domingo, 21 de julho de 2013

Primeiro trabalho filosófico do jovem Nietzsche: 1862


                                               APÊNDICE: FADO E HISTÓRIA


Se pudéssemos contemplar a doutrina cristã e a história da Igreja com olhar isento e livre, teríamos de expressar opiniões contrárias às ideias geralmente aceitas. Porém, desde os nossos primeiros dias estreitados no jugo do hábito e dos preconceitos, e pelas impressões da infância inibidos na evolução natural de nosso espírito e condicionados na formação de nosso temperamento, acreditamos dever considerar quase um delito, se escolhemos um ponto de vista mais livre, a partir do qual possamos emitir, sobre a religião e o cristianismo, um juízo imparcial e adequado aos tempos. Uma tentativa como esta não é obra de algumas semanas, mas de toda uma vida. Seus fundamentos devem ser apenas a história e as ciências naturais, para não se perder em "especulações estéreis". Quantas vezes toda a nossa filosofia não me pareceu uma torre babilônica: alçar-se até o céu é o objetivo de todos os grandes esforços, o reino do céu sobre a Terra significa quase o mesmo. Uma interminável confusão de ideias entre o povo é o triste resultado; grandes reviravoltas ocorrerão, quando a massa perceber que todo o cristianismo se baseia em conjecturas; existência de Deus, imortalidade, autoridade da Bíblia, inspiração etc., sempre serão problemas. Eu tentei negar tudo isso: oh, demolir é fácil, mas edificar! E mesmo demolir parece mais fácil do que é; somos tão intimamente condicionados pelas impressões de nossa infância, as influências de nossos pais, nossa educação, que esses preconceitos profundamente enraizados não podem ser facilmente removidos por argumentos racionais ou por simples vontade. O poder do hábito, a necessidade de uma coisa mais elevada, a ruptura com tudo existente, a dissolução de todas as formas da sociedade, a dúvida, se já por dois mil anos a humanidade não foi desencaminhada por uma quimera, a sensação da própria ousadia e temeridade: tudo isso trava uma luta sem decisão, até que experiências dolorosas, acontecimentos tristes conduzem de novo o nosso coração à velha fé da infância. Porém, observar a impressão que essas dúvidas causam no ânimo deve ser, para cada um, uma contribuição à sua própria história cultural. Não podemos pensar senão que algo tem de permanecer firme, um resultado de todas essas especulações, que nem sempre pode ser um saber, mas também uma fé, sim, algo que mesmo um sentimento moral às vezes incita ou amortece.

Assim como o costume é produto de um tempo, uma direção do espírito, também a moral é o resultado de uma evolução geral da humanidade. Ela é a soma de todas as verdades para o nosso mundo, é possível que no mundo infinito não signifique mais que o resultado de uma direção de espírito no nosso; é possível que dos resultados de verdades dos diferentes mundos se desenvolva novamente uma verdade universal. Pois mal sabemos se a humanidade mesma não passa de um estágio, um período no todo, no devir, se não é uma arbitrária manifestação de Deus. Não seria o homem apenas a evolução da pedra por intermédio da planta, animal? Já se teria alcançado nisso sua perfeição, e não haveria nisso também história? Jamais tem fim, esse eterno devir? Quais serão as molas desse grande mecanismo? Estão ocultas, mas são as mesmas desse grande relógio que chamamos história. O mostrador' são os acontecimentos. A cada hora avança o ponteiro, para recomeçar sua ronda após as doze; começa um novo período do mundo [...]

Tudo se move em círculos imensos, sempre mais amplos; o homem é um dos círculos mais interiores. Querendo medir as oscilações daqueles exteriores, ele terá de, a partir de si e dos círculos mais próximos, abstrair aqueles mais abrangentes. Os mais próximos são a história dos povos, da sociedade e da humanidade. O centro comum de todas as oscilações, buscar o círculo infinitamente pequeno, é tarefa da ciência natural; agora, que o homem busca simultaneamente em si e para si este centro, percebemos a importância única que a história e a ciência natural devem ter para nós. Mas na medida em que o homem é arrastado nos círculos da história universal, surge essa luta da vontade individual com a vontade geral; aqui se insinua este problema infinitamente importante, a questão do direito do indivíduo ao povo, do povo à humanidade, da humanidade ao mundo; aqui se acha também a relação fundamental entre fado e história. A mais elevada concepção da história universal é impossível para o homem; mas o grande historiador, tal como o grande filósofo, torna-se profeta; pois ambos fazem abstração dos círculos interiores para os exteriores [...]

Não nos vem tudo ao encontro no espelho de nossa personalidade? E os acontecimentos não dão apenas o tom do nosso destino, enquanto a força e a fraqueza com que ele nos atinge dependem tão-somente do nosso temperamento?.. O que é isso, que puxa fortemente a alma de tantos homens em direção ao trivial, e dificulta um mais alto vôo das ideias? Uma conformação fatalista do crânio e da coluna vertebral, a condição e a natureza dos seus pais, o cotidiano das suas relações, o ordinário do seu ambiente, mesmo o monocorde do seu lugar natal. Fomos influenciados sem ter em nós a força para uma ação contrária, sem nem mesmo
perceber que somos influenciados. É uma sensação dolorosa, haver cedido a própria independência numa aceitação inconsciente das impressões exteriores, haver sufocado faculdades da alma pelo poder do hábito, e a contragosto haver enterrado os germes do extravio no fundo da alma.

Em medida maior, voltamos a encontrar tudo isso na história dos povos. Muitos povos, atingidos pelos mesmos acontecimentos, foram influenciados da maneira mais diferente. Portanto é algo restritivo, querer impor a toda a humanidade alguma forma especial de Estado ou de sociedade, como estereótipos; todas as ideias sociais e comunistas sofrem desse erro. Pois o homem nunca é o mesmo novamente; mas tão logo fosse possível revolucionar todo o passado do mundo através de uma vontade forte, passaríamos a ser deuses independentes, e a história do mundo nada seria para nós senão a nossa própria ausência sonhadora; cai o pano, e o homem se encontra de novo, como uma criança brincando com os mundos, como uma criança que no rubor da manhã desperta e sorridente afasta da fronte os sonhos terríveis.

A vontade livre aparece como aquilo sem vínculos, arbitrário: é o infinitamente livre e errante, o espírito. O fado, porém, é uma necessidade, se não quisermos acreditar que a história do mundo é um sonho incerto, as indizíveis dores da humanidade são invenções, e nós mesmos joguetes de nossas fantasias. Fado é a infindável força de resistência contra a livre vontade; livre vontade sem fado é tão pouco concebível como espírito sem real, bem sem mal. Pois só a oposição cria o atributo... Talvez, assim como o espírito é apenas a substância infinitamente pequena, o bom apenas a mais sutil evolução do mau a partir de si mesmo, a livre vontade não seja senão a mais alta potência do fado [...]

Na medida em que o fado aparece ao homem no espelho de sua própria personalidade, a liberdade de vontade individual e o fado individual são dois opositores dignos um do outro, por isso "sujeição à vontade de Deus" e "humildade" não passam de um véu para o covarde temor de afrontar com decisão o destino. Mas quando o fado, enquanto delimitador último, parece mais poderoso que a livre vontade, não devemos esquecer duas coisas, primeiro, que fado é somente um conceito abstrato, uma forma sem matéria, que para o indivíduo há apenas um fado individual, que fado nada é senão uma cadeia de acontecimentos, que o homem, tão logo atue, criando assim seus próprios acontecimentos, determina seu próprio fado, e sua atividade não começa apenas com o nascimento, mas já em seus pais e antepassados. Livre vontade é, do mesmo modo, apenas uma abstração, e significa a capacidade de agir conscientemente, enquanto sob fado compreendemos o princípio que nos conduz na ação inconsciente, no qual está sempre em jogo uma direção da vontade que nós mesmos ainda não necessitamos ter diante dos olhos como objeto [...] Portanto, se não tomamos o conceito de ação inconsciente simplesmente como um deixar-se levar por impressões anteriores, desaparece para nós a distinção rigorosa entre fado e livre vontade, e ambos os conceitos se fundem na ideia da individualidade.

Quanto mais as coisas se distanciam do inorgânico, e quanto mais a educação se amplia, mais se torna marcante a individualidade, mais diversificados os seus atributos. Força interior, espontânea, e impressões exteriores, sua alavanca de evolução, o que são, se não livre vontade e fado?

Na livre vontade está para o indivíduo o princípio da singularização, da separação do todo, da absoluta irrestrição; mas o fado torna a colocar o homem em ligação orgânica com a evolução geral, e o obriga, na medida em que busca dominá-lo, ao livre desenvolvimento de forças contrárias; a livre vontade absoluta, sem fado, transformaria o homem em Deus, o princípio fatalista em um autômato.

O fato de Deus ter se feito homem indica apenas que o homem não deve buscar no infinito sua felicidade, mas fundar na Terra o seu céu; a ilusão de um mundo sobre terrestre levou os espíritos humanos a uma atitude equivocada perante o mundo terrestre: foi fruto de uma infância dos povos... Em meio a difíceis dúvidas e lutas a humanidade se torna viril: ela reconhece em si o começo, o meio e o fim da religião 

(Anotação da mesma época: abril de1862)


Nietzsche afirma que teria escrito seu primeiro "exercício filosófico" aos treze anos de idade-, este é o ensaio que pode ser visto, com propriedade, como seu primeiro trabalho filosófico. Foi escrito no começo de 1862, aos dezessete anos, e apresentado à "Germania ", a pequena sociedade lítero-musical que Nietzsche havia fundado com dois amigos. Nele é surpreendente encontrar - em forma embrionária, naturalmente - os temas e preocupações centrais do seu pensamento adulto, as questões que encontrariam sua formulação mais acabada em obras como Além do bem e do mal e Genealogia da moral. O que aqui publicamos é o texto ligeiramente condensado, tal como foi apresentado por Richard Blunck em 1953, em sua biografia do jovem Nietzsche (depois continuada por C. P. janz). Tradução Paulo César De Souza.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ. Discurso de Fidel Castro



                                                A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ!

Discurso de defesa de Fidel Castro, por ocasião de seu julgamento pelo ataque ao quartel de Moncoda, em 16 de outubro de 1953.

“A primeira condição da franqueza e da boa fé num propósito é fazer exatamente o que ninguém faz, ou seja, falar com absoluta clareza e sem medo. Os demagogos e os políticos profissionais querem praticar o milagre de estar bem com tudo e com todos, enganando necessariamente a todos em tudo. Os revolucionários devem declarar suas idéias com coragem, definir seus princípios e revelar suas intenções para que nenhuma pessoas se engane, nem amigos nem inimigos...”

(...) “Cuba poderia abrigar maravilhosamente uma população três vezes maior. Não existe, portanto, razão para que haja miséria entre seus habitantes. Os mercados deveriam estar repletos de produtos. As despesas das casas deveriam estar cheias. Todos os braços poderiam estar produzindo com labor. Não, isso não é concebível. O inconcebível é que existam homens que durmam com fome enquanto uma polegada de terra sem semear. O inconcebível é que existam crianças que morrem sem cuidados médicos. O inconcebível é o fato de 30 por cento de nossos camponeses não saberem assinar o próprio nome e 99 por cento não conhecerem a história de Cuba. O inconcebível é a maioria das famílias de nossos campos estarem vivendo em condições piores que os índios encontrados por Colombo ao descobrir a terra mais bonita que os olhos humanos já contemplaram...”

(...) “Vou contar-lhes uma história. Era uma vez uma república. Tinha uma Constituição, suas leis, suas liberdades. Presidente, Congresso, tribunais. Todo mundo podia se reunir, associar-se, falar e escrever com inteira liberdade. O governo não satisfazia o povo, mas este podia mudá-lo, e faltavam apenas poucos dias para fazê-lo. Havia uma opinião pública respeitada e acatada, e todos os problemas de interesse da população eram discutidos com liberdade. Havia partidos políticos, (...) programas polêmicos de televisão, manifestações, e palpitava no povo o entusiasmo. Esse povo tinha sofrido muito, e se não era feliz queria sê-lo, e possuía tal direito. Tinha sido enganado muitas vezes, e via o passado com verdadeiro horror. Acreditava cegamente que esse passado não poderia voltar. Estava orgulhoso de seu amor à liberdade e vivia convicto de que ela seria respeitada como coisa sagrada. Sentia uma confiança digna, de que ninguém ousaria cometer o crime de atentar contra as instituições democráticas. Queria uma mudança, algo melhor, queria um avanço e os percebia próximos. Toda a sua esperança estava no futuro.

“Pobre povo! Uma manhã a população acordou estremecida. Nas sombras da noite, os fantasmas do passado se haviam conjurado, enquanto ela dormia, e eis que a tinham agarrado pelas mãos, pelos pés e pelo pescoço. Aquelas garras eram conhecidas, (...), aquelas botas... não era um pesadelo, tratava-se da horrível realidade: um homem, chamado Fulgêncio Batista, acabava de combater o terrível crime que ninguém esperava.

“Aconteceu, então, que um simples cidadão daquele povo, que desejava acreditar nas leis da república e na integridade de seus magistrados, a quem vira muitas vezes enraivecer-se contra os infelizes, procurou o Código de Defesa Social para ver quais castigos previa a sociedade para o autor de semelhante ato...

(...) “Sem dizer nada a ninguém, com o código em uma mão e os papéis na outra, o tal cidadão apresentou-se no antigo casarão da capital, onde funcionava o tribunal competente, que tinha a obrigação de instaurar processo e punir os responsáveis por aquele ato, e apresentou um documento em que denunciava os delitos e pedia para Fulgêncio batista e seus dezessete cúmplices a condenação a 108 anos de prisão, como previa o Código de Defesa Social, com todas as agravantes de reincidência, perfídia e ação na calada da noite.

(...) “Senhores juízes: sou eu aquele humilde cidadão que um dia apresentou-se inutilmente diante dos tribunais para lhes pedir que punissem os ambiciosos que violaram as leis e destroçaram as nossas instituições. E agora, quando sou eu o acusado de querer derrubar esse regime ilegal e restabelecer a Constituição legítima da república, sou mantido incomunicável numa cela por 76 dias, sem poder falar com ninguém nem sequer ver meu filho. Sou levado pela cidade entre duas metralhadoras (...), sou transferido a este hospital para ser julgado em segredo com toda a severidade e um promotor, com o Código na mão, solenemente, pede para mim 26 anos de prisão.

“Dirão que aquela vez os juízes da república não atuaram porque estavam impedidos pela força. Confessem, então: desta vez também a força os obriga a condenar-me. Da primeira vez não puderam punir o culpado. Da segunda, terão de castigar o inocente. A donzela da Justiça é duas vezes violada pela força.

“E quanta impostura para justificar o injustificável, explicar o inexplicável, conciliar o inconciliável! Até que decidiram por fim afirmar, como motivo supremo, que o fato cria o direito. Ou seja, que o fato de ter lançado os tanques e os soldados à rua, tomando o palácio presidencial, o Tesouro da república, e os demais edifícios oficiais, e de apontar armas para o coração do povo cria o direito de governá-lo. Argumento semelhante utilizaram os nazistas que dominaram os países da Europa e neles instalaram governos ditadores.

“Reconheço e aceito que a revolução seja fonte de direito. Mas não se poderá chamar nunca de revolução o assalto noturno, a mão armada, de 10 de março...”

(...) ”Nem no sentido de modificações profundas no sentido social, nem sequer na superfície do pântano público moveu-se uma onda que agitasse a podridão reinante. Se no regime anterior existia politicagem, roubo, pilhagem e ausência de respeito pela vida humana, o atual regime multiplicou por dez a pilhagem e multiplicou por cem a falta de respeito pela vida humana.”

(...)”...Como considerar juridicamente válida a alta traição de um tribunal cuja missão era defender nossa Constituição? Com que direito mandar para a prisão homens que vieram para dar seu sangue e sua vida pelo decoro de sua pátria? Isso é monstruoso diante dos olhos da nação e os princípios da verdadeira justiça!”

(...) “...e a ilha se afundará no mar antes que consintamos em ser escravos de alguém.”

(...) “Termino minha defesa, mas não como fazem sempre todos os advogados, pedindo a liberdade do acusado. Não posso pedi-la enquanto meus companheiros sofrem na ilha de Pinos ignominiosa prisão. Mandem-me para perto deles a fim de compartilhar a sua sorte. É concebível que os homens de valor estejam mortos ou presos numa república em que o presidente é um criminoso e um ladrão.

“Aos senhores juízes, minha sincera gratidão por terem permitido que eu falasse livremente, sem mesquinhas coações. Não lhes tenho rancor. Reconheço que em alguns aspectos foram humanos e sei que o presidente deste tribunal, homem honrado, não pode dissimular sua repugnância pelo estado de coisas reinante, que faz ditar uma sentença injusta...

“Quanto a mim , sei que a prisão será dura como nunca foi para ninguém repleta de ameaças, de provocações covardes e vis. Mas não temo isso, como não temo a fúria do tirano desprezível que extinguiu a vida de setenta irmãos meus. Condenem-me, não importa. A História me absolverá!”

pp. 55-59

Fidel Castro por ele mesmo. Coleção O Autor Por Ele Mesmo. São Paulo: Editora Martin Claret. 1991. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tálamo errante




Nos momentos de tristeza
Quem faz calar o quântico de vida?

Por que destruímos tudo que é nosso?

A sombra não alcança
O andarilho
 não espera
Vinde
Inexperiente e febril
Tálamo errante

Atrás da aldeia, existia uma ponte
Além de mim, um outro lugar
Depois do chocalho o som descia
E assim seguia
 Ritmado.




Por Claudio Castoriadis

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Teologia da libertação. Andei pensando... Jesus Cristo, um exemplo de revolução com humildade.




Todo texto é visto e lido de várias maneiras, cada pessoa passa ideias para outras pessoas com suas particularidades. A forma como vejo a figura do Jesus Cristo quando esteve em nosso meio, segundo consta nas escrituras, foi um exemplo de como lidar com o próximo e nossos desejos. Agiu em conformidade com importantes princípios dos direitos humanos, uma política equilibrada. Se o mundo de hoje anda fora dos trilhos: protestos anticapitalistas, divisões de classes, guerras, movimentos ecológicos, militantes pacifistas, fundamentalismo, redes de terroristas, certamente o estopim para essa química se encontra no desejo de poder. Na mesma esteira temos o egoísmo e a autoridade que  levam à negação da liberdade do outro. Vejamos a seguinte passagem da bíblia que reforça esse argumento:

Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Então o diabo o deixou. (Evangelho de Mateus 4.08-11) 

Pois bem, não é de hoje que o poder, a posse e o controle são desejados pelo ser humano desde sua existência. E, segundo o sentido dessa passagem aquilo que o Jesus Cristo rejeitou, nós aceitamos. Usando essa lógica, faz séculos que aceitamos a oferta dEle, Satanás ( Diabo). É bom ressaltar que em hebraico antigo a palavra diabo vem de diabolos, diabulum, que significa aquele que divide, que separa, que causa discórdia, que separa uma comunidade. 

Mas, voltando ao sentido dessa reflexão, consideremos que aquilo que Cristo recusou com bravura, o homem de hoje mergulhou sem remoço. Muitos estão ganhando o “mundo” e perdendo suas “almas”.  Isto é o que diz essa citação.

Qual a lição que podemos apreender nessa passagem? Ora, o poder é algo cobiçado, intrínseco a natureza humana - alvo de tentação. O Cristo foi tentado a se prostrar,  se curvar perante o desejo diante de Satanás para obter a glória dos reinos deste mundo, porém, recusou tal proposta. Agora uma pergunta: se Cristo se negou a usufruir da glória e do poder, seus seguidores não deveriam seguir seu exemplo? Jesus Cristo, um exemplo de revolução com humildade. 


Por Claudio Castoriadis

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Formação

Eu rabisco
— Meio sem forma
Assim vou me formando.




Por Claudio Castoriadis

Michael Moore e Oliver Stone: carta de apoio a Julian Assange




A tradução integral da carta, feita pelo Tugaleaks, segue abaixo:

    
 Durante toda a nossa carreira de cineastas defendemos a tese segundo a qual os meios de informação americanos frequentemente não relatam aos cidadãos as mais torpes acções cometidas pelo nosso governo. Eis porque estamos profundamente gratos à Wikileaks pelo que fez e aplaudimos a decisão do Equador em conceder asilo político ao seu fundador, Julian Assange, neste momento refugiado na embaixada deste País sul-americano em Londres.

    O Equador agiu em conformidade com importantes princípios dos direitos humanos internacionais. Mais ainda, a prova mais concludente da justeza da decisão das autoridades de Quito consiste na ameaça, por parte do governo britânico, de violação de um princípio intocável das relações diplomáticas e de invasão da embaixada para deter Assange. Desde o seu nascimento que a Wikileaks tem mostrado à opinião pública filmes de “homicídios colaterais”, que mostram um helicóptero de guerra Apache que mata de forma aparentemente indiscriminada civis em Bagdad, outros aspectos precisos sobre a verdadeira face das guerras no Iraque e no Afeganistão, o conluio entre os Estados Unidos e a ditadura iemenita para esconder as nossas responsabilidades nos raids efectuados nesse país, as pressões da administração Obama sobre outros países para convencê-los a não processar por tortura funcionários da era Bush, e muitas outras coisas ainda.

    Como era previsível, a resposta dos que prefeririam que os americanos permanecessem na ignorância de tudo isto foi implacável: expoentes de primeiro plano dos grupos parlamentares de ambos os partidos definiram Assange como um «terrorista hi-tech» e a senadora Dianne Feinstein, representante democrática da Califórnia à frente da Comissão especial sobre os serviços secretos do Senado, pediu que Assange fosse processado ao abrigo da lei da espionagem. A maioria dos americanos, dos britânicos e dos suecos não sabe que a Suécia não incriminou formalmente Assange: simplesmente emitiu um mandado de captura sobre ele para o interrogar sobre denúncias de agressão sexual apresentadas contra ele em 2010.

    Necessário se torna que sejam conduzidas averiguações aprofundadas sobre estas acusações antes que Assange se transfira para um país onde a magistratura sueca o não possa alcançar. Mas foram os governos de Londres e de Estocolmo quem levantou obstáculos a esta investigação, não foi Assange.

    Já no passado magistrados suecos se deslocaram ao exterior para conduzir averiguações, sempre que necessário, e o fundador de Wikileaks expressou claramente a sua disponibilidade para ser interrogado em Londres. O governo equatoriano, para além disso, expressou explicitamente à Suécia o seu consentimento para com o interrogatório de Assange no interior da embaixada. Em ambos os casos a Suécia recusou.

    Assange concordou igualmente em deslocar-se imediatamente à Suécia se o Governo de Estocolmo se comprometesse formalmente na sua não extradição para os Estados Unidos. As autoridades suecas não mostraram nenhum interesse nesta proposta e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Carl Bildt disse recentemente com clareza a Assange e à Wikileaks que a Suécia não tenciona assumir um compromisso deste tipo. Também o governo britânico, por força do mesmo tratado, teria o direito de impedir a extradição de Assange da Suécia para os Estados Unidos, mas também o governo britânico afirmou claramente não pretender servir-se deste seu poder. Os esforços por parte do Equador para mediar acordos deste tipo com os governos de Londres e de Estocolmo foram reenviados ao destinador. Tomadas no seu conjunto, as acções das autoridades britânica e sueca indicam claramente que o seu verdadeiro objectivo é o de enviar assange para a Suécia, porque daí provavelmente, por via de tratados e outras considerações, seria mais fácil a sua extradição para os Estados Unidos com o intuito de o processar. Assange tem todos os motivos para temer um resultado deste tipo. O departamento de justiça recentemente confirmou que as averiguações sobre a Wikileaks prosseguem e documentos do governo australiano recentemente tornados públicos, datados de Fevereiro último, afirmam que «as averiguações dos Estados unidos sobre uma eventual conduta criminal de Assange prosseguem há mais de um ano».

    A mesma Wikileaks publicou mails da Stratfor, uma empresa privada de informação, onde se afirma que um Grande Júri (um júri especial encarregado de estabelecer se subsistem elementos para um processo) já aprovou secretamente a acusação de Assange. E os precedentes indicam que a Suécia se dobraria às exigências de Washington e entregaria o fundador da Wikileaks às autoridades dos Estados Unidos: em 2001 o governo sueco entregou à CIA dois egípcios que tinham requerido asilo, a CIA transferiu-os para o egipto onde foram torturados pelos torcionários de Mubarak.

    Se Assange fosse extraditado para os Estados Unidos, as consequências far-se-iam sentir durante anos em todo o mundo. Assange não é um cidadão americano e nenhuma das suas acções ocorreu em território americano. Se os Estados Unidos podem perseguir penalmente um jornalista nestas circunstâncias, então, seguindo a mesma lógica, os governos russo ou chinês poderiam pedir a extradição de jornalistas estrangeiros, de todas as partes do mundo, culpados de terem violado as suas leis. Um precedente deste tipo deveria preocupar a todos, admiradores ou não da Wikileaks.

    Nós lançamos um apelo aos cidadãos da Grã Bretanha e Suécia para que peçam aos seus governos que respondam a algumas questões fundamentais: por que motivo as autoridades suecas se recusam a interrogar Assange em Londres? E por que razão nem o governo de Londres nem o de Estocolmo aceitam o compromisso de não extradição de Assange para os Estados Unidos? Os cidadãos britânicos e suecos têm assim uma ocasião irrepetível para defender a liberdade de expressão em nome de todo o mundo.



 – Carta de Michael Moore e Oliver Stone publicado no The New York Times; Tradução Tugaleaks

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