sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sombras


É vaga a lembrança que tenho de você
Queria tudo diferente, outra cor, outro
Sentido, outro lugar.
Eu poderia falar dos teus olhos, da sua
Pele, de nossos dias,
Mais o infinito fala mais alto quando
Do escuro, pedaços de uma realidade
Caem sobre meu corpo aos milhares.
Estou cansado, não é fácil construir um
Mundo todos os dias e voltar para dentro
De si todas as noites.
Não existe terceiro dia, é pequeno,

É sem brilho o passado que me cega.

Suas palavras são infladas, sua forma
De longe lembra o paraíso de quando
Eu era criança .
Sangue, gasolina, mentiras bem quistas
Eu te odeio feito um viciado sem malícia
Eu te amo toda vez que rasgo seu rosto
Eu te adoro feito lunático desprovido de sentimentos.

O amor é um velho fantasma que vaga em um
 Beco escuro assustando os solitários com suas
Correntes - Os poetas são ridículos quando dormem
 Com o mesmo escondido entre seus lençóis.

Ausente, quente, húmido
Impregnado
Em minhas palavras,
Em cada escultura,
Em cada verso.
Uma nova sinfonia
Dor, ódio e tristeza,
Uma leve grandeza
Rancor, fúria e pecado.
Rasga minha face cada lágrima involuntária.
Ouço um ruído nas escadas
Não tenho coragem
Sou um mentiroso
Sou um ladrão
Eu sou.
Eu tenho uma flor
Mesmo sufocado nos escombros
Eu tenho um coração
Ainda que debilitado pela vidraça estilhaçada,
Eu sigo em frente
Ontem choveu canivete
Hoje desaba luz
Uma nuvem negra sobrevoa meu jardim.


Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

sábado, 8 de setembro de 2012

Memórias de um asilo : Equilíbrio



 "Mil cairão ao seu lado
Dez mil a tua direita
Mas tu não serás
Atingido "

salmos 91

Certa vez me perguntaram qual era o gosto da solidão: hospital! Respondi de forma simples com um sorriso desdenhoso no rosto. Sei que esse tipo de pergunta suscinta cautela nas palavras, afinal, falar de solidão é descrever o resultado da soma dos mais atormentados sentimentos que emanam da profunda angústia do ser. O ser atirado em um mar de possibilidades e desafios de continuar sendo . Desde minha última internação tento ser breve quando as perguntas me parecem fúteis comumente empregadas no protocolo de decoro desses grupos de autoajuda- esses lugares onde pessoas amargas sutilmente “patéticas”, geralmente com cheiros desagradáveis, se encontram para desaguar suas lástimas. Pobres almas, mal sabem elas que a ferida da existência não tem cura, as chagas dos nossos afetos devoram qualquer possibilidade de felicidade. Ridículos por não tomarem conta da própria existência? E quem deveras sabe tomar conta de si? Falando em existência, quando encontrarei uma alma nesse vasto mundo que realmente soube o sentido pleno dessa responsabilidade? Ontem minha noite foi longa, resfriado acompanhado por náuseas, ânsia de vômito. Depois de ter encontrado um agradável livro, coloquei mais lenha na lareira. Eu tava pressentido uma noite daquelas. Minha irmã, cabelo ruivo e ondulado, de boa aparência e bom coração não fazia economia de carinho: Preocupada com meu estado veio ao meu quarto trazendo uma capa, na qual eu me embrulho. Detesto quando estou assim, frequentemente fico olhando para o relógio, minha vista fica pesada, não consigo dormir, os meus passos parecem pesa toneladas, nem mesmo consigo ficar em um canto parada durante muito tempo, por horas uma irritação borbulha dentro de mim. Vez por outra, deixo no ar uma risada histérica, boba, sem motivo. Logo em seguida súbitas torces se alternam com o silêncio da madrugada. Com o chegar da noite, quimeras atormentam meu silêncio. Não consigo descansar os olhos- tenho medo das coisas que vejo e ouço quando os fecho, pessoas, lugares, vozes, momentos queimam meu corpo depauperando meu equilíbrio. Escórias dos meus desejos, contra todos eu tenho meu escudo e minha espada: conhecimento e arte- pelo menos foi o que me restou. O que seria de mim sem o alívio da arte? Digo mais, o que seria do mundo desprovido da arte? Gosto de pintar, dizem que levo jeito pra coisa. Um ótimo passa tempo. Comecei pintando apenas paisagens, muito influenciado por amigos de infância. Obcecado com a busca do realismo, estudei com rigor, os grandes mestres do gênero. Gosto do meu trabalho- centraliza minhas ideias. Dependendo do momento um único quadro pode levar até 300 horas de dedicação para ser finalizado. Mas que tenho eu com o tempo? Não me admira a ineficácia do tempo. 

Solidão, solidão... Quanto me pesa e anseia aniquilar minha existência. Hoje cedo tive a impressão de ter ouvido a voz do meu pai. Quanto tempo que não o vejo- Sei que essa ideia beira ao ridículo, mas ainda lembro o caminho da sua casa. Queria tanto não lembrar. Em meus sonhos você ainda existe, você me vem com a mais bela flor, cultivada de um monte tão medonho. Assim como deixo os ventos do norte atiçar minha face, te cultivo em meus livros, naquela rua, nas músicas, nas palavras que ainda ecoam em meu imaginário. Eles estão rindo de mim. Enquanto meu rosto queima no asfalto, servindo de caricatura para os porcos, eu sei, estão rindo de mim. Egoístas, não sou como vocês, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis. Quem nos dias de hoje não se deixa levar por um tipo de complexo de Deus? Afinal me sinto tão superior quanto muita gente. Estou no chão, sei disso, sinto a sombra da morte se aproximando, minha visão falha, enquanto meu corpo se definha. Sou responsável por cada praga das minhas escolhas. E minha doença nada mais é que a extensão de um mundo doente e neurótico.

Ontem eu sentir o peso da existência.  Parei, sentei, em nada pensei. Dizem que o espírito das nobres criaturas bóia no olhar; mas não creio que essa máxima se aplique em alguém onde apenas insensibilidade reside nos olhos. De um lado uma fileira de livros, do outro, apenas o silêncio; nas minhas costas o fardo da vida. Tenho uma sombra, ela me tem, eu tenho um todo que em nada se justifica. Que estranho... Quem faz a pergunta é minha alma, porém, quem sofre com as respostas é minha forma. Como isso é possível? Não era pra ser assim, não foi o combinado. Vejo tudo fora do lugar, os moveis a esculturas que ainda sobraram. Ontem mesmo eu pensei em desistir, fraca e desamparada parei, e debruçada em uma montanha especulativa eu pensei, pensei por horas... Ontem eu pensei. Mas que fique bem claro, não pensei por pensar, não foi mais um pensar qualquer, trivial, sem sentido. Pensei com a força de quem acredita no sagrado. Pensei como uma sedentária doente e angustiada. Era dia, ainda existia luz; procurei vítimas, procurei culpados, nada encontrei, eu me encontrei, no acaso, nas dúvidas, no início do fim, era meio dia, era meia noite, era meio termo... Era quase nada, melhor dizendo: era um “eu” no meio da estradada. Há... o fim, palavra tão rica de significados cujo gosto amargo e indesejado filtra minha existência toda vez que penso e me perco, em pensamentos que retratam as ideias de uma mentirosa, uma rainha, um conceito perdido no meio, em cima, na frente, de lado, no centro, no nada. Mas ainda estou viva, tenho vontade de vida, ora, tudo que existe tem vontade de vida, cada fio do meu cabelo, cada batida do meu coração clama por vida, cada parte do meu corpo tem vontade de vida. Porém, faço tudo errado, eu ainda penso no nada. Fazendo isso estabeleço uma relação circular onde quem questiona e quem é questionado voltam sempre ao seu ponto de partida: a dúvida. Tenho medo, onde tudo isso vai parar? Quantas vezes não me fiz essa pergunta. Enfim, ainda tenho motivos pra sorrir.

Primeira luz do amanhecer, observo as crianças da vizinhança brincando pela redondesa. Agora a lembranças vinham densas e com mais rigor. Uma delas faiscou nitidamente: uma criança, que ao contrário das que brincavam na minha varanda, essa se encontrava sozinha desfrutando da sua solidão. Se bem que “solidão”  não seria uma palavra adequada em minha infância. Existia algo diferente em mim. Sempre bem vestida, cabelo cobrindo os olhos, pele tão clara que parecia tremeluzir corando a melancolia do meu semblante. Eu tinha uma postura arrogante como nunca vira antes. Eram poucas as minhas palavras quando muito, eu fazia questão de me expressar com o lábio superior curvado numa linha de pura malícia. Eu tinha todos os motivos para meu sentimento de grandeza. Afinal, o fato é que eu não estava só. Havia algo de extraordinário, acontecendo em minha vida. Dentre todos os segredos da minha infância, um ocupava um lugar sagrado. Meu maior segredo implica no maior presente da natureza para mim: Mawilda e seu pequeno irmão. Com eles, os sentimentos mais ponderados são os que trazem a mais densa tempestade.

Foi preciso mais de anos para minha iniciação no universo místico desses dois amigos imaginários. Muito estudo e disciplina, mais nunca solitária, eles estavam sempre do meu lado. Por vezes cheguei a pensar que minha razão estava beirando no limiar da loucura. Porém, segundo eles, eu sou diferente, um tipo especial de ser; minha alma e espírito assim como eles são correlato da natureza. Tudo faz parte de um todo, não existe bem nem mal e sim uma gloriosa harmonia. Eles são irmãos, tão sempre juntos. Desde o primeiro momento que tive contato com os dois, a união deles sempre me fascinou. Atraentes, misteriosos, meigos. Entre todas suas peculiaridades a que mais me deixou inquieta foi saber que eles formam um casal de crianças sem malícia: lindos cuja aparência passa serenidade, ele aparenta ter seus 11 anos de idade, ela demonstra passar dos 14. A garota se chama Mawilda o garoto até hoje ainda não sei o nome.

Tímido e desajeitado ele apenas mantém contato com sua irmã. Estão sempre conversando, posso ouvi-la, mas ele faz questão de ser reservado. Tentei por varias anos ouvir sua voz, mas, cauteloso ele sempre tratou de falar em baixo tom. Tudo meu conhecimento no que se infere a magia eu devo a ele, centenas de livros ele resmunga todos os dias para a irmã e ela trata de passar tudo para mim. Nunca toquei em um livro. Com embasamento e conhecimento sobre poderes ocultos ele se mostra ser uma entidade inquieta e temperamento peculiar. Uma inaudita postura. Impossível auscultar aquele espírito, assim como era impossível classificar aquela natureza. Foi difícil, mas me encantei por esses irmãos tão carismáticos. Eles estavam por toda parte, em todo momento de minha vida, nos bons e nos ruins. Porém visíveis apenas para mim. Quando eu estava em sala fazendo prova lá estavam eles, bem ao lado do professor, fazendo pirraça não apenas com o velho, mas com os demais alunos somente pra divertir meu dia; nas festas que ocorriam com frequência na faculdade eles também aprontavam da forma mais meiga apenas para chamarem minha atenção; e como esquecer o dia em que Mawilda fez uma garota esnobe que estava sempre pegando no meu pé perder a voz em plena oratória de uma peça na faculdade? Como não gostar de duas criatura tão amigáveis? Nunca falei sobre eles pra ninguém, esse é nosso segredo. Eu sei que não convivemos mais tão próximos da natureza como nossos ancestrais, por isso fica bem mais difícil a compreensão do todo que nos cerca, tudo que é sagrado e mágico na natureza. Sim! Eles são parte da natureza, assim com “eu” e tudo que faz parte da realidade. Considero os dois uma grande bênção dos céus, bênção dos antigos deuses, eles me deram esperança e sentido em um mundo tão cruel, cada palavra de Mawilda de consolo brilha em sua grandiosidade, e cada vez que seu pequeno irmão olha pra mim ele agracia com luz e equilíbrio meus caminhos. Mas certo dia mawilda me fez a seguinte pergunta:

___Já mandou alguém para o inferno? Seus lábios crisparam-se sarcasticamente. E minha vida? A partir dessa pergunta nunca mais foi a mesma.


Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Franz Liszt: Poema Sinfônico



"Toquei hoje numerosas vezes as Consolações de Liszt; sinto que esses acordes penetraram em mim, despertando como um eco espiritualizado." Esse relato tão reconfortante ganha um sentido épico quando se trata de um desabafo do filósofo Nietzsche. Afinal, poucos músicos e intelectuais consolavam as amarguras do autor de Zaratustra. O que Nietzsche diz certamente traduz boa parte da experiência embriagante vivida por muitos dos admiradores de Franz Liszt. Um músico ativo e inquieto, vivamente motivado a repirar arte. Reza a lenda que certa vez, durante uma recepção em um palácio, o chapéu de Liszt caiu, rolando escada abaixo. Uma princesa russa, aproximando-se de Lizst, exclamou: "Oh, seu chapeu caiu, senhor!". Ele respondeu: "Deixe! Por causa de seu encanto já perdi a cabeça, de modo que o chapéu não me serve mais". Assim era o mestre Liszt. Cortejado pelas mulheres, admirado pelos homens, Franz nasceu a 22 de outubro de 1811, em Haiding, na Hungria. Seu talento precoce ao piano surpreendeu a nobreza local.  Estudou com Antonio Salieri e Carl Czerny, este último, por sua vez, aluno de Beethoven. Decide ficar em Paris, onde seu talento destaca-se. Sua técnica ao piano é exuberante. Executa à primeira vista partituras dificílimas. Suas próprias músicas são também de extrema dificuldade. Seu pai morre em Paris, mas Liszt decide ficar na cidade. Em pouco tempo, torna-se presença constante nos meios artísticos e intelectuais da cidade-luz. Entre seus amigos encontramos Chopin, Berlioz, Schumann, Victor Hugo, Lamartine, Heinrich Heine e outros grandes nomes do movimento Romântico, do qual Liszt é um dos expoentes máximos. Em 1842 vai para Weimar, assumindo o cargo de mestre-capela (uma espécie de diretor musical). Essa mudança é fundamental em sua vida: passa a ter um crescente interesse pela música orquestral e pela ópera italiana. Nessa época conhece um músico que ainda terá grande importância: Richard Wagner.

De um encontro na casa de Chopin nasceu a paixão pela condessa Marie d'Agoult, com quem teve três filhos: Blandine-Rachel, Daniel e Cósima - futura esposa de Wagner. Sob seus auspícios, Weimar destaca-se como centro de peregrinação musical. Inúmeros compositores vêm até essa cidade, sequisos de conhecer o famoso pianista húngaro. Mas nem tudo vai bem. Após alguns anos de convívio comum, Lizst rompe com a condessa d'Agoult. Em 1861, Lizst deixa a corte de Weimar, partindo para Roma, com a intenção explícita de se tornar padre.


Vez por outra Lizst se encontrava entre novos casos amorosos. O último deles, com a princesa Carolina Von Saint-Wittgenstein que termina com a recusa do Papa em legalizar sua união. Com isso, entra na última fase de sua vida. Verá ainda sua filha Cosima, após uma série de problemas, abandonar seu marido, o ex-aluno de Lizst Hans Von Bellow em favor de Wagner. Presenciará, em Bayreuth, o triunfo de seu genro. Falece nesta mesma cidade, em 31 de julho de 1886.


Suas composições na grande maioria estão voltadas para o piano. Todavia, além das incontáveis obras dedicadas a esse instrumento, Liszt foi o criador de uma forma musical que seria adotada por dezenas de outros compositores: o "Poema Sinfônico". É indubitável que no início seu estilo ainda estava atrelado ao encanto brilhante do século XVIII, uma música frívola que servia de base para os mais extravagantes exibicionismos. Seriam necessários alguns anos para que ele mudasse seu estilo, passasse a compor música de qualidade e criasse a noção do recital como hoje o conhecemos, um recital onde as pessoas se dirigem não pelo exibicionismo circense, mas pela qualidade musical. O fator decisivo foi sua percepção de que o virtuose era para sempre um prisioneiro do estilo brilhante. Ao invés de imitar Paganini, cujo virtuosismo era periférico em uma música simples, Liszt percebeu que o virtuosismo deveria tornar-se o elemento estrutural da obra, capaz de dar forma à erupção de ideias que brotavam de seu ser. Assim, ele foi além de todos os seus contemporâneos e tornou-se compositor de uma música divinamente nova, bem estruturada e de uma sonoridade extremamente cativante. Uma música que, em certo sentido, parecia anunciar a música do século XX. Ele incansavelmente tocou e regeu não apenas as obras daqueles que se tornariam clássicos, como Beethoven e Schubert, como as obras de seus contemporâneos ainda totalmente desconhecidos do público, tais como Berlioz, Chopin, Schumann, Mendelssohn e Wagner. 


Duas sinfonias de Liszt não tem o destaque que merecem em sua produção. Tanto a Sinfonia Fausto quanto a Sinfonia Dante são na verdade grandes poemas sinfônicos, inspiradas, no Fausto de Goethe e na "Divina Comédia" de Dante. Essa inspiração sinfônica é descendente direta da Sinfonia Fantástica de Berlioz, obra que Liszt muito admirava. Enfim, Liszt viveu sua vida como alguém que pensou além do seu horizonte histórico, se deixando levar pelo seu bom senso. Foi adorado por todos que o conheceram e odiado pelos que lhe invejavam a força criadora e estilo peculiar. Fatalidade do destino - aquele que fez de tudo para tornar conhecida a obra dos outros, acabou esquecido pela história. Apenas hoje, anos após seu nascimento, o mundo começa a perceber a importância de seu legado artístico. 


Por Claudio Castoriadis


Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

domingo, 26 de agosto de 2012

Soldadinho de chunbo

Tem dias que eu acordo tão sacana quanto as mulheres do Charles Bukowski, outros dias sou um ridículo dos contos do Dostoievski, na maioria da vezes minha mente se perde na trama dos símbolos dos poetas gregos, em momentos de fúria me vejo no velho lobo do mar do Jack London e quando sou sufocado por qualquer ternura sou o soldadinho de chunbo perneta do Christian Andersen. 

Por Claudio Catoriadis

Dionísio despedaçado


                                                                
                                                                                                                                           
Em um simplório vilarejo de Roecken (saxônia) nas redondezas de Leipzig, aldeiazinha da Prússia, a 15 de outubro de 1844, nasce Friedrich Wilhelm Nietzsche. Filho de Karl Ludwig Nietzsche e de Franziska Oehler - ele traz os prenomes do rei da Prússia-, sendo descendente direto, de ambos os lados da família, de uma longa série de teólogos e pastores luteranos. Nietzsche foi educado em Naumburg, num meio feminino, sob os cuidados da mãe, ele era uma criança prodígio; suas dissertações e ensaios de composições musicais esboçam desde cedo uma criança precisamente brilhante e prodígio. No período de onze anos foi professor de grego latim na então cultuada universidade da Basiléia, na suíça. De imediato sua estada nessa cidade foi tranqüila onde nos primeiros anos dava regulamente cursos, palestras e dedicava-se seriamente a escrita. Entretanto, vale ressaltar que, nem a filologia nem o ensino proporcionavam-lhe alegria; ainda assim, tal época foi ponto determinante em sua carreira, afinal, descobriu Schopenhauer e, foi ingresso no circulo familiar de Wagner1, referências intelectuais com quem havia entrado em contato ainda quando estudava em Leipzig. Embora perenemente frágil Nietzsche ficou conhecido por suas peregrinações e viagens, sempre em busca de lugares favoráveis para expressar suas ideias que culminavam em seu espírito. Em meio a crises, onde muitas vezes, não podia ler e escrever confessava ser seu pensamento derradeiro e único consolo. De estação em estação, habituado à pérfida condição de pensador solitário errante, Nietzsche Viveu quase sempre em miseráveis moradias tencionando organizar uma existência tranqüila em sua conturbada e melancólica vida passando a escolher criteriosamente climas favoráveis para sua saúde e produção intelectual. Com isso, em meio a suas constantes e longas andanças ocorre um dos momentos mais memoráveis não só para Nietzsche como também para filosofia, em meados de agosto de 1881, o deslumbramento do eterno retorno atravessou-lhe o espírito. Uma experiência singular vivida durante uma de suas caminhadas costumeiras a margem do lago de Silva plana em Sils-Maria. Tomado pela euforia dessa visão Nietzsche tratou de conservar tal pensamento no mais recôndito de seu coração. Mas, logo em seguida contemplara seus leitores com a riqueza dessa doutrina nas cultuadas páginas de um de seus mais belos livros: A Gaia Ciência.

       Sua influência pesou nas mais diversas escolas filosóficas ao longo do século XX, amado por muitos e desprezado por outros, Nietzsche se tornou um fenômeno sem paralelos na história da filosofia. A característica principal do “evento Nietzsche” sem sombra de dúvidas foi sua afinidade com a figura de Dionísio2 que no pensamento esotérico dos dionisíacos é puro ato presente em toda parte, eternamente anelante da potência. Símbolo de todas as forças da natureza, Dionísio deus da terra, um ser vivo que engloba o homem e lhe da o verdadeiro sentido da existência. De fato, o estupor causado por essa encarnação divina encontrou em Nietzsche um fiel seguidor que habitou no beço do drama, vivendo, em carne e osso: a dissolução trazida pelo culto a vida. Com extremo rigor, Nietzsche não apenas sentiu como também viveu muito da concepção dionisíaca, marcando-a com precisos traços de sua psicologia pessoal. De certo modo sua genialidade foi singular por se aproveitar de tal simbólica para servir de símbolo acreditando ser mesmo um nobre solitário, reflexo humano de Dionísio. Sempre solitário, vivendo sua agonizante solidão como seu último recurso, agraciado por ter um espírito cheio de amor e sabedoria e, constantemente torturado por não encontrar receptáculo. Certamente por não encontrar quem quisesse seu saber, em Nietzsche tudo era melancolia, angústia e fúria, constantemente pairando em um universo perturbado por dolorosas experiências e desilusões, sem ajuda, sem princípios, sem esperança, sem pátria, sem uma única lembrança amiga. Porém, sua exuberante solidão encontrava-se cheia de luz servindo de consolo para um Nietzsche disperso, um Dionísio despedaçado. Por ser um incansável emissário do instinto dionisíaco, amante da alegria dionisíaca da vida, poeta e filósofo irrevogavelmente contundente; encontra-se latente em sua vida e obras ditirambos dramáticos - uma filosofia caracterizada por dar primazia a vontade e ao inconsciente.

                                                              
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        Apontando de imediato as diferenciações morais de valor em seu pensamento, Nietzsche deu início ao chamado “procedimento genealógico” determinado na explicação da dualidade ética pondo em relevo dois tipos psicológicos - nobres e ressentidos -. Por esse motivo compreendemos em sua filosofia uma preocupação pela dissecação dos valores morais tencionando explicações exaustivas e plausíveis denunciando possíveis atitudes e virtudes qualitativas originadas de uma classe nobre, formada em sua totalidade pelos indivíduos de uma possível espécie dominante, e uma classe de escravos onde se encontra atrelada os dominados e dependentes em qualquer sentido. Vale ressaltar, que, poucos filósofos estudaram tão profundamente a conduta humana. Foi um psicólogo extraordinário, revelou para o mundo todo o horror, frieza e beleza existente nos valores morais. Viu na moral nada mais que a personificação da decadência, que segundo o psicólogo Nietzsche, seria sintoma do ressentimento humano, a degenerescência da filosofia. Em fim, formas acusatórias do pensamento e da vida. “Martelo e transmutação”, eis a fórmula de sua filosofia, exuberante e radical, que discorre sobre o “Amor fati”, fórmula para a grandeza do homem. Nessa mesma esteira Nietzsche ainda pode ser visto como um dos mediadores da corrente filosófica dedicada na luta pela afirmação das identidades locais. Trouxe para si a responsabilidade de conservar os verdadeiros valores que floresce da sensibilidade nobre. Anti-revanchistas, Antifílisteus, antialemães, pregava no decorrer de toda sua obra: a inevitável ligação entre destruição, a necessidade do trágico, do poder sem limites e sem piedade suscitados pela vontade de domínio - impulso fundamental que nada tem de causação racional.

        Virtude própria ao gênio enaltecedor da vida, Nietzsche tem sido interpretado de inúmeras e diferentes maneiras; não existe um consenso definitivo por parte de seus intérpretes. Sem nunca ser completamente decifrado, a beleza e rigor das imagens poéticas de sua filosofia esboça um pensamento sempre aberto, ousado e contundente. Um dos primeiros a desenvolver um trabalho de conjunto sobre seu pensamento foi Charles Andler. Este, com determinação lançou entre 1920 e 1931, seis volumes onde traçava as influências que pesou sobre a filosofia de Nietzsche buscando reintroduzi-lo na tradição cultural; dedicou o primeiro dos seis volumes a seus precursores e aqueles que julgou mais lhe haverem impressionado: Goethe, Schiller, Holderlin, Kleist, Fichte, Schopenhauer, Montaigne, Pascal, La Rochefoucauld, Fontenelle, Chamfort, Estendhal, Burckhardt e Emerson. E, com o mesmo entusiasmo, Andler examinou a influência que os moralistas franceses, exerceram sobre Nietzsche, influência constatada antes mesmo de sua estádia como professor na universidade de Basiléia. Com toda competência, Andler também se propôs em traduzir wir philologen, titulo de um ensaio que Nietzsche não chegou a completar, por “Nós, Humanistas”.

      Logo em seguida vieram trabalhos que também contribuíram com resultados significativos para um razoável conhecimento dos seus manuscritos; Karl Jaspers merece ser lembrado por ter escrito em 1936 uma rigorosa pesquisa sobre a vida e obra do autor de aurora e, vinte anos depois, Walter Kalfmann se ateve em uma importante análise da teoria da vontade de potência. Bem antes desses até agora citados, André Gide, nas Lettres á Angéle, defende com competência a obra do mestre. Diz que: para uma plausível compreensão de Nietzsche, acima de tudo é preciso amá-lo, e unicamente o podem amar os cérebros aparelhados. E, prossegue com seus rasgados elogios para o autor de Zaratustra reclamando que não o entenderam os que o consideraram um demolidor, quando ele constrói e constrói sempre, e, quando destrói o faz nobremente, gloriosamente, com a fúria de um jovem conquistador que aniquila as coisas corroídas do passado. E ainda: “é a partir dele que foi possível a criação e que a obra de arte pôde existir”. Com semelhante paixão Daniel Halévy lançou uma biografia do poeta e filósofo, logo depois traduzida para inglês, onde descreve um Nietzsche compassivo, exposto a vulgaridade da sociedade do seu tempo. Heiriche Mann, Paul bourget, Albert Camos, Stefan zweig, Lébrun, Muller-lauter e Peter Sloterdijk entre tantos outros em nossos dias, escreveram competentes ensaios sobre sua obra, divulgando sua espantosa variedade de aspectos. Enfim, dentre tantos pontos de vista, os devidos méritos sejam atribuídos também para as brilhantes perspectivas que ainda reluzem como pesquisa fundamental do seu legado; são as avaliações de Heidegger, Foucault e Gilles Deleuze, esses dois últimos em especial por darem em meados da década de 1980, novas vertentes interpretativas aos leitores do Brasil. Como bem lembra Scarlett Marton3.

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       Lembremos também sua importante contribuição para filosofia contemporânea quando, interioriza a problemática acerca da metafísica ocidental tradicional, que, antes por excelência inclinava-se em manter uma posição exclusivamente transcendental. Claro que, questionamentos acerca da possibilidade metafísica não é característica exclusiva de Nietzsche. São notórias objeções à metafísica na filosofia de Hume e Kant e muitos outros filósofos. Porém, é pela sua radicalização da metafísica que Nietzsche se difere dos demais críticos quando com destreza desconcerta as dicotomias metafísicas. Por esse motivo é visível no contexto de suas considerações uma forte preocupação em manter uma postura desprovida de intenções metafísicas. “O filosofar de Nietzsche exclui, como pergunta relevante para o acontecer efetivo, a pergunta pelo fundamento do ente, no sentido da metafísica tradicional” defende Wolfgang Muller-Lauter em seu importante ensaio a doutrina da vontade de poder em Nietzsche.

        Elegantemente o nobre mestre dionisíaco convida seus leitores para uma leitura compromissada e intensiva de seus escritos, leitores com coragem e sensibilidade para respirar o ar que norteia toda a atmosfera do seu discurso. Poesia e genialidade inclinada para espíritos-livres, estes, com “profundidade”, com “prudência e precaução”, com “segundas intenções”, “portas abertas”, com “dedos e olhos delicados”. E para aqueles desavisados, aventureiros embriagados pelos ditirambos e audazes críticas estas, tragicamente convertidas em “lamentações dionisíacas”, o próprio Nietzsche, em um tom “provocante” que lhe é peculiar alerta: “aprendam a me ler bem”. Ao mesmo tempo em que desafia seus leitores e críticos: “quem, pois, teria a coragem de lançar um olhar no inferno das angústias morais”. Enfim, seus textos são inclinados para leitores audazes e filólogos perfeitos; -“Filólogo” nesse contexto remete especificamente aquele leitor que domina a arte de ler bem, com rigor, precisão e paciência-.

     Seu estilo irreverente, poeticamente ousado devido seu espírito vigoroso, nos presenteia com concepções, ora de modo velado e alusivo, ora límpido por meio de aforismos sem atenuar a complexidade de seus manuscritos. Características estas entre tantas outras que, asseguraram o encanto peculiar que emana da multiplicidade das perspectivas adquiridas mediante reflexões minuciosas de vários pontos de vista da sua obra. Sempre conduzindo suas críticas com ironia e sarcasmo, Nietzsche marcou seu estilo com uma força especial de persuasão aderindo o hábito filosófico de provocar seus desafetos. Das suas tantas provocações, a recusa de instaurar um sistema merece ser lembrada. Afinal, pensar Nietzsche como sistemático é tão absurdo como enclausurar um “abismo” em um frágil recipiente; nada mais avesso à grandeza do seu pensamento do que limitar o encanto dos seus escritos em um campo monolítico - a sensibilidade de sua filosofia não se limita em uma postura estática. Ao contrário, se expande esnobando uma reflexão definitiva. Nietzsche se ateve nessa postura não apenas por querer evitar uma unidade metodológica, mas, principalmente receoso pela dogmática instaurada á margem de um sistema.

        A repercussão do seu pensamento se fez visível não apenas na filosofia, sua influência discorre também na política, na psicanálise, nas artes, na literatura e até mesmo na música. Richard Strauss, por exemplo, escreveu um poema sinfônico a partir de um de seus livros; música esta utilizada por Stanley Kubrick na abertura de 2001, uma odisséia no espaço. Porém, um dos pontos negativos de tanta exposição do seu pensamento foram as apropriações indevidas de sua filosofia. Das diversas apropriações ideológicas que contribuíram para as deturpações, e, falsificações da sua filosofia; lembremos da “monstruosa” e “desqualificada” atitude equivocada da sua irmã Elizabeth Förster Nietzsche, nacionalista alemã fanática que após o grande feito de organizar o Nietzsche-Archiv, em Weimar, Erroneamente apresenta “vontade de potência” para o mundo como síntese do pensamento Nietzschiano; uma “suposta” obra principal de Nietzsche a serviço dos ideais chauvinistas - nazismo. De fato, existiu a intenção pela parte do filósofo de um projeto literário intitulado vontade de potência. Infelizmente o resultado findou sendo uma coletânea póstuma de fragmentos intitulada a partir de um conceito que permaneceu inacabado no pensamento do filósofo por ocasião da crise de Turim. E, por ser esse termo apresentado de forma tão fragmentária, uma nuvem negra de interpretações pairou sobre sua obra; dando margem as mais virulentas interpretações. A esse propósito, comenta Mazzino Montinari: “assim terminam, na vigília do próprio fim de Nietzsche, as vicissitudes do projeto literário da vontade de potência”.  Felizmente, na medida em que traduções e estudos rigorosos a cerca dessa intrigante problemática se estendiam, várias teorias foram se desmoronando devido à falta de argumentos consistentes - no tocante à utilização indevida que fascistas e nazistas fizeram da filosofia de Nietzsche, intelectuais do porte de Jean-wahl, klossowski se encarregaram em desmascarar as gritantes apropriações.

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        Em meio a tantas opiniões, algumas a seu favor e, tantas outras contra, umas incentivando a pensar com ele reconhecendo os limites e a grandeza da sua filosofia, muitas outras advertindo por diferentes perspectivas os custos negativos de sua obra; compreendemos que, de diferentes maneiras não são os poucos que permanecem na mesma questão, realçando o mal estar que ainda hoje lhes provocam os manuscritos do filosofo; investigando até que ponto sua filosofia é contraditória ou não, problematizando um autor conflituoso, tanto em suas obras publicadas como nas póstumas. Mas afinal, tendo como pano de fundo um principio metodológico, como devemos proceder perante sua filosofia?  Como ficou constatado, desde sua crise em Turim, não só sua filosofia, mas, sua biografia e estilo ficaram a mercê das mais diversas interpretações. Ora, ouve momentos que o redator de Zaratustra chegou a ser interpretado como um “anarquista intelectual” - fato este ocorrido na Espanha no início do século; assim como também fora defendido como pensador de direita na França e, logo adiante paradoxalmente sua filosofia serviu como pano de fundo para a extrema esquerda francesa. Todavia, não importa o contexto nem a que custo, o que deveras ficou comprovado foi que a filosofia de Nietzsche não se restringe em nenhum arcabouço político, mesmo que para muitos seu discurso favoreça a todos. Felizmente interpretações alimentadas e amparadas por recortes arbitrários ideologizantes perdem sustento pela superficialidade de seus argumentos.

       Pois bem, sendo seus manuscritos alvo fácil para deturpadores, não seria o caso de desqualificamos uma obra especifica? Ou não estamos autorizados sobre nenhuma hipótese desqualificar (o que seria uma atitude precipitada) uma de suas obras, sem antes analisar a mesma de modo estratégico? Nesse contexto, nada mais justo do que principiamos uma cautelosa locomoção no círculo da sua interpretação, em questionar a ordenação sistemática  da mediocridade editorial das possíveis deturpações grosseiras do seu pensamento, e, principalmente acima de tudo é preciso evitar o contra senso em considerar os aforismos e fragmentos - estes peças fundamentais para os deturpadores- publicados após sua morte desqualificados por serem póstumos. É importante ainda lembrar que houve trabalhos sérios dirigidos com extrema cautela e maestria que foram de suma importância para o resgate do real sentido dos manuscritos de Nietzsche que, devido aos recortes arbitrários se encontrava descaracterizado. Ressaltemos o impecável e ainda em ascensão trabalho de Giorgio Colli e Mazzino Montinari pondo em público a edição crítica das obras completas de Nietzsche.

       Enfim, o que podemos constatar a despeito das divergências de perspectivas acerca da sua doutrina é um espantoso “abismo de suspeitas” entre um Nietzsche idealizado por sua irmã e um outro “resgatado” a partir das traduções minuciosas coordenadas nos arquivos Nietzsche em Weimar; e, foi a sombra desse apático “abismo” que brotaram interpretações de um Nietzsche chauvinista, anarquista, pensador de direita, porta voz de extrema esquerda, anti-semita, dentre tantas e outras intrigantes opiniões. Ora, de outro “abismo” bem mais intimidante, este, tragicamente mais profundo, fonte da angústia dos valores morais, ascende o vigoroso e inquebrantável “espírito dionisíaco” que vagueia solitário, munido com sua energia sem discrepância por salas e corredores dos centros acadêmicos das diversas partes do mundo assombrando a todos em um tom irônico martelando a nós viventes com a seguinte provocação: “vós não sois águias: por isso não conhecestes o gozo no assombro do espírito. Quem não é ave não deve fazer seu ninho sobre abismos”.



                                                                                                               Assim falou Zaratustra 



Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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