quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Filosofia: As encruzilhadas do labirinto.



Aproximadamente à quinze anos, antes das minhas primeiras investigações filosóficas, uma questão sempre foi de suma importância para meu percurso intelectual: "Honestidade". Toda vez que um texto instigasse minha curiosidade, seja pela sua densidade ou pela sua riqueza de linguagem, da forma mais inquiridora possível tratei os grandes pensadores com todo respeito que sua trama intelectual suscitava. Desde cedo minha iniciação na filosofia me ensinou a gravitar em textos com o mais profundo respeito aos mais variados discursos intelectuais.  “Cautela” é a palavra de ordem para um apreciador de um texto filosófico. Amante da filosofia, sempre cultivei a opinião que uma letra mal empregada pode distorcer uma palavra e uma palavra distorcida pode definhar uma ideia geral de uma frase. E se tratando de um texto filosófico o desafio é mais criterioso exigindo o máximo de disciplina. Falar de um texto de tal envergadura e assumir o desafio em encarar fluxos de reflexões dos grandes mestres da humanidade só é possível quando somos honestos com os mesmos. Quem foram esses mestres?  O que eles escreveram? Qual a relevância do pensamento desses gênios em nossos dias? Será que não existe em nós cada um de seus questionamentos? Bem, antes dessas perguntas creio que tentar definir o que é filosofia seria mais sensato para os leitores principiantes nesse universo tão exuberante.

Pois bem, sou do tipo de sujeito que gosta de responder uma pergunta com outra. Ou nesse caso específico “outras”.  Falar que a palavra filosofia provém da língua grega e que seu significado é especificamente amor à sabedoria responderia nossa pergunta? Creio que não. Então, nada mais sensato que adotamos outro método para pelo menos obtermos uma pálida imagem do significado da filosofia propriamente dita. Daí mais uma pergunta entra em cena: Que método por ventura devemos empregar para delinear o que é a filosofia? Compreenderemos a importância de uma pergunta como esta se reunirmos e compararmos com precisão as diferentes definições da essência da filosofia que os grandes pensadores deram ao longo da história? Uma proposta relevante principalmente quando outro problema vem à tona: de Platão a Nietzsche somos banhados por um dilúvio de informações, termos, conceitos, ideias das mais variadas invadem nossa mente afogando nossas convicções e crenças mais íntimas. Com isso, perceberemos as gritantes definições da essência da filosofia e seu sentido último. Como assim?  Estamos falando de filosofia ou filosofias? No fundo, vocês poderiam me fazer ou se fazer essa pergunta. Segundo a tradição a filosofia nasce com Tales e Anaximandro. Fincando sua base, pois, na Grécia, ela se desenvolve como instância significativa da cultura ocidental nos últimos dois milênios. Vale lembrar que existem aqueles pesquisadores que seguiram uma outra via para legitimar a origem da filosofia, no século XIX, buscaram suas origens em possíveis contatos com a cultura oriental, porém, presumo ser mais sensato, nesse momento, pensar a origem da filosofia aqui em nossa esfera. Enfim, a forma de expressão e peculiaridade do pensamento filosófico como conhecemos hoje em nossa tradição ocidental "nasceu" no universo cultural da Grécia antiga.

 Certa vez Bertrand Russel chegou a comentar: "A filosofia nasce de uma tentativa desusadamente obstinada de chegar ao conhecimento real". Nessa máxima podemos compreender que filosofia implica em uma postura obstinada em conhecer à totalidade dos objetos a busca exaustiva em reconhecer o fundamento da realidade. Uma resposta bastante formal? Possivelmente. Visto que temos outras definições tão categóricas. Então o grande problema de definir o que é filosofia é compreender como cada pensador em seu contexto histórico trabalharam o enfoque da totalidade? Como cada intelectual percorreu seu tempo ambicionando reconhecer o conhecimento real?  Uma aventura um tanto cansativa e longe o suficiente para esgotar o assunto. Cada pensador foi fruto de sua época. Viveu em determinadas circunstâncias, absorveu todo conhecimento necessário e deleitou-se nas grandes descobertas humanas de seu tempo. Por isso, cada linha do nosso modo de pensar e conceber nossa realidade é reflexo das ideias que foram trabalhadas na Grécia antiga antes mesmo do filósofo Platão.

Tendo em mente a filosofia como reflexão especulativa sobre nosso comportamento valorativo teórico e prático não vejo a filosofia como Platão em seu tradicional mito da caverna onde o filósofo seria aquele bem aventurado que realiza uma passagem da obscuridade da aparência para a claridade da verdade. Minha honestidade intelectual prefere pensar a epopeia de um filósofo além da claridade platônica. Depois da caverna, jogado no centro de um labirinto de espelhos onde a luz da planície desapareceu e perturbado pela clareira do conhecimento, não mais contempla uma paisagem estável maquiada pela “razão”. Como diria o filósofo Castoriadis: Nesse labirinto o mais próximo é o mais distante. Conceitos, ideias, teorias refletindo de todos os lados em cada espelho desse obscuro labirinto. Em cada parte um rosto e em cada rosto uma linguagem conceitual. Sozinho é preciso lutar contra todos os perigos, todas as ciladas, toda tempestade. Olhando para um lado podemos vê o reflexo de Tales de Mileto, dando poucos passos, batemos de frente com a figura de Anaximandro. E logo em frente ao avançar lentamente e com circunspeção, deixando de lado as misérias e a insegurança do incerto  encontramos outros reflexos que complementam o jogo de imagem desse lugar: Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Plotino, Agostinho, Tomás de Aquino, Francis Bacon, Descartes, John Locke, Voltaire, Rousseau, Kant, Hegel, Karl Marx, Nietzsche, Heidegger, Hanna Arendt, Sartre, Habermas e Sloterdijk.  Por fim, um labirinto de espelhos responde a pergunta “o que é filosofia?”. Evidente que não. E tenho que ser “honesto”, nunca foi essa minha ambição e não tenho do que me envergonhar, não sou do tipo que se eleva tão alto, pois ainda tenho medo de altura. Mais uma pergunta certamente deve ser feita para aqueles que buscam pela filosofia e sua essência na história do pensamento ocidental: Quando você olhar no espelho novamente quem você realmente gostaria de vê? Seu rosto? Sereno e tranquilo esculpido pelo seu tempo. Ou a face deformada do filósofo Giordano Bruno? Queimado em uma fogueira vítima de seu tempo. Por falar nisso, você já olhou no espelho hoje?



Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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