terça-feira, 4 de setembro de 2012

Franz Liszt: Poema Sinfônico



"Toquei hoje numerosas vezes as Consolações de Liszt; sinto que esses acordes penetraram em mim, despertando como um eco espiritualizado." Esse relato tão reconfortante ganha um sentido épico quando se trata de um desabafo do filósofo Nietzsche. Afinal, poucos músicos e intelectuais consolavam as amarguras do autor de Zaratustra. O que Nietzsche diz certamente traduz boa parte da experiência embriagante vivida por muitos dos admiradores de Franz Liszt. Um músico ativo e inquieto, vivamente motivado a repirar arte. Reza a lenda que certa vez, durante uma recepção em um palácio, o chapéu de Liszt caiu, rolando escada abaixo. Uma princesa russa, aproximando-se de Lizst, exclamou: "Oh, seu chapeu caiu, senhor!". Ele respondeu: "Deixe! Por causa de seu encanto já perdi a cabeça, de modo que o chapéu não me serve mais". Assim era o mestre Liszt. Cortejado pelas mulheres, admirado pelos homens, Franz nasceu a 22 de outubro de 1811, em Haiding, na Hungria. Seu talento precoce ao piano surpreendeu a nobreza local.  Estudou com Antonio Salieri e Carl Czerny, este último, por sua vez, aluno de Beethoven. Decide ficar em Paris, onde seu talento destaca-se. Sua técnica ao piano é exuberante. Executa à primeira vista partituras dificílimas. Suas próprias músicas são também de extrema dificuldade. Seu pai morre em Paris, mas Liszt decide ficar na cidade. Em pouco tempo, torna-se presença constante nos meios artísticos e intelectuais da cidade-luz. Entre seus amigos encontramos Chopin, Berlioz, Schumann, Victor Hugo, Lamartine, Heinrich Heine e outros grandes nomes do movimento Romântico, do qual Liszt é um dos expoentes máximos. Em 1842 vai para Weimar, assumindo o cargo de mestre-capela (uma espécie de diretor musical). Essa mudança é fundamental em sua vida: passa a ter um crescente interesse pela música orquestral e pela ópera italiana. Nessa época conhece um músico que ainda terá grande importância: Richard Wagner.

De um encontro na casa de Chopin nasceu a paixão pela condessa Marie d'Agoult, com quem teve três filhos: Blandine-Rachel, Daniel e Cósima - futura esposa de Wagner. Sob seus auspícios, Weimar destaca-se como centro de peregrinação musical. Inúmeros compositores vêm até essa cidade, sequisos de conhecer o famoso pianista húngaro. Mas nem tudo vai bem. Após alguns anos de convívio comum, Lizst rompe com a condessa d'Agoult. Em 1861, Lizst deixa a corte de Weimar, partindo para Roma, com a intenção explícita de se tornar padre.


Vez por outra Lizst se encontrava entre novos casos amorosos. O último deles, com a princesa Carolina Von Saint-Wittgenstein que termina com a recusa do Papa em legalizar sua união. Com isso, entra na última fase de sua vida. Verá ainda sua filha Cosima, após uma série de problemas, abandonar seu marido, o ex-aluno de Lizst Hans Von Bellow em favor de Wagner. Presenciará, em Bayreuth, o triunfo de seu genro. Falece nesta mesma cidade, em 31 de julho de 1886.


Suas composições na grande maioria estão voltadas para o piano. Todavia, além das incontáveis obras dedicadas a esse instrumento, Liszt foi o criador de uma forma musical que seria adotada por dezenas de outros compositores: o "Poema Sinfônico". É indubitável que no início seu estilo ainda estava atrelado ao encanto brilhante do século XVIII, uma música frívola que servia de base para os mais extravagantes exibicionismos. Seriam necessários alguns anos para que ele mudasse seu estilo, passasse a compor música de qualidade e criasse a noção do recital como hoje o conhecemos, um recital onde as pessoas se dirigem não pelo exibicionismo circense, mas pela qualidade musical. O fator decisivo foi sua percepção de que o virtuose era para sempre um prisioneiro do estilo brilhante. Ao invés de imitar Paganini, cujo virtuosismo era periférico em uma música simples, Liszt percebeu que o virtuosismo deveria tornar-se o elemento estrutural da obra, capaz de dar forma à erupção de ideias que brotavam de seu ser. Assim, ele foi além de todos os seus contemporâneos e tornou-se compositor de uma música divinamente nova, bem estruturada e de uma sonoridade extremamente cativante. Uma música que, em certo sentido, parecia anunciar a música do século XX. Ele incansavelmente tocou e regeu não apenas as obras daqueles que se tornariam clássicos, como Beethoven e Schubert, como as obras de seus contemporâneos ainda totalmente desconhecidos do público, tais como Berlioz, Chopin, Schumann, Mendelssohn e Wagner. 


Duas sinfonias de Liszt não tem o destaque que merecem em sua produção. Tanto a Sinfonia Fausto quanto a Sinfonia Dante são na verdade grandes poemas sinfônicos, inspiradas, no Fausto de Goethe e na "Divina Comédia" de Dante. Essa inspiração sinfônica é descendente direta da Sinfonia Fantástica de Berlioz, obra que Liszt muito admirava. Enfim, Liszt viveu sua vida como alguém que pensou além do seu horizonte histórico, se deixando levar pelo seu bom senso. Foi adorado por todos que o conheceram e odiado pelos que lhe invejavam a força criadora e estilo peculiar. Fatalidade do destino - aquele que fez de tudo para tornar conhecida a obra dos outros, acabou esquecido pela história. Apenas hoje, anos após seu nascimento, o mundo começa a perceber a importância de seu legado artístico. 


Por Claudio Castoriadis


Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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