terça-feira, 21 de junho de 2011

Aprendendo desaprendendo

Onde as horas não passam VI


Bem agasalhada, dou início um passeio pela aleia junto ao muro da enfermaria. Um sol meio toldado me esquenta e reflete nas janelas intensificando as esculturas do jardim. Pássaros cantam e embelezam a vista. Todos estão eufóricos, hoje é dia de visita. Gosto de me sentir assim, centralizada sem expectativas nessas horas. Uma hora. Apenas uma hora é o tempo que todos tem para botar as ideias em dia para alguém próximo, abraçar um ombro amigo, e desaguar suas mágoas. Seja um parente ou um estranho. O importante agora é se sentir alguém. Ser lembrado, nem que seja por um camarada ou até mesmo por algum voluntário. Gosto deles, dos voluntários, não me importa seus motivos. Mas acho nobre quem doa uma parte de seu tempo para visitar pessoas largadas em uma espelunca como essa. Na ala feminina não sinto animo pela parte das garotas, já na masculina, a moçada não consegue disfarçar tamanha alegria. De todos os pacientes o que me chama mais atenção é o “espiga”. Ele fede a mofo, toda noite urina na cama, mas é o mais querido daqui. É como se fosse o mascote desta instituição. Ele anda como se pisasse em brasas; de todos é o mais peculiar. Com poucos dentes tem o sorriso sempre de uma ponta da orelha a outra. Realmente é uma figura carismática. Quem não se alegra com sua alegria? Mesmo com suas perturbações consegue contagiar a todos com sua alegria. De ala em ala vou me habituando a eles. Difícil não gostar de crianças envelhecidas. É assim que vejo todos e a este lugar, uma comunidade de crianças envelhecidas.

O primeiro dia que cheguei aqui não lembro, estava tão exaltada e fraca que me deram medicação o suficiente pra dormir dois dias. No terceiro dia acordei ludibriada em meio a várias camas e pessoas desconhecidas. Fui tomada por uma crise de pânico e tive que ser sedada novamente. Mas tudo ficou bem após horas e horas conversando com um psicólogo e assistente social. Só então a ficha caiu. Caiu no sentido de aprender a desaprender.  Tudo que a escola da vida me ensinou não é utilizável aqui. Todas minhas convicções e ideias foram abaladas. Noções do tipo realidade, amor, amizade, família, segurança. Tudo aqui é diferente. Como é doloroso esse processo que eu defino como aprendendo desaprendendo. Uma cruel ruptura que deixa uma péssima sensação de vazio. De quando em quando sentindo os estertores da morte em minha garganta, como um mal está depois de um vomito interminável. E pra ser bem sincera comigo, acredito que toda a educação que tive no decorrer de minha vida me jogou aqui de paraquedas, fraca, solitária, sem horizonte. “Viver é está com aqueles que não se pertence”. Está foi minha única convicção que não foi denegrida. Uma ideia que é bem aplicável não apenas aqui, mas que ultrapassa os muros desta prisão. Lá fora também é assim, vivemos com aqueles que não pertencemos. Desde que existe comunidade, existiu também essa bomba relógio na qual estão fincadas as bases de uma comunidade de indivíduos: o sentimento de medo que assombra todo aquele sujeito que pertence a quem não se pertence, apenas por buscar segurança no teto de um agregado de estranhos.

Ridículo e sem escrúpulos todo aquele que aliena as pessoas a pensarem dessa forma. É tudo mentira. Será que as pessoas nunca vão entender? Todo amor é amor próprio, por isso estamos sempre manipulando os outros expressando afetos que na verdade são uma estratégia para quem busca viver em comunidade. Com isso, é quase improvável um sentido de segurança duradouro e verdadeiro, visto que todos somos uma explosão de interesses. Dessa forma, pensar a sociedade ou comunidade como um corpo de pessoas com os mesmos interesses, é possível apenas quando o interesse primordial é a auto conservação. A respeito disso, o que realmente acompanha o termo comunidade é o sentimento de segurança e dominação pela parte dos fortes contra os mais fracos, é tudo uma grande piada para por sentido na máxima: “respeite o sistema”.   Se existe um sistema existe um ambiente. E nesse instante nós da clínica somos um tipo de ambiente - entulho do grande sistema. Um ambiente que cria um pequeno sistema que no fim das contas completa o sistema deles. É tudo tão patético, eles empurraram neuroses na cabeça de todos, alienaram cada cabeça desses miseráveis. Agora é bem mais fácil manter tudo no controle de forma lucrativa. Você cresce sofrendo pancadas, fica fraco, mais, ainda tem valia para o todo. Como? Enriquecendo as indústrias farmacêuticas do mundo, engrandecendo o ego dos fortes por existirem pessoas fracas e neuróticas, servindo de estética politica em época das grandes campanhas. É tudo um grande jogo. Um jogo onde pessoas inocentes estão perdendo, um jogo de merda onde as regras são: seja forte, seja humano, domine e destrua quem e quantos estiverem ao seu alcance. E os fracos? Que se danem. Os fracos cuidam dos fracos assim como os mortos cuidam dos mortos. É cada um no seu canto. Essa é a regra imposta pela massa aos fracos. Os retardatários serão sempre os últimos. O Filósofo Sartre já afirmava que o argumento empregado por eles contra a liberdade consiste em martelar em nossas cabeças nossa postura desfavorável. Seu argumento consiste em lembrar-nos de nossa impotência.

Neuroses? Megalomania? Digam o que disserem, está tudo acabado mesmo. O mundo agora cheira até as entranhas a mentiras. Nazistas, fascistas, democratas, socialistas, humanistas, falsos hipócritas no fim são todos farinha do mesmo saco. Todos querem poder. O sol está indo para seu lugar, a vida ainda é um milagre. Toda noite antes de dormir peço a Deus graça e coragem para continuar sendo eu mesma. Arrogante? Só quando necessário. Agressiva? Apenas pra me defender. Mentirosa? Pelo menos sou honesta quando não nego minha falsidade. De todos eu sou a pior? Que seja, pelo menos eu sei quem sou. O mundo é uma ferida e as pessoas estão se autodestruindo de maneira tão mesquinha. Carrego esse fardo todo santo dia. O fardo da honestidade. Mais também levo coisas boas em meus pensamentos. Pois é, tenho lembranças boas que ofuscam os maus pensamentos e isso me torna melhor e mais forte: Enquanto existir uma Amina, estará tudo aqui, quente e confortável em minha memória.  Espelho quebrado, barulho da televisão, um rosto junto ao meu, um velho sofá era minha diversão. Pouco dinheiro, vozes no quintal, era minha realidade. Minha maquiagem borrada por lágrimas, uma frequência, um lugar mal iluminado. Agraciada pelo canto dos pássaros o mundo parecia está sempre suspenso. É bem verdade que a mentira sempre me assolava. Porém, as dores do mundo aparentavam não existir quando minha referência era um sorriso bobo meio que angelical. Enfim, quase tudo se perdeu, mas alguma coisa ficou. Por isso eu tenho o que lembrar nas noites de frio, na solidão entre tantas camas em um quarto escuro abrigo de crianças envelhecidas.





Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)                
        Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

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