terça-feira, 27 de maio de 2025

Filosofia: um exercício constante de compreensão crítica da realidade


Como é amplamente sabido, o Ensino de Filosofia perdeu seu status de disciplina obrigatória no currículo do Ensino Médio a partir da promulgação da Lei nº 13.415/2017, no contexto da Reforma do Ensino Médio. Desde então, a Filosofia foi diluída e fragmentada no interior da área denominada Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CHSA), ao lado de Sociologia, História e Geografia. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por sua vez, incorporou a Filosofia como componente transversal, referindo-se a ela como "estudos e práticas", o que, na prática, significou uma desvalorização de sua presença enquanto campo autônomo de saber.

Com a implantação dessas mudanças, o que se observou foi uma expressiva redução da carga horária destinada ao ensino filosófico, comprometendo sua continuidade, sua profundidade e, sobretudo, sua legitimidade pedagógica. Muitos professores foram realocados ou perderam suas atribuições, e os estudantes passaram a ter um contato cada vez mais esporádico e superficial com as questões filosóficas que, historicamente, constituem o cerne de uma formação crítica, reflexiva e cidadã.

Diante desse cenário, faz-se necessário reafirmar a relevância da Filosofia na educação básica. A Filosofia não é um luxo acadêmico nem um ornamento intelectual. Ela é um exercício constante de questionamento, de argumentação e de compreensão crítica da realidade. Em tempos marcados pela desinformação, pelo pensamento dogmático e pelo avanço de discursos autoritários, a ausência da Filosofia nas escolas representa um grave retrocesso civilizacional.

Ao desvalorizar a Filosofia, negamos às novas gerações o direito de pensar por si mesmas, de questionar os fundamentos das normas sociais, de refletir sobre os dilemas éticos e políticos de seu tempo. Não se trata de mera tradição escolar: trata-se de uma exigência democrática.

terça-feira, 20 de maio de 2025

notas sobre um monólogo em horário comercial


(Ou: como escrever sobre si mesmo sem parecer um colapso em vias de acontecer— e falhar gloriosamente no processo )


I. Pré-condições para considerações Controladas.

Antes de mais nada, é importante reconhecer que falar de si mesmo é quase um esporte radical, um salto mortal em cima de um campo minado da autoimagem¹, onde o público é uma mistura de você mesmo (uma versão menos fotogênica e mais bem iluminada) e qualquer leitor disposto a encarar um epigrama apropriadanente místico que você oferece. Porque aqui está o problema: o “eu” não é uma entidade estática, nem um ponto fixo no mapa da identidade. É mais como um caleidoscópio pré-socrático com espelhos que mudam de lugar a cada olhar, um efeito de vídeo mal editado que insiste em repetir cenas antigas mas com filtros diferentes (e, claro, algum ruído de fundo que você tenta ignorar).²

Portanto, se eu disser “sou um primata" pós-moderno com circuitos emocionais defasados”, não espere uma definição clara — senta porque lá vem um espelho quebrado onde cada pedaço reflete uma fração do todo, mas nenhuma delas mostra a imagem completa. É onde eu argumento contra mim mesmo e tento criar um mundo no qual não fica claro quem está certo e quem está errado. E sim, estou plenamente consciente do quanto isso pode ser pendante. O que, talvez, seja a forma mais honesta de me aproximar de mim mesmo.  Se Jacques Derrida pudesse me interromper agora — e, sejamos francos, ele interromperia —, diria que toda vez que escrevo “eu”, na verdade convoco uma ausência. Não há presença plena no pronome. O sujeito é um rastro, uma dobra de linguagem. E quanto mais tento me capturar, mais escapo pela tangente do discurso. ³

¹ Obsessão por metáforas: salto mortal duplo aqui serve para ilustrar o quão arriscado pode ser tentar se apresentar no século 21, onde o esgotanento do conteúdo pessoal é inversamente proporcional à sinceridade percebida. Isso já foi estudado, em algum momento da nossa história, embora os resultados sejam inconclusivos, porque todo estudo sobre o “eu” é meio que uma farsa, dado que o “eu” muda conforme você olha para ele.

² Curiosidade interessante (para quem gosta de perder tempo): neurologistas afirmam que o cérebro não é exatamente um “computador” mas um sistema altamente dinâmico, com conexões que mudam constantemente, o que significa que sua “personalidade” é um bug, uma feature, e uma piada interna que você mesmo não entende.

³ Se isso parece deprimente, espere até chegar na seção do corredor.


II. O Outro Eu (Manual de Convivência com um Duplo Improvável)

(Ou: aquela criatura esquisita que habita sua mente e que parece um crítico literário sarcástico, sempre pronto para destruir seus planos de dominar o mundo com suas miçangas)

Imagine que dentro da sua cabeça não mora apenas uma pessoa, mas um apartamento inteiro com inquilinos distintos, cada uma com um diploma em retórica e um histórico clínico não resolvido. Entre eles, existe esse outro “eu”, uma entidade que ao mesmo tempo te conhece profundamente e te vê como um estranho esquisito tentando montar um móvel do IKEA sem manual. Ele (ou ela? Talvez um “isso”) aparece nos momentos mais inoportunos para dizer: “você realmente quer escrever isso?”, ou “essa frase é tão pretensiosa que dói”, ou simplesmente “vai dormir, cara, é 3h da manhã e ninguém precisa ler isso”.⁴ E o mais bizarro é que esse duplo às vezes escreve bilhetes — ou pensamentos — que você encontra mais tarde no seu “arquivo mental de coisas embaraçosas” (aquele lugar onde você guarda as piores versões de si mesmo para revisitar em noites insones)

⁴ Nota para futuros psicólogos: o diálogo interno pode ser tanto um instrumento de autossabotagem quanto o único recurso contra a dilaceração da consciência. Tem gente que fala com esse “outro eu” em voz alta. Eu prefiro que ele fique calado, sossegado, mas ele não respeita a minha preferência, o que gera conflitos de convivência mais ou menos como dividir apartamento com um Poltergeist. 

Além disso, esse outro eu às vezes desenvolve um humor tão seco e ácido que poderia ganhar prêmios em festivais de stand-up. Ele sabe dos seus gatilhos, os pequenos fracassos que você tenta esconder do mundo — e, claro, o mais importante: sabe que você sabe que ele sabe, o que cria uma espécie de fogo no parquinho que é ao mesmo tempo necessário e cômico.⁵

⁵ Teoria da conspiração fenomenológica:

esse outro eu é a versão da sua consciência que lê seus escritos antigos e riu de você por horas seguidas, antes de decidir que talvez mereça um pouco de compaixão — mas só um pouco. De qualquer forma, a utilização da expressão “diálogo interno” parece mais precisa do que “monólogo interno”, uma vez que a primeira já aponta para a divisão do sujeito. Um diálogo também no sentido de haver emissor e receptor e de se ter um endereçamento, mesmo que isso se dê na tecitura psíquica do próprio sujeito. Nesse ponto, vemos os efeitos do “anzol da linguagem”, invadindo nosso corpo e produzindo costuras.

III. Topografia do Absurdo: Um Guia para o Viajante Desatento

Se você acha que sua mente é uma linha reta com começo, meio e fim, parabéns, você não mora dentro do meu cérebro. Aqui, a topografia é um terreno acidentado cheio de crateras de desconfiança, montanhas de procrastinação e florestas onde se perde qualquer noção de tempo e espaço. Eu gosto de pensar que minha rotina é um exercício de equilíbrio entre idiotice performática e hedonismo de leve — o que significa que, quando me perguntam “tudo bem?”, minha resposta padrão (que é “crédito”) é um código secreto que, se decifrado, revela: “não faço ideia do que está acontecendo, mas obrigado por perguntar”.⁶

⁶ Ponto extra: “crédito” aqui é um neologismo pessoal para expressar uma combinação meio confusa de “ok, estou mal, mas não quero admitir”, “não quero que você pergunte de novo”, e “me deixe em paz”. Se quiser tentar usar, cuidado, pode causar confusão social severa.

Além disso, essa topografia absurda é atravessada por estradas feitas de dúvidas recicladas e uma pitada de cinismo que serve como protetor solar contra expectativas sociais. Imagine uma zona de conforto que é um parque temático emocional, mas com as atrações principais sendo montanhas-russas de culpa e rios artificiais de alívio cínico — com direito a filas intermináveis e vendedores ambulantes oferecendo promessas vazias.⁷

⁷ Curiosidade filosófica: O absurdo não é um estado transitório, mas a matéria-prima fundamental da experiência humana, e tentar fugir dele é como tentar nadar contra a maré do seu próprio pensamento Ou, como diria Camus, você pode escolher imaginar o absurdo como um problema, ou como um parque temático — eu fico com o parque.

IV. O Corredor (Apontamentos para um Inventário Imaginário)

(Ou: aquele lugar proibido, cheio de móveis quebrados, sombras e promessas não cumpridas — onde moram os fantasmas que você prefere ignorar)

Existe uma ala na arquitetura interna onde se acumulam os resíduos da consciência. Chamo de corredor, por falta de termo melhor. É mais uma zona de armazenamento emocional mal gerenciada. Dito isso, há um corredor na minha mente — não no sentido físico, claro, mas num sentido que escapa a qualquer mapa cognitivo clássico. É um corredor escuro, com cheiro de mofo emocional e paredes que reverberam ecos de todas as versões tristes de mim mesmo. Ali, guardo brinquedos quebrados, latas vazias, promessas desfeitas e um arsenal de medicamentos com nomes impronunciáveis, que prometem alívio e entregam efeitos colaterais que são histórias de terror por si só.⁸

⁸ Nota para os fãs da Carrie, a Estranha:  esses remédios são o tipo de coisa que parece ter sido nomeada por um bot tentando parecer humano. Se você já tentou pronunciar “quetiapina” numa roda de amigos, sabe do que falo.
A luz desse corredor vem de um abajur com detalhes vitorianos, que projeta sombras indecentes nas paredes — tipo holofote num palco onde ninguém quer atuar, mas todo mundo está preso. E eu fico ali, estirado no chão frio, encarando o abajur e as formas distorcidas das memórias e sentimentos que tento enterrar, sabendo que eles sempre voltam.⁹

⁹ Pensamento maluco do dia: e se o corredor for o lugar onde o tempo não passa, porque ali mora a eternidade dos momentos que você quer esquecer? Isso explicaria por que, às vezes, sentir saudade é como ser assombrado por fantasmas que você mesmo alimentou.

V. A Madrugada é um Bicho com Relógio Quebrado

(Ou: quando o tempo vira uma espécie de liquefação temporal, onde os pensamentos escorregam como óleo, e você é obrigado a encarar a si mesmo sem intervalos comerciais)

A madrugada não é um momento comum — é um espaço-tempo diferente, um tipo de buraco negro psicológico onde o relógio quebra e o tempo vira uma espiral interminável. As horas parecem se repetir num looping infinito, e os pensamentos pipocam como fogos de artifício em câmera lenta, brilhando intensamente antes de desaparecer na neblina da memória.¹⁰

¹⁰ Nota para insônia: esse estado mental é o playground oficial dos poetas malucos, dos paranoicos anônimos, dos sonhadores frustrados e dos algoritmos que decidem que é hora de bombardear seu celular com anúncios de coisas que você pesquisou há seis meses (mas jurou que nunca compraria). Se quiser entrar nesse clube, leve seu próprio travesseiro e prepare-se para noites sem fim.

Falar consigo mesmo nesse horário é mais que uma necessidade — é um imperativo categórico da condição  existencialista. O silêncio é um monstro que devora a sanidade, e a única forma de sobreviver é continuar falando, mesmo que seja para um interlocutor imaginário que você sabe que não tem respostas.¹¹ Talvez essa incapacidade de desligar o diálogo interno seja a verdadeira problemática do “eu”: a consciência como um bicho inquieto, que não consegue se calar e que, por isso, nunca descansa.

¹¹ Reflexão final: se a consciência fosse um interruptor, provavelmente estaria quebrado. E se você desligasse a consciência, quem estaria ali para testemunhar o silêncio? Spoiler: ninguém. Talvez por isso a madrugada seja tão assustadora — não pela escuridão, mas porque ela revela que a verdadeira solidão é estar preso dentro da própria cabeça, sem pausa e sem replay.




sábado, 19 de abril de 2025

você sabe o que está acontecendo aqui


O garoto, sempre em silêncio, raramente se movia, mas sua presença era mais palpável do que a de qualquer coisa ao redor. Ele não ocupava o lugar como os outros — ele infiltrava-se nele. Seu corpo magro parecia ser apenas uma fachada para algo imensurável. Não havia idade em seus traços. Ele poderia ter cinco ou cinquenta anos. E seus olhos… bem, seus olhos não estavam ali.

Ele observava tudo, mas não dizia nada. E, por algum motivo que eu não compreendia, sentia que ele me via não com os olhos, mas com a mente. Não como quem pensa, mas como quem respira. Pensamentos intrusivos? Uma mente imensa, silenciosa e estilhaçada, conectada à minha por vias que nenhum teorema quântico seria capaz de nomear.

 Às vezes, sua presença dentro de mim era tão forte que eu não sabia mais se os pensamentos eram meus. Por meio de alusões entrecortadas, ele era a respiração entre uma ideia e outra — uma inquietação sem origem, que me atravessava como uma lâmina de gelo. Eu pensava em coisas que não entendia. Coisas que ninguém deveria pensar.

E então havia Mawilda. Mawilda falava.

Oh, como ela falava. Cada frase era uma onda lenta e pesada, arrastando em seu fluxo séculos de significados esquecidos. Havia em sua fala um ritmo inatingível — como se ela estivesse traduzindo uma escritura antiga que não pertencia a este plano. Quando ela falava, o tempo parecia hesitar. Suas palavras não eram frases, mas mantras. E, se eu não tomasse cuidado, elas abririam portas dentro de mim.

O vestido caía-lhe até os pés, feito de um tecido verde áspero, semelhante ao morim tingido, mas com um brilho estranho — como se tivesse sido entrelaçado com fibras vegetais.  Havia algo de orgânico naquele tecido, como se respirasse com ela. A cintura, mais alta que o comum, parecia marcar não apenas a forma do corpo, mas um ponto vital — onde algo se concentra ou desperta. Um cinto de palha lisa a envolvia com firmeza, e dele partia uma faixa larga, cruzando em diagonal o seio e o ombro direitos, descendo pelas costas com a precisão de um gesto ritualístico. Havia nesse traçado uma gravidade mística, como se cada linha vestisse não apenas a carne, mas um sentido oculto, uma pertença a algo maior.

Seus olhos buscavam em mim algo que nem mesmo eu sabia que possuía. Não era atenção — era reconhecimento. Pertencimento. Ela me olhava como quem observa uma cicatriz hebraica num mapa esquecido, esperando que eu lembrasse do que estava enterrado ali. Às vezes, sentia que ela falava não para mim, mas por mim através de mim, como se minha boca fosse apenas um extensão do que se arrastava na escuridão.

“Você entende o que está acontecendo aqui?”, ela me perguntou certa vez, com aquele sorriso enigmático de quem não só conhece os segredos do universo, mas já os abandonou por pura indiferença.

Eu não sabia. Não, eu não sabia.

Mas, à medida que o tempo se desfiava em fragmentos dissonantes, a presença deles se tornava insuportável. Eu não podia mais distinguir onde terminava minha mente e onde começava a deles — se é que havia essa diferença. Em certos momentos, eu sentia como se meu corpo fosse apenas uma interface, uma casca frágil entre dimensões em colisão. Uma pele fina demais para conter aquilo que a tocava por dentro.

Via-os em toda parte. No vidro, no canto do quarto, nas dobras do lençol. Mas sempre à margem do meu campo de visão. Quando olhava diretamente, nada — como se fossem sombras de coisas que não pertenciam ao visível. E, no entanto, sua influência me moldava. Sentia-a nos gestos mais simples, nas palavras que escolhia, nas decisões que não sabia se eram realmente minhas.

“Você entende o que está acontecendo aqui?”, perguntou Mawilda novamente, com a voz de um segredo ancestral, as feições convulsionadas, mostrando as lágrimas escorrendo, em grossos fios dos rasgados e assaz olhos que se arrastava pelo fase como um veneno lento.

Comecei a perceber símbolos. Apareciam nas bordas dos espelhos, riscados nas mesas, gravados nos meus sonhos: círculos incompletos, espirais quebradas, linhas que desafiavam a lógica. Sentia que os reconhecia, como se fossem fragmentos de uma língua esquecida, anterior à linguagem. Como se eu fosse apenas um eco distante de algo que jamais deveria ser compreendido.

Mawilda me entregou um papel com um desses símbolos. Não explicou. Apenas me olhou, e naquele olhar havia algo definitivo: você sabe o que está acontecendo aqui

sexta-feira, 18 de abril de 2025

O segredo do coelho na cartola


"A mente é seu próprio lugar e pode fazer do inferno um paraíso, e do paraíso um inferno."
— John Milton, Paraíso Perdido


Serenidade — ou uma apatia em delírio?
Essa, é claro, é uma pergunta que começa e termina em segredo — um circuito fechado onde cada minuto traz consigo o risco de um novo aforismo prestes a ser demolido, uma nova queda. A cada instante, uma oscilação: ora abismo, ora névoa. Nada mais próximo de um turbilhão do que de qualquer ideia de clareza.

O que seria mais insidioso: essa apatia que corrói de modo imperceptível, como o mofo que se infiltra pelas frestas da alma, ou a serenidade que se instala como um véu diáfano — inútil e ornamental — sobre um vazio inominável? Às vezes, sinto-me como uma marionete de fios puídos, prestes a se romper, mas que ainda assim... continua em cena, obedecendo a coreografias que ninguém mais assiste.

Pergunto-me: como manter a inteireza quando tantas presenças — espectros, fragmentos, memórias — golpeiam os portões da minha mente, exigindo entrada? Ou, quem sabe, já tendo se alojado sem que eu percebesse? Elas não apenas sussurram — elas urram. E, no entanto, falam todas a mesma língua: a linguagem crua do sofrimento, que dispensa tradução.

Esta é, talvez, a minha condição mais autêntica: ser o eco dissonante de vozes que se entrechocam, se confundem, se devoram. Um ruído branco onde cada som quer ser o último.
A montanha das criaturas — confinadas numa caixa de fósforos.

Gosto de imaginar o mundo como uma mágica encantada, a mais fascinante de todas. Vivo tentando decifrar seus truques, mesmo sem conhecer o macete do coelho na cartola. Mas temo afogar-me nas verdades que ele esconde com tanto zelo. E se houver uma verdade? Uma só, absoluta, origem e sustento de todas as coisas? Ainda assim, creio que ela se tornaria indesejável tão logo lhe arrancássemos o véu, tão logo quebrássemos suas máscaras — e são tantas, são inúmeras… Até o que chamamos de “verdade” se desfaz quando se coloca sob a pressão de uma mente que tenta, e falha, em compreendê-la.

É difícil nomear o sentimento que nos invade quando somos lançados no abismo do novo — esse território hostil por ser estranho, esse lugar onde a alma tropeça em sua própria sombra. Seria por isso que me encontro neste cemitério anacrônico?

O que pensar da vida neste instante? Talvez, uma lúdica tragédia que consome meu ser a cada amanhecer.
Paciência, disseram-me. A primeira vez é sempre assim.
Esperamos tanto da vida… e ela, em sua glória muda, nos oferece um vasto campo de promessas:
A possibilidade de um lar risonho, uma casa em meio ao silêncio do campo, filhos que brotam como flores, vizinhos cordiais, reconhecimento em um ofício digno, amigos fiéis, festas que dançam na memória, finais de semana serenos, um jogo que nos arranca sorrisos, uma pessoa bela que passa ao acaso, uma refeição que conforta, um livro que transforma, uma conversa que acolhe, um inverno de lembranças, um jardim exuberante, uma companhia desejada, uma poesia que toca a carne da alma, uma pintura que abre janelas no olhar, uma caminhada sem pressa, uma noite de sono que cura, ou até o prazer triste e silencioso de um cigarro solitário.
Sim, nossa existência tem fome de ser. Fome de existir mergulhada em possibilidades.
Mas… e quando tudo perde o sentido?
Quando tudo para. Onde assentamos a alma? Como consolamos o pranto? Onde refrigera o querer? Em que instante deixamos de ser?

Talvez seja quando as perspectivas se apagam. Quando tudo se esgota com a violência de um perfume que evapora. Quando a vida perde seu aroma, seu sabor, sua razão. Nesse momento deixamos de ser — e nossas escolhas tornam-se sombras. O espírito envelhece. Vagamos no vale do esquecimento.

Saímos de um labirinto apenas para adentrar uma caverna tosca, fria, silenciosa. Um quarto. Um asilo. Último abrigo. Um corpo sem órgãos. 
Ali o tempo rasteja. Os minutos tornam-se eternos. E ninguém vê nossa existência definhar, caminhando sem rumo, como um espectro errante.

Demônios.
Sim, eles existem. E caminham entre nós.
O mais irônico é que um deles parece ter escolhido este asilo para passar férias.

Desde minha chegada, os sinais não cessam: ruídos inexplicáveis, luzes que se acendem sozinhas, temperaturas que caem subitamente, objetos que se movem sem toque, sombras dançantes, vozes que não vêm de lugar algum.
Acontecimentos estranhos, violentos — arruaças paranormais, como costumo dizer.

Mas qual seria o sentido de tanta perturbação?
Seria desabafo, vingança, ressentimento de almas condenadas a vagar?
Faz sentido. Afinal, quem gostaria de viver no inferno?

"Não há doutrina que eu removeria com mais prazer do cristianismo do que essa, se eu tivesse o poder. Mas essa doutrina tem pleno apoio das Escrituras — e sobretudo das palavras do próprio Senhor."
— C. S. Lewis

Dante, o florentino, imaginou o inferno em nove círculos que se afundam como espirais na dor. Um lugar onde as almas sofrem, suspensas entre o mundo da matéria e o da imaterialidade.
Hades, para os gregos. Inferno, para os cristãos.
Sempre um lugar de suplício.

Alguns creram em um inferno temporário, uma espécie de purgatório decadente, uma hospedaria sombria de onde a alma poderia sair, redimida.
Mas tudo isso pouco importa agora.
Só espero que este asilo não se transforme na Abadia de Borley — o lugar mais assombrado da Inglaterra, onde, dizem, ouvia-se uma música fúnebre entre as paredes, e um monge morto ainda caminhava pelo átrio.

Desejo para este lugar um destino menos grotesco.
Pacientes dormindo em paz, longe do incômodo de entidades desocupadas.
Mas as clínicas carregam energias pesadas.
As pessoas fingem não perceber — nisso são especialistas.

Comigo é diferente.
Não estou aqui para fingir.
Tenho um dom: mandar demônios vagabundos de volta para o inferno.

Curioso… posso ser uma mulher comum, escondendo um monstro nos porões da alma — ou uma neurótica elegante, vestida de camisa de força.
Tudo faz parte do jogo.

Às vezes, sinto a morte em minha garganta — como o enjoo que vem depois de vomitar o próprio abismo.
A vida não me lançou aqui por acaso.
Fraca, solitária, sem rumo — foi exatamente aqui que Mawilda e seu irmão me colocaram para o meu primeiro trabalho.
Depois de anos mergulhada em teoria, era chegada a hora da prática.

04:30 da manhã.
Bem agasalhada, caminho pela aléia junto ao muro da enfermaria.
O sol, ainda pálido, aquece as janelas, refletindo as esculturas do jardim.
Pássaros cantam.
O dia é belo.
Atravesso um pequeno jardim — encantador, com suas flores despertas pela estação.
Mas estou exausta.
Ainda terei algumas horas de sono.
E mais tarde, talvez, encontrarei minhas crianças imaginárias — e mandarei um demônio de volta para onde nunca deveria ter saído.

"Já mandou alguém para o inferno?"
Essa pergunta ecoa.
Ressoa no crânio como um sino invisível.
Ainda tenho dúvidas. Minhas dúvidas…

Olho em volta.
Um nevoeiro tênue cobre a clínica.
Ouço, ao longe, as conversas dos funcionários e dos pacientes.
E então, pela lateral, vejo Mawilda, de mãos dadas com o irmão.
Acenam para mim.

Meus garotos.

O que seria de mim sem vocês?
Cheguei aqui desorientada, com cinzas no lugar do coração — e descobri que posso ser outra, levando o fogo dos meus olhos para queimar os fantasmas do mundo.

Algo me diz que, esta noite, terei uma conversa importante com um certo demônio.



Claudio Castoriadis 















quarta-feira, 16 de abril de 2025

Chris Martin : uma fala necessária


Em sua recente passagem por Hong Kong, o vocalista do Coldplay, Chris Martin, rompeu o véu do silêncio que ainda paira sobre uma das maiores questões do nosso tempo: a saúde mental. Por meio das redes sociais da banda, ele compartilhou não apenas um testemunho pessoal, mas um gesto de coragem — desses que, embora simples na forma, ressoam com profundidade em um mundo cada vez mais ansioso e fragmentado.

No vídeo publicado no Instagram, Martin fala abertamente sobre a depressão, esse mal silencioso que atravessa fronteiras, classes e biografias. Ao revelar as práticas que o têm auxiliado a lidar com o sofrimento — não só o seu, mas também o de pessoas queridas —, ele transforma a experiência íntima em espaço de acolhimento coletivo. Em um tempo em que a performance da felicidade é muitas vezes exigida como norma, o ato de expor a própria vulnerabilidade se converte em resistência.

O gesto de Martin convida à reflexão: quantos ainda vivem o sofrimento em segredo, enclausurados pelo estigma? E quantas vozes, como a dele, poderiam iluminar caminhos de escuta, cuidado e reconexão com aquilo que nos torna humanos?

Em um mundo onde a dor costuma ser silenciada pelo ruído da produtividade e do entretenimento, ouvir alguém como Chris Martin falar com honestidade sobre a própria vulnerabilidade é um lembrete de que a arte, quando atravessada pela experiência vivida, pode ser mais do que espetáculo: pode ser cuidado. Não se trata de endeusar figuras públicas, mas de reconhecer que certas vozes — quando autênticas — têm o poder de abrir frestas no tecido endurecido do cotidiano.

Por Claudio Castoriadis 
Imagem: Claudio Castoriadis 

filosofia da mente e Teoria do conhecimento

A filosofia da mente constitui uma vertente da filosofia analítica que se consolidou ao longo do século XX, impulsionada pelo interesse crescente em questões como a consciência, a intencionalidade, a identidade pessoal e a relação mente-corpo. Influenciada pelos avanços nas ciências cognitivas, na neurociência e na linguística, essa área filosófica busca elucidar os fundamentos da experiência mental, bem como os processos que possibilitam o pensamento, a percepção e a linguagem.

Tal investigação está intrinsecamente relacionada à teoria do conhecimento, na medida em que a compreensão dos estados mentais — como crenças, desejos, intenções e percepções — é essencial para a análise da natureza do saber, da justificação e da verdade. A epistemologia contemporânea, ao dialogar com os desenvolvimentos da filosofia da mente, passou a considerar com mais profundidade os mecanismos cognitivos e os contextos mentais nos quais se dá a aquisição e a validação do conhecimento.

Filósofos como Ludwig Wittgenstein, Hilary Putnam, Daniel Dennett e John Searle figuram entre os principais interlocutores desse debate, oferecendo críticas ao dualismo cartesiano e propondo abordagens alternativas — como o materialismo, o funcionalismo e o emergentismo — que integram a análise da mente ao estudo epistemológico, superando dicotomias clássicas entre sujeito e objeto, mente e mundo.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Freud e Dostoiévski: considerações sobre a religião



Sigmund Freud afirma : “Deus é uma ilusão infantil” (Freud, 1927, p. 137). Essa sentença inscreve-se no cerne de sua concepção antropológica: a religião não é produto da razão, mas da necessidade psíquica. Em O futuro de uma ilusão, Freud interpreta a crença religiosa como uma projeção dos desejos inconscientes do ser humano - o anseio por proteção e segurança. Uma estrutura simbólica que dialoga com o inconsciente.  Nesse processo, conflitos mal resolvidos na infância — especialmente os ligados à figura paterna — ressurgem sob novas formas simbólicas. A religião, nesse sentido, funciona como um substituto da figura "paterna".

Encontramos em Freud a origem da religião atrelada ao inconsciente. Em Totem e tabu, Freud propõe a hipótese de que a religião, a moral e as instituições sociais derivam do complexo de Édipo, núcleo fundamental da estrutura psíquica. O assassinato do pai primordial, seguido pelo arrependimento e a sacralização de sua figura, constituiria o mito originário da civilização. Dessa forma, a religião não seria um sistema racional de crenças, mas uma elaboração simbólica de culpas e desejos reprimidos.

Nesse contexto, a literatura de Fiódor Dostoiévski surge como uma contraposição intespetiva . Em obras como Os irmãos Karamázov, o autor russo dramatiza, de forma profundamente psicológica, o emaranhado entre fé e razão, liberdade e responsabilidade moral. O célebre argumento de Ivan Karamázov — “Se Deus não existe, tudo é permitido” — antecipa, de certo modo, as angústias que Freud exploraria no âmbito da psique moderna. Para Dostoiévski, a ausência de Deus pode conduzir não à libertação, mas ao vazio moral e à desintegração interior. Quem já leu os demônios, certamente encontrou essa teoria no pensamento do escritor russo. Freud, por sua vez, via a renúncia à ilusão religiosa como uma etapa dolorosa, porém necessária, no amadurecimento psicológico do indivíduo.

A provocação freudiana, portanto, não reside apenas na negação de Deus, mas na desnaturalização da religião como fenômeno humano. Freud desloca o eixo da discussão teológica para o terreno da psicologia, questionando não apenas o conteúdo das crenças, mas as motivações inconscientes que as sustentam — enquanto Dostoiévski, por meio da literatura, explora as consequências existenciais dessa perda de transcendência.

Fica a reflexão 

Claudio Castoriadis 

sábado, 12 de abril de 2025

Literatura : um campo em constante disputa e reformulação teórica.

O conceito de literatura apresenta um elevado grau de complexidade, abrangendo uma multiplicidade de abordagens teóricas que variam de acordo com os contextos histórico-culturais e os recortes metodológicos adotados. Em certas perspectivas, privilegia-se a dimensão formal da linguagem literária, valorizando aspectos como estilo, estrutura e recursos expressivos, em detrimento de suas funções sociais ou históricas. Nesse sentido mais abrangente e inclusivo, literatura pode ser entendida como o conjunto de textos impressos — uma definição que engloba indiscriminadamente todos os livros presentes em uma biblioteca, independentemente de seu conteúdo ou valor estético.

Contudo, essa concepção ampla encontra resistência em correntes críticas que procuram delimitar o campo literário a partir de critérios específicos. Para Eagleton (2006), literatura não pode ser definida por propriedades intrínsecas do texto, mas pela forma como determinados discursos são legitimados social e historicamente como “literários”: “a literatura é, antes de tudo, uma categoria culturalmente construída, cuja definição depende do contexto institucional que a nomeia” (EAGLETON, 2006, p. 9). Essa abordagem desloca o foco da essência textual para os mecanismos de consagração e validação cultural.

Em outra perspectiva, Barthes (2004) concebe a literatura como uma prática discursiva que se caracteriza por subverter o uso habitual da linguagem, instaurando um regime próprio de significação. Para ele, “a literatura é a linguagem carregada de sentido, não porque diz algo, mas porque é, antes de tudo, escrita” (BARTHES, 2004, p. 48). A ênfase aqui recai sobre a materialidade da linguagem e sua potência simbólica.

Há, ainda, abordagens que associam a literatura à sua função estética ou ficcional. Jakobson (1973), por exemplo, considera a função poética como definidora da linguagem literária, na medida em que esta foca na mensagem em si, explorando a forma do signo e sua organização interna. Nesse sentido, a literatura se distingue de outros discursos por sua vocação estética e pelo trabalho formal sobre a linguagem.

Dessa forma, a definição de literatura oscila entre concepções essencialistas e construções socioculturais, revelando-se como um campo em constante disputa e reformulação teórica.

Claudio Castoriadis 

Referências:

BARTHES, Roland. O grau zero da escrita. São Paulo: Nacional, 2004.

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1973.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Nietzsche, a fragmentação do pensamento e o destino da filosofia


Ao final de sua vida, Friedrich Nietzsche encontrava-se irreconhecível. Seu olhar, vazio e distante, parecia habitar uma esfera inacessível, alheia ao mundo dos homens e das convenções. Essa imagem trágica, muitas vezes romantizada ou patologizada, remete simbolicamente ao mito órfico de Dionísio, o deus dilacerado pelos Titãs, cujos fragmentos dispersos viriam mais tarde a ser recombinados em uma nova totalidade. A analogia com o filósofo alemão não é gratuita: sua obra, ao longo do tempo, passou por um processo semelhante de desmembramento e reaproveitamento, sendo reiteradamente reconstituída por discursos ideologicamente divergentes, muitas vezes em flagrante contradição com suas intenções filosóficas.

A crítica nietzschiana, fundamentada na genealogia dos valores e na desconstrução dos fundamentos metafísicos da tradição ocidental, propõe-se a um duplo movimento: desvelar os pressupostos histórico-morais que sustentam nossas crenças e abrir espaço para a emergência de novos modos de existência. O martelo filosófico, por ele mobilizado como instrumento diagnóstico, não visa à pura destruição, mas à auscultação dos ídolos — uma crítica imanente à cultura, à moralidade, à linguagem e, sobretudo, à razão moderna. No entanto, a complexidade e a ambivalência de seu pensamento tornaram-se alvo de reduções indevidas: Nietzsche foi apropriado por projetos autoritários, como o nazismo, que instrumentalizaram sua noção de "vontade de poder" e sua crítica à compaixão, ignorando o contexto estético e trágico que atravessa sua filosofia.

Essas deturpações, por mais graves que sejam, não surpreenderiam o próprio Nietzsche, que anteviu o destino ambíguo de sua recepção. Em *Ecce Homo*, ele afirma: "Um dia não quererão compreender-me — que me importa?". Sua escrita, marcada por aforismos, metáforas e intertextualidades múltiplas, resiste deliberadamente à sistematização. Sua intenção não era oferecer doutrinas definitivas, mas provocar deslocamentos no pensamento, abalar certezas, introduzir o trágico no campo da filosofia. Nesse sentido, pensar com Nietzsche exige abandonar o conforto das verdades estabelecidas e enfrentar a instabilidade que constitui a própria condição humana.

O núcleo estético de sua filosofia revela-se nesse gesto: a vida, mesmo em sua dimensão mais dolorosa, pode ser justificada enquanto obra de arte. Trata-se de uma reabilitação do trágico, que não elimina o sofrimento, mas o sublima, conferindo-lhe sentido e forma. Nietzsche não nega a dor; antes, propõe a sua transfiguração. Essa é, talvez, sua contribuição mais original e perturbadora: afirmar a vida não apesar do sofrimento, mas com ele — e por meio dele.

Sua loucura final, longe de ser mero colapso, pode ser interpretada como desfecho simbólico de uma trajetória levada ao extremo. À semelhança de Hölderlin, outro pensador atravessado pela chama do absoluto, Nietzsche parece ter ultrapassado os limites da razão discursiva em direção a uma forma de lucidez que a própria linguagem já não comporta. Resta aos leitores contemporâneos não apenas interpretar seus escritos, mas assumir a tarefa que ele legou: a de pensar contra os dogmas, de criar conceitos, de afirmar, mesmo entre ruínas, a potência da existência.

Claudio Castoriadis 

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Pensar é Inventar: A Filosofia como Arte de Criar Conceitos

Há um movimento silencioso, quase imperceptível, que conduz a história do pensamento: um vai e vem constante, como as marés. É nesse fluxo que Gilles Deleuze situa sua reflexão filosófica, desafiando a tradição e reposicionando a função da filosofia em seu tempo. Longe de concebê-la como mera contemplação ou repetição, Deleuze propõe: “Filosofia é a arte de formar, inventar, fabricar conceitos.” Eis aí não apenas uma definição, mas uma convocação à criação.

Essa formulação aponta para uma virada: a filosofia deixa de ser o lugar do eco e torna-se o terreno fértil do inédito. Junto a Félix Guattari, Deleuze traça um plano de imanência para o pensamento, onde criar é mais do que uma possibilidade — é uma necessidade vital. Pensar, nesse contexto, não é reconstruir o que foi dito, mas fazer emergir novos modos de ver e nomear o mundo.

A filosofia contemporânea francesa encarna essa ruptura criativa. Em Sartre, Foucault e Derrida, encontramos modos distintos de lidar com a tradição, não como herança inquestionável, mas como campo de tensões e possibilidades. Neles, o passado filosófico não é peso morto; é matéria viva, a ser dobrada, tensionada, transformada.

Pensar, então, é reabrir caminhos. Não se trata de ignorar os filósofos, mas de ouvi-los com ouvidos novos — não para repetir, mas para relançar a pergunta filosófica no presente. A criação de conceitos é, nesse sentido, um gesto de liberdade. Cada conceito criado é uma lente singular, uma abertura no tecido do real, uma forma de habitar o mundo.

A atividade filosófica, como criação, nos descola do dado, do já estabelecido. Ao reinventar conceitos, reinventamos também nossas práticas de existência. A história da filosofia, longe de ser um museu de ideias, torna-se um índice — um ponto de inflexão a partir do qual o pensamento pode, mais uma vez, se tornar ato.

Talvez seja essa, afinal, a tarefa do filósofo: transformar o mundo à medida que o pensa.

sábado, 29 de março de 2025

Emmanuel Levinas: a ética como responsabilidade incondicional

Emmanuel Levinas é amplamente reconhecido como um dos maiores filósofos da ética do século XX. Discípulo de Edmund Husserl, seus primeiros estudos e publicações, iniciando com sua tese de doutorado em 1930 sobre o papel da intuição na obra de Husserl, foram dedicados à interpretação dos ensinamentos do fundador da fenomenologia. Essas obras refletem sua profunda dívida intelectual para com Husserl, influência que moldou significativamente sua trajetória filosófica. No entanto, embora Levinas partisse do pensamento husserliano, em questões cruciais sua abordagem se distanciava, chegando mesmo a se opor à de seu mestre.


O que Levinas herda de Husserl, antes de tudo, é a redução fenomenológica, que ele descreve como um "ato de violência que o homem impõe a si mesmo para reencontrar-se como puro pensamento". Essa técnica fenomenológica não apenas ofereceu a Levinas um método de investigação filosófica, mas também um impulso para explorar uma intuição filosófica que antecede e molda qualquer filosofia da intuição (LEVINAS, 1970).

Embora, em muitos aspectos, Levinas se posicionasse em oposição a Husserl, utilizou a metodologia do mestre para reafirmar a autonomia do mundo em relação ao sujeito. Para ele, o sujeito não é um criador absoluto, como um Deus, mas alguém que assume a responsabilidade pela alteridade do mundo. Além disso, se para Heidegger o Ser era, desde o início, um "ser-com", para Levinas, ele é essencialmente um "ser-para". O eu se constitui no reconhecimento de sua responsabilidade para com o Outro, revelando, assim, sua própria insuficiência como mero ser-com.

A partir da redução fenomenológica de Husserl, Levinas desenvolveu uma investigação sobre uma "ética pura", ou seja, uma ética absoluta, primitiva e independente de influências externas. Ele buscava um significado ético essencial, que tornasse possíveis todos os outros significados, mas que também os questionasse e avaliasse. Curiosamente, ainda que sustentasse que a ética interrompe a fenomenologia, Levinas também afirmava que essa interrupção é, paradoxalmente, parte do próprio cerne fenomenológico.

O último estágio da redução fenomenológica, segundo Levinas, é a alteridade: a irredutível exterioridade do Outro, que desperta o eu para suas responsabilidades éticas e, assim, contribui para o nascimento da subjetividade e da sociabilidade. No mundo socialmente construído, no qual o ego está imerso, há uma tendência a reduzir a abertura infinita do ser-para a um conjunto de normas e proibições fixas.

Levinas seguiu Husserl na busca pelas "coisas em si", mas reinterpretou essa busca como uma investigação da essência da ética. Ele encontrou essa essência no extremo da redução fenomenológica, ao "colocar entre parênteses" tudo o que é acidental, contingente ou derivado da experiência mundana. Assim como Husserl elaborou um inventário das constantes da consciência, Levinas fez um inventário das constantes da existência moral e das relações éticas, delineando os traços fundamentais que sustentam toda moralidade.

Dentre as categorias fundamentais do pensamento levinasiano, destacam-se "O Outro" e "o Rosto". Embora esses termos possam parecer genéricos, cada encontro moral se dá com um ser único, irrepetível. No extremo da redução fenomenológica, a alteridade do Outro equivale à sua unicidade: cada Rosto é singular e desafia a impessoalidade das normas universais.

Essa singularidade radical do Outro torna irrelevantes muitas das preocupações cotidianas do ser humano – como a busca por sobrevivência, poder ou prazer. Ingressar no espaço moral de Levinas significa afastar-se temporariamente das convenções e normas do mundo para abrir-se à responsabilidade infinita pelo Outro.

Referências:

- ALVES, Alexandre M. "Da Fenomenologia à Ética: Uma Breve Análise desde o Pensamento de Levinas".
- LEVINAS, Emmanuel. *Humanismo do Outro Homem*. Trad. Pergentino S. Pivatto. Petrópolis: Vozes, 1993.
- LEVINAS, Emmanuel. *Ética e Infinito*. Trad. João Gama. Lisboa: Ed. 70, 1988.
- LEVINAS, Emmanuel. *Entre Nós: Ensaio sobre a Alteridade*. (1991). Trad. Pergentino S. Pivatto. Petrópolis: Vozes, 1997.


quarta-feira, 26 de março de 2025

Stephen King e o Terror Sob a Redoma


Stephen King é um dos escritores mais notáveis do horror fantástico e da ficção, ao lado de mestres como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Clive Barker. Seus livros foram publicados em mais de 40 países e, embora sua genialidade brilhe na literatura de terror, ele também conquistou reconhecimento em outros gêneros – especialmente quando suas obras foram adaptadas para o cinema.

Segundo o próprio King, "a grande literatura é baseada em personagens incomuns colocados em situações cotidianas". No entanto, ele faz justamente o contrário: apresenta pessoas aparentemente comuns confrontadas com acontecimentos extraordinários. Um exemplo perfeito dessa abordagem é "Under the Dome" (Sob a Redoma), um thriller eletrizante que mergulha o leitor em um cenário de isolamento, desespero e luta pelo poder.

A Gênese de "Under the Dome"
A ideia para Under the Dome surgiu na década de 1970, mas King encontrou dificuldades em resolver questões relacionadas aos efeitos climáticos da redoma. Somente anos depois, com a ajuda de consultores, ele conseguiu estruturar a história e definir como a cidade enfrentaria as consequências desse fenômeno misterioso.

A adaptação para a TV trouxe algumas mudanças significativas. No livro, a redoma é uma barreira intransponível que impede a circulação do ar, levando a um aumento drástico da temperatura. Já na série, há vento, chuva e um impacto climático bem menos severo. Outra diferença crucial é o ritmo da narrativa: enquanto no livro os eventos acontecem ao longo de apenas uma semana, na série a trama se estende por um mês.

Trama: Quando o Horror Vem de Dentro
Era um dia como qualquer outro em Chester’s Mill, no Maine. De repente, uma barreira invisível cerca a cidade, isolando-a completamente do resto do mundo. Aviões colidem e explodem ao tentar atravessá-la, famílias são separadas e ninguém tem a menor ideia do que é essa redoma, de onde veio ou se algum dia desaparecerá.

No centro da história está Dale Barbara, um veterano da guerra do Iraque, que se une a um grupo de moradores para tentar manter a ordem. Mas sua principal ameaça não vem da redoma, e sim de Big Jim Rennie, um político inescrupuloso disposto a qualquer coisa – até matar – para manter o poder. Ao seu lado, seu filho esconde um segredo terrível, tornando a atmosfera ainda mais sufocante.

No entanto, o verdadeiro terror da história não está na barreira em si, mas no que ela revela sobre a natureza humana. Isolados do mundo exterior, os habitantes de Chester’s Mill precisam lidar não apenas com a escassez de recursos e a busca por respostas, mas também com o lado mais sombrio de si mesmos. O medo, a ambição e a sede de poder transformam o confinamento em um verdadeiro pesadelo.

Um Thriller Arrebatador
Under the Dome não é apenas um livro de suspense – é uma inquietante reflexão sobre os extremos da humanidade, colocando em xeque nossa própria capacidade de escolher entre o bem e o mal. Com sua narrativa envolvente e personagens complexos, Stephen King nos convida a questionar: o que acontece quando somos levados ao limite?

Se você gosta de histórias eletrizantes que combinam ficção científica, horror e um estudo profundo da psique humana, Sob a Redoma é uma leitura imperdível.

sábado, 25 de janeiro de 2025

algumas ideias sobre Nosferatu ( 2025)

Extrema se tangunt. Os extremos se tocam. Está sentença vale no campo que se encontra além do conhecimento. Muitas vezes, o dogmatismo transforma- se  em seu contrário, o ceticismo. Desconsidera o lado místico que sustenta a realidade. Enquanto o dogmatismo encara a possibilidade de contato entre razão e hermétismo. Em Nosferatu ( 2025) devemos nos abster de toda e qualquer formulação de juízos. Sobre o conde orlok,  sem dúvida, um personagem bastante conhecido, seja por amantes da literatura, aficionados por cinema ou pessoas interessadas pela cultura pop. Ainda assim, é importante observar que, atualmente, seu nome é associado, principalmente, a certa assimilação mais simplificada do gênero terror. Com isso, perde-se não apenas boas oportunidades de discussões conceituais interessantes que o próprio mito do vampirismo teria a oferecer, mas, também, a possibilidade de recuperar temas importantes apresentados ao público. Com isso, temos  o misticismo que pretende conhecer as verdades metafísicas e morais por meio de revelações de natureza sobrenatural, sendo inúteis ou insuficientes os estudos físicos ou matemáticos para conhecê-los. Não é de estranhar que  o ocultismo inato no misticismo foi brutalmente combatido pela Igreja Católica. Em todos os países os ocultistas - bruxos e às vezes sábios - foram queimados vivos em verdadeiras fogueiras humanas. Contudo, as pesquisas físicas e humanas foram reiniciadas. Fazendo da mística estudo científico. Nosferatu resgata poeticamente a Necromancia, iniciada na Grécia,  a arte de evocação dos mortos. Considerada como a origem de todo o saber oculto, dividido, basicamente , em três grandes grupos: Os magos que buscavam o apoio dos mortos em benefício da cultura; os feiticeiros que evocavam os mortos para fins maléficos e os religiosos que procuravam, através dos mortos, uma ligação com o Criador. Deixo aqui minha humilde leitura sobre a maestria do remake de um clássico conduzido em nosso tempo pelo cinema do  Robert Eggers. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Memórias de uma Caixa Registradora.

Em minha mente a brancura da dúvida que não admitia réplicas – nomes, pessoas, locais, – uma fidalga impressão, com todos os acessos para vaticinios, corria em pensamentos a perfeita harmonia, cogitava que Deus fosse um antigo lago, achava que mergulhando em seu brilho glacial as pessoas seriam bonecas russas. 

***

na passagem de uma ideia para outra, ela ecoava, como se uma cansativa madrugada tivesse arrebatado a chama da clareira - Quem precisa de sono quando se respira sonhos? 

O alarido, estranho, indiferente, não me paralisa. — Não me assusta a ideia de um estado natural da imaginação com ausência de leis. Eu nunca desejei, nunca algo assim entrou em minha cabeça.

***

Afastando seu rosto das sombras, ela olhou de esguelha para o nada. Suavidade, repentinamente um acesso de felicidade.  

— não é de estranhar a ineficácia do tempo?
— Sim, outro dia pensei algo parecido.

Sua fala vagava minha mente. Na mesa, tigelas com geleia e mel, pratos com arroz doce e mingau com aveia. Era a mesmo lugar onde ela descansava. E assim se rastreou o silêncio, exatamente com essas teogonias: 

Um olhar inteligente sobre o atraso da nossa situação no mundo imita irrefletidamente as ondulações do tempo. Pense nisso, a monstruosa ineficácia dos ponteiros interposto entre nossas ações duradouras no mundo. O tempo tem a ver com a condição humana finita, a penumbra não definida, a umidade da nossa existência, de modo que quando pensamos sobre o tempo, nosso limite é parte desta reflexão. 

***

— Depois falaremos sobre isso - agora tenho que deixar seus aposentos. E assim ela se vai, retorna para minha mente lerda e ranhenta, se lança nesse lugar.


30 de novembro de 1983

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

A insustentável busca pela leveza



.          Cartaz do filme a substância 

Lipovetsky defende que "o leve" invadiu nossa rotina e transformou nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal.

Na sociedade hipemoderna  o virtual, os dispositivos móveis, os nanomateriais estão mudando nosso cotidiano. Por todos os lados, a ordem é conectar, miniaturizar, desmaterializar.

Na contramão dessa tendência, contudo, ele defende que a vida parece cada vez mais pesada e difícil de suportar; ironicamente, diz ele, seria essa leveza que alimenta a sensação de peso.

Os imperativos de uma vida mais leve – dietas, desintoxicações, desaceleração, alívio do estresse, meditação e outras práticas – vêm acompanhados por demandas exigentes.

Vemos o mundo através de imagens. Até aqui, não há nada de novo. O que mudou foi que as marcas compreenderam esta lógica e passaram a integrar diversas ferramentas para transformar o comportamento dos consumidores. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Outros personagens com o mesmo rosto

Com enredos insólitos que misturam fantasia, ficção científica e surrealismo, o roteirista logo se destacou por conseguir imprimir uma assinatura que o diferenciava de seus pares. Alguns dos elementos que compõem tais enredos são: um portal que leva pessoas para dentro da mente do ator John Malkovich (Quero ser John Malkovich); uma mulher com o corpo coberto de pelos que vive na selva (Natureza quase humana, 2001); um roteirista que escreve o roteiro do filme ao qual estamos assistindo (Adaptação); um casal que apaga um ao outro de sua memória (Brilho eterno de uma mente sem lembranças); um dramaturgo que cria vários simulacros de sua vida em um galpão (Sinédoque, Nova York, 2008); um homem que, em um filme de animação, enxerga a todos os outros personagens com o mesmo rosto (Anomalisa, 2015); e uma mulher que visita a casa dos pais de seu namorado onde os mesmos parecem envelhecer e rejuvenescer comportando-se de forma peculiar (Estou pensando em acabar com tudo, 2020). Também em 2020, Kaufman colocou esses mesmos elementos em seu primeiro romance, Antkind, cujo protagonista, após ter contato com um filme com três meses de duração, perde a memória e faz de tudo para se lembrar do mesmo filme.

Esse tipo de enredo costuma agradar a apenas um nicho de adeptos, consumidores fiéis de determinado gênero cinematográfico, porém Kaufman conseguiu transcender essa condição. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

uma nave estacionada no telhado pode confiar


literatura pode envolver bastante indefinição. Nem sempre tudo é organizado em resumos completamente definidos, considerando que eventualmente há divergências sobre qual foi a primeira obra de um gênero literário ou qual é a sua definição.

Na ficção científica o paranauê não é diferente. Esse gênero vem se tornando muito popular e conquistando cada vez mais leitores ao longo dos anos, e não só entre pessoas que se interessam por ciências. Definir exatamente onde foi seu início não é simples. Existem algumas obras muito antigas que já trazem alguns elementos que encontramos nas publicações atuais de ficção científica, como, por exemplo, viagens no tempo, seres alienígenas, destopia, entre outros. No entanto, esses fenômenos estavam ligados, geralmente, a alguma forma de magia, e não à ciência, por isso não se encaixavam perfeitamente no gênero ficção científica. 

O romance que aparece quase sempre entre os marcos iniciais da ficção científica é Frankenstein, de Mary Shelley (1797-1851), publicado em 1818. obra, que se enquadra também no gênero terror.

Depois de Shelley, temos Júlio Verne (1828-1905), com suas várias obras que exploram a temática do fantástico, a partir do científico, de uma forma fascinante. Alguns críticos literários o consideram o inventor do gênero ficção científica. Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas Submarinas nos mostram a capacidade de Verne de escrever sobre o aparecimento de novos avanços científicos, como os submarinos, as máquinas voadoras e a viagem à Lua, antes de tudo isso ser real. 

Foi no século XX, a partir de algumas revistas estadunidenses, que a ficção científica ganhou um nome e foi sendo mais bem delineada. A partir daí, surgiram grandes escritores do gênero, como, por exemplo, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin, David Foster Wallace e muitos outros.

 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

como deixar uma xícara imóvel


Você tomar café com alguém que, por algum motivo, teve que se ausentar uns instantes da mesa. Me concentro na sua xícara imóvel que ainda está ali, a xícara desse alguém também, permanece imóvel, a cadeira contudo está vazia, é uma pequena experiência de quase morte cotidiana, se ausentar por uns instantes; desaparecer é isso. Uma pequena experiência de quase morte, uma outra espécie de pele. Quando você desaparece, as pessoas continuam falando com você, interagindo com você, escutando suas músicas, lendo seus seus livros, mas você está olhando para um ponto neurótico distante da rua, divagando entre o tempo e espaço, até voltar a si, da sua pequena experiência de quase morte. Piaget diz que um objeto continua a existir, mesmo quando não está visível. Aos 8 meses, por exemplo, a criança começa a buscar objetos que desapareceram de sua vista, indicando uma noção da continuidade da existência desses objetos. Ao contrário dessa tese, você não se interessa pela continuidade e pede a conta.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Valeska Brinkmann

Wenn du müde bist fällt dir nicht ein
wie das Gift heißt das du statt deines Lebens getrunken hast
und ob das Wort Gift noch einmal in einem Gedicht
genannt werden darf wie es ist den Fluss des
Vergessens zu trinken und ob das Zirpen an deiner Lippe
vom Wunsch zu dichten kommt oder vom Zittern
Wenn du müde bist gehst du den Weg den du gehen willst
hinein in das Dicklicht in dem Füchse sitzen bereit
die Köder der Tollwut auszuspeien bereit
auf und davon zu stolzieren oder
mit schaumumflorten Gesichtern
wenn du müde bist es auf dich
abgesehen zu haben auf dich zu warten  
ausgemergelt und hungrig mit ihren
Röntgenaugen bei Nacht
Wenn du müde bist ist es gleich ob sie dich einladen
das Huhn in ihrer Mitte zu fressen oder ob sie dich
anfallen deine Knochen zerknacken das Mahl halten
Wenn du müde bist leckst du nicht mehr das Salz von deinen
Daumenballen und Tränen sind so weit fort wie wirkliche
Flüsse in einem Gedicht über Flüsse das auch nicht nass wird
Wenn du müde bist fragst du dich allen Ernstes
warum ein Gedicht über Rosen nicht duftet
warum es dir nicht Dornen in die Finger krallt
warum nicht falber fingriger Morgen oder
gelber englischer Adel oder dunkelblutige
Kissinger Farbe aus dem Gedicht tropfen
Wenn du müde bist bildest du dir ein
die Poesie könne getrost auch ohne dich
mit oder ohne ein Gedicht von dir
oder nicht ganz bei Trost sein
Wenn du müde bist weißt du überhaupt nicht mehr
ob sie oder du oder die Welt selbst mit oder
ohne ein Gedicht von dir ist
selbst wenn du einschläfst
selbst wenn du fort bist

**

Pulso

Quando você está cansada não lhe ocorre
como se chama o veneno que você bebeu ao invés da própria vida
e se a palavra veneno devia aparecer mais uma vez em um poema
como é beber o Rio do
Esquecimento e se o sibilo no seu lábio
vem de querer escrever poesia ou do tremer
Quando está cansada você segue o caminho que quer
segue para dentro da mata espessa onde raposas estão sentadas prontas
para cuspir as iscas da raiva prontas
para se afastar majestosamente ou
com rostos velados pela espuma
acossar você esperar por você até
quando você se cansar
raquíticas e famintas com seus
olhos de raio-x à noite
Quando você está cansada não importa se lhe convidam
para comer no meio delas o frango ou se
atacam trituram seus ossos fazem a ceia
Quando você está cansada você para de lamber o sal dos
polegares e lágrimas estão tão distantes como
rios de verdade em um poema sobre rios que também não se molha
Quando você está cansada você não pergunta a sério
por que um poema sobre rosas não tem perfume
por que ele não entranha espinhos nos seus dedos
por que não uma manhã desbotada de dedos ou
nobreza inglesa amarelada ou cor de sangue tinto
de Kissinger não respingam do poema
Quando você está cansada você imagina
que a poesia poderia muito bem existir sem você
com ou sem um poema seu
ou ter perdido a razão
Quando você está cansada não sabe mais mesmo
se ela ou você ou o próprio mundo com o
sem um poema seu existe
mesmo que você adormeça
mesmo quando você se for


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Questão do ENEM com System of a Down.

Filosofia , questão do ENEM com System of a Down. Se cair na prova, não tem erro.  Quando falamos em Heráclito, é quase que instantâneo pensar na ideia do rio e sua dialética . Ele dizia que não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio uma vez que as águas já não serão mais as mesmas e tampouco a pessoa será a mesma. Porém, em um estudo mais detalhado e profundas reflexões é possível afirmar que nem mesmo uma só vez pode-se banhar-se no mesmo rio, pois a água que está tocando a ponta do dedo não é a mesma que toca no calcanhar e o homem que ali está banhando-se não está fixado com um único pensamento durante esse único banho. Aerials é uma reflexão sobre a importância da reflexão filosófica oxigenando nossa consciência para viver uma vida mais plena e conectada com o universo. Sem se prender ao mundo das aparências uma vez que a permanência é ilusória. 

sábado, 27 de julho de 2024

cara estranho: uma reflexão kafkiana.


Eis que Gregor acorda em uma manhã para ir trabalhar, mas acaba percebendo que havia se transformado em um inseto esquisito. Nosso personagem fica preocupado com relação a como ir trabalhar nessa situação, nesse momento o autor conta ao leitor o fato de Gregor ser quem sustenta a família, paga as dívidas do pai, coloca comida em casa, cheio de boletos.  Passada a preocupação inicial com o trabalho, Gregor tem outro problema: a má impressão que ele causa nos seus familiares e a mudança de sua forma em sua família. Ele sai da posição de bom filho para um fardo, talvez essa seja a grande metamorfose de Gregor e daí o nome da obra, não sua mudança física, mas a metamorfose de sua posição dentro da família. No sentido psicológico.

Quem já escutou a música cara estranho do Los hermanos não  deveria ignorar  o fato da dupla mais famosa da indie music brasileira ter compartilhado suas mazelas com analistas, tacando lágrimas sofridas. sobretudo no que tange aos desenvolvimentos freudianos e lacanianos. Como Freud já dizia: os poetas e artistas o precederam na descoberta do inconsciente. como uma escrita hieroglífica, a música cara estranho se mostra confusa e desconexa, cabendo ao analisante amarrar os fios que podem fazer da experiência onírica um relato inteligível (poético).



Dito isso: letra e música é sobre sentimento de não fazer parte. De não ser, não pertença. É nesse ponto que encontramos total influência de Franz Kafka.

Uma das questões do livro é que Gregor não perde sua essência com a transformação, apenas a percepção dos outros sobre ele é alterada, situação que lhe causava angústia. Dessa forma, a obra nos chama para refletir sobre o fato que sim, o outro tem papel fundamental na nossa constituição enquanto pessoa, todavia, se ficarmos presos à percepção dos outros não conseguiremos nos constituir como sujeito de nossas vidas.

Vamos para a letra :


"Olha só

Que cara estranho que chegou

Parece não achar lugar

No corpo em que Deus lhe encarnou

Tropeça a cada quarteirão

Não mede a força que já tem

Exibe à frente o coração

Que não divide com ninguém

Tem tudo sempre às suas mãos

Mas leva a cruz um pouco além

Talhando feito um artesão

A imagem de um rapaz de bem

Olha ali

Quem tá pedindo aprovação

Não sabe nem pra onde ir

Se alguém não aponta a direção

Periga nunca se encontrar

Será que ele vai perceber?

Que foge sempre do lugar

Deixando o ódio se esconder

Talvez, se nunca mais tentar

Viver o cara da TV

Que vence a briga sem suar

E ganha aplausos sem querer

Faz parte desse jogo

Dizer ao mundo todo

Que só conhece o seu quinhão ruim

É simples desse jeito

Quando se encolhe o peito

E finge não haver competição

É a solução de quem não quer

Perder aquilo que já tem

E fecha a mão pro que há de vir"


Escutem, reflitam. 


segunda-feira, 22 de julho de 2024

a luz que não produz sombra.

O que acontece no mundo fica no mundo. fico pensando que mais da metade das pessoas que conheço dizem isso mas eu nunca entendo direito. Pessoalmente , as pontas das asas tocam a borda abaixo das plantas dobradas na saliva. O leste da Irlanda está repleto de rumores, lendas e infinitas pilhas de recortes de um certo tumulto nativo a partir de visões dos hieróglifos cartesianos. Trago verdades sobre vulcões adormecidos no reino da Dinamarca e de como de dentro deles garças retiram do ventre toda uma civilização. sempre devemos nos lembrar que a nossa mente nos prega peças e as vezes mesmo que a resposta esteja na sua frente a gente simplesmente não consegue ver um palmo nas fuças. Medo de ir na cozinha pela madrugada e esbarrar num incel tocando só os loucos sabem. Domingo é dia de ter o primo distante sugado pelo duto do filtro de piscina. sabe da boneca russa que a gente vai abrindo uma por uma e no final encontramos qualquer coisa futil que respingue no nada? A luz que não produz sombra. Então, isso não uma reflexão sobre bonecas russas porque apesar de muito moço, me sinto um ramo pousado perfeitamente sem muito alarde. 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

pode ser confundido com um astronauta homérico.

Eu tinha dois, três truques nos bolsos
de calças compradas no centro da cidade. Nunca soube comprar como quem gasta pra valer a longa espera por um par de sapatos sentinela no subterrâneo. Os sapatos são fabricados e os pés dos meus amigos passam anos perdidos. Até que um dia se encontram. Por isso qualquer guarda roupa parece velho. Por isso estão sempre se desculpando pelos guarda- roupa velho. Mas em segredo se orgulham prq são de alvenaria. Embora eu tenha um corpo que pode ser confundido com o corpo de um astronauta não sou de lá muito essas engrenagens oniricas. Concluo que não sou de fora.Tenho os dedos frios de um técnico em mecânica e sou  como um técnico em mecânica mas não sou tão talentoso quanto um barbeiro. Hamlet diz: palavras, palavras , palavras. 


sexta-feira, 12 de julho de 2024

o comportamento das montanhas.

Ele fala sobre um filósofo do século 17. Não é uma reflexão metafísica, 
mas um jeito diferente de 
seguir outro caminho.
De longe o alpinista chileno
observa o comportamento das montanhas. 
Tem dificuldade em fixá-la na trilha. Parece que foi um dia desses que repousou os olhos nela para
não a perder. 
O tempo, descobriu ele mais tarde,
por ser mamífero, 
inventa idiomas e não 
esquece de ajeitar o sorriso
antes de lembrar que ainda existe um
Santo parecido com seu nome.

Claudio Castoriadis 

sábado, 29 de junho de 2024

considerações intepestivas sobre a colisão dos semáforos.

Um número cada vez mais significativo de pessoas acredita que foi um erro da espécie descer das árvores. Alguns dizem que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi torturado num pedaço de madeira por ter dito que seria uma boa ideia se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, um pivete, sozinho numa pequena lanchonete no interior do rio grande do Norte, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz longe de tanta baderna.

Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma. Infelizmente, porém, antes que ele pudesse mandar uma mensagem para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe e a idéia perdeu-se para todo o sempre. Gregor  acordou de sonhos intranquilos.
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