quinta-feira, 22 de março de 2012

Carta de tolstoi falando sobre sua pesquisa sobre guerra e paz.

Moscou, 27 de setembro de 1867
 
Acabei de voltar de Borodinó. Estou muito feliz, muito, com a minha viagem e também com a forma com que a suportei, apesar da falta de sono e de comida decente. Se Deus me conceder saúde e tranquilidade, escreverei uma batalha de Borodinó como nunca se viu. Sempre me exibindo! Sonhei com você na noite que dormi no monastério, e foi um sonho tão claro que quando me lembro dele é como se lembrasse de algo que aconteceu de verdade, e penso em você com medo.

Não lhe escrevo os detalhes da viagem, os darei de viva voz. Na primeira noite viajei cem verstas até Mojáisk e já perto do amanhecer dormi um pouco na estação; na segunda noite dormimos no albergue do monastério. Me levantei na aurora, voltei a percorrer o campo, e durante o dia todo viajamos de volta a Moscou.

Recebi suas duas cartas. Fiquei triste com o que houve com a Tânia, a mais velha, e senti medo, muito medo pela pequena Tânia. (Eu a conheço, a vejo e a amo, e temo por ela com essa febre alta.) Mas o principal é que suas cartas fizeram com que me sentisse bem porque você está nelas. E você põe o melhor de você nas cartas que me escreve e nos pensamentos que me dedica. Na vida cotidiana, ao contrário, a aversão e a predisposição à discussão sufocam isso com frequência. Eu sei.

Pedirei mil rublos a Perfíliev e serei rico e comprarei para você o chapéu e as botas e tudo o que me pedir. Sei que vai ficar brava que eu peça dinheiro emprestado. Não fique brava; peço para gozar de certa liberdade durante essas primeiras semanas do inverno, para não estar apertado ou angustiado por questões de dinheiro, e para isso tenho pensado em economizar esse dinheiro o máximo possível e tê-lo só para saber que está ali, caso precisemos despedir alguém que esteja sobrando ou que não sirva etc. Você me entenderá e saberá me ajudar. Suas cartas, querida, me dão um grande prazer, e não me venha com a bobagem de que eu as dou para outras pessoas lerem.

Aproveitei minha visita a Borodinó e tive a consciência de estar fazendo o que tinha de fazer; o que eu não suporto é me ver na cidade, e você diz que eu gosto de me perder pelas ruas. Não sabe como eu gostaria que você gostasse da aldeia, nem que fosse uma décima parte do que eu a amo, e que detestasse a vaidade oca das cidades, nem que fosse uma décima parte do que eu a detesto. Amanhã irei à casa dos Perfíliev para lhes agradecer, verei Rees, farei compras, e se tiver terminado tudo e Diákov estiver pronto, partirei sexta-feira pela manhã. Adeus, querida, beijo para você e para as crianças.



Carta traduzida do espanhol

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