domingo, 8 de janeiro de 2012

A sutil desconstrução do Ser: Considerações sobre Nietzsche



 1860. Um jovem professor é acolhido com bastante êxito pela universidade de Basiléia, ouvintes eufóricos contemplam sua aula inaugural, “sobre a personalidade de Homero” todos desejam ansiosamente escutar as palavras do brilhante Friedrich Nietzsche, jovem que por recomendação de Ritschl fora agraciado com a cátedra de filologia clássica, conquistando com os devidos méritos sua cadeira sem tese nem exames. Sem dúvida dias gloriosos e tranquilos, mesmo que breves, na vida daquele que iria protagonizar o drama da “Morte de Deus” se consagrando para sempre como o autor de Zaratustra. Mais de cem anos após sua morte e o seu legado ainda é centro de exaustivas discussões. Com efeito, os conflitos acerca de sua filosofia não apenas reafirma seu nome entre os grandes pensadores da humanidade, mas, principalmente contribuem para pensarmos a atualidade do seu discurso.


Qualquer um que se debruça sobre um texto de Nietzsche dificilmente não se deixa levar pela tentação de pensar com ele; na medida em que desafios são erguidos, um após o outro, um novo aspecto de seu discurso exterioriza sua viva sensibilidade. Não se pode desconhecer as dificuldades de acompanhar o pensamento de um gênio que se compreendia como o mais escondido de todos; um filósofo que contemplava o mundo como uma porta para milhares de desertos, vazia e gélida; um mestre  que fazia experimentos com o pensamento humano feito “argila dúctil”  nas mãos de um devoto escultor, que, com inefável talento tornava belo tudo que habitava o universo de suas críticas. Não obstante, compreender seu pensamento se revela um empreendimento extremamente ousado, palpável somente por uma íntima relação entre autor e leitor, um eterno jogo de encanto, sabedoria e experimentalismo. Um universo de prodigalidade se insinua quando contemplamos a grande declamação de seu espírito. É inegável a ternura do conteúdo que dar forma a sua arte dionisíaca, é incontestável que, dos diversos críticos, poucos ousaram compreender Nietzsche como ele se compreendeu. E, de certo modo tal agravante é compreensível, uma vez que o próprio tinha plena noção das dificuldades desse audacioso empreendimento; cuja meta central era quebrantar as amarras das ilusões nocivas á vida. Nietzsche não negava a hipótese da angustiante dor causada pelo desencantamento aderido diante a desmistificação com o modo tradicional de pensar a realidade. Nesse sentido salta ao olhos a vertente corrosiva de sua filosofia que, é justamente implodir nossa forma lógica de contemplamos á conduta humana. Eugen Rosentock-Huessy chegou a se utilizar da expressão “disangelho” (termo cunhado pelo próprio Nietzsche) para caracterizar os trabalhos daqueles que seriam os quatro principais intérpretes da realidade do século XIX. Marx, Gobineau, Nietzsche e Freud, pois ambos esboçaram o processo de desilusão da modernidade. Peter Sloterdijk por sua vez, descreve esse processo de desilusão como “um nível de desencantamento capaz de levar á beira de precipícios quase suicidas.” E, por esse motivo Nietzsche era convicto de sua solidão, “muito instrutivo! Ninguém quer o que eu escrevo” (carta a Peter Gast, 1887).

Pensar Nietzsche e a relevância dos seus manuscritos que ainda perdura em nossos dias é pensar sobre vários aspectos sua biografia e estilo sem perder de vista o fenômeno dionisíaco que esboça a grandeza de um angustiado gênio, um fenômeno que acima de tudo reflete a excessiva popularização de sua filosofia. Quem nunca se ateve a conceitos do tipo vontade de potência, eterno retorno do mesmo, teoria das forças, grande politica, e a morte de Deus?  Caráter tão trágico quanto o revolucionário Siegfrieud do drama musical de Wagner, o autor de Zaratustra defensor fiel da cultura nobre e sofisticada ironicamente tem inegável repercussão na cultura de massa. Maldição ou benção? O certo é que poucos autores conseguiram manter o domínio de sua obra tanto na esfera acadêmica como fora dela. Uma filosofia hermética? Um pensador contraditório? Esteta ou um politico? Revolucionário ou reacionário? Um autor pessimista? Enfim, até hoje Nietzsche é discutido em assembléias, livros e publicações que se seguem ininterruptamente. Mas, afinal, não seria essa a intenção ao introduzir na filosofia sua trama conceitual?  Através de aforismos e imagens poéticas Nietzsche não teria trabalhado o caráter experimental de sua filosofia? Os conflitos de opiniões não seriam reflexo de uma filosofia que se dá em reflexão incessante? Como isso é possível? Qual foi a estratégia adotada por Nietzsche? Melhor dizendo, tinha o Nietzsche uma estratégia? Ou mais, seria possível uma plausível resposta para essas questões introdutórias se deslocamos as mesmas para uma teoria pragmática? Mas até, poderíamos pensar com clareza e rigor um autor tão dramático e conflituoso? Ora, são essas as perguntas sobre a natureza dos conflitos de opiniões que pesam em sua filosofia que nos levam a considerar, nesse momento, todos seus escritos como resultado de um pensamento estrategicamente brilhante que buscou legitimidade articulando um discurso não conceitual mantendo-se em sua postura de ensaio e experimento. Sendo assim, a luz dessas reflexões como referência preliminar, ainda é preciso enfatizar o fio condutor de nossa pesquisa: explorar o resultado, entre tantos, do estilo estratégico adotado por Nietzsche que, além de rejeitar o uso da linguagem sistemática e conceitual em virtude de uma linguagem não conceitual, possibilita uma continua renovação de perspectivas sobre sua obra legitimando uma postura radical contrária ao instinto de verdade e suas armadilhas metafisicas.

Quando somos guiados passo a passo por seus questionamentos, apercebemos com clareza uma sensibilidade indizível que emana da multiplicidade dos seus escritos. A primeira tarefa para uma leitura bem fundamentada desse complexo universo consiste em nos familiarizamos de imediato com dois desafios: o primeiro implica em detectar as utilizações que se fez do autor; e um segundo, de suma importância, se constrói quando reconhecemos as dificuldades de compreensão que seus escritos apresentam em sua estrutura conceitual; um modo de pensamento que se vale de formulações extremamente corrosivas sustentadas por brilhantes termos que se encandeiam. É bem provável, com isso, que, o leitor possa incorrer em graves perigos ao adentrar em um universo tão hermético e recheado de armadilhas; onde o desanimo em se deparar com um texto tão denso pode se agravar com a petulância em apreender com precisão o que se insinua facilmente acessível. Com efeito, nada mais sensato para uma segura aventura em seus manuscritos do que, antes de qualquer coisa, desmascarar as apropriações ideológicas e com determinação lidar com as particularidades de sua maneira de expressa-se. Avesso à ideia de um conhecimento totalizante e unificado do real, Nietzsche exalta o perspectivismo, isto é, uma mesma ideia analisada e compreendida pela multiplicidade de pontos de vista, com isso, as mais diversas possibilidades de abordamos uma problemática se concretiza mediante o perspectivismo que ganha contorno juntamente ao questionamento do valor da verdade:

“Ainda que fossemos suficientemente insensatos para considerar como verdadeiras todas as nossas opiniões, não desejaríamos, contudo, que fossem as únicas; não sei por que se haveria de desejar a unipotência e a tirania da verdade; basta-me saber que a verdade possui um grande poder” (Aurora, 507).

Com semelhante maestria o filósofo explora o pluralismo, termo convencionalmente  atribuído ao seu pensamento que reconhece não apenas sua interpretação filosófica como também exalta o exame estilístico e analise psicológica, objetos de múltiplas leituras. Por esse motivo uma pluralidade de estilos enriquece seus manuscritos. Um bom exemplo sua variedade formal e estilística se encontra latente em seu livro A gaia ciência onde sua escrita se alterna em diálogos humorísticos, textos argumentativos, aforismos, poesias e parábolas concentrando densos argumentos acerca da arte, verdade, metafisica, teoria do conhecimento, ontologia e história. Vale lembrar que, o próprio Nietzsche chegou a reconhecer seu grande estilo acreditando possuir “a arte do estilo mais variado do qual nenhum homem jamais dispôs”.

Visto esses dois termos Perspectivismo e pluralismo somado com a natureza antagônica do autor, torna-se relevante as considerações de Muller- lauter de que não há um único entendimento correto do pensamento de Nietzsche em um sentido definitivo e conclusivo. Ou seja, qualquer tentativa de cristalizar convicções acerca de sua filosofia é questionável. (Não seria essa a intenção do Nietzsche?). é compreensível também, que, considerações desse gênero possam intimidar qualquer leitor despreparado, porém, quando nos atemos ao experimentalismo latente no seu estilo, esse suposto obstáculo estrategicamente se converte em estimulo. Afinal, os constantes desafios propostos por sua filosofia esboçam o caráter dinâmico e, por conseguinte, experimental implícito em seus textos. “Pluralista, o pensamento nietzschiano apresenta ao leitor múltiplas provocações. Dinâmico, a eles propôs sempre novos desafios”. Afirma Scarlett Marton.

Se assim é, não podemos deixar de concluir que, pondo a prova hipóteses interpretativas, principalmente quando estas pesam sobre sua obra estrategicamente inaugura um leque de pontos de vistas quando desafia seus leitores incitando experimentos com o pensar.

A avaliação, tal como tratada nesse contexto, tem seu caráter ativo na medida em que explora uma multiplicidade de possibilidade e perspectivas deixando sempre em evidência confrontações de perspectivas não superadas como resultado de uma filosofia que se dar em constante reflexão:

“O mundo tornou-se novamente infinito para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações” (A Gaia Ciência – 374).

Fica desse modo explicitado que juntamente com os termos perspectivismo e pluralismo o experimentalismo também particulariza a filosofia nietzschiana. Visto que, o que está em jogo nessa visão é justamente explorar confrontações de perspectivas em um âmbito de incessante experimento. Aqui, então seria pertinente lembrar que a partir do momento que abriu as portas para as filosofias da vida, vinculando esta a vontade de potência, Nietzsche deixa entrever uma forte tendência naturalista e voluntarista na sua filosofia. Por ter conferido função primordial aos instintos vitais da natureza humana estudiosos compreendem, pois, sua filosofia também relacionada ao termo pragmatismo. Dando uma nova roupagem para a verdade, sua filosofia defende um radical deslocamento valorativo de tal conceito partindo de uma determinada concepção da essência humana.

“A falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranho. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo cultiva a espécie”. (Além do Bem e do Mal, 4).

Nesse contexto a verdade consiste na estreita relação do pensamento com os objetivos práticos do homem; verdadeiro nesse ponto exterioriza o mesmo que útil, promotor da vida; uma concordância entre pensamento e ser. Portanto, não existem fatos ou verdades, mas, interpretações ou perspectivas. Nessa radical e precisa guinada vitalista, as leis lógicas e cientificas, são critérios e esquemas de nossas interpretações do real. Localizando essas características da verdade em seu contexto essencialmente naturalistas , voluntarista, vitalista ou até mesmo pragmática; é certo que, o conhecimento, por sua vez, em Nietzsche pode ser abordado em seu caráter biológico, onde a verdade antes de ser um valor teórico é precisamente servidora da vida, instrumento de um determinado tipo de animal que necessita conserva-se, e, principalmente desenvolve-se; e como o individuo precisa viver em sociedade  e comunicar-se o conhecimento em Nietzsche também ganha seu sentido gregário:

Não temos nem um órgão para conhecer, para a verdade: nós sabemos (ou cremos, ou imaginamos) exatamente tanto quanto pode ser útil ao interesse da grege humana, espécie: e mesmo o que aqui se chama “utilidade” é afinal, apenas uma crença, uma imaginação e, talvez, precisamente a fatídica estupidez da qual um dia pereceremos”. ( A Gaia Ciência, 354).

Sendo assim, perante tais esclarecimentos, cabe a nós leitores reconhecer a ousadia estilística de um filósofo que soube estrategicamente garantir, num nível mais profundo dos demais intelectuais, a potencialidade de sua obra ao inflamar um preciso debate acerca do valor da verdade reconhecendo nesta a sua forma mumificada, metafisica e fixa. Desde o início de seu percurso intelectual a recusa de uma verdade em si foi uma constante em seu pensamento; Nietzsche não se deteve com demonstrações lógicas e com estruturas sistemáticas. A questão do valor é algo a ser julgado de acordo com a medida e exigência de quem o veste. Seja como for, o mais importante nesse contexto é seguir simpateticamente nosso caminho encontrando um refugio para as horas de inquietação, sentirmo-nos em harmonia com nossas perspectivas, liberto dos grilhões e das amarras moralistas nocivas a vida. Cada um de nós deve ser responsável e, acima de tudo, dar conta de seu próprio juízo jamais, sobre hipótese alguma tirar semelhante coisa de outro. Mesmo sendo este um erro, mesmo que fosse uma mentira. Enfim, ao lançarmos os olhos sobre este extraordinário autor, em todos seus detalhes e conflitos, tomamos consciência que, este personificou com genialidade e loucura a desoladora opinião que os grandes intelectuais e artistas são geralmente desprezados e negados pela sua geração. Dramático e, poeticamente conflituoso, em vida Nietzsche expressou ressonâncias com o culto a Dioniso, almejando a divina primavera incorporada no forte estupor da vida, onde da mais elevada alegria brotou o grito de horror, ritmado pelo cântico de Zaratustra- talvez por esse motivo, seu discurso ainda é gritante sem desfalecimento, ou talvez a relevância de sua filosofia se deve em muito a doçura do seu espírito que apaziguava seu pensamento intimidante como certa vez escreveu Malwina de Meysenburg : quanto sua natureza amável e generosa equilibra sua inteligência destruidora.

Foi principalmente no reino encantado do universo acadêmico, lugar sustentado por densos e exaustivos sistemas- onde um otimismo teórico buscava a verdade a qualquer custo- que a filosofia de Nietzsche foi mais densa e corrosiva. Enquanto todos buscavam um mundo plenamente calmo e esclarecido, os versos de Zaratustra irradiavam uma espécie de morte do vago causada pela desilusão frente uma razão decadente e apática, que escraviza e destrói. Nietzsche, uma filosofia de conflitos, uma sutil desconstrução do ser, justificável principalmente quando levamos em conta sua maestria estilística responsável pelas múltiplas imagens ao seu respeito que, para, sua surpresa e horror, vigora sem discrepância tanto na esfera acadêmica como fora dela. Conflitos, que, de certo modo vão de encontro ao principio hermenêutico de Heidegger, onde todo texto filosófico carrega em si uma margem de não pensado. E, se tratando em especial dos textos de Nietzsche, apercebemos que este compreendeu bem mais do que chegou a exprimir, presenteando a humanidade com um labirinto feito de diversos e profundos escritos de caráter estrategicamente perspectivista, pluralista e experimental.


Referencias bibliográficas

Nietzsche. F. A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: companhia da letras, 2001.
________,Além do bem e do mal. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: companhia das letras, 2005.
_________,Aurora. Trad. Mario Ferreira dos santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.



Por Claudio Castoriadis. (Franciclaudio Feliciano De Lima)

-Esse artigo foi elaborado em maio de 2008, com o intuito de ser utilizado futuramente como recurso didático na disciplina de Filosofia. Se for utilizado por outros, por favor, não deixem de mencionar a fonte.

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Eu "conto" pra ela

Me conte um conto
Que me encante
Que eu te canto
Na esquina.

Me conte um conto
Bem contado
Que no meu canto
Eu te guardo.




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