da subjetividade, o niilismo, crítica da racionalidade, crítica à razão, crítica à civilização socrática, crítica ao otimismo teórico, à moral dos ressentidos, à noção de valor, crítica às religiões. Por fim, temas que Nietzsche pensou com tanta genialidade e audácia em seu denso “evangelho” tratando com palavras desesperadas um assunto desesperado: a natureza e o rumo da cultura de seu tempo

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Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima)

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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