quinta-feira, 24 de novembro de 2011

UMA CRIATURA DÓCIL SEGUNDO DOSTOIEVSKI


É indubitável a importância de Dostoievski na literatura mundial. Não por acaso, o escritor russo é universalmente conhecido como um dos maiores romancistas que já existiram. Um grande número de escritores se inspirou no trabalho dele e utilizou um ou outro aspecto do seu estilo para suas próprias finalidades. O escritor russo renovou o gênero literário, o de romance, ao ter criado romance polifônico, ou seja, seus personagens se exteriorizam com vida própria. Essa é a grande cartada do autor: não criar escravos do narrador, mas gente livre, capaz de contradizer o próprio autor.

 Em sua edição de 2 de outubro de 1876, o jornal Golos (A voz), de São Petersburgo, estampava a notícia do suicídio de uma certa Maria Boríssova, jovem costureira moscovita que  viera tentar a sorte na capital do império. Sozinha na cidade grande, ela caíra na miséria e, por desespero, jogara-se do alto de um prédio, abraçada a um ícone da Virgem. A tragédia de imediato chama a atenção de Dostoievski. O escritor, que já publicara três de seus romances – Crime e castigo saiu em 1866, O idiota foi publicado em 1868, e 1872 é o ano de Os demônios –, dedicava-se então ao Diário de um escritor, uma coluna de sucesso no jornal Grazhdanin (O cidadão) que logo se tornou uma revista mensal autônoma, dirigida pelo próprio Dostoievski. No número de outubro de 1876, sobre a tragédia ele comenta nos seguintes termos: “Durante muito tempo não conseguimos deixar de pensar em certas coisas, por mais simples que pareçam, elas como que nos perseguem, e até nos parece então que temos culpa dessas coisas. Essa alma doce e humilde que destruiu a si mesma forçosamente tortura o pensamento.” Compara ainda o caso de Maria Boríssova ao de Liza, filha do revolucionário Aleksandr Herzen, que pouco antes também cometera suicídio. Esta última deixara um bilhete de despedida que parece “frívolo” ao escritor: a jovem estipulava as providências a serem tomadas para um enterro “chique”. Da notícia de jornal, Dostoievski retém particularmente um detalhe concreto, que deve ter atiçado sua imaginação de romancista: “Essa imagem nas mãos é um traço estranho e ainda desconhecido nos suicidas!”. Prova disso é que, no mês seguinte, o Diário de um escritor é inteiramente ocupado pela novela Uma criatura dócil, em que o artigo de jornal se transforma em uma “história fantástica”.  Com grande amor e detalhes precisos nesse pequeno ensaio o mestre russo desenvolve um estudo sobre a opressão. A trama que de imediato aparenta ser simples trata sobre uma mulher em busca progressiva de liberdade, e que afinal é envenenada por desigualdades de sexo, idade e classe. A novela narra a trágica trajetória de seu casamento, pontuado de orgulho e humilhação. Um tiro certeiro na alma humana e no moralismo tirano de sua época. Por isso, perguntas pesam no decorrer da obra: até que ponto estamos cegos por nossas neuroses? Qual o verdadeiro papel da mulher na sociedade? Nossas virtudes não seriam vícios disfarçados? Quando floresce na alma humana a ideia de suicídio? Enfim, Uma criatura dócil é mais uma exuberante narrativa do final da vida de Dostoievski que vale a pena preencher nossa biblioteca.

"Uma criatura dócil", Fiódor Dostoiévski, tradução de Fátima bianchi, editora Cosac & Naify, 1a. edição (2003) brochura 13.5x20cm, 96 págs., ISBN: 978-85-7503-197-X

Por Claudio Castoriadis

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