sábado, 4 de fevereiro de 2012

Memórias póstumas de um ridículo.


Manhã de sábado, 25 de maio. Ao primeiro sinal da aurora, inúmeros sentimentos cercam minha consciência. Mas um em especial me inflama a alma. Nossa! Quanto é doloroso um sentimento inflamando em nosso ser. Não é preciso um elevado grau de raciocínio para que alguém perceba meu estado, falta de amor próprio. Por isso, já faz um certo tempo que estou evitando sair de casa- são raras as vezes que assim o faço: quando preciso de cigarros ou comprar algum livro. Uma semana? Três? Me falha a memória.  Se bem que não é de hoje que sinto meu raciocínio delimitado. Onde foi parar o último sentimento de decência das pessoas? É o que penso enquanto lavo o rosto. Ora, e o que mais deveria pensar?   O jornal de ontem tinha como manchete a miséria de uma mãe desolada com o suicídio da filha. Seres imundos. Até que ponto vai o descaso pela dor alheia?  Jornais sensacionalistas provocam em minha alma o mais profundo repudio. Amanhã certamente, mas uma desgraça será estratégia de venda. Que seja, mas não sairá do meu bolso a menor quantia para essa escória. Hoje mesmo tratarei de cancelar minha assinatura desse medíocre jornal.

Subjugado por uma angústia incomensurável, me deixo levar por velhas lembranças. É sempre bom relembrar bons momentos- se bem que são raros os que merecem alfinetar meus pensamentos. São elas que me deslocam para um filme mudo, em preto e branco longe da multidão e de toda miséria impregnada no meu cotidiano. Tenho essa mania, ou neurose, não sei ao certo- sempre que estou caminhando respiro e dou cada passo como se estivesse sendo visto por uma plateia de curiosos. E pensando bem, muitas pessoas são assim, se vestem e passam horas na frente do espelho para chegarem nas ruas e se sentirem bem quistas. As pessoas são tão iguais que chegam a me causar náuseas. Que seja, não sou como eles, desde sempre eu pertenço a quem não me pertence. Todos são ridículos, todo eles, desde o padeiro, o comerciante ao chefe de estado. Todos são ridículos, acima deles somente eu. Sim! Em nada fere meu ego pensar minha pessoa como sendo a mais ridícula de todas. Afinal, sou o melhor no que faço de pior. Eu sou um delírio, sou uma piada sem graça e o mais gratificante de ser assim é que posso rir de quem rir de mim. Assim como Zaratustra tinha um monte, eu tenho o meu, tenho minha caverna de onde riu da tragédia da vida. Sei que muitos me qualificam como pessimista, que não acredito na mudança do mundo, mas é claro que ele mudou contudo continua inalterado. Nessa vida nada tenho com que ocupar-me em intervalos estimulantes me deixo levar pelo meu imaginário. Graças a ele ainda continuo sendo o mesmo suportando a velhice do meu espírito. De mais a mais estou convicto de minha loucura. Certamente ainda são poucos que estimam minha moral, porque sou ignóbil, em caráter e em espírito. Pouco me importa os devaneios alheios, em verdade tenho em mente que da vida poucos sabem o absurdo da existência.


Por Claudio Castoriadis

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