domingo, 29 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.2.   Manipulação: Essência antropológica da tradição


 É assim trazida à luz a essência antropológica da tradição, uma forma de manipulação que está por trás de dogmas. Visto que ideias que afrontavam a tradição eram acolhidas geralmente de forma hostil, uma grande parte da humanidade ainda vive à sombra dessa manipulação. E Nietzsche alerta para a possibilidade de que ao longo de nossa existência é a tradição que decide por nós. Sob o império da moralidade dos costumes as ideias novas e divergentes são condenadas. Assim, toda ação individual é malquista quando compreendida segundo o olhar do moralista, visto que o nivelamento massivo de opiniões é assegurado pela covardia, má-fé e preguiça. E mais: chegamos desse modo ao ataque à moral reduzida a mero tradicionalismo, haja vista a moralidade não passar de obediência incondicional ao costume. Não importa de qual tipo, o costume foi sempre um modo tradicional de agir e julgar.
Nesse contexto, como compreendemos a tradição aqui problematizada? Com justeza, podemos compreender esta como sendo um tipo de autoridade superior à qual obedecemos cegamente, não porque nos ordena algo útil, mas simplesmente pelo fato de que ordena. Ora, onde não existe tradição não existe decência. Ou dito de outra forma: se conseguimos manter fidelidade pela tradição, de maneira alguma seremos pessoas decentes, pessoas de caráter moral íntegro. Por isso, podemos concluir que a moral delimita a ação do sujeito, visto que posturas contrárias ao imperativo da tradição não são bem acolhidas em uma comunidade.
Por esse motivo quanto menos a vida é determinada pela tradição tanto mais se restringe a área da moralidade. Não obstante, o que interessa a Nietzsche ao denunciar o encanto e servidão voluntária é justamente seu problema psicológico: o sentimento de medo.
Em que se distingue este sentido da tradição de um sentido geral de temor? É temor de uma inteligência superior que ordena, o temor de uma potência incompreensível e indefinida, de algo que é mais pessoal – há superstição neste temor. (idem, p. 19)
Quando em 1881 Nietzsche publica Aurora: Reflexões sobre Preconceitos Morais ele dá continuidade em sua análise à estrutura da moral que teve início já nos 638 aforismos do primeiro volume de Humano Demasiado Humano (1878). Ampliando a discussão sobre a cultura e introduzindo considerações sobre a vida social Nietzsche trata especificamente de um problema psicológico: o sentimento de medo. Seu argumento problematiza a moral sustentada a mero tradicionalismo legitimada pelo sentimento de medo que vigora perante uma autoridade ou superstição. Nesse contexto prestamos obediência moral, como uma autoridade incontestável, um tipo de moral atrelada à tradição, nos hábitos e modos de agir costumeiros. Nesses termos a costumeira crítica da cultura através da vida social conduz ao problema da moral, visto também como o problema do medo, pois tal sentimento é guia na participação do sentir dos outros. É por medo que somos domesticados pela tradição, escravizados pelo hábito e debilitados pela moral. Onde existe uma comunidade prevalece uma moralidade dos costumes e a moral inflamada de preconceitos será sempre uma moradia dos fracos. A esse respeito escreve Eduardo Rezende Melo:
 A verdadeira cara da moral mostra-se, então, como uma reação ao perigo e, portanto uma busca de conservação, construindo, a partir dessa reação, todo um modo de conceber o homem, o mundo e a vida e, nessa mesma resposta ao perigo, nessa reação moral, encontraram, para Nietzsche, o germe da filosofia. (2004, p. 123) 

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )


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