Entrevista concedida ao jornalista João Peres, publicada na Rede Brasil (outubro de 2010)
Em
entrevista exclusiva à Rede Brasil Atual, a professora de filosofia da
USP aponta setores ruralistas e classe média urbana como focos de
anti-Lula. Ela faz reiteradas críticas à ameaça à liberdade de expressão
provocada pela concentração dos meios de comunicação.
Marilena
Chauí pensa que a velha mídia está nos seus estertores. A filósofa e
professora da Universidade de São Paulo (USP) entende que o surgimento
da internet, o crescimento das alternativas e as atuais eleições
delineiam o fim de um modelo.
A professora, que deixou de
escrever e de falar para a velha mídia por não concordar com a postura
de vários desses veículos, entende que a imprensa tem papel fundamental
para a ausência de debate de temas-chave nas atuais eleições,
alimentando questões que favorecem à candidatura de José Serra (PSDB).
Ela
considera que não é possível falar de democracia quando se tem o poder
da comunicação concentrado em poucas famílias, sem que a sociedade tenha
a possibilidade de contestação. Após ato pró-Dilma Rousseff (PT), na
Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro da capital
paulista, a filósofa manifestou à Rede Brasil Atual que os ruralistas e a
classe média urbana são os setores que alimentam o ódio a Lula.
Marilena
Chauí aponta, sempre em meio a muitos gestos e a uma fala enfática, que
o presidente jamais será perdoado. O motivo? Combateu a desigualdade no
país.
Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:
O
único ponto aparente de consenso entre os institutos de pesquisa é
quanto à aprovação do governo Lula. Que grupos estão entre os 4% da
população que consideram ruim ou péssimo o desempenho do presidente?
É
um mistério para mim. Tudo que tenho ouvido, sobretudo no rádio, em
entrevistas sobre os mais diversos temas, vai tudo muito bem. Os setores
que eu imaginaria que diriam que o governo ruim não são.
Surpreendentemente.
Mas há dois setores que são "pega pra capar".
Um é evidentemente a agroindústria, mas é assim desde o primeiro
governo Lula. Eles formam esse mundo ruralista que o DEM representa. Não
são nem adversários, são inimigos. Inimigos de classe.
O segundo
setor é a classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da
desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão
social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe
trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende
socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou
porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na
classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora.
Os
trabalhadores têm reconquistado direitos e, com isso, setores do
empresariado reclamam que há risco de perda de competitividade pelo
mercado brasileiro.
Isso é uma conversa para a campanha
eleitoral. É coisa da Folha, do Estadão, do Globo, da Veja, não é para
levar a sério. E se você for lá e pedir para provar (que perderia
competitividade), vão dizer que não falaram, que foi fruto das
circunstâncias. Eles sabem que é uma piada isso que estão dizendo, não
tem qualquer consistência.
A senhora passou por uma
situação parecida à da psicanalista Maria Rita Kehl, agora dispensada
pelo Estadão por ter elogiado o governo Lula...
Não foi
parecida porque não fui demitida. Eu disse a eles que me recusava a
escrever lá. Tanto no Estado quanto na Folha. Tomei a iniciativa de
dizer a eles que não teriam minha colaboração.
Quando li o artigo
da Maria Rita Kehl, pensei mesmo que poderia dar algum problema. Como é
que o Estadão deixou o artigo sair? Era de se esperar que houvesse uma
censura prévia.
Agora, se você tomar o que aconteceu nos últimos
oito ou nove anos, vai ver que houve uma peneirada e uma parte das
pessoas de esquerda simplesmente desistiu de qualquer relação com a
mídia. Outras tiveram relação esporádica em momentos muito pontuais em
que era preciso se expressar publicamente.
Houve, em um primeiro
momento, um deslocamento das pessoas de esquerda para o Estadão, mas um
deslocamento que não tinha como durar porque o jornal não tinha como
abrigar esse tipo de pensamento.
Desapareceu para valer qualquer
pretensão da mídia até mesmo de se oferecer sob uma perspectiva liberal.
E sob uma perspectiva democrática. É formidável que no momento em que
dizem que nós, do PT, ameaçamos a liberdade de imprensa, eles demitam a
Maria Rita.
O que acho, com o segundo turno das eleições de Lula e
as eleições da Dilma, é que há um estilo de mídia que está nos seus
estertores. O fato de que haja internet e mídia alternativa que se
espalha pelo Brasil inteiro muda completamente o padrão.
Passa-se
de jornais que tinham função de noticiar para jornais que têm a função
de opinar, o que é um contrassenso. A busca pela notícia faz com que não
se vá mais em direção ao jornal, vá se buscar em outros lugares.
Em
períodos eleitorais, tem sido recorrente a associação entre mídia e
partidos políticos. Qual a implicação disso na tentativa de consolidação
da democracia?
Isso é o que atrapalha a democracia do
ponto de vista da liberdade do pensamento e de expressão. O que
caracteriza uma sociedade democrática é o direito de produzir informação
e de receber informação, de modo que possa circular, ser transformada. O
que se tem é a ausência da informação, a manipulação da opinião e a
mentira.
Acabo de ver em um site a resposta do Marco Aurélio
Garcia (um dos coordenadores de campanha de Dilma) à manchete da Folha.
Como é que a Folha dá manchete falando que Dilma vai tirar a questão do
aborto do programa de governo se essa questão não está no programa? É
dito qualquer coisa.
Desapareceu o compromisso mínimo com a
verdade, o compromisso mínimo com a informação. É uma coisa de partido,
puramente ideológica, perversa, de produção da mentira. Isso me lembra
muito um ensaio que Hannah Arendt escreveu na época da Guerra do Vietnã.
Ela comentava as mentiras que a TV, o rádio e os jornais apresentavam.
Apresentavam a vitória no Vietnã, até o instante em que a mentira
encontrou um limite tal nos próprios fatos que a verdade teve que
aparecer. Ela chamou isso de crise da República, que é quando tem a
mentira no lugar da informação. Ou seja, a desinformação. Isso não serve
para a democracia.
O governo Lula teve, internamente, a
convivência de polos opostos. Talvez tenha sido o primeiro a ter, por
exemplo, Ministério de Desenvolvimento Agrário voltado a agricultura
familiar e dialogando com o MST e o Ministério da Agricultura, voltado
para o agronegócio. O governo e o presidente se saíram bem na tarefa de
fazer opostos conviverem?
Sim. E isso é um talento
peculiar que o presidente Lula tem, de ser um negociador nato. Como uma
boa parte do trabalho do governo foi feita pela Casa Civil, podemos
dizer que Dilma Rousseff tem a capacidade de fazer esse trânsito e essa
negociação.
Mas como explicar as reações provocadas?
Duas
coisas são muito importantes com relação ao atual governo. A primeira é
que o governo Lula jamais será perdoado por ter enfrentado a questão da
desigualdade social. Lula enfrentou a partir da própria figura dele. O
fato de você ter um presidente operário, que tem o curso primário (Lula
tem o ensino médio completo), significou a ruína da ideologia burguesa.
Todos os critérios da ideologia burguesa para ocupar este posto
(Presidência da República), que é ser da elite financeira, ter formação
universitária, falar línguas estrangeiras, ter desempenho de gourmet...
Enfim, foi descomposta uma série de atrativos que compõem a figura que a
burguesia compôs para ocupar a Presidência. Ponto por ponto.
A
burguesia brasileira e a classe média protofascista nunca vão perdoar
isso ter acontecido. Imagine como eles se sentem. Houve (Nelson)
Mandela, Lula, (Barack) Obama, (Hugo) Chávez. É muita coisa para a
cabeça deles. É insuportável. É a sensação de fim de mundo.
Tudo
que fosse possível fazer para destruir esse governo foi feito. Por que
não caiu? Não caiu porque foi capaz de operar a negociação entre os
polos contrários. Isso é uma novidade no caso do Brasil porque,
normalmente, opera-se por exclusão. O que o governo fez foi operar por
entendimento. E a possibilidade de corrigir uma coisa pela outra.
Agora,
há milhares de problemas que o próximo governo vai ter de enfrentar.
Não podemos cobrar de nós mesmos que façamos em oito ou em 16 anos o que
não foi feito em 500. Mas quando se olha o que já foi feito, leva-se um
susto. A redução da desigualdade, a inclusão no campo dos direitos de
milhões de pessoas, o Luz para Todos, a casa (Minha Casa, Minha Vida), o
Bolsa-Família, a (geração de empregos com) carteira assinada... É uma
coisa nunca feita no Brasil.
A sra. faz uma avaliação muito positiva do governo. Por que essas medidas não ocorreram antes?
Alguém
tinha de vir das classes trabalhadoras para dizer o que precisa fazer
no Brasil. Os governos anteriores sequer levavam em conta que isso
existia. O máximo que existia era o incômodo de ver essa gente pela rua,
embaixo da ponte, fazendo greve, no ponto de ônibus, caindo pelas
tabelas na condução pública. Era uma coisa assim que incomodava -
(diziam:) "é meio feio, né? É antiestético". O máximo de reação que a
presença de classes populares causava era por serem antiestéticos. É a
primeira vez que essa classe foi levada a sério.
Eles vão
estrebuchar, vão gritar, vão xingar. Vão pintar a saracura, como diria
minha mãe. Mas é isso aí. Deixa pintar a saracura que nós ficamos em pé.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Marilena Chauí tritura a mídia golpista
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Liberdade: Um bem fundamental.
Por Claudio Castoriadis
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Claudio Castoriadis |
Nietzsche : Limite da racionalidade humana
3.2. Limite da racionalidade humana
A visão
trágica da cultura grega está para Nietzsche no mais alto conceito: resgatar o
pensamento dos primeiros pensadores foi uma tarefa que o Nietzsche tomou para
si buscando uma visão emancipadora da humanidade, como expressão de prazer pela
existência, potencialização e celebração da vida. É sobre essas virtudes que
Nietzsche encontra na cultura trágica o impulso necessário para a desconstrução
da metafisica e da negação do racionalismo teórico.
Pois bem! O que percebemos nesse momento é que a
estratégia adotada por Nietzsche é brilhante, visto que o que deveras estava
sendo colocado em questão desde o início era domínio do discurso metafisico. Se
for verdade que a filosofia compreendida como busca da verdade, amor ao
conhecimento e coroamento da razão, como liberdade de pensar, emancipação
espiritual ou passagem do conhecimento comum para o científico é sintoma de
decadência, então ela mais prejudicou do que beneficiou a vida, mais deturpou do
que iluminou a vida. Por isso a crítica do nosso filósofo se vislumbra por
inteira no pensador Sócrates. Como bem afirma Deleuze:
A degenerescência da filosofia
aparece claramente com Sócrates. Se definirmos a metafisica pela distinção de
dois mundos, pela oposição da
essência e da aparência, do verdadeiro e
do falso, do inteligível e do sensível, é preciso dizer que Sócrates inventou a
metafisica: ele faz da vida qualquer coisa que deve ser julgada, medida,
limitada, e do pensamento, uma medida, um limite que exerce em nome dos valores
superiores (1981, p.19).
3.3. Crítica à metafísica como teoria de dois mundos
Quando Nietzsche se volta contra a metafisica, dela
contesta o sentido de dois mundos. Ou seja, temos claramente uma crítica
centralizada nas dicotomias metafisicas: sensível e inteligível, corpo e alma,
matéria e espírito, aparência e essência, verdade e mentira, realidade e
idealidade. Nietzsche não poupa críticas ao dualismo atrelado no otimismo
teórico socrático que, nesse contexto, seria o traço essencial de nossa
cultura. Sobre nenhuma hipótese deve existir lugar para dicotomias metafisicas
no pensamento nietzschiano. E foi à sombra do predomínio do otimismo de
Sócrates que, segundo Nietzsche, logo em seguida Platão estruturou sua
metafisica na qual o ente sensível e o ser inteligível foram separados. Com
isso, dois mundos se contrapõem se insinuando cientificamente como antípodas,
esferas heterogêneas, diferenças que negligenciam a primazia da realidade como
processo. Compreende-se, portanto, que a metafisica tal qual Nietzsche considerou
trata-se estritamente de uma teoria dos dois mundos, que desvaloriza este mundo
em nome de um outro, imutável e eterno. Todavia, como bem lembra Muller-Lauter
em A Doutrina da Vontade de Poder em
Nietzsche:
Nietzsche pode também se voltar
explicitamente contra a metafísica, mas podemos rapidamente nos convencer de
que dela fala apenas no sentido de uma teoria dos dois mundos
(Zweiwelltheorie). Se desconsiderarmos esse estreitamento, não pode ser mantida
a pretensão de Nietzsche de que sua filosofia não seja metafisica. (1997, p, 5)
Nessa separação entre mundo real e aparente
Nietzsche enxergou um preconceito contra a vida. Nessa distinção meticulosa e
decadente se encontra a metafísica tradicional de onde beberam tantos filósofos
dogmáticos. Com isso, podemos compreender que sua crítica à metafisica traz à
tona o que há de absurdo e mentiroso na crença de um mundo verdadeiro.
Lembrando que este é aprofundado ao mesmo tempo em Sócrates e logo em seguida,
em sua forma mais acabada, na metafísica platônica, a qual, como Nietzsche
compreendeu, preparou o advento do cristianismo com todo seu arcabouço teórico,
dando início ao que Nietsche considera uma lastimável ruptura da unidade entre
homem e mundo:
Há dois mil anos, Platão
expulsara os poetas da cidade, por se deixarem atrair pelo transitório e
efêmero, por não buscarem a verdade. Anti-platônico por excelência, Nietzsche
repele justamente os filósofos que visam ao essencial, ao imutável, ao eterno.
Mas, também, rejeita os poetas que se deixam seduzir pelo imperecível. Por isso
mesmo, investiga o que os princípios últimos e definitivos escondem e busca o
que se esconde por trás das verdades eternas e absolutas. Em sua campanha
contra a metafísica e contra a religião cristã, não hesita em confrontar-se com
os ídolos de seu tempo.
(Marton, 1999, p. 3)
Analisando essa passagem de Cadernos Nietzsche, é possível compreender que o problema da
cultura consiste em ser governada por sentimentos fracos, cultivados por
decadentes modelos éticos, deixando de joelhos os filósofos e a ciência,
perpetuando um novo tipo de indivíduo prisioneiro do imperativo categórico da
moralidade e da religião cristãs, ambas embasadas pelo discurso metafísico
culminante do otimismo socrático.
CONCLUSÃO
Finalmente, mediante essas considerações apercebemo-nos
que a urgência manifestada por Nietzsche no levantamento das questões morais é
diretamente correspondente à importância que ele dá à cultura. Aliás, em toda
sua trajetória intelectual Nietzsche ambicionou libertar o homem moderno
daquilo que ele considerou ser a maldição da modernidade. Por isso condenou
acima de tudo o otimismo teórico tão em voga em seu tempo.
Assim, ao longo desse trabalho ficou constatada uma
crítica à moral, dando ênfase em sua estrutura manipuladora. Com justeza,
compreendemos que Nietzsche defende a estreita relação entre valor e homem,
partindo do princípio do homem como legislador, crítico e criador. Nesse ponto,
a eficácia dos estudos de Nietzsche entra em cena: sua crítica é direcionada
com inteireza contra a ideia de uma ordem moral ou perspectiva atrelada aos
costumes, hábitos e tradições que persiste na falta de sentido histórico e
ligada ao sentimento de medo. Nesses termos, a moralidade não passa de
obediência incondicional ao costume. Não obstante, nosso pensador implode a
formação da moral desde sua estrutura, na adoração pelo costume, cultivada pelo
sentimento de medo.
Ficou constado também que a reflexão de Nietzsche
sobre a moral remete diretamente a um exame da história humana. Dessa forma,
vale ressaltar que mediante seu exame Nietzsche distingue dois tipos
psicológicos, dois tipos distintos de valoração: a maneira nobre de avaliar e
viver a vida e a maneira dos ressentidos, qualificando o tipo nobre quando o
mesmo exalta os valores primordiais da vida. Lembrando que nesse sentido
Nietzsche se refere precisamente à aristocracia guerreira dos tempos homéricos
e sua casta sacerdotal.
Com isso, foi compreendido que todos os valores que
sustentavam a moral posta em questão tinham sua origem no cristianismo,
principal alvo da crítica nietzschiana, por ter sua origem no ressentimento com
a vida. Não se detendo apenas na origem da moral e seu vínculo com o
cristianismo, foi analisada também a problemática de Sócrates como figura emblemática
de nossa pesquisa, por ser ele, segundo Nietsche, o responsável pela decadência
que se alastrou na cultura de seu tempo.
Com prudência, compreendemos no decorrer de nossa
pesquisa que o filósofo Nietzsche desmascarou a junção do otimismo teórico de
Sócrates, que buscava a verdade a qualquer custo embasando a moral e o
cristianismo que culminaram na negação da vida. E foi na figura de Sócrates que
Nietzsche encontrou o ponto negativo da metafisica. Sua crítica é contra a
ideia de uma ordem moral inclinada exclusivamente em outro mundo, o mundo das
ideias, como entende Nietzsche, que significou claramente o arranque do
pensamento religioso cristão, visto que a moral decadente depositou nas mãos de
um Deus antropomórfico toda a responsabilidade da ordem do mundo.
Ora, temos então uma crítica que finda em uma
problemática metafísica. Afinal, uma moral que toma como base valores
transcendentes, imutáveis e intocáveis mantidos em um mundo suprassensível nega
categoricamente qualquer hipótese dos valores serem fruto deste mundo terreno,
pois tem sua origem em outro mundo.
O combate de Nietzsche contra a cultura ocidental,
impregnada pelo otimismo teórico e, conforme apontamos, pelo seu herdeiro que é
o cristianismo, é feito com o objetivo de reafirmar a vida em sua plenitude, de
libertar a vida de uma moral que sufoca e contamina a cultura. Portanto,
constatamos aqui que o estopim da decadência da moral e da cultura europeia se
encontra no otimismo teórico do pensador Sócrates que acabou por embasar o erro
da metafísica, estabelecendo a crença em um mundo fictício.
Nietzsche
Uma Compreensão da Cultura do Ocidente
Como Sintoma de Decadência Moral
Monografia
defendida como Trabalho de Conclusão do Curso de Filosofia, para obtenção do
respectivo título de Licenciado.
Orientador
Prof.
Ms. William Coelho de Oliveira
DFI-FAFIC
Leia na íntegra os demais capítulos também nesse Blog
Claudio Castoriadis.
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Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura > |
terça-feira, 31 de julho de 2012
NIETZSCHE : Otimismo teórico: crítica ao pensamento dicotômico
3.1. Otimismo teórico: crítica ao pensamento dicotômico
O filósofo Sócrates é considerado não apenas por
Nietzsche, mas por uma gama de intelectuais, como o primeiro sábio que desde a
antiguidade se desvia dos estudos da física e da cosmologia para se dedicar
exclusivamente às questões propriamente humanas. Nesse ponto, a novidade da
análise nietzschiana consiste em sua nova compreensão do homem Sócrates: este,
colocado como responsável por uma ruptura que abalou e abala ainda, de forma
negativa, toda a nossa tradição filosófica e artística; sendo essa ruptura,
segundo Nietzsche, o fim de um belo mundo e o início de um duvidoso iluminismo.
Amante e profundo conhecedor da cultura grega, Nietzsche apontou a forte
influência de Sócrates naquilo que ele denominou como sendo a decadência da
arte grega. Vale lembrar que a questão da decadência artística grega está para
Nietzsche correlacionada à questão geral da decadência humana. Em vez de confiar
no corpo e nos instintos, colocando a razão em primeiro plano Sócrates faz dela
a referência última da realidade do homem, o que consiste em reprimir a
natureza, os sentidos e os instintos, ou seja, Sócrates, com sua forte
influência, consegue transformar a decadência num modelo de humanidade. Vejamos nessa passagem o princípio que nos
leva a tocar com o dedo o coração e a medula da tendência socrática:
Enquanto
em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora, e a
consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se
crítico e a consciência criadora – é uma verdadeira monstruosidade (...)
pensemos nas consequências das máximas socráticas: a virtude é um saber; só
pecamos por ignorância; o homem virtuoso é feliz. Estas três formas essenciais
do otimismo são a morte da tragédia. (2007c,
p.13)
Pois bem! No final desse trecho Nietzsche denomina
de otimismo o pensamento socrático. Com isso, temos um ponto importante para
ser explorado com atenção a esse respeito: compreender o que Nietzsche entende
por otimismo teórico. A esta altura podemos constatar uma visível recusa pela
parte de Nietzsche contra qualquer hipótese da existência ou compreensão de uma
realidade independente do nosso intelecto: “não
podemos enxergar além de nossa esquina” (2001, p. 248). Nietzsche constatou
que desde o filósofo Parmênides a
filosofia era atravessada pela busca da verdade. Os intelectuais tentavam
decifrar o que eram as coisas em si mesmas. Sócrates, por sua vez, principiou o
que Nietzsche denominou de otimismo teórico partindo da crença de que o homem
pode conhecer o ser, ou até mesmo corrigir o ser. Basta enxergar pelo prisma da
razão. Percebemos aqui que o papel no pensamento socrático é de suma
importância, principalmente ao fundamentar a seguinte “equação socrática de razão = virtude = felicidade: a mais bizarra
equação que existe, e que em especial, tem contra si os instintos dos helenos
mais antigos” (2006, p. 19).
Com isso,
Nietzsche problematiza a primazia racionalista da civilização helênica alegando
que o pensamento na época trágica dos gregos, com toda sua força criativa,
peculiar em seus aspectos conflituosos, abraçava a vida em toda sua
exuberância, ao contrário do mundo composto pelo otimismo socrático. “Com Sócrates – diz ele –, o gosto grego se altera em favor da
dialética: o que acontece aí propriamente? Sobretudo um gosto nobre é vencido;
com a dialética, a plebe se põe em cima”
(ibidem).
Ou seja, o
grande problema de Sócrates nada mais é do que seu sentimento racionalista do
qual todos os filósofos após ele passaram a compartilhar: a vontade de verdade:
A
vontade de verdade, que ainda nos fará correr não poucos riscos, a célebre
veracidade que até agora todos os filósofos reverenciaram: que questões essa vontade de verdade já não
nos colocou! Estranhas, graves, discutíveis questões! Trata-se de uma longa
história – mas não é como se apenas começasse? Que surpresa, se por fim nos
tornamos desconfiados, perdemos a paciência, e impacientes nos afastamos? Se,
com essa esfinge, também nós aprendemos a questionar? Quem, realmente, nos
coloca questões? O que, em nós aspira realmente “à verdade”? (Nietzsche,
2005a, p. 9)
Ora, Sócrates indagava as pessoas acerca dos valores
éticos, virtudes, o que eram essas coisas, de onde vinham, o que valiam os
costumes, e, o que seriam a virtude e o bem. Paulatinamente investigava os
costumes e valores vigentes, a origem e a essência das virtudes, o que
significava uma conduta Boa ou Má, virtuosa ou viciosa, introduzindo então a
ideia de consciência moral: considerando que bastava saber o que é bondade para
que seja bom. Buscando definir o campo no qual valores e obrigações podem ser
delineados, Sócrates teve o mérito de garimpar os valores éticos ou morais da
coletividade cultuados de geração a geração, principiando então a ética ou
filosofia moral.
Por outro lado cometeu um contrassenso quando
cristalizou valores superiores em outro mundo:
Razão
= virtude = felicidade significa tão só: é preciso imitar Sócrates e instaurar
permanentemente, contra os desejos obscuros, uma luz divina diurna – a luz
diurna da razão. É preciso ser prudente, claro, límpido a qualquer preço: toda
concessão aos instintos, ao inconsciente, leva para baixo.... (Nietzsche,
2006, p. 22)
Sócrates,
nesse sentido, representa para Nietzsche a degenerescência da filosofia,
justamente pela distinção de dois mundos. A figura do filósofo Sócrates deve
ser vista nesse momento como referência da crítica de Nietsche para a
metafisica. O objeto da crítica nietzschiana é-nos desvendado nessa nova
roupagem do pensador Sócrates responsável pela dicotomia da metafisica. Uma
passagem do livro Nietzsche: o Filósofo
da Suspeita, de Scarlett Marton, reforça bem essa ideia: Traço essencial de nossa cultura, o dualismo
de mundos foi invenção do pensar metafísico e a fabulação da religião cristã.
Com Sócrates, teve início a ruptura da unidade entre homem e mundo (Marton, op. cit., p. 80).
Com isso chegamos a um dos focos da proposta de
Nietzsche: a superação da metafísica. Dito de outro modo, o equilíbrio, a
elegância, o racionalismo e a harmonia da cultura tiveram como base a metafísica
proposta pelo Sócrates: uma metafisica fundamentada por um pensamento
dicotômico, enraizado na oposição de valores, tendo como referência os valores
superiores – o divino, o verdadeiro, o belo, o bem. Nesse contexto, para
Nietzsche, em Sócrates é palpável à morte da cultura e da civilização gregas.
Ou seja, com Sócrates o homem trágico é substituído pelo homem teórico. Daí a
crítica de Nietzsche acerca do otimismo teórico. De acordo com essa ordem de raciocínio o
antigo mundo com sua gloriosa sabedoria desmorona com o advento do homem
teórico:
Quem
se der conta com clareza de como depois de Sócrates, o mistagogo da ciência,
uma escola de filósofos sucede a outra, qual onda após onda, de como uma
universalidade jamais pressentida de avidez de saber, no mais remoto âmbito do
mundo civilizado, e enquanto efetivo dever para com todo homem altamente
capacitado, conduziu a ciência ao alto-mar, de onde nunca mais, desde então,
ela pôde ser inteiramente afugentada, de como através dessa universalidade uma
rede conjunta de pensamentos é estendida pela primeira vez sobre o conjunto do
globo terráqueo, com vistas mesmo ao estabelecimento de leis para todo um
sistema solar; quem tiver tudo isso presente, junto com a assombrosamente alta
pirâmide do saber hodierno, não poderá deixar de enxergar em Sócrates um ponto
de inflexão e um vértice da assim chamada história universal se substituindo
uma à outra como as ondas, como a ânsia de saber se expandindo nos países mais
longínquos com uma universidade (Nietzsche, 2007c, p. 91-92).
Nessa passagem o que Nietzsche está afirmando é que
todas as escolas filosóficas são diretamente dependentes da revolução socrática.
Que o discurso metafísico tenha conseguido produzir sabedoria válida, ciência e
experiência do mundo isso é inquestionável. Porém, sem perder de vista a
análise da vida, do corpo e os instintos vitais, Nietzsche compreendeu que tudo
que até o momento denominou-se ética vigorou-se pelo contágio absurdo e
insidioso do imaculado conhecimento. Um fanatismo pela razão que no campo da
arte causou a morte da tragédia e no domínio filosófico debilitou a sabedoria
dos grandes filósofos. A razão, faculdade única que conduz ao conhecimento mais
profundo, ao âmago das coisas.
No socratismo nos deparamos com a ilusão de chegar à
conclusão das conclusões enveredados por conceitos e combinações lógicas
desprezando as potências místicas e artísticas por não corresponderem aos
critérios da razão. Nesse contexto, não há lugar para um discurso que não
respeite a frieza e veracidade do racionalismo. Com isso, recusando
categoricamente o otimismo teórico de Sócrates e todo o ditame clássico da
tradição que sempre tratou a vida em um dualismo racionalista, Nietzsche
argumenta que o pensamento grandioso dos filósofos anteriores à influência
racionalista socrática é o mais elevado alcançado pelo homem. Rica em
pensadores que compreenderam a natureza, a época trágica representada nos
dramas de Ésquilo, Sófocles e Eurípides é a corporficação suprema da tensão
harmônica dos contrários, expressão de um mundo compreendido pela natureza como
princípio dionisíaco: a vida com toda sua exuberância. Sobre essa questão comenta
o professor Osvaldo Giacoia:
É
nesse sentido que os gregos do período trágico seriam exemplares. Eles
pressentiram e vivenciaram de modo exacerbado as atrocidades da existência e as
‘dores do mundo’, sem necessidade de subterfúgios moralistas. Prova disso é a
ferocidade de que dão mostras os combates entre as cidades-estados, assim como
as agruras materiais e espirituais que estavam na base do florescimento da
cultura grega. (2000,
p. 18)
Nietzsche
Uma Compreensão da Cultura do Ocidente
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NIETZSCHE: O PROBLEMA DA CULTURA RACIONALISTA: A ÉTICA E O OTIMISMO SOCRÁTICO
3. O PROBLEMA DA CULTURA RACIONALISTA: A ÉTICA E O OTIMISMO SOCRÁTICO
Dando continuidade em nossa análise da moral ficou
claro até o momento que o problema da decadência da cultura também é o problema
da influência do cristianismo. Porém esse tipo de influência que o Nietzsche
compreende como sendo uma doença que propagou na cultura europeia não se deve
apenas ao cristianismo. Tudo que foi dito acerca dos custos negativos da moral
acaba dando cor e contorno de certo modo à problemática marcante de nossa
pesquisa: Sócrates. Nele se encontra latente o suposto veneno que se alastrou
até nossos dias, principalmente entre os chamados livres pensadores, os
democratas, os socialistas, até mesmo naqueles que recusam as igrejas
instituídas.
Em tudo que até agora foi chamado de religião, educação,
cultura e moral, existe o inegável contágio do modo de interpretar o mundo pela
ótica do ressentimento, termo cunhado pelo Nietzsche para distinguir aqueles
contrários às forças primordiais da vida ou forças vitais da cultura. Seguindo
esse raciocínio não é difícil entender que Nietsche enxergou uma Europa que
agoniza em plena decadência ou, dito nos termos nietzschianos, total niilismo,
onde o homem moderno, esse que se apresenta como sendo um religioso sem Deus,
adquire explicitamente as feições indeléveis do imperativo categórico da
moralidade: sejamos o contrário dos maus, sejamos bons!
O sentido real dessa máxima que a princípio aparenta
um código de conduta louvável já foi problematizado nos dois primeiros
capítulos. O mais importante agora é tentar compreender de onde e como
Nietzsche chegou a essa conclusão acerca da moral e, por conseguinte da
cultura. Duas conferências pronunciadas no inverno de 1870 tratam do drama
musical grego e precisamente da relação entre Sócrates e a tragédia. A
civilização helênica estava para Nietzsche profundamente marcada pela força do
mito, sendo digna de admiração e veneração a própria essência do helenismo
representado sobretudo nas figuras de Homero, Hesíodo, Píndaro e Ésquilo.
Portanto, quando se trata de considerar o
diagnóstico de Nietzsche sobre a história do Ocidente como sintoma de
decadência, deve-se sempre levar em conta que ele principia sua crítica
contrapondo a cultura moderna ao sentido trágico da cultura grega. Com isso
podemos chegar à seguinte conclusão: o auge e declínio do pensamento ocidental
dá-se em dois momentos: um percurso trágico de Píndaro, Ésquilo e demais
referências; e um outro teórico principiado em Sócrates em todo o pensamento
posterior. Uma passagem do livro Nietzsche
e a Justiça, de Eduardo Rezende, embasa bem essa questão:
O
problema da valoração dos valores morais subjacentes aos modos de vida
acompanha o pensamento nietzschiano desde o início. Sua obra primeira, o Nascimento da Tragédia, coloca desde logo a pergunta sobre as
razões pelas quais a civilização trágica grega sucumbiu ao contrapor-se a uma
distinta maneira de conceber o homem (2004,
p. 1).
Porém, sem dúvidas, a pergunta de imediato que surge
é: por que uma reflexão da história humana de caráter psicológico e social
encontra em Sócrates um objeto de análise? Frente a um leque muito amplo de
possibilidades e domínio da sua crítica, Sócrates é enfatizado como precursor
da degenerescência do pensamento ocidental. Com isso, o desafio de nossa
pesquisa não é apenas interpretar o que Nietzsche entende por decadência, mas,
o de construir uma reflexão que permita relacionar a influência de Sócrates na
situação do pensamento ocidental. Para tanto, vamos nos ater em uma passagem de
sua primeira e grande obra filosófica, O
Nascimento da Tragédia:
Sócrates
achou que deveria corrigir a existência: como precursor de uma cultura, de uma
arte e de uma moral totalmente diferentes, ele, o solitário, avançou, com ar de
desprezo e de altivez, no meio de um mundo cujos últimos vestígios são para nós
objeto de uma profunda veneração e fonte das mais puras alegrias (2007c, p. 96).
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Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura > |
Nietzsche: A Vida como critério
2.5. A Vida como Critério
Para se compreender de forma mais precisa esse
conflito de valores, essa inconciliável oposição de instintos, bom e ruim na
maneira nobre de avaliar e bom e mal da maneira do ressentido, nada mais
sensato que centralizarmos tal impasse tendo como pano de fundo a vida em sua
plenitude. Como podemos chegar a essa alternativa? É esta a concepção fundamental da filosofia
de Nietzsche palpável a partir dos textos de Assim Falou Zaratustra: a eterna, suprema afirmação e confirmação
da vida, isto é, a estreita relação do pensamento e da vida. Com isso, a
seguinte pergunta deve ser feita: até que ponto a plenitude da vida é
beneficiada pelas apreciações Bem e Mal? Para chegarmos a uma resposta
convincente seria importante buscarmos compreender o que Nietzsche entende por
vida:
A
vida mesma é essencialmente apropriação, ofensa, sujeição do que é estranho e
mais fraco, opressão, dureza, imposição de formas próprias, incorporação e, no
mínimo e mais comedido, exploração [...] a exploração não é própria de uma
sociedade corrompida, ou imperfeita e primitiva: faz parte da essência do que vive
como função orgânica básica, é uma consequência da própria vontade de poder,
que é precisamente vontade de vida.
(2005a, p.154-5).
Ora, a vida, como ressalta Nietzsche, por ativar o
pensamento se justifica quando o pensamento em resposta afirma a vida. Ou, como diz Deleuze:“os modos de vida inspiram maneiras de
pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver.” (1981. p 17-8). À
primeira vista, mediante essa consideração, não fica difícil percebermos a
diferença vital existente nas perspectivas do nobre e do ressentido e qual a
diferença qualitativa no traço de caráter de ambos quando, sob a ótica da vida,
pensamos suas condições. Em Crepúsculo
dos Ídolos Nietzsche chega a afirmar:
[...] Ao falar de valores falamos sob a inspiração, sob a ótica da vida: a
vida mesma nos força a estabelecer valores, ela mesma valora através de nós, ao
estabelecermos valores. Disto se segue que também essa antinatureza de moral,
que concebe Deus como antítese e condenação da vida, é apenas um juízo de valor
da vida – de qual vida? De qual espécie de vida? – já dei a resposta: da vida declinante,
enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como foi até hoje entendida – tal
como formulada também por Schopenhauer, enfim como ‘negação da vontade de vida”
– é o instinto de decadence mesmo,
que se converte em imperativo: ela diz: ‘pereça!’ – ela é o juízo dos
condenados [...] (2006, p.37)
Nesse contexto Nietzsche considera que é possível
detectar o homem sacerdotal como um homem sofredor, que não tem condições de
habitar a vida e no fardo de sua existência tenta superar sua infelicidade, sua
condição deplorável, sua impotência, inventando outra vida. Por isso quando
definimos a moral como condição de vida, devemos logo em seguida nos perguntar:
qual espécie de vida? Qual vida? Ou seja, nesse caso específico, pensar pela
ótica do ressentimento é viver uma condição de vida declinante, enfraquecida,
cansada, condenada. Uma espécie doente que para viver e garantir o seu lugar
depende de estratégias decadentes.
O seguinte trecho é um exemplo bastante
significativo acerca do modo de avaliação do ressentido que o Nietsche vai
denominar também como “espírito cativo” como aponta Eduardo Rezende
Melo:
A
avaliação, no entanto, é renegada pelos que Nietzsche considera como espíritos
cativos, para quem são justificadas, e portanto justas, as coisas que tem
duração, que não importunam, que nos valem vantagens e pelas quais fazemos
sacrifícios. Eles veem, em sua estreiteza de opiniões transformada em instinto
por hábito, sua força de caráter, um caráter que creem inalterável. Estão, em
verdade, presos à tradição, que ontologiza a vida [...] (2004, p. 44 )
Legislador,
Nietzsche condena a moral dos fracos por ela buscar aniquilar as paixões e os
desejos. Preciso, nosso autor especifica uma moral de vida antinatural, uma
condição de vida venerada e cultuada ainda em nosso tempo. Psicólogo, Nietzsche
ainda afirma que além dessa moral antinatural existe uma moral ou condição de
vida sadia contornada por um instinto de vida:
Darei
a formulação a um princípio. Todo naturalismo na moral, ou seja, toda moral
sadia, é dominado por um instinto de vida – algum mandamento da vida é
preenchido por determinado cânon de deves e não deves, algum impedimento e
hostilidade no caminho da vida é assim afastado. A moral antinatural, ou seja,
quase toda moral até hoje ensinada, venerada e pregada, volta-se pelo
contrário, justamente contra os instintos da vida [...] (op. cit., p. 36)
Como foi dito, Nietzsche analisou a história da filosofia
e da cultura ocidental, elaborando uma tipologia pela qual diferenciou os
diversos valores e as múltiplas morais. Dessa forma, compreender a história do
Ocidente como sintoma de decadência só é possível mediante a distinção do
normal e do patológico no discurso do nosso filósofo. Assim, duas morais
distintas chamam atenção para o olhar agudo e imparcial de Nietzsche: uma moral
sadia, dominada por um instinto de vida, e uma moral plenamente contrária às
tendências naturais do homem, contra os instintos da vida. A esta última,
Nietzsche imputa boa parte de sua obra, problematizando o caráter hediondo de
uma condição de vida. Portanto, a moral antinatural é decadente por ser uma
negação da moral sadia e mais ainda por ser uma negação da vida. Diante desse
modo defeituoso de pensar e horrorizado por essa decadente condição de vida,
Nietzsche, sob a máscara de Zaratustra, de imediato se posiciona como antípoda.
É célebre a passagem em que Nietzsche apresenta os enunciados do eterno retorno
em que Zaratustra se define a partir de três afirmações: a da vida, a do
sofrimento e a do círculo:
Eu
Zaratustra o advogado da vida, o advogado da dor, o advogado do ciclo – sou eu
que te chamo, meu pensamento de abismo. Ó felicidade! Tu te aproximas, ouço tua
voz. Meu abismo falou, minha última profundidade surge à luz! Ó felicidade!
Vem! Dá-me a tua mão!...Deixa-a! Ah! Ah, ah, ah!... nojo...nojo...nojo! Pobre de mim! (2007a, p.282)
Segundo o que foi dito até o momento, tudo leva a
crer que essa tripla afirmação na verdade se converte em uma: a afirmação
suprema da vida. Pois quando se afirma a vida, o círculo e a dor também são
afirmados, visto que afirmar a vida implica necessariamente abraçar sua
plenitude, mesmo sendo a existência uma ferida incurável.
Pois bem! Mediante essas considerações nota-se que o
tipo nobre apresentado até o momento tem uma postura favorável no tocante à
unidade de uma vida ativa. Seu pensamento é afirmativo por dizer sim à vida, em
sua plenitude e globalidade; enquanto o ressentido, por ser fraco e impotente,
ungido pelo desejo de vingança, reage condenando a vida, impondo valores
decadentes que limitam a vida, julga a vida em favor de suas aspirações mórbidas.
Com esse diagnóstico, Nietzsche compreende a vida como uma pluralidade de
forças, agindo e resistindo, em que o sujeito se exterioriza transitório e
plural.
Sendo o homem (como já foi comentado) uma entidade
histórica, em incessante devir, as essências imutáveis e verdades absolutas não
passam de fábulas. E por sua vez a moral é desmascarada em seu caráter
momentâneo de inconstante contrajogo de forças. A avaliação nesse contexto deve
ter seu caráter ativo na medida em que explora uma multiplicidade de possibilidades
e perspectivas, deixando sempre em evidência confrontações de perspectivas não
superadas.
Trazendo à luz esse legível campo de batalha onde
esses opostos se defrontam com suas particularidades, podemos até o momento atribuir
importância ao seu procedimento sob alguns aspectos: método de pesquisa
histórica e instrumento de análise psicológica, visto que seu uso é eficaz na
abordagem psicológica dos tipos nobres e ressentidos, como também especifica a
inversão dos valores no decorrer da história, dando uma ideia deveras objetiva
das possíveis transformações da moral desde sua origem, até sua estrutura
atual, como a compreendemos. Assim, nossos sentimentos, condutas, ações e
nossos comportamentos são postos sob suspeita por sermos fruto dos costumes do
nosso meio.
Entretanto, eis a pergunta cuja resposta lhe é
implícita: qual o principal objeto de análise do seu procedimento quando esboça
o movimento de reação, a grande hostilidade contra o domínio dos nobres? Ora,
de posse da liberdade inteligível, quem se beneficiou causando enfermidades e
enfraquecendo o homem para a luta, convertendo o mesmo num animal aprisionado?
Mediante o que foi exposto é palpável que o objeto
de sua crítica é a origem de todos os valores à sombra do cristianismo enraizado
no pensamento humano: uma psicologia do cristianismo, este principal objeto de
sua crítica, tendo sua origem no ressentimento com a vida. Não é à toa que em quase toda sua trajetória
intelectual Nietsche não foi brando com suas críticas ao cristianismo, chegando
a condenar de forma ampla e categórica a moral cristã em seu livro O Anticristo:
Com
isso chego ao final e pronuncio minha sentença! Eu condeno o cristianismo, faço
à igreja cristã a mais terrível das acusações que um promotor já teve nos
lábios. Ela é, para mim, a maior das corrupções, imagináveis, ela teve a
vontade para a derradeira corrupção possível.
A igreja cristã nada deixou intacto com seu corrompimento, ela fez de
todo valor um desvalor, de toda verdade uma mentira, de toda retidão uma
baixeza de alma (2007b, p.79).
Cristianismo, este que fez dos seres humanos
rebanho, um movimento de vingança contra a vida quando sufocou os valores
nobres acusando e recriminando sua ação. Por esse motivo o esforço de Nietzsche
em sondar os primórdios da cultura traçando as três etapas que no geral
correspondem à ascensão do judaísmo e do cristianismo em detrimento do domínio
de Roma, em que se instaura o triunfo provisório dos fracos sobre os fortes.
Com isso Nietzsche torna explicita sua objeção
frente à moral judaico-cristã, por entender ser esta uma negação da vida. O
juízo valorativo sobre a vida de forma tirânica estabeleceu durante a era mais
longa do seu domínio pelo Ocidente, dogmas decadentes contra os instintos
vitais. Em suma, toda moral tem um pouco de tirania contra a natureza, uma
coerção ao laisser aller (deixar ir).
Concluídas essas breves considerações acerca do seu
procedimento genealógico, deve estar claro a esta altura sua utilidade como
observação psicológica. Percebemos também que com extrema competência Nietzsche
coroou a arte da dissecação e composição psicológica na vida social das mais
diversas classes, sendo assim cultuado entre os mestres do estudo da alma. Como
foi apresentado até agora, seja como perspectiva ou como condição de vida, a
moral aqui analisada é uma forma de decadência por ser uma depreciação da vida.
Ficou
claro que a pesquisa de Nietzsche é voltada à decadência. Sua postura é a favor
da vida, seu intuito é assegurar a afirmação da vida. Cabe somente ao filósofo
seletivo, personagem tão clamado nos versos de Zaratustra, de posse desse
procedimento, tomar uma posição crítica, o que está por vir, não perdendo de
vista por nenhum instante a criação de valores. O filósofo deve não apenas
resolver o problema do valor, mas acima de tudo sua missão consiste em
determinar a hierarquia dos valores. Dessa forma, como perspectiva ou avaliação
Nietzsche sugere uma postura além da moral e como condição de vida clama por um
tipo de postura trágica, além do bem e do mal. Para tanto, é necessário
aprender a dançar e cantar ao ritmo da tragédia na afirmação do riso
dionisíaco, afirmando a vida em sua plenitude e exuberância como ensinou o
Nietzsche.
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Claudio Castoriadis |
sábado, 28 de julho de 2012
Nietzsche : A Crença de um sujeito, do livre arbítrio, da linguagem como estratégia dos fracos
2.4. A Crença de um sujeito, do livre arbítrio, da linguagem como estratégia dos fracos
Frente a um leque muito amplo de possíveis crenças
que contribuíram para a manifestação do aviltado e bem sucedido domínio do
ressentido, convém ressaltarmos que a crença de um sujeito tornou virtude a
doença do ressentido quando este cultivou a ilusão de que por traz do efeito
existe uma causa, um substrato neutro com plena liberdade, um sujeito
inteiramente livre, um ser agraciado por um livre arbítrio. Com isso, não fica
difícil estruturar toda uma esfera ilusória em que um lobo tem liberdade para
ser cordeiro e o cordeiro por sua vez tem toda liberdade em ser lobo. Em suma,
a sagacidade da moral dos ressentidos é coroada pela crença em um sujeito
amparado no livre-arbítrio envenenando seu adversário com uma doente
consciência de culpa. Com efeito, embriagado pelo que Nietzsche define como fábula da liberdade inteligível o homem
se encontra responsável por seus efeitos, por suas ações, logo em seguida por
seus motivos e por último por seu próprio ser. Por esse motivo Nietzsche encara
a ideia de alma como ligada ao
aparecimento da má consciência. Expressando com eloquência que a crença em um sujeito e do eu não passam de superstição popular, jogos de palavras ou alguma
sedução por parte da gramática.
Sendo assim, sua crítica à noção de subjetividade é
precisa, uma vez que esta se encontra atrelada à função gramatical, servindo
como base ao conceito de alma, átomo, substância e matéria. Nesse ponto, a
Nietsche interessa elaborar sua crítica à linguagem desmascarando-a pela sua
estreita relação com o que seria para o Nietsche um falsete metafísico. Por
esse motivo, compreendendo a linguagem em sua esfera metafísica, Nietzsche
definiu a gramática em um tom pejorativo, como “metafísica do povo”. Então temos verdade e linguagem como
antípodas. O valor pragmático-linguístico é latente tanto no tipo nobre quanto
no ressentido, porém, o que deveras importa a Nietzsche é o traço de caráter
que particulariza o modo de ser daqueles que avaliam.
Por
um instinto de autoconservação, de autoafirmação, no qual cada mentira costuma
purificar-se, essa espécie de homem necessita crer no “sujeito” indiferente e
livre para escolher. O sujeito (ou falando de modo mais popular, a alma) foi
até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra, talvez por haver possibilitado
à grande maioria dos mortais, aos fracos e oprimidos de toda espécie, enganar a
si mesmos com a sublime falácia de interpretar a fraqueza como liberdade, e seu
ser assim como mérito (Nietzsche, 1998, p 37).
Em suma, percebemos que nesse contexto Nietzsche
ironiza os princípios da subjetividade e da linguagem, muito em voga na
filosofia moderna e ainda em sua época, velhas ideias a que desde sempre
recorreram tantos filósofos: unidade, identidade, causalidade, finalidade etc. Contra
essas velhas ideias Nietzsche vai trabalhar sua teoria das forças, defendendo o
mundo como amontoado de forças em permanente combate umas com as outras.
Segundo Nietzsche, ao conquistar a supremacia em relação à aristocracia
guerreira, a classe sacerdotal se vale dessas crenças para ditar normas de
condutas, principiando desse modo um intuito moralizador próprio de uma
perspectiva ressentida. Nota-se, portanto, que Nietzsche não apenas desmascara
as crenças do ressentido como também revela um mundo submetido a sucessivos
mascaramentos ou ficções convencionais.
Nietzsche
Uma Compreensão da Cultura do Ocidente
Como Sintoma de Decadência Moral
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Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura > |
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