segunda-feira, 23 de julho de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL



Foi “perambulando” pelas muitas morais (condições de vida) ou perspectivas avaliadoras que já se tinha ouvido falar que Nietzsche constatou duas formas distintas de avaliação, duas perspectivas avaliadoras, dois tipos psicológicos, ambos com suas particularidades presentes em diversos povos e classes de indivíduos no decorrer da história: a perspectiva avaliadora dos nobres contraposta à perspectiva avaliadora dos ressentidos, ou seja, a “moral dos fortes” e a “moral dos fracos”. Vale ressaltar que quando Nietzsche distingue esses dois tipos, nobres e ressentidos, ele se refere precisamente à aristocracia guerreira dos tempos homéricos e sua casta sacerdotal.
Aos olhos de Nietzsche a moral e, por conseguinte, seus cultuados valores, até o momento nunca fora abordada como um problema, posto que o valor dos valores reinantes permanecia inquestionável. E quando abordada era ainda no âmbito de hipóteses anacrônicas que se perdiam no azul das fábulas metafisicas.
Ao colocar em relevo o valor bom Nietzsche questiona se no mesmo não teria um sintoma regressivo. Por esse motivo as condições e circunstâncias da sua origem são problematizadas. A palavra “bom”, em suas várias designações nas mais diversificadas línguas remete à mesma transformação conceitual. Nobre, aristocrático em seu sentido social, é o conceito básico que irrompe o desenvolvimento da palavra “bom”, isto é, como espiritualmente nobre, espiritualmente bem nascido, espiritualmente privilegiado. Tal palavra está ligada à superioridade no poder, como os poderosos, os senhores, os ricos, os possuidores. Além disso, Nietzsche ainda ressalta o direito senhorial de dar nomes. Visto que são definidores de hierarquias, os nobres efetuavam suas avaliações em oposição a tudo que era baixo, vulgar e plebeu. Ou seja, o que deveras interessava ao nobre era estabelecer o pathos da distância: o duradouro domínio de uma elevada estirpe senhorial:
Desse pathos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade! Esse ponto de vista da utilidade é o mais estranho e inadequado, em vista de tal ardente manancial de juízos de valor supremos, estabelecedores e definidores de hierarquias: aí o sentimento alcançou bem o oposto daquele baixo grau de calor que toda prudência calculadora, todo cálculo de utilidade pressupõe. (idem, p.19).
Pois bem! O que Nietzsche quer mostrar é justamente que a mesma palavra ganha outro sentido quando é cultivado pela casta sacerdotal. Ou seja, o valor bom ganha uma nova roupagem. Daí, uma mesma palavra é analisada em dois momentos por nosso filósofo: um primeiro momento em que ela é criada e um segundo em que a mesma é descontextualizada.
O tipo nobre é aquele ciente de sua posição. De forma espontânea determina valores e empresta honra às coisas. O valor nobre remete especificamente a sua vitalidade física. Devido a sua aptidão a caça, para a guerra, jogos e aventuras, o nobre cria o valor bom atribuindo-o a si mesmo. Dito de outro modo, a perspectiva avaliadora do nobre nasce de uma acepção triunfante na afirmação de si.  Em sua autocelebração da vida anseia apenas por práticas sublimes “porque seu coração transborda”.  Por isso inflama seu discurso de auto afirmação: “nós os nobres, nós os bons, nós os felizes”. Em seguida, como uma “pálida imagem contrasta” uma simples criação derivada, ou uma cor complementar, o nobre cria o valor ruim para designar os desprovidos de poder e vitalidade física, impotentes e incapacitados para a guerra, ou seja, os escravos.
O juízo de valor cavalheiresco aristocrático tem como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve à sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma atividade robusta, livre, contente.  (ibidem, p. 25).
Por sua vez, a moral do escravo, sua perspectiva avaliadora, a forma como concebe o mundo, é caracterizada pela sua suscetibilidade mórbida, cuja postura contrária à avaliação dos nobres é a forma de expressão mais sincera da decadência. Mas, por quê? Ora, precisamente por nascer de um ressentido não, sua ação se exterioriza precisamente de um “doentio” movimento de reação. O modo de valoração dos fracos tem como referência o modo de valoração dos nobres.
 Em uma desesperada tentativa de se sobressair do domínio dos nobres, o fraco articula um discurso unicamente transcendental instaurando valores supremos, na tentativa de mascarar sua incapacidade de instinto de vingança:
E precisamente nisso está seu feito, sua criação: ele concebeu o “inimigo mau”, o “mau”, e isto como conceito básico, a partir do qual também elabora uma imagem equivalente, um bom – ele mesmo! (idem, p. 31).
Tendo em mente desqualificar o valor Bom da moral nobre, o escravo ressentido cria o valor mau estrategicamente acusando o nobre e reinterpretando pelo olhar venenoso do ressentimento o valor bom da moral dos nobres. Com isso, ao conceber seu adversário como mau, mentalmente ele cria um valor bom em contrapartida de si mesmo. Seu desejo de vingança se agrava mediante sua impotência em vingar-se. Seu discurso que emana de um profundo sentimento de vingança se apresenta da seguinte forma:
Sejamos outra coisa que não os maus, sejamos bons! E bom é todo aquele que não ultraja, que a ninguém fere, que não ataca, que não acerta contas, que remete a deus a vingança, que se mantém na sombra como nós, que foge de toda maldade e exige pouco da vida, como nós, os pacientes, humildes, justos (idem, p.37).
Nesse trecho apercebemos que a moral dos escravos traça uma poderosa estratégia quando transforma sua miséria em mérito, sua fraqueza como se fosse opcional, sua impotência voluntária, dando início assim à inversão dos valores morais, que caracteriza a vingança espiritual fundamentada no ódio mais profundo e sublime da casta sacerdotal. Um tipo de vingança caracterizada por subverter uma preeminência política em uma preeminência espiritual. A esse respeito, bem declara Nietzsche:
Julgar e condenar moralmente é a forma favorita de os espiritualmente limitados se vingarem daqueles que são menos, e também uma espécie de compensação por terem sido descurados pela natureza; e, por fim, uma oportunidade de adquirirem espírito e se tornarem sutis- a malícia espiritualizada. (Nietzsche, 2005, p.112).
Até o momento podemos nos situar no ato de criar como critério para diferenciar esses dois tipos: o homem nobre, abundante de forças, aquele que cria e que dá valor. E o fraco, que não cria, seu ato é de reação: seu olhar não enxerga a si; seu ato é de acusação: ele reage.
Pois bem! Por esse ângulo podemos distinguir visivelmente forças primárias ativas e forças secundárias reativas. E por se tratar da filosofia de Nietzsche uma Filosofia de forças, Gilles Deleuze afirma:
O sentido consiste precisamente numa relação de forças, segundo a qual algumas agem e outras reagem num conjunto complexo e hierarquizado. Qualquer que seja a complexidade de um fenômeno, distinguimos bem forças ativas, primárias, de conquista e subjugação, e forças reativas, secundárias, de adaptação e de regulação.  (1981, p.21)
Em Genealogia da Moral (no conjunto da obra) Nietzsche pretendeu mostrar essa hierarquia de forças que se contrapõem, esboçando no (decorrer do livro) as três etapas do adoecimento do homem, problematizando assim a perspectiva avaliadora dos ressentidos. Na primeira dissertação discorre sobre o ressentimento, na segunda a má consciência, e na terceira dissertação analisa o ideal ascético. O ponto central dessas três etapas consiste em mostrar o determinado momento em que a perspectiva do ressentido sobrepuja a perspectiva do nobre. Frente a um leque muito amplo de possíveis crenças que, contribuíram, segundo Nietzsche, para a manifestação do aviltado e bem sucedido domínio do ressentido, é fundamental considerarmos que em termos de hierarquia a força reativa é uma força submissa, porém é justamente ela que prevalece se sobressaindo da força ativa. Como tal fenômeno é possível? Ora, nesse caso Nietzsche alega a formação da consciência moral fundamentada na interiorização do homem, o que implica em um voltar-se contra si mesmo. A partir desse contexto, com toda irreverência que lhe é particular, Nietzsche pensa de forma contrária à seleção natural proposta por Darwin, ao denunciar um momento histórico em que subsistem e levam vantagem os fracos. 

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Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

quinta-feira, 19 de julho de 2012

NIETZSCHE UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL

2.2.  Psicologia e moral: uma Filosofia de forças


A reflexão de Nietzsche sobre a moral remete diretamente a um exame do que tem sido a história humana. Pondo sob suspeita nossas convicções, com primazia Nietzsche traça o perfil do comportamento dos homens no decorrer da história, identificando a relações de mando e de obediência. Uma reflexão social? Também; visto que seu procedimento busca justificativas plausíveis para as gritantes diferenças dos poucos que mandam e outros muitos que obedecem.
Permanecendo no terreno de uma psicologia e de uma antropologia, estreitando ainda a relação da filologia com a história, Nietzsche examina a cultura dos antigos, a civilizações já extintas, fazendo comparações entre épocas. No decorrer da sua investigação dos valores, além da fisiologia outras perspectivas estrategicamente são incorporadas: a perspectiva histórica e a etimológica, que acabam por identificar-se com a perspectiva sociológica. Porém, Nietzsche não perde de vista em nenhum momento o papel privilegiado da psicologia como análise do mundo e da crítica dos valores:  
Nas passagens em que trata especificamente da psicologia, Nietzsche ressalta a necessidade de romper com a metafísica no exame das questões morais, destaca o auxílio que a história pode prestar na reflexão sobre elas e ainda, em suas análises, salienta a importância de praticar, como os moralistas franceses, a anatomia moral. Nos escritos de 1888, esforça-se, porém, no sentido de esclarecer que a psicologia, tal como a concebe, não se confunde com a mera observação — seja ela simplesmente reflexiva ou voltada para o mundo circundante.  (Marton, 1990, p.71).
A partir desse ângulo pretendeu principiar um caráter científico às investigações morais, no intuito de banir em definitivo qualquer vínculo desta com a metafísica. Com efeito ele analisa a moral como uma interpretação de tipos de fenômenos, uma moral ou perspectiva avaliadora compreendida como espelho. Afinal, ela traz o reflexo de possíveis realidades da civilizações.
Enfim, no primeiro momento quando Nietzsche vê nos moralistas franceses a referência central no que tange ao estudo da psicologia, ao mesmo tempo compreende a estreita relação entre questões psicológicas e os estudos históricos. Nesse caso, Nietzsche pensa a psicologia como ciência que investiga a origem e a história dos sentimentos morais. A rigor, podemos ser mais precisos na pesquisa da moral como condição de vida e sua possível genealogia se levamos em consideração a tal abordagem psicológica inserida no contexto da doutrina nietzschiana. Corrosiva, sua psicologia não se confunde com uma mera observação:
 Seja qual for o resultado dos prós e dos contras: no presente estado de uma determinada ciência, o ressurgimento da observação moral se tornou necessário, e não pode ser poupada à humanidade a visão cruel da mesa de dissecação psicológica e de suas pinças e bisturis. Pois aí comanda a ciência que indaga a origem e a história dos chamados sentimentos morais, e que ao progredir, tem de expor e resolver os emaranhados problemas sociológicos- a velha filosofia não conhece em absoluto estes últimos, e com precárias evasivas sempre escapou à investigação sobre a origem e a história dos sentimentos morais.  (Nietzsche,b 2005, p.43)
 
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quarta-feira, 2 de maio de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


2.     A NOÇÃO DE MORAL COMO ANTINATUREZA


A questão dos valores é mais fundamental
que a questão da certeza: a seriedade desta
depende da solução que dermos àquela
Nietzsche
Vontade de Potência


Passemos, pois, à segunda significação da moral, para podermos compreender Nietzsche em sua análise crítica: uma moral compreendida como “antinatureza”. Seria de suma importância insistirmos em uma compreensão objetiva para o conceito de moral na perspectiva nietzschiana, para somente assim adentrarmos com clareza e cautela na esfera do seu discurso, visto que a busca de um justo conceito de moral evitaria possíveis contrassensos aderentes ao termo. Nesse momento, a análise da moral como objeto da crítica de Nietzsche não se detém na ética, em bons costumes, coisas positivamente valoráveis ou regras de comportamento, como já foi exposto. Sua crítica traz à tona todas as coisas humanas em sua plenitude: sentimentos, pensamentos e atos. Nesse aspecto podemos centralizar sua análise especificamente para uma moral cujo significado nos remete a formas de avaliação ou perspectivas avaliadoras. O grande problema agora é: quem está avaliando? Por que tal ou qual avaliação? O que sabemos de tal valor? O que podemos saber sobre o valor? Feitas essas perguntas nossa problemática agora se volta para a questão da criação.


2.1.   Procedimento genealógico


Foi analisada a moral como sentimento dos costumes. Agora será problematizado e aprofundado esse sentimento desde sua origem. Se a moral é uma condição de vida e tal condição é comprometida pelo sentimento de medo, então podemos pensar que a função última da moral apresenta-se como uma reação ao perigo. Sendo assim uma busca de conservação. Afinal, como já foi dito, uma moral implica em uma estrutura de valorações e as valorações são condições de uma determinada existência. Por tanto, um valor é um instrumento pelo qual um tipo específico de vida se exterioriza, seja para expandir seu domínio ou para conservar-se.
Sabemos que a moral é uma condição de vida e tal condição é um reflexo de quem se impõe ou se conserva. Porém, a questão central que Nietzsche levanta é a seguinte: qual seria o sentido de uma determinada tábua de valores? Sobre que solo os valores foram fincados? Afinal, vale para quê determinada valoração? Qual a base de determinada perspectiva? Quem está reagindo ao perigo? Quem está buscando conservação? Sobre quais circunstâncias surgem os valores morais? Como esses valores são construídos e transmitidos? Quem cria um valor o faz somente por determinadas condições; quais seriam elas? Enfim, qual o valor da invenção humana do bom e do mal?
Em seu cultuado livro A Genealogia da Moral, Nietzsche escreve o que seria uma das tarefas da sua filosofia:
Necessitamos de uma crítica dos valores morais e, antes de tudo, deve-se discutir o valor desses valores e por isso é totalmente necessário conhecer as condições e os ambientes em que nasceram, em favor dos quais se desenvolveram e nos quais se deformaram – a moral como consequência, como sintoma, como máscara, hipocrisia, enfermidade, equívoco; mas também a moral como causa, remédio, estimulante, inibição, veneno – como certo conhecimento que nunca houve outro igual nem poderá haver (Nietzsche, 1998, 12).
Partindo de rigorosos exames de caráter etimológico, histórico, filosófico e psicológico para investigar a linguagem acerca dos adjetivos morais, Nietzsche segue à risca seu procedimento genealógico, como crítica dos valores morais que visa demolir toda a base da conduta humana. Estrategicamente nosso filósofo foi minando tudo o que se encontrava à sombra dos hábitos valorizados e valores habituais, questionando-se pelo valor dos valores. A pergunta não se restringe aos valores existentes, mas estende-se ao valor desses valores. Não se detendo apenas no esclarecimento da estrutura moral, mas principalmente questionando sobre quais circunstâncias surgiu um determinado valor, e de que modo eles foram favoráveis ou não ao desenvolvimento humano. Daí Nietzsche se pergunta: são sintomas de indigência? De mediocridade? Empobrecimento? De degeneração da cultura? Com efeito, cada manifestação da conduta humana, as instituições, a filosofia, a arte, a política, o Estado, enfim, todos são contestáveis mediante seu corrosivo procedimento genealógico. 

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

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terça-feira, 1 de maio de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.3.   Custos negativos dos costumes


Conforme exposto, existe a íntima relação à margem do encanto de uma tradição em que um suposto bom costume se exterioriza, na maioria das vezes, de forma irreflexiva e submissa, mascarando um sentimento de medo. É tal a estratégia acerca da crítica dos costumes que Nietzsche coloca sob suspeita tudo o que é conhecido e cognoscível. Espontaneamente, o autor de Zaratustra nos convida a adentrarmos na dimensão da sua crítica quando instaura uma ampla discussão sobre o costume e assegura uma reflexão axiológica, analisando as possibilidades do conhecimento e a dimensão valorativa da consciência humana.
Costumes todos temos. Valores é o que nos diferem dos animais. Para conviver precisamos estabelecer uma série de valores. Cada conduta nossa em sociedade deve ser ponderada na medida do possível. Devemos decidir quais os valores que sustentaram nossas vidas. Porém o modo de conceber a realidade pelo prisma da moralidade, tal como Nietzsche apresenta, é negativo por rejeitar novas experiências. Desse modo, o grande problema do costume é quando este se encontra em sua forma estática; quando não existem possibilidades de novas práticas, novas experiências. O que, na verdade, Nietzsche tenta mostrar é que a vida refletida na individualidade do indivíduo não pode ser enclausurada; os sentimentos não devem ser os mesmos para todos. Com isso a moralidade embrutece os costumes debilitando toda e qualquer forma de avaliação.
Pois bem! Até aqui sabemos os custos negativos dos costumes. Sabemos também de que forma o mesmo exerce seu domínio e sabemos ainda o pilar principal que sustenta uma comunidade: o sentimento de medo.
Através de milhares de anos viu um perigo quando o rodeava, em tudo quanto o rodeava, em tudo quanto lhe era estranho, em tudo quanto estava vivo desde o momento em que semelhante espetáculo se oferecia a seus olhos, imitava os traços e a atitude que via ante si, e tirava uma conclusão sobre as intenções boas ou más que pudessem haver atrás daqueles traços e daquela atitude.  (Nietzsche, idem, p.107)
Observe-se que o sentimento de medo é pensado como um instrumento de compreensão. Tal prática de temor desde muito tempo serviu de sustento para a moral. O medo gera a adesão em um comportamento ordenado e submisso. Assim Nietzsche compreende o homem em sua fragilidade tão peculiar que, temendo o que lhe é estranho – o outro –, tira conclusões em pró de sua sobrevivência. Dentro dessa discussão identificamos dois pontos importantes (para nossa pesquisa): primeiro que o sentimento de medo é pensado como princípio articulador da moral, uma vez que o mesmo principia juízos e valorações e, segundo, o mesmo sentimento de medo tem seu caráter gregário. Afinal, os juízos e valorações remetem a um individuo que desenvolve sua sensibilidade e inteligência necessitando viver em sociedade.
O que dissemos até agora parece suficiente para proporcionar algumas afirmações fundamentais da crítica nietzschiana:
a)       A moral é tratada como condição de vida;
b)       A condição de vida é cultivada pelo sentimento de medo;
c)       O sentimento de medo serve de base para a moral de animal de rebanho.
Sabemos que a raiz do problema foi questionada: a formação da moral desde sua base na adoração pelo costume, cultivada pelo sentimento de medo. Porém, os homens não devem reprimir o medo e sim questionar a tradição. Enfim, qual postura assumir frente à moral reduzida e fortificada no tradicionalismo? Aquilo que efetivamente está em jogo nessa crítica consiste no convite em adotarmos uma postura de profunda desconfiança. Pois bem! Nietzsche tinha uma meta ao escrever Aurora. Pois o subtítulo de tal obra delimita sua pesquisa: fundamentar reflexões sobre preconceitos morais – a razão, a consciência, a boa opinião, amor ao próximo, Deus, virtude, justiça, pecado, o inferno, bem e mal. Preceitos expostos, desde sempre as piores análises.
Por quê? Ora Nietzsche responde que na presença da moral as reflexões são podadas por se tratar uma autoridade e na presença de uma autoridade o mais sensato durante muito tempo foi obedecer:
Desde que o mundo é mundo, nenhuma autoridade permitiu tornar-                se objeto de crítica; e chegar à crítica moral, ter por problemática a moral, como? Não foi sempre, não é ainda imoral? A moral, contudo não dispõe de toda classe de meios de intimidação para manter a distância as investigações críticas e os instrumentos de tortura; sua certeza repousa mais numa certa espécie de sedução que só ela conhece: sabe “entusiasmar”.  (Nietzsche, idem, p. 10).
 Considerando essas afirmações compreendemos que Nietzsche incessantemente nos conduz para uma crítica da estrutura da sociedade, visto que a mesma se mostra estabelecida no conjunto e tem como finalidade última a proteção dos indivíduos contra os perigos externos. A comunidade deve assim ser considerada um problema, pois para garantir sua permanência, afirma Nietzsche, ela busca um nivelamento de juízos. Nesse contexto, viver em comunidade significa abraçar o temor e desprezar qualquer postura que eleve o sujeito para um patamar além da comunidade. Ações individualistas que possam ameaçar a subsistência da comunidade são estigmatizados como imorais, de modo que tudo que infunde temor ao próximo é malquisto e denominado de mau.
Que fique claro: falar em moral mediante essas considerações é o mesmo que falar em uma condição de vida. E a condição criticada nesse momento é a condição de rebanho, um modo de pensar e viver que implicou na redução do homem à condição de animal doméstico, amansado e decadente. Portanto, o perigo que reside na comunidade é justamente quando ela está atrelada à moral de rebanho. Interessante notar que essa ligação do homem com a moral pela figura de animal de rebanho visa justamente personificar o moralista como uma ovelha frágil e decadente que desgarrada do seu rebanho (comunidade) e desconhece uma forma nobre de sobrevivência. Não consegue trazer para si a responsabilidade de viver a vida em suas mais notórias peculiaridades. Seja por má fé ou pelo sentimento de medo, ele cultua uma memória fraca que em nada lhe permite superar as amarguras, as desilusões, humilhações, as dores vividas, sempre amarrado a essas experiências. Salientando o temor na moral de rebanho, Nietzsche escreve:
O quanto de perigoso para a comunidade, para a igualdade, existe numa opinião, num estado, no afeto, numa vontade, num dom, passa a constituir a perspectiva moral: o temor é aqui novamente o pai da moral. (Nietzsche, 2006, p.88)
O animal de rebanho é, portanto, aquele incapaz de acolher e aceitar as imperfeições da vida. Ele desvia o olhar evitando o lado mais trágico da vida; está permanentemente buscando culpados por seus infortúnios; é fraco e carrega em sua alma o desejo de vingança. Dessa forma é incapaz de caminhar por seus próprios pés. Vive a esmo,  espera  um conforto vindo de fora, de um outro, concebido como Poderoso, Absoluto, quer seja a tradição ou uma comunidade. O temor para o animal de rebanho será sempre o pai da moral.

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

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domingo, 29 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.2.   Manipulação: Essência antropológica da tradição


 É assim trazida à luz a essência antropológica da tradição, uma forma de manipulação que está por trás de dogmas. Visto que ideias que afrontavam a tradição eram acolhidas geralmente de forma hostil, uma grande parte da humanidade ainda vive à sombra dessa manipulação. E Nietzsche alerta para a possibilidade de que ao longo de nossa existência é a tradição que decide por nós. Sob o império da moralidade dos costumes as ideias novas e divergentes são condenadas. Assim, toda ação individual é malquista quando compreendida segundo o olhar do moralista, visto que o nivelamento massivo de opiniões é assegurado pela covardia, má-fé e preguiça. E mais: chegamos desse modo ao ataque à moral reduzida a mero tradicionalismo, haja vista a moralidade não passar de obediência incondicional ao costume. Não importa de qual tipo, o costume foi sempre um modo tradicional de agir e julgar.
Nesse contexto, como compreendemos a tradição aqui problematizada? Com justeza, podemos compreender esta como sendo um tipo de autoridade superior à qual obedecemos cegamente, não porque nos ordena algo útil, mas simplesmente pelo fato de que ordena. Ora, onde não existe tradição não existe decência. Ou dito de outra forma: se conseguimos manter fidelidade pela tradição, de maneira alguma seremos pessoas decentes, pessoas de caráter moral íntegro. Por isso, podemos concluir que a moral delimita a ação do sujeito, visto que posturas contrárias ao imperativo da tradição não são bem acolhidas em uma comunidade.
Por esse motivo quanto menos a vida é determinada pela tradição tanto mais se restringe a área da moralidade. Não obstante, o que interessa a Nietzsche ao denunciar o encanto e servidão voluntária é justamente seu problema psicológico: o sentimento de medo.
Em que se distingue este sentido da tradição de um sentido geral de temor? É temor de uma inteligência superior que ordena, o temor de uma potência incompreensível e indefinida, de algo que é mais pessoal – há superstição neste temor. (idem, p. 19)
Quando em 1881 Nietzsche publica Aurora: Reflexões sobre Preconceitos Morais ele dá continuidade em sua análise à estrutura da moral que teve início já nos 638 aforismos do primeiro volume de Humano Demasiado Humano (1878). Ampliando a discussão sobre a cultura e introduzindo considerações sobre a vida social Nietzsche trata especificamente de um problema psicológico: o sentimento de medo. Seu argumento problematiza a moral sustentada a mero tradicionalismo legitimada pelo sentimento de medo que vigora perante uma autoridade ou superstição. Nesse contexto prestamos obediência moral, como uma autoridade incontestável, um tipo de moral atrelada à tradição, nos hábitos e modos de agir costumeiros. Nesses termos a costumeira crítica da cultura através da vida social conduz ao problema da moral, visto também como o problema do medo, pois tal sentimento é guia na participação do sentir dos outros. É por medo que somos domesticados pela tradição, escravizados pelo hábito e debilitados pela moral. Onde existe uma comunidade prevalece uma moralidade dos costumes e a moral inflamada de preconceitos será sempre uma moradia dos fracos. A esse respeito escreve Eduardo Rezende Melo:
 A verdadeira cara da moral mostra-se, então, como uma reação ao perigo e, portanto uma busca de conservação, construindo, a partir dessa reação, todo um modo de conceber o homem, o mundo e a vida e, nessa mesma resposta ao perigo, nessa reação moral, encontraram, para Nietzsche, o germe da filosofia. (2004, p. 123) 

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.1.  A Falta de sentido histórico e o sentimento de medo


Ora, por moral compreendemos uma estrutura de valorações. Por valorações, condições de existência ou, como dirá nosso filósofo em Para além do bem e do mal: [...] exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida (2005a, p.11). E as valorações puramente humanas estão de uma maneira ou de outra submetidas a mudanças no decorrer do tempo. Dessa forma Nietzsche vislumbra o homem como sendo uma entidade histórica em incessante transformação. Por esse motivo não é prudente falar de essências imutáveis, muito menos de verdades absolutas.
Assim encontramos o principal defeito dos filósofos contemporâneos a Nietzsche, segundo ele: a falta de sentido histórico. Uma falha involuntária de imaginar o homem como uma verdade eterna quando na verdade este veio a ser.
Nesse contexto, torna-se suspeito ainda todo sentimento por determinado costume, por ser proveniente das apreciações de juízos morais errôneos, na maioria das vezes, e por corrermos o risco de perdemos o direito por nosso juízo quando cegamente confiamos em uma tradição. Seja observado que Nietzsche inclina seu desprezo para o instinto de escravidão que vigora mediante a postura a que aderimos de total irreflexão e submissão quando somos guiados pelos sentimentos, visto que estes tem sua proveniência em juízos morais. E, nessa mesma dimensão tomada pelo encanto embriagante do costume – hábito, tradição –, as religiões, ciência e o Estado facilmente fortificam seus alicerces na medida em que se desenvolvem cultivando seu rebanho, adeptos da indiscutibilidade dos costumes. Com efeito, compreendemos nessa perspectiva que o encanto derivado do costume consiste em manter permanentemente na consciência o dever ininterrupto de servi-lo.
Permanecemos preponderantemente, durante toda a nossa vida, vítimas dos juízos infantis aos quais nos habituamos, e isto no que se refere à maneira de julgar nossos próximos (seu espírito, sua classe, sua moralidade, seu caráter, o que tem de louvável ou de censurável, prestando homenagem às suas apreciações). (idem, p. 75)
A genialidade particular dessa crítica consiste na facilidade com que seus argumentos criam uma dimensão corrosiva, instaurando uma problemática no círculo de possíveis perspectivas do objeto posto em discurso. Com efeito, o alcance de sua crítica ao costume é devastador na medida em que ela visa desmistificar as instituições, o Estado, a moral, a filosofia dogmática, as religiões. Enfim, é inegável a ligação de ambos quando nos reportamos ao costume.
É visível na história da humanidade as consequências que pesam sobre aqueles que confrontam a tradição e costumes, denunciando sua insustentabilidade argumentativa e reflexiva. Temos exemplos deploráveis como a condenação à prisão perpétua aplicada sobre Galileu Galilei (1564-1642), tão-somente por afirmar uma determinada doutrina que decerto contrariou as que vogavam em sua época. Sendo obrigado a recitar sete salmos penitenciais uma vez por semana ele teve de abjurar, maldizer e detestar a teoria copernicana. E não menos intrigante, não podemos deixar de citar o pensador holandês Benedictus Spinoza (1632-1677). Este, excomungado da comunidade judaica por afrontar a tradição da época em defesa da sua exuberante doutrina de um Deus inteiramente imanente: Deus sive natura. Pensamento polêmico, de beleza singular, porém um escândalo para a religião do seu tempo. Sendo sua obra Ética publicada apenas depois de sua morte. Assim como Nietzsche, Spinoza seguiu sua filosofia criticando os valores morais transcendentes. Críticas desse gênero que se chocavam bruscamente com a tradição religiosa. Vale lembrar ainda o trágico fim do pensador Giordano Bruno. Queimado no mercado de flores de Roma, dentre as acusações que pesou sobre ele, uma delas foi por defender que Deus estava presente na natureza; e outra, um escândalo para a época: acreditar na infinitude do universo.
Poder-se-ia até mesmo dizer que à primeira vista é mais que gritante a divergência de pensamento de desses intelectuais (Galileu Galilei, Benedictus Spinoza, Giordano Bruno). Entretanto, o que se torna evidente para qualquer um que analise as perseguições sofridas por Galileu, Spinoza ou Giordano foi como os argumentos contra eles se mostraram volúveis e grosseiros no decorrer do tempo. Tornou-se clara a insustentabilidade dos juízos contra as figuras desses pensadores, visto que seus crimes foram suas posturas firmes com as quais não se desprenderam dos seus juízos, não se rendendo a convicções superadas e falsas. Vale observar que o critério do julgamento na maioria dos casos expostos pelos juízes não tinha como princípio a veracidade dos fatos, mas a defesa dos costumes: uma perspectiva moralista.
                                                                                                                            
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Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

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