segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Ainda sobre o tempo




Sinto que o tempo é generoso com as pessoas, as pessoas que não são tão compreensíveis com o tempo.  Seja referindo-se ao que já passou e ao que ainda não chegou muitas palavras ainda teimam em integrar a paisagem que cansa os ouvidos, dificulta a vista- muita reclamação, tantos arranhões, devendo ações e estética nítida: prática! Mídia- publicidade- cultura industrial? Como chegamos até aqui no centro de um furacão ácido e corrosivo de palavras, direções, incertezas, valores, costumes, realidade invertidas, conflitos de interesses. Alguém é responsável? Leia-se, alguém no plural.



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Respostas tenho poucas; apenas sinto falta de quando as coisas eram menos artificiais. Hoje em dia tudo não basta ser, tem que ser o melhor: segunda, melhor que o domingo, o aniversario, melhor com mais presentes, o carro do ano, melhor, sendo mais moderno que o do ano passado, aquela música, melhor que as outras músicas, "tudo mais melhor"- uma vida é melhor que várias vidas. Parece-me que tudo se encontra no balanço ritmado, derrapando na vastidão das obrigações diárias. Pontos faiscantes de luz, uma falsa luminária. Espero ter estômago para suportar esse penda-lo nosso de cada dia (Estou sendo dramático). Espero saber o caminho de volta se por ventura, nessas aventuras, um contra balanço desnortear meus passos. Para ser receptivo a essa nostalgia é necessário ter noção do vaivém das informações. Tudo acumulado nas “Regras para o parque humano”.

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Sobre o tempo não é fácil de- escrever

 Inscrever, escrever o que tem sido

Só vendo, ter-sido, só sendo









Por Claudio Castoriadis

Design humano



A cor que se faz na instabilidade da poesia se encontra na leveza que apedreja fazendo vir à luz a pedra, que no meio do caminho encontrou um mar pingando em seu destino. Isto é alguma coisa, em mudança, na mesma linha, design humano. Vida, longa metragem, sem edição no formato: "aos vivos", em cores, online.



Por Claudio Castoriadis
Imagem: fonte via web

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ensaio sobre a cegueira: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.




O romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, narra uma inexplicável "cegueira-branca", um "mar de leite" que atinge a população de local indefinido e provoca, aos poucos, o caos. Não se trata, exatamente, de uma história, mas de uma reflexão a respeito do que realmente somos, em essência, e não do que pensamos que somos - e isso inclui um nome e um endereço, espécie de rótulos com os quais nos reconhecemos e somos reconhecidos. No mundo da cegueira coletiva, esses rótulos são irrelevantes. Os "novos cegos" são levados, por determinação do governo, para um antigo manicômio, sendo assim isolados dos demais habitantes. Nesse espaço "carcerário", passam por muitas dificuldades, entre elas a fome, a falta de remédios e de higiene e a angustiante impossibilidade de comunicação com o mundo exterior. 

No horizonte grego, a cegueira também estava associada à clarividência. Por exemplo, o adivinho Tiresias em Édipo Rei de Sófocles. Ele é o único que vê as linhas invisíveis do destino de Édipo. Ao ignorar o significado dos seus atos, Édipo não consegue enxergar os rastros da profecia que o persegue, e quando consegue enxergá-los, não os entende. Daí a forte imagem final, quando fura seus olhos, pois só assim, na mesma condição deficiente do adivinho, pode ver o seu destino. Ver e entender são sinônimos. Saramago não perde de vista essa conotação na epígrafe: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

O enredo apresenta-se como pano de fundo para expor o ser humano e seus sentimentos mais recônditos: medo, angústia e vingança. O tom reflexivo acentua as características de parábola pretendida por Saramago – sobre quem os homens são verdadeiramente quando julgam que suas ações não podem ser testemunhadas, e sobre como às vezes é preciso cegar-se para os códigos de sexo, idade e classe para enxergar quem são as pessoas com quem de fato é possível conviver.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Fechar os olhos para ver




Sorte daquele que sabe fechar os olhos para ver. Em tempos de mercado teleguiado, uma palavra, propaganda, ideia é bem maior que a pessoa que veste a marca marcando um proprietário. Eu sei, pode ser exagero, ou paranoia de quem olha e mira na alienação industrial (Consumo). Como se não bastasse o tempo que se faz pouco, ainda temos pensamentos privatizados num curto espaço que ficou reservado. Pelo menos ainda sou alguma coisa, isto é alguma coisa, em mudança, na mesma linha, design humano. Vida, longa metragem, sem edição no formato: "aos vivos", em cores, online. Acho estranho, uma mente privatizada.

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Abre aspas, de onde tirei essas ideias? Fecha aspas, ainda é madrugada.


Juntando tudo que foi dito, prefiro concentrar um sentimento agridoce: “eu sei que lá no fundo há tanta beleza no mundo” (Pitty). Faz sentido, acredito nisso, desde que encontrei na contra mão da vida um ponto de apoio, absolutamente particular! Ainda não privatizado.


Eu me sinto bem com isso tudo, pessoas, lugares, pensamentos, perspectivas. Meu pensamento é apenas meu (Alegrias, dores, privações). Seja um segredo, uma beleza desconhecida, um sentimento amassado em uma carteira, o importante é sentirmo-nos em harmonia com as diferentes maneiras de pensar, livre ou não, a beleza ainda está lá, em algum lugar esperando o momento certo para entrar em cena. 


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Por Claudio Castoriadis
Imagem: Caras- Ionut


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