quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Filosofia e Literatura nos escritos do Dostoiévski


 A influência do pensamento filosófico nas demais fontes de conhecimento é indubitável. Talvez seja nisso que consiste a grandeza da estrutura filosófica. Não existe limite para a filosofia. A virtude da filosofia se exterioriza em sua encantadora desenvoltura em qualquer espaço intelectual - A arte por exemplo, Filosofia tem um pouco de arte e a arte tem um pouco de filosofia. Pensar dessa forma é mais que pensar grande, é reconhecer a elegância do domínio da Filosofia em nossas vidas. E falando em arte que tal pensarmos a relação entre filosofia e literatura que perpassa as paredes frias dos limites do conhecimento? Os saberes se interrelacionam, se completam. Pois bem, podemos presenciar flagrantes diálogos entre filosofia e literatura nos romances do mestre Dostoievski. A obra dostoievskiana explora o lado mais obscuro da personalidade humana.  Autodestruição, a humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio; são temas trabalhados de forma mais lúdica pelo gênio russo. Seus escritos são chamados por isso de "romances de ideias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciados por suas ideias. Um autor intrigante sem dúvidas. Fiódor Dostoiévski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa, sendo considerado o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita".

"O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoiévsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo."  Assim falou o Filósofo JEAN PAUL SARTRE.

Com essas considerações testemunhamos um autor bem quisto não apenas na literatura, mas também acolhido pelo movimento filosófico denominado existencialismo. Contundente, é o mínimo que podemos pensar. Pois bem, vamos conhecer um pouco desse monstro do conhecimento humano.
Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasce em 1821, em Moscou, filho de um médico, homem austero e autoritário, e de uma mãe doce, segundo seus biógrafos, que sofreu em silêncio o despotismo do marido avaro. Aos dezesseis anos, perde a mãe, vítima de tuberculose e dos ciúmes injustificados do marido que, a partir de então, refugia-se na província e no álcool. Fiódor, logo a seguir à morte da mãe, sofre de uma doença de garganta, uma afonia que deixará vestígios para toda a sua vida. Marcado pela solidão, no colégio era tido como desconfiado e tímido. Segue a Escola de Engenheiros Militares de São Petersburgo, à qual não parece se adaptar, mas é nesse período que conhece os clássicos da literatura mundial. Dostoiévski se apaixona de imediato pelos textos textos de Púshkin, Schiller, Byron, Shakespeare e Balzac. A sua primeira publicação deu-se com a tradução do romance de Balzac ‘Eugenie Grandet'. Quanto à publicação de seu primeiro romance, Pobres Gentes, foi recebido com grande entusiasmo, do crítico literário Vissarion Beleinski, inclusive.

 Quando seu irmão fica noivo, Fiódor se depara com um acontecimento que o marcará para toda a vida: A morte do seu pai. Que provavelmente foi assassinado pelos seus servos, como vingança pelo cruel tratamento que recebiam. Quando soube da morte de seu pai, o escritor sofreu uma convulsão epilética. (Dostoiévski iria padecer do mal da epilepsia até os seus derradeiros dias.) Nosso autor sai da Escola, ao final de seus estudos, é nomeado alferes, e sua vida, isento da tutela patema, segue um curso inteiramente livre, pelos teatros, concertos, casas de jogo, ruas, cidades. Começa a escrever e, um ano mais tarde, sai do ofício de alferes. Em 1847, veria sua carreira de escritor sofrer uma trágica interrupção quando passou a integrar o grupo liderado por Petrachevski (Círculo de Petrashevski), que se reunia para discutir acontecimentos políticos, literários, temas relacionados com o socialismo, a censura, a abolição da servidão, entre outros; onde aproveitam para fumar, beber, discutir literatura, política, criticando o regime e censurando o estado deplorável dos camponeses, da economia. A expectativa de Dostoiévski era otimista ao mesmo tempo que infantil acreditando que as ousadas revolucionárias não convinham à Rússia, esperando que o próprio czar realizasse as reformas necessárias, e tomando-o como “um pai para o seu povo”. Por esta razão, abandona este movimento, fundando com outros companheiros uma outra sociedade, mas são denunciados, e, em abril de 1849, é preso na fortaleza de Pedro e Paulo, onde aguarda julgamento. Após idas e vindas do processo, ele é finalmente julgado e condenado a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, como presidiário, e depois mais quatro, como soldado raso. Mas o imperador, o mesmo que para o gênio russo deveria ser o pai do povo, deseja que seja dada uma lição aos conspiradores: os condenados serão colocados no patíbulo em praça pública, para serem fuzilados, serão atados aos postes, de olhos vendados, e verão alinhar-se na sua frente os pelotões de fuzilamento. Os soldados apontarão as espingardas e uma voz gritará “Fogo!”, mas os tiros não chegam a partir. Na voz do General Rostóviev, se ouvirá a sentença : “Em sua inefável clemência, Sua Majestade, o czar, concede-vos a graça da vida...” Esses momentos de tamanha maldade estão descritos em Diário de um Escritor. Dostoiévski estava apenas com 27 anos, quando, na véspera do Natal de 1849, foi conduzido com outros condenados, em trenós descobertos, com o frio de vinte graus negativos, para cumprir a pena na Prisão de Omsk, na Sibéria. Sobre essa prisão e sobre tratamento desumano que era dispensado aos prisioneiros, Dostoiévski fez alguns comentários: 

“Imaginem um velho barracão de madeira em ruínas. No verão asfixiávamos com falta de ar e no inverno o frio dilacera-nos a carne. O soalho era todo esburacado e cheio de imundícies; escorregávamos e caíamos a cada passo. O gelo cobria totalmente as vidraças, de modo que mal se podia ler durante o dia. A água pingava constantemente do telhado, e havia corrente de ar glaciais em todo lado. Estávamos comprimidos uns contra os outros como arengues numa barrica. Mesmo quando acendiam o fogão com chamas de lenha seca, mal amornávamos (o gelo derretia a muito custo) e ficávamos como que envenenados pela fumarada. Era assim que vivíamos todo o inverno (...). Cobríamos com peles de carneiro muito curtas, que me deixavam as pernas a descoberto. Tiritava de frio toda a noite. Havia milhões de percevejos, piolhos e carochas”.

Não foram tempos fáceis, Dostoiévski assistiu a terríveis espancamentos e torturas, e de tudo o que presenciou e sofreu resultaria na sua narrativa sobre esses anos cruéis, que passariam a integrar o seu livro Recordações da Casa dos Mortos. Nessa obra inflamada por passagens amargas compreendemos a condição de um presidiário em Omosk, no convívio com criminosos condenados pelos mais diversos crimes, além dos presos políticos. vale lembrar que, Dostoiévski é o primeiro escritor a escrever sobre os campos de trabalhos forçados da Rússia czarista. Choca a muitos pelo realismo de seus relatos: homens presos pelos pés por correntes, imundícies, promiscuidades, castigos corporais - os presos eram surrados com chicote ou vara, que só cessavam com a ordem do médico da prisão, para daí serem levados aos hospital, até retornarem para o cumprimento do castigo a que foram condenados. O tempo no exílio não o faz produzir suas maiores obras, mas é aí que ele recolherá material para sua inspiração, vivendo entre criminosos, assassinos, ladrões, e as leituras da Bíblia, única fonte de acesso em quase todo o período. Em 1854, ao sair do presídio, é enviado como soldado para uma pequena cidade da Sibéria, conhecendo aquela que viria a ser sua primeira mulher, Maria Dimitrievna, mulher de temperamento exaltado, sentimental e fantasista, casada, a essa época, com um alcoolista, desempregado. É com Maria que ele encontrará o diálogo sobre literatura e artes, até que o seu marido é novamente empregado e transferido para outra cidade. Fiódor a vê partir e sabe, adiante, do envolvimento de Maria com o preceptor de seu filho, a quem irá encontrar, para fazê-lo desistir dela. Maria fica viúva, mas não se decide a casar com Fiódor. Em 1856, ele é promovido a oficial, Maria se decide e no ano seguinte se casam. Na noite do casamento, ele sofre um violento ataque de epilepsia. Sete anos depois, morre Maria de tuberculose, e ele assim dirá dela : “Ela, meu amigo, amou-me sem limites, e eu a amava também sem medida, e, contudo, não fomos felizes; mas embora tenhamos sido verdadeiramente desgraçados, devido ao seu estranho caráter, receoso e morbidamente fantasioso, nunca deixamos de nos querer, e quanto menos felizes éramos, mais apego tínhamos um ao outro... Era a mulher mais nobre, mais leal e generosa de todas que tenho conhecido...” no ano de 1859 retorna à Rússia. 

O imperador agora é Alexandre II, que inicia as reformas, sem, contudo, apaziguar os ânimos mais exaltados. ainda assim, nosso herói permanece na crença de que caberá ao czar realizar os caminhos por uma Rússia mais justa, tomando-o como pai do povo. Sua segunda viagem à Europa, ele a fará não com sua esposa, que está moribunda, mas em companhia de uma jovem de 16 anos, admiradora fiel de suas oratórias. Fiódor tinha, a essa época, cerca de 40anos de idade. Pede um empréstimo à Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, planeja encontrar-se com Polina, mas desvia-se antes de chegar a Paris, detendo-se em Wiesbaden e aí perdendo todo o dinheiro... no jogo. Polina e ele ainda viajam, mas, no retomo por Wiesbaden, novamente Fiódor se detém e aí perde mais dinheiro, quase tudo o que levava. Pra piorar, seu irmão morre, deixando uma dívida que só poderá ser coberta com a publicação de todas as suas obras, e de mais uma inédita. 

Ele parte novamente em busca de Polina, que o recusa, volta para casa e vai ditar uma nova obra O Jogador, a uma estenógrafa de 20 anos de idade, uma moça modesta, moderna, medianamente instruída e inteligente, que cuidará de assegurar, a esse homem, o ambiente e as condições necessárias para realizar os seus mais belos trabalhos. As dívidas o levam para fora da Rússia por quatro anos, passados em diversos países da Europa, entre cassinos e obras literárias. Volta à Rússia, com dois filhos, e em 1881, aos 60 anos, com enfisema pulmonar e ainda com ataques de epilepsia, morre, deixando um grandioso acervo literário para as gerações póstumas. 



Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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