sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um doce ou uma solidão?



Neste pequeno espaço, de puro mistério, onde meu imaginário se contorce de amargura, sem a sobrecarga das minhas obrigações cotidianas, me debruço na mais sutil centelha de memória sem me aprisionar em meus devaneios egoístas e enfurecidos em busca de um sentimento último de consolo. Gostaria de, numa sequência de curtas lembranças explicar o motivo de minha amargura. Há uma semana e pouca horas eu fiz uma descoberta sobre minha pessoa que me abalou como nunca antes. Que descoberta seria essa vocês devem está se perguntando-, Eu sou um homem egoísta, um ser doente, desprezível, por que não afirmar o mais ignóbil de todos?... Sou um homem cruel. Sou um homem desagradável. E acreditem, isso me pesa, uma sobrecarga tal qual raramente me deparei em todo momento insólito da minha existência, mais real e mais verossímil de todas que posso suportar. Estou perturbado, há horas, nessa pequena sala, eu só faço andar e tentar esclarecer isso tudo para mim mesmo. É só o que faço andar e fumar um cigarro após o outro, andar, andar, andar...Santo Deus! Refrigera minha alma por que todo o meu horror remete justamente no fato de compreender tudo! Sou péssimo com palavras, ainda mais quando estou tão aflito. Porém, tenho que falar nem que seja da maneira mais medíocre possível. Eu sei que para muitos esse fato pode parecer ridículo, assim como sei que um sorriso desdenhoso se estampa no rosto de muita gente que já me conhece. Pois bem, eis minha história.

 Exatamente umas duas semanas de tardinha onde eu costumava ir passear com meu cão até o velho lago em lugar bastante frequentado por pessoas idosas e mulheres desocupadas- acho que meu sentimento por elas são os mais negativos possíveis- todas almas abortadas, mal amadas. Pessoas ridículas. Enfim, foi nesse lugar peculiar que recebi uma triste noticia; Um funcionário meu acabara de se matar. Ele havia saltado nas aguas cobertas pela ponte Golden Gate, que corta a baía de São Francisco, apesar de ser  um grande ponto turístico americano, é também o lugar do mundo com o maior índice de suicídios. Sua rotina mórbida revela uma sinistra parte do cartão-postal que eu não conhecia até o momento. Além do movimento de carros, pedestres e turistas, pessoas saltam dela em busca do desconhecido. Para mim poderia ser apenas mais um caso no meio de tantas estatísticas. Mas naquele dia se trava de um funcionário da minha empresa. A Golden Gate Bridge é a ponte localizada no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que liga a cidade de São Francisco a Sausalito, na região metropolitana de São Francisco, sobre o estreito de Golden Gate. Principal cartão postal da cidade, uma das mais conhecidas construções dos Estados Unidos, e é considerada uma das Sete maravilhas do Mundo Moderno pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis. É uma obra de arte, não foi a toa que resolvi instalar minha empresa imobiliária na região metropolitana de são Francisco. Perdão... Minhas estratégias administrativas não vêm ao caso e sim o fato de um funcionário da minha empresa ter tirado de forma tão estupida a própria vida. Mas sabe a maior irônia nisso tudo? A depauperação do meu angustiante dispêndio?  Eu não dava a mínima para ele. Sim! Exatamente. Minha relação com ele era apenas de um casual “bom dia” e “tenha um ótimo dia chefe”. Certa vez Albert Camus relatou que o suicídio era um problema Filosófico verdadeiramente sério. Foi pensando nisso e na imagem  estética da minha empresa que fiquei deveras abalado com o caso desse jovem e fui investigar a vida do mesmo para tentar entender uma tragédia tão delicada e controversa.

O que mais me deixava intrigado era que ele não demonstrava transparecer qualquer melancolia. Era um funcionário exemplar- era o primeiro a chegar e o último a sair. Ganhava o suficiente para uma vida confortável. Era casado, tinha uma bela esposa e dois filhos um garoto de que já passava dos sete anos e uma menina recém nascida. Obtive essa informação através de uma outra funcionaria minha que se dizia única amiga dele. Eu até tentei manter contato com a sua esposa, mas não foi possível ela mudou de cidade depois do ocorrido. Mas eu não entendo, geralmente, os casos de suicídio são marcados por um traço peculiar: a solidão. Ele não era só. Era agraciado por uma linda família. Me sinto curvado por um peso e sentimento de covardia. Estou sobrecarregado. Algo poderia ter sido feito? Foi algo que falei? Afinal sou um homem de palavras desumanas com meus funcionários; algum tipo de corte salarial? Não encontro respostas, maldição, maldição... Por quer estou tão abalado? Pobre criatura. Ele era franzino, loiro, baixo, sempre desajeitado no trato comigo. Mas quem não ficava perturbado na minha presença? Visto que eu sou um calhorda, um fraco que tem prazer em humilhar, sim, sou um sádico.

Já está escurecendo, estou sentado aqui há horas. Todos os funcionários já se foram; quem diria agora o chefe é o último a sair de sua empresa. Chega de arrodeio... Vou direto ao ponto.

Sabem por que estou assim? Ontem pela manhã assim que cheguei em meu escritório a mesma funcionaria que era meu único vinculo com ele me relatou algo que me acertou como uma bofetada no rosto. Foram exatamente essas suas palavras: “o senhor lembra que na mesa dele sempre tinha doces espalhados entre pilhas de papeis? E que geralmente eram seis? Todo santo dia ele repetia esse ritual, chegava cedinho, dava bom dia há todos ao seu redor e tirava do bolço um punhado de doces. Como amiga eu tive a curiosidade de perguntar por que tal extravagância. E por quer tinha que ser sempre seis doces. Foi então que ele confessou baixinho no meu ombro: “na verdade minha estimada amiga sempre compro nove balas antes de vim ao trabalho sabe por quê? É minha forma de reconhecer as pessoas que admiro... três deixo com minha família, uma guardo pro nosso chefe e as demais distribuo entre vocês” Por falar nisso, ele sempre voltava com um doce pra casa. Ainda tenho um aqui, na minha bolça, o senhor quer? – não obrigado senhorita guarde.  Acredite é o mais sensato. 

"em memória de todas as almas solitárias" 


"A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade" 
-Nietzsche


Por Claudio Castoriadis

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