sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Memorias de um asilo II : inferno

Está chovendo desde o começo da tarde, ainda sonolenta, vou de encontro a janela; por alguns instantes fico observando as pessoas passando pela rua, todas com guarda-chuvas e bem agasalhadas, reparo alguns poucos carros que passam espirrando água do asfalto molhando turistas no ponto de ônibus. É primeiro dia de Páscoa, aqui, só eu envolta com meus pensamentos, ainda com trajes de dormir. Ao longe, ouço atentamente uma longa série de melodias executadas com precisão por uma orquestra do café situado do outro lado da rua. Está um tanto escuro e frio no quarto; acendo a luz me certificando das cobertas sobre minha cama. Minha estimada insônia ainda não cedeu sua trégua, por isso vago pelos corredores dessa instituição. Passo despercebida; ao lado da enfermaria sem me deter nos demais quartos, me certifico se todos os pacientes estão dormindo. Prossigo em frente sem dar muita importância para as pessoas, que ainda perturbadas, dopadas em meio ao tempo, optaram descansar nos empoeirados bancos desta prisão. A ala da terapia ocupacional está vazia; em meio tom improviso longamente, sem pressa, no piano do salão central, serenas melodias, doces e sutilmente melancólicas, que compensam minha divina solidão. É incrível como a música tornara-se tão presente em minha vida, chegando as vezes ser meu único conforto. Tudo estrategicamente perfeito, um clima um tanto propício para uma seção nostálgica; e de fato tenho que confessar ser essa uma bela ocasião para uma breve reflexão do passado. Sinto que as vezes pensamentos adentram em mim, despertando cálidas feridas e saudosos momentos em meu espírito. Minha memória não foi totalmente debilitada, por isso, conservo boas lembranças de minha infância, possivelmente as melhores em minha pérfida existência.

Sempre fui uma criança prodígio; fui educada em Naumburg com meu irmão mais novo, num meio intelectual, uma dieta rica de alimento mental e inspiração moral. Lembro que ao contrário das outras meninas da minha idade, eu tinha o costume de acordar geralmente antes dos meus pais, seguia até o quarto deles e por alguns minutos os observava dormindo. Meu pai por sua vez regularmente acordava antes da minha mãe, era incrível, ele podia dormir a hora que fosse, ainda assim despertava cedinho. Havia em nosso lar uma importância exagerada atribuída ao lado religioso; mesmo não acreditando, me agradava muito as formalidades cerimoniosas, e a constante prática de orações desde o café da manhã até a hora de se deitar.

Dos muitos livros que ainda hoje preenchem minha biblioteca, a grande maioria, herdei do meu pai; grandes gênios da literatura e filosofia eu tive contato através dele. Delicado e simetricamente cultivado, rigidamente ele fez seus estudos em Pforta, depois em bona e em Leipzig. Tenho que confessar que demorei, um certo, tempo para poder apreciar a grandeza artística contida nos livros. Inúmeros gênios facilmente eram encontrados no seu imenso acervo, de Honoré de Balzac, literário francês a Nietzsche grande vulto da filosofia alemã. Também posso citar autores que durante toda a vida buscaram de maneira incansável o esclarecimento espiritual e secular, tais como: Platão, São Paulo e o Pai da Psicanálise, Sigmund Freud. Outros poetas e grandiosos pensadores como Arthur Rimbaud e Paul Valéry, ambos franceses- meus prediletos- o inglês Walter Pater e Camões que souberam expressar uma sensibilidade humana, como poucos, davam um ar sagrado em seu sublime escritório. Enfim, a biblioteca do meu pai era uma fonte inesgotável de sabedoria dos mais diversos gêneros literários.

Nunca me faltou nada, felizmente meus pais gozavam de uma razoável condição social; se bem lembro não precisaram de esforços para alcançarem seu invejável patrimônio, herdaram toda riqueza dos meus avós, donos de várias empresas de advocacia. Meu avô, velho burguês, era sinônimo de elegância no auge dos seus 72 anos; foi com muito esforço e árdua persistência que ele conseguiu alcançar e manter sua fortuna pessoal estimada em bilhões de dólares. Teria muito orgulho dele se não fosse a maneira machista – antiquária como tratava sua esposa, Sr.ª Salomé, madrasta do meu pai. Se eu pudesse voltar atrás certamente teria passado mais tempo com ela, que assim como poucos do meu circulo familiar era uma pessoa adorável. Das casas que morei tenho poucas recordações, pois minha mãe ostentava o luxo de não permanecer muito tempo em um bairro ou cidade. Em consequência disso tive poucos amigos. Na ilha de Manhattan as ruas eram elegantes, os nova-iorquinos viviam em boas condições; belos museus e teatros, a presença de turistas fazia parte do cotidiano deste lugar. Ainda me recordo do peculiar trem no metrô dessa cidade, levava apenas alguns minutos para percorrer o trajeto do centro de Manhattan até meu bairro que, alias não lembro como se chamava, afinal naquela época meu pensamento não estava plenamente maduro.

Apesar da distância que hoje tenho do meu pai, um fato alcançado devido às exaustivas discussões, deixo as boas lembranças, ainda que raras, ofuscarem qualquer que seja a mágoa. Como posso deixar de lado alguém que foi tão especial em minha vida? Tão relevante na minha formação. Ainda lembro das noites em que ele convidava alguns amigos para aprofunda-se por horas e horas em suas conversas intelectuais que abrangia desde temas literários até memorias e questões políticas e sociais. Meu pai era de opiniões rústicas inflado de severa disciplina, mas, sei que me amava da forma dele, contundente, em silêncio ou em palavras ásperas. Com o passar dos anos cheguei a conclusão que as boas lembranças não se dissipam nem envelhecem, pelo contrário, ganham vida e no decorrer do tempo adquirem luz própria, trazendo calma, paz e uma íntima serenidade nessa ferida que é o existir.

Mas lembranças são só lembranças, não tem substancia, nem justificam o que vivo quase de maneira indizível o presente, como cheguei aqui? Não sei ao certo, nem quando, nem ao menos o motivo; creio que nesse momento a pergunta mais especifica seria outra: será que um dia encontrarei o caminho de volta? Ou melhor, existiria um caminho de volta?  Lástima infiel, milhares de dúvidas estão constantemente invadindo minha cabeça. Elas me pesam me castigando com toda ipseidade. Tenho um olhar distante, vazio, que às vezes expressa serenidade ou delirante apatia. Existe em mim várias almas, uma multiplicidade de sentimentos; por esse motivo sofro mais que o suportável. Gosto de pensar o mundo como uma incrível mágica, a mais fascinante de todas, estou sempre tentando descobrir seus segredos, mesmo desconhecendo seu autor. Porém, tenho medo de me sufocar nas verdades que ele tanto oculta. Devo acreditar em verdade? E se for o caso de existir uma? Que sirva de fundamento para tudo que existe? Mesmo assim não acreditaria que a mesma permaneça desejável depois de lhe temos tirado seu véu; depois de destruímos sua mascara e, olha que não são poucas. Difícil definir com clareza o sentimento que nos toma feito assalto quando vivenciamos o novo, aquilo que assusta por ser estranho. Seria esse o motivo da minha estadia nesse cemitério anacrônico? O que pensar da vida nesse momento? Uma lúdica tragédia que definha meu ser a cada nascer do sol? Paciência, foi o que me disseram, a primeira vez é sempre assim, geralmente esperamos tanto da vida, e a mesma gloriosa em seu encanto e mistério, sempre nos presenteia com suas possibilidades, um universo de possibilidades, uma gama de paradigmas em forma de esperança, sim, uma infinidade de possibilidades que ainda não vingaram: a possibilidade de uma bela família, uma boa casa de campo, lindos filhos, a possibilidade de uma boa vizinhança, o reconhecimento de um bom emprego, amigos, uma boa festa, um bom final de semana, um agradável jogo de futebol, uma bela pessoa que passa, por acaso ao nosso lado, uma boa refeição, um ótimo livro, uma agradável  conversa, um inverno nostálgico, um exuberante jardim que transborde vida, uma desejável companhia, um merecido conforto, uma bela poesia, uma majestosa pintura, uma saudável caminhada, uma boa noite de sono, ou até mesmo um alívio após um cigarro. Enfim, nossa existência tem fome de ser e existir mergulhada em possibilidades.

Porém, uma pergunta não para de palpitar em minha alma: e quando tudo perde sentido? Quando tudo para? Onde assentar nossa alma? Como encontramos conforto após uma lágrima? Onde refrigera nosso querer? Em qual instante deixamos de ser? Talvez, sei lá, quando não há perspectivas. Quando tudo brutalmente é esgotado; exatamente ao vazar da vida todo o seu perfume, todas suas possibilidades, todo seu sentido, nessa hora deixamos de ser e nossas escolhas vivem de fantasmas, envelhecemos nosso espírito, vagamos pelo vale do esquecimento. Saímos de um labirinto para findar em uma rústica caverna. Um quarto, um asilo, último abrigo, um mundo pessoal. Um lugar onde os instantes são eternos, as horas rastejam, e ninguém pode ver seu corpo definhar vagando sem rumo feito um ser das trevas.

Demônios - para isso estou aqui. Pois é, eles existem e estão condenados a vaguear em nosso mundo. O mais irônico disso tudo é que um deles veio passar as férias nesse asilo. Resultado?  Ruídos inexplicáveis, luzes que se acendem e apagam sozinhas, baixa de temperaturas repentinas, objetos que movem-se sozinhos, sombras dançando pela asilo, vozes ou lamurias que não sabemos de onde vêm…Quando aqui cheguei acontecimentos bizarros e, muitas vezes violentos começaram a ocorrer com uma certa regularidade. É o que eu denomino de “arruaça paranormal”. Mas, qual o sentido de tanta arruaça paranormal? Será algum tipo de desabafo por estarem condenados a vaguear sobre a Terra? Vingança? Algum tipo de ressentimento pelo destino inevitável ao inferno? Faz sentido- Pelo que sei o inferno não é um lugar com boa vizinhança. Sobre o inferno C. S. Lewis uma vez escreveu: "Não há nenhuma doutrina que eu removeria de mais bom grado do cristianismo do que isto, se eu tivesse o poder. Mas essa doutrina tem o pleno apoio das Escrituras, e sobretudo das próprias palavras do nosso Senhor." Segundo o poeta Dante Alighieri na depressão, que se abisma em nove círculos concêntricos, podemos encontrar o inferno. Um lugar onde os condenados estão disseminados.  Entre o mundo da matéria e o da imaterialidade. Não apenas em suas palavras, mas desde muito tempo, atravessando as eras mitológicas, nos chega a ideia de tal lugar - uma região subterrânea onde padecem as almas daqueles que não tinham praticado o bem em suas existências terrenas. Segundo as lendas as almas imundas estariam condenadas a ficarem prisioneiras, eternamente sofrendo suplícios e dores terríveis naquele chamado Hades pelos gregos e Inferno pelos católicos e pelos protestantes. Certamente um lugar que ninguém deseja ir. Houve quem defendesse que a permanência da alma no inferno era temporária- algum tipo de hotel de quinta categoria- que segundo os Evangelhos, a pobre alma poderia sair em um processo de ressurreição. Enfim, espero que esse asilo não se transforme na casa da abadia inglesa de Borley, século XX. Para muitos o lugar mais assombrado da Inglaterra, conhecida pela sua música medonha que se ouvia entre as suas paredes e pelo monge que caminhava pelo átrio. Uma história e tanto. Espero que o rumo desse lugar seja mais louvável tipo pacientes repousando sem o incômodo de alguma “entidade desocupada” . Geralmente clínicas carregam energias pesadas. Qualquer um pode sentir isso.  A pessoas aqui tentam fingir- Nisso elas são boas. Mas comigo a coisas são diferentes. Não estou aqui para isso: retratar absurdos bizarros.  Tenho um dom – mandar entidades vagabundas para seu lugarzinho no inferno. O curioso disso tudo é que eu posso tanto ser uma pessoa normal  escondendo um monstro desagradável em meu ser, quanto posso ser um neurótica bem vestida em uma camisa de força . Tudo faz parte de um jogo. De quando em quando sentindo os estertores da morte em minha garganta, como um mal está depois de um vômito interminável. A vida não me jogou aqui de paraquedas, fraca, solitária, sem horizonte.  Foi exatamente esse o lugar escolhido por Mawilda e seu irmão para meu primeiro trabalho. Durante anos de teoria estava mais que na hora da prática.

04:30 da manhã, bem agasalhada, dou início um passeio pela aleia junto ao muro da enfermaria. Um sol meio toldado me esquenta e reflete nas janelas intensificando as esculturas do jardim. Pássaros cantam e embelezam a vista. Deixando a sala de visita atravesso um pequeno jardim, tão belo, por causa da estação de ano, todas a flores já estavam encantadoras. Tudo tão belo! Estou cansada...Ainda tenho algumas horas para dormir. Mais tarde quem sabe encontrar minhas “crianças imaginarias” e mandar um demônio de volta para o inferno.

- Já mandou alguém para o inferno? Essa pergunta não me saia da cabeça. Parecia impregnada em meu juízo. Ainda tenho dúvidas, tenho minhas dúvidas. Lanço uma olhadela pelos arredores da clínica e em seguida contemplo um leve nevoeiro com visível ar de satisfação. Ao fundo ouço conversas  rotineiras entre funcionários e pacientes e quando abro os olhos por um instante, ao longe pela lateral mawilda, segurando a mão do seu irmão, acenava para mim. Meus garotos. O que seria dessa frágil garota sem vocês? Quando aqui cheguei desorientada apenas com cinzas em meu coração aprendi como posso ser uma outra pessoa levando para aos meus desafetos o fogo dos meus olhos.  Algo me diz, que esta noite terei uma conversinha com um certo demônio.

Por  Claudio Castoriadis

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sombras


É vaga a lembrança que tenho de você
Queria tudo diferente, outra cor, outro
Sentido, outro lugar.
Eu poderia falar dos teus olhos, da sua
Pele, de nossos dias,
Mais o infinito fala mais alto quando
Do escuro, pedaços de uma realidade
Caem sobre meu corpo aos milhares.
Estou cansado, não é fácil construir um
Mundo todos os dias e voltar para dentro
De si todas as noites.
Não existe terceiro dia, é pequeno,

É sem brilho o passado que me cega.

Suas palavras são infladas, sua forma
De longe lembra o paraíso de quando
Eu era criança .
Sangue, gasolina, mentiras bem quistas
Eu te odeio feito um viciado sem malícia
Eu te amo toda vez que rasgo seu rosto
Eu te adoro feito lunático desprovido de sentimentos.

O amor é um velho fantasma que vaga em um
 Beco escuro assustando os solitários com suas
Correntes - Os poetas são ridículos quando dormem
 Com o mesmo escondido entre seus lençóis.

Ausente, quente, húmido
Impregnado
Em minhas palavras,
Em cada escultura,
Em cada verso.
Uma nova sinfonia
Dor, ódio e tristeza,
Uma leve grandeza
Rancor, fúria e pecado.
Rasga minha face cada lágrima involuntária.
Ouço um ruído nas escadas
Não tenho coragem
Sou um mentiroso
Sou um ladrão
Eu sou.
Eu tenho uma flor
Mesmo sufocado nos escombros
Eu tenho um coração
Ainda que debilitado pela vidraça estilhaçada,
Eu sigo em frente
Ontem choveu canivete
Hoje desaba luz
Uma nuvem negra sobrevoa meu jardim.


Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

sábado, 8 de setembro de 2012

Memórias de um asilo : Equilíbrio



 "Mil cairão ao seu lado
Dez mil a tua direita
Mas tu não serás
Atingido "

salmos 91

Certa vez me perguntaram qual era o gosto da solidão: hospital! Respondi de forma simples com um sorriso desdenhoso no rosto. Sei que esse tipo de pergunta suscinta cautela nas palavras, afinal, falar de solidão é descrever o resultado da soma dos mais atormentados sentimentos que emanam da profunda angústia do ser. O ser atirado em um mar de possibilidades e desafios de continuar sendo . Desde minha última internação tento ser breve quando as perguntas me parecem fúteis comumente empregadas no protocolo de decoro desses grupos de autoajuda- esses lugares onde pessoas amargas sutilmente “patéticas”, geralmente com cheiros desagradáveis, se encontram para desaguar suas lástimas. Pobres almas, mal sabem elas que a ferida da existência não tem cura, as chagas dos nossos afetos devoram qualquer possibilidade de felicidade. Ridículos por não tomarem conta da própria existência? E quem deveras sabe tomar conta de si? Falando em existência, quando encontrarei uma alma nesse vasto mundo que realmente soube o sentido pleno dessa responsabilidade? Ontem minha noite foi longa, resfriado acompanhado por náuseas, ânsia de vômito. Depois de ter encontrado um agradável livro, coloquei mais lenha na lareira. Eu tava pressentido uma noite daquelas. Minha irmã, cabelo ruivo e ondulado, de boa aparência e bom coração não fazia economia de carinho: Preocupada com meu estado veio ao meu quarto trazendo uma capa, na qual eu me embrulho. Detesto quando estou assim, frequentemente fico olhando para o relógio, minha vista fica pesada, não consigo dormir, os meus passos parecem pesa toneladas, nem mesmo consigo ficar em um canto parada durante muito tempo, por horas uma irritação borbulha dentro de mim. Vez por outra, deixo no ar uma risada histérica, boba, sem motivo. Logo em seguida súbitas torces se alternam com o silêncio da madrugada. Com o chegar da noite, quimeras atormentam meu silêncio. Não consigo descansar os olhos- tenho medo das coisas que vejo e ouço quando os fecho, pessoas, lugares, vozes, momentos queimam meu corpo depauperando meu equilíbrio. Escórias dos meus desejos, contra todos eu tenho meu escudo e minha espada: conhecimento e arte- pelo menos foi o que me restou. O que seria de mim sem o alívio da arte? Digo mais, o que seria do mundo desprovido da arte? Gosto de pintar, dizem que levo jeito pra coisa. Um ótimo passa tempo. Comecei pintando apenas paisagens, muito influenciado por amigos de infância. Obcecado com a busca do realismo, estudei com rigor, os grandes mestres do gênero. Gosto do meu trabalho- centraliza minhas ideias. Dependendo do momento um único quadro pode levar até 300 horas de dedicação para ser finalizado. Mas que tenho eu com o tempo? Não me admira a ineficácia do tempo. 

Solidão, solidão... Quanto me pesa e anseia aniquilar minha existência. Hoje cedo tive a impressão de ter ouvido a voz do meu pai. Quanto tempo que não o vejo- Sei que essa ideia beira ao ridículo, mas ainda lembro o caminho da sua casa. Queria tanto não lembrar. Em meus sonhos você ainda existe, você me vem com a mais bela flor, cultivada de um monte tão medonho. Assim como deixo os ventos do norte atiçar minha face, te cultivo em meus livros, naquela rua, nas músicas, nas palavras que ainda ecoam em meu imaginário. Eles estão rindo de mim. Enquanto meu rosto queima no asfalto, servindo de caricatura para os porcos, eu sei, estão rindo de mim. Egoístas, não sou como vocês, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis. Quem nos dias de hoje não se deixa levar por um tipo de complexo de Deus? Afinal me sinto tão superior quanto muita gente. Estou no chão, sei disso, sinto a sombra da morte se aproximando, minha visão falha, enquanto meu corpo se definha. Sou responsável por cada praga das minhas escolhas. E minha doença nada mais é que a extensão de um mundo doente e neurótico.

Ontem eu sentir o peso da existência.  Parei, sentei, em nada pensei. Dizem que o espírito das nobres criaturas bóia no olhar; mas não creio que essa máxima se aplique em alguém onde apenas insensibilidade reside nos olhos. De um lado uma fileira de livros, do outro, apenas o silêncio; nas minhas costas o fardo da vida. Tenho uma sombra, ela me tem, eu tenho um todo que em nada se justifica. Que estranho... Quem faz a pergunta é minha alma, porém, quem sofre com as respostas é minha forma. Como isso é possível? Não era pra ser assim, não foi o combinado. Vejo tudo fora do lugar, os moveis a esculturas que ainda sobraram. Ontem mesmo eu pensei em desistir, fraca e desamparada parei, e debruçada em uma montanha especulativa eu pensei, pensei por horas... Ontem eu pensei. Mas que fique bem claro, não pensei por pensar, não foi mais um pensar qualquer, trivial, sem sentido. Pensei com a força de quem acredita no sagrado. Pensei como uma sedentária doente e angustiada. Era dia, ainda existia luz; procurei vítimas, procurei culpados, nada encontrei, eu me encontrei, no acaso, nas dúvidas, no início do fim, era meio dia, era meia noite, era meio termo... Era quase nada, melhor dizendo: era um “eu” no meio da estradada. Há... o fim, palavra tão rica de significados cujo gosto amargo e indesejado filtra minha existência toda vez que penso e me perco, em pensamentos que retratam as ideias de uma mentirosa, uma rainha, um conceito perdido no meio, em cima, na frente, de lado, no centro, no nada. Mas ainda estou viva, tenho vontade de vida, ora, tudo que existe tem vontade de vida, cada fio do meu cabelo, cada batida do meu coração clama por vida, cada parte do meu corpo tem vontade de vida. Porém, faço tudo errado, eu ainda penso no nada. Fazendo isso estabeleço uma relação circular onde quem questiona e quem é questionado voltam sempre ao seu ponto de partida: a dúvida. Tenho medo, onde tudo isso vai parar? Quantas vezes não me fiz essa pergunta. Enfim, ainda tenho motivos pra sorrir.

Primeira luz do amanhecer, observo as crianças da vizinhança brincando pela redondesa. Agora a lembranças vinham densas e com mais rigor. Uma delas faiscou nitidamente: uma criança, que ao contrário das que brincavam na minha varanda, essa se encontrava sozinha desfrutando da sua solidão. Se bem que “solidão”  não seria uma palavra adequada em minha infância. Existia algo diferente em mim. Sempre bem vestida, cabelo cobrindo os olhos, pele tão clara que parecia tremeluzir corando a melancolia do meu semblante. Eu tinha uma postura arrogante como nunca vira antes. Eram poucas as minhas palavras quando muito, eu fazia questão de me expressar com o lábio superior curvado numa linha de pura malícia. Eu tinha todos os motivos para meu sentimento de grandeza. Afinal, o fato é que eu não estava só. Havia algo de extraordinário, acontecendo em minha vida. Dentre todos os segredos da minha infância, um ocupava um lugar sagrado. Meu maior segredo implica no maior presente da natureza para mim: Mawilda e seu pequeno irmão. Com eles, os sentimentos mais ponderados são os que trazem a mais densa tempestade.

Foi preciso mais de anos para minha iniciação no universo místico desses dois amigos imaginários. Muito estudo e disciplina, mais nunca solitária, eles estavam sempre do meu lado. Por vezes cheguei a pensar que minha razão estava beirando no limiar da loucura. Porém, segundo eles, eu sou diferente, um tipo especial de ser; minha alma e espírito assim como eles são correlato da natureza. Tudo faz parte de um todo, não existe bem nem mal e sim uma gloriosa harmonia. Eles são irmãos, tão sempre juntos. Desde o primeiro momento que tive contato com os dois, a união deles sempre me fascinou. Atraentes, misteriosos, meigos. Entre todas suas peculiaridades a que mais me deixou inquieta foi saber que eles formam um casal de crianças sem malícia: lindos cuja aparência passa serenidade, ele aparenta ter seus 11 anos de idade, ela demonstra passar dos 14. A garota se chama Mawilda o garoto até hoje ainda não sei o nome.

Tímido e desajeitado ele apenas mantém contato com sua irmã. Estão sempre conversando, posso ouvi-la, mas ele faz questão de ser reservado. Tentei por varias anos ouvir sua voz, mas, cauteloso ele sempre tratou de falar em baixo tom. Tudo meu conhecimento no que se infere a magia eu devo a ele, centenas de livros ele resmunga todos os dias para a irmã e ela trata de passar tudo para mim. Nunca toquei em um livro. Com embasamento e conhecimento sobre poderes ocultos ele se mostra ser uma entidade inquieta e temperamento peculiar. Uma inaudita postura. Impossível auscultar aquele espírito, assim como era impossível classificar aquela natureza. Foi difícil, mas me encantei por esses irmãos tão carismáticos. Eles estavam por toda parte, em todo momento de minha vida, nos bons e nos ruins. Porém visíveis apenas para mim. Quando eu estava em sala fazendo prova lá estavam eles, bem ao lado do professor, fazendo pirraça não apenas com o velho, mas com os demais alunos somente pra divertir meu dia; nas festas que ocorriam com frequência na faculdade eles também aprontavam da forma mais meiga apenas para chamarem minha atenção; e como esquecer o dia em que Mawilda fez uma garota esnobe que estava sempre pegando no meu pé perder a voz em plena oratória de uma peça na faculdade? Como não gostar de duas criatura tão amigáveis? Nunca falei sobre eles pra ninguém, esse é nosso segredo. Eu sei que não convivemos mais tão próximos da natureza como nossos ancestrais, por isso fica bem mais difícil a compreensão do todo que nos cerca, tudo que é sagrado e mágico na natureza. Sim! Eles são parte da natureza, assim com “eu” e tudo que faz parte da realidade. Considero os dois uma grande bênção dos céus, bênção dos antigos deuses, eles me deram esperança e sentido em um mundo tão cruel, cada palavra de Mawilda de consolo brilha em sua grandiosidade, e cada vez que seu pequeno irmão olha pra mim ele agracia com luz e equilíbrio meus caminhos. Mas certo dia mawilda me fez a seguinte pergunta:

___Já mandou alguém para o inferno? Seus lábios crisparam-se sarcasticamente. E minha vida? A partir dessa pergunta nunca mais foi a mesma.


Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Franz Liszt: Poema Sinfônico



"Toquei hoje numerosas vezes as Consolações de Liszt; sinto que esses acordes penetraram em mim, despertando como um eco espiritualizado." Esse relato tão reconfortante ganha um sentido épico quando se trata de um desabafo do filósofo Nietzsche. Afinal, poucos músicos e intelectuais consolavam as amarguras do autor de Zaratustra. O que Nietzsche diz certamente traduz boa parte da experiência embriagante vivida por muitos dos admiradores de Franz Liszt. Um músico ativo e inquieto, vivamente motivado a repirar arte. Reza a lenda que certa vez, durante uma recepção em um palácio, o chapéu de Liszt caiu, rolando escada abaixo. Uma princesa russa, aproximando-se de Lizst, exclamou: "Oh, seu chapeu caiu, senhor!". Ele respondeu: "Deixe! Por causa de seu encanto já perdi a cabeça, de modo que o chapéu não me serve mais". Assim era o mestre Liszt. Cortejado pelas mulheres, admirado pelos homens, Franz nasceu a 22 de outubro de 1811, em Haiding, na Hungria. Seu talento precoce ao piano surpreendeu a nobreza local.  Estudou com Antonio Salieri e Carl Czerny, este último, por sua vez, aluno de Beethoven. Decide ficar em Paris, onde seu talento destaca-se. Sua técnica ao piano é exuberante. Executa à primeira vista partituras dificílimas. Suas próprias músicas são também de extrema dificuldade. Seu pai morre em Paris, mas Liszt decide ficar na cidade. Em pouco tempo, torna-se presença constante nos meios artísticos e intelectuais da cidade-luz. Entre seus amigos encontramos Chopin, Berlioz, Schumann, Victor Hugo, Lamartine, Heinrich Heine e outros grandes nomes do movimento Romântico, do qual Liszt é um dos expoentes máximos. Em 1842 vai para Weimar, assumindo o cargo de mestre-capela (uma espécie de diretor musical). Essa mudança é fundamental em sua vida: passa a ter um crescente interesse pela música orquestral e pela ópera italiana. Nessa época conhece um músico que ainda terá grande importância: Richard Wagner.

De um encontro na casa de Chopin nasceu a paixão pela condessa Marie d'Agoult, com quem teve três filhos: Blandine-Rachel, Daniel e Cósima - futura esposa de Wagner. Sob seus auspícios, Weimar destaca-se como centro de peregrinação musical. Inúmeros compositores vêm até essa cidade, sequisos de conhecer o famoso pianista húngaro. Mas nem tudo vai bem. Após alguns anos de convívio comum, Lizst rompe com a condessa d'Agoult. Em 1861, Lizst deixa a corte de Weimar, partindo para Roma, com a intenção explícita de se tornar padre.


Vez por outra Lizst se encontrava entre novos casos amorosos. O último deles, com a princesa Carolina Von Saint-Wittgenstein que termina com a recusa do Papa em legalizar sua união. Com isso, entra na última fase de sua vida. Verá ainda sua filha Cosima, após uma série de problemas, abandonar seu marido, o ex-aluno de Lizst Hans Von Bellow em favor de Wagner. Presenciará, em Bayreuth, o triunfo de seu genro. Falece nesta mesma cidade, em 31 de julho de 1886.


Suas composições na grande maioria estão voltadas para o piano. Todavia, além das incontáveis obras dedicadas a esse instrumento, Liszt foi o criador de uma forma musical que seria adotada por dezenas de outros compositores: o "Poema Sinfônico". É indubitável que no início seu estilo ainda estava atrelado ao encanto brilhante do século XVIII, uma música frívola que servia de base para os mais extravagantes exibicionismos. Seriam necessários alguns anos para que ele mudasse seu estilo, passasse a compor música de qualidade e criasse a noção do recital como hoje o conhecemos, um recital onde as pessoas se dirigem não pelo exibicionismo circense, mas pela qualidade musical. O fator decisivo foi sua percepção de que o virtuose era para sempre um prisioneiro do estilo brilhante. Ao invés de imitar Paganini, cujo virtuosismo era periférico em uma música simples, Liszt percebeu que o virtuosismo deveria tornar-se o elemento estrutural da obra, capaz de dar forma à erupção de ideias que brotavam de seu ser. Assim, ele foi além de todos os seus contemporâneos e tornou-se compositor de uma música divinamente nova, bem estruturada e de uma sonoridade extremamente cativante. Uma música que, em certo sentido, parecia anunciar a música do século XX. Ele incansavelmente tocou e regeu não apenas as obras daqueles que se tornariam clássicos, como Beethoven e Schubert, como as obras de seus contemporâneos ainda totalmente desconhecidos do público, tais como Berlioz, Chopin, Schumann, Mendelssohn e Wagner. 


Duas sinfonias de Liszt não tem o destaque que merecem em sua produção. Tanto a Sinfonia Fausto quanto a Sinfonia Dante são na verdade grandes poemas sinfônicos, inspiradas, no Fausto de Goethe e na "Divina Comédia" de Dante. Essa inspiração sinfônica é descendente direta da Sinfonia Fantástica de Berlioz, obra que Liszt muito admirava. Enfim, Liszt viveu sua vida como alguém que pensou além do seu horizonte histórico, se deixando levar pelo seu bom senso. Foi adorado por todos que o conheceram e odiado pelos que lhe invejavam a força criadora e estilo peculiar. Fatalidade do destino - aquele que fez de tudo para tornar conhecida a obra dos outros, acabou esquecido pela história. Apenas hoje, anos após seu nascimento, o mundo começa a perceber a importância de seu legado artístico. 


Por Claudio Castoriadis


Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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