segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A solidão amiga


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...
 
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:
“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes. Ali as palavras e os tempos poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta. E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão... A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.




  Texto do Filósofo Rubem Alves



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Memórias póstumas de um ridículo.


Manhã de sábado, 25 de maio. Ao primeiro sinal da aurora, inúmeros sentimentos cercam minha consciência. Mas um em especial me inflama a alma. Nossa! Quanto é doloroso um sentimento inflamando em nosso ser. Não é preciso um elevado grau de raciocínio para que alguém perceba meu estado, falta de amor próprio. Por isso, já faz um certo tempo que estou evitando sair de casa- são raras as vezes que assim o faço: quando preciso de cigarros ou comprar algum livro. Uma semana? Três? Me falha a memória.  Se bem que não é de hoje que sinto meu raciocínio delimitado. Onde foi parar o último sentimento de decência das pessoas? É o que penso enquanto lavo o rosto. Ora, e o que mais deveria pensar?   O jornal de ontem tinha como manchete a miséria de uma mãe desolada com o suicídio da filha. Seres imundos. Até que ponto vai o descaso pela dor alheia?  Jornais sensacionalistas provocam em minha alma o mais profundo repudio. Amanhã certamente, mas uma desgraça será estratégia de venda. Que seja, mas não sairá do meu bolso a menor quantia para essa escória. Hoje mesmo tratarei de cancelar minha assinatura desse medíocre jornal.

Subjugado por uma angústia incomensurável, me deixo levar por velhas lembranças. É sempre bom relembrar bons momentos- se bem que são raros os que merecem alfinetar meus pensamentos. São elas que me deslocam para um filme mudo, em preto e branco longe da multidão e de toda miséria impregnada no meu cotidiano. Tenho essa mania, ou neurose, não sei ao certo- sempre que estou caminhando respiro e dou cada passo como se estivesse sendo visto por uma plateia de curiosos. E pensando bem, muitas pessoas são assim, se vestem e passam horas na frente do espelho para chegarem nas ruas e se sentirem bem quistas. As pessoas são tão iguais que chegam a me causar náuseas. Que seja, não sou como eles, desde sempre eu pertenço a quem não me pertence. Todos são ridículos, todo eles, desde o padeiro, o comerciante ao chefe de estado. Todos são ridículos, acima deles somente eu. Sim! Em nada fere meu ego pensar minha pessoa como sendo a mais ridícula de todas. Afinal, sou o melhor no que faço de pior. Eu sou um delírio, sou uma piada sem graça e o mais gratificante de ser assim é que posso rir de quem rir de mim. Assim como Zaratustra tinha um monte, eu tenho o meu, tenho minha caverna de onde riu da tragédia da vida. Sei que muitos me qualificam como pessimista, que não acredito na mudança do mundo, mas é claro que ele mudou contudo continua inalterado. Nessa vida nada tenho com que ocupar-me em intervalos estimulantes me deixo levar pelo meu imaginário. Graças a ele ainda continuo sendo o mesmo suportando a velhice do meu espírito. De mais a mais estou convicto de minha loucura. Certamente ainda são poucos que estimam minha moral, porque sou ignóbil, em caráter e em espírito. Pouco me importa os devaneios alheios, em verdade tenho em mente que da vida poucos sabem o absurdo da existência.


Por Claudio Castoriadis

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pinga...
















Pinga, Pinga no telhado
Bem mas fraco na esquina
Pinga calmo no meu quarto
Pinga, pinga chuva fina.

Pinga, pinga no meu copo
Eu prometo a saideira
Pinga forte no asfalto
Pinga lágrima no escuro.

Pinga espia um pingo de gente
Quem é gente não pinga pula fora
Pinga, pinga a noite inteira
Pinga e mais pinga que eu vou
Embora.

Fecha a conta e toda licença
Hoje tomei muita pinga
Vou cair  pelo
Mundo pingando
Feito pingo
Feito rima


                    ***


Por Claudio Catoriadis

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Poema da Necessidade ( Carlos Drummond de Andrade)


 
                                             É preciso casar João,
                                             é preciso suportar Antônio,
                                             é preciso odiar Melquíades
                                             é preciso substituir nós todos.

                                             É preciso salvar o país,
                                             é preciso crer em Deus,
                                             é preciso pagar as dívidas,
                                             é preciso comprar um rádio,
                                             é preciso esquecer fulana.

                                              É preciso estudar volapuque,
                                              é preciso estar sempre bêbado,
                                              é preciso ler Baudelaire,
                                              é preciso colher as flores
                                               de que rezam velhos autores.

                                               É preciso viver com os homens
                                               é preciso não assassiná-los,
                                               é preciso ter mãos pálidas
                                               e anunciar O FIM DO MUNDO.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Trabalho do artista plástico americano Joshua Petker

Sem fazer economia de cores, melancolia é a essência desse mago da ilustração e pintura; que só após mergulhar de cabeça na esfera cultural da cidade italiana de Florença decidiu se aventurar profissionalmente e investir na carreira artística. 

Por Claudio Castoriadis

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um brasileiro chamado Machado De Assis



  Em 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, Nasce Joaquim Maria Machado de Assis. Filho único de casal humilde: o pai era um pintor mulato Francisco José de Assis, descendente de escravos alforriados e a mãe era uma lavandeira portuguesa. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância. Machado ficou órfão bem cedo e permaneceu na escola por um período curto. Na verdade, ele precisou aprender tudo sozinho. Desde os 16 anos, frequentava a tipografia de uma revista chamada Marmota Fluminense, e logo se tornou um aprendiz de tipógrafo. Foi desta forma que sua carreira como escritor começou. No início ele revisava os manuscritos e depois se tornou um jornalista. Em 1869, Machado casou-se com Carolina, uma jovem portuguesa, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais. Depois da morte de Carolina, ele se isolou numa casa confortável no Cosme Velho - um bairro do Rio de Janeiro-, onde morreu em 1908, nos deixando uma obra composta por várias novelas e poemas, muitos contos, críticas e crônicas, algumas comédias e peças de teatro. Não por acaso Machado é considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos maiores escritores do mundo, enquanto romancista e contista. Refinado como poucos de seu tempo na prosa o gênio é contido e elegante esbanjando uma indescritível sensibilidade artística.  escreveu uma série de livros de caráter romântico. É a chamada primeira fase de sua carreira, marcada pelas obras: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), e Iaiá Garcia (1878), além das coletâneas de contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia Noite (1873), das coletâneas de poesias Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875), e das peças Os Deuses de Casaca (1866), O Protocolo (1863), Queda que as Mulheres têm para os Tolos (1864) e Quase Ministro (1864). Em sua segunda fase suas obras tinham caráter realista, tendo como características: a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à essência do homem e seu relacionamento com o mundo. Da segunda fase, são obras principais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (livro) (1904), Memorial de Aires (1908), além das coletâneas de contos Papéis Avulsos (1882), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1906), Relíquias da Casa Velha (1906), e da coletânea de poesias Ocidentais. Vale lembrar que, o estilo literário de Machado de Assis tem inspirado muitos escritores brasileiros ao longo do tempo e sua obra tem sido adaptada para a televisão , o teatro e o cinema sempre tendo uma boa desenvoltura em várias vertentes da rate. Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura, organizou e publicou as edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes. Suas principais obras foram traduzidas para diversos idiomas e grandes escritores contemporâneos como Salman Rushdie , Cabrera Infante e Carlos Fuentes confessam serem fãs de sua ficção , como também o confessou o saudoso Woody Allen que afirmou "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, como um dos seus cinco livros favoritos em depoimento ao jornal britânico Guardian. "É um livro maravilhoso, bastante original [...] Ele é tão moderno que você pensaria que foi escrito ontem.”


 Mediante a sua importância literária, a Academia Brasileira de Letras criou o Espaço Machado de Assis, com informações sobre a vida e a obra do escritor.


Por Claudio Castoriadis




domingo, 8 de janeiro de 2012

A sutil desconstrução do Ser: Considerações sobre Nietzsche



 1860. Um jovem professor é acolhido com bastante êxito pela universidade de Basiléia, ouvintes eufóricos contemplam sua aula inaugural, “sobre a personalidade de Homero” todos desejam ansiosamente escutar as palavras do brilhante Friedrich Nietzsche, jovem que por recomendação de Ritschl fora agraciado com a cátedra de filologia clássica, conquistando com os devidos méritos sua cadeira sem tese nem exames. Sem dúvida dias gloriosos e tranquilos, mesmo que breves, na vida daquele que iria protagonizar o drama da “Morte de Deus” se consagrando para sempre como o autor de Zaratustra. Mais de cem anos após sua morte e o seu legado ainda é centro de exaustivas discussões. Com efeito, os conflitos acerca de sua filosofia não apenas reafirma seu nome entre os grandes pensadores da humanidade, mas, principalmente contribuem para pensarmos a atualidade do seu discurso.


Qualquer um que se debruça sobre um texto de Nietzsche dificilmente não se deixa levar pela tentação de pensar com ele; na medida em que desafios são erguidos, um após o outro, um novo aspecto de seu discurso exterioriza sua viva sensibilidade. Não se pode desconhecer as dificuldades de acompanhar o pensamento de um gênio que se compreendia como o mais escondido de todos; um filósofo que contemplava o mundo como uma porta para milhares de desertos, vazia e gélida; um mestre  que fazia experimentos com o pensamento humano feito “argila dúctil”  nas mãos de um devoto escultor, que, com inefável talento tornava belo tudo que habitava o universo de suas críticas. Não obstante, compreender seu pensamento se revela um empreendimento extremamente ousado, palpável somente por uma íntima relação entre autor e leitor, um eterno jogo de encanto, sabedoria e experimentalismo. Um universo de prodigalidade se insinua quando contemplamos a grande declamação de seu espírito. É inegável a ternura do conteúdo que dar forma a sua arte dionisíaca, é incontestável que, dos diversos críticos, poucos ousaram compreender Nietzsche como ele se compreendeu. E, de certo modo tal agravante é compreensível, uma vez que o próprio tinha plena noção das dificuldades desse audacioso empreendimento; cuja meta central era quebrantar as amarras das ilusões nocivas á vida. Nietzsche não negava a hipótese da angustiante dor causada pelo desencantamento aderido diante a desmistificação com o modo tradicional de pensar a realidade. Nesse sentido salta ao olhos a vertente corrosiva de sua filosofia que, é justamente implodir nossa forma lógica de contemplamos á conduta humana. Eugen Rosentock-Huessy chegou a se utilizar da expressão “disangelho” (termo cunhado pelo próprio Nietzsche) para caracterizar os trabalhos daqueles que seriam os quatro principais intérpretes da realidade do século XIX. Marx, Gobineau, Nietzsche e Freud, pois ambos esboçaram o processo de desilusão da modernidade. Peter Sloterdijk por sua vez, descreve esse processo de desilusão como “um nível de desencantamento capaz de levar á beira de precipícios quase suicidas.” E, por esse motivo Nietzsche era convicto de sua solidão, “muito instrutivo! Ninguém quer o que eu escrevo” (carta a Peter Gast, 1887).

Pensar Nietzsche e a relevância dos seus manuscritos que ainda perdura em nossos dias é pensar sobre vários aspectos sua biografia e estilo sem perder de vista o fenômeno dionisíaco que esboça a grandeza de um angustiado gênio, um fenômeno que acima de tudo reflete a excessiva popularização de sua filosofia. Quem nunca se ateve a conceitos do tipo vontade de potência, eterno retorno do mesmo, teoria das forças, grande politica, e a morte de Deus?  Caráter tão trágico quanto o revolucionário Siegfrieud do drama musical de Wagner, o autor de Zaratustra defensor fiel da cultura nobre e sofisticada ironicamente tem inegável repercussão na cultura de massa. Maldição ou benção? O certo é que poucos autores conseguiram manter o domínio de sua obra tanto na esfera acadêmica como fora dela. Uma filosofia hermética? Um pensador contraditório? Esteta ou um politico? Revolucionário ou reacionário? Um autor pessimista? Enfim, até hoje Nietzsche é discutido em assembléias, livros e publicações que se seguem ininterruptamente. Mas, afinal, não seria essa a intenção ao introduzir na filosofia sua trama conceitual?  Através de aforismos e imagens poéticas Nietzsche não teria trabalhado o caráter experimental de sua filosofia? Os conflitos de opiniões não seriam reflexo de uma filosofia que se dá em reflexão incessante? Como isso é possível? Qual foi a estratégia adotada por Nietzsche? Melhor dizendo, tinha o Nietzsche uma estratégia? Ou mais, seria possível uma plausível resposta para essas questões introdutórias se deslocamos as mesmas para uma teoria pragmática? Mas até, poderíamos pensar com clareza e rigor um autor tão dramático e conflituoso? Ora, são essas as perguntas sobre a natureza dos conflitos de opiniões que pesam em sua filosofia que nos levam a considerar, nesse momento, todos seus escritos como resultado de um pensamento estrategicamente brilhante que buscou legitimidade articulando um discurso não conceitual mantendo-se em sua postura de ensaio e experimento. Sendo assim, a luz dessas reflexões como referência preliminar, ainda é preciso enfatizar o fio condutor de nossa pesquisa: explorar o resultado, entre tantos, do estilo estratégico adotado por Nietzsche que, além de rejeitar o uso da linguagem sistemática e conceitual em virtude de uma linguagem não conceitual, possibilita uma continua renovação de perspectivas sobre sua obra legitimando uma postura radical contrária ao instinto de verdade e suas armadilhas metafisicas.

Quando somos guiados passo a passo por seus questionamentos, apercebemos com clareza uma sensibilidade indizível que emana da multiplicidade dos seus escritos. A primeira tarefa para uma leitura bem fundamentada desse complexo universo consiste em nos familiarizamos de imediato com dois desafios: o primeiro implica em detectar as utilizações que se fez do autor; e um segundo, de suma importância, se constrói quando reconhecemos as dificuldades de compreensão que seus escritos apresentam em sua estrutura conceitual; um modo de pensamento que se vale de formulações extremamente corrosivas sustentadas por brilhantes termos que se encandeiam. É bem provável, com isso, que, o leitor possa incorrer em graves perigos ao adentrar em um universo tão hermético e recheado de armadilhas; onde o desanimo em se deparar com um texto tão denso pode se agravar com a petulância em apreender com precisão o que se insinua facilmente acessível. Com efeito, nada mais sensato para uma segura aventura em seus manuscritos do que, antes de qualquer coisa, desmascarar as apropriações ideológicas e com determinação lidar com as particularidades de sua maneira de expressa-se. Avesso à ideia de um conhecimento totalizante e unificado do real, Nietzsche exalta o perspectivismo, isto é, uma mesma ideia analisada e compreendida pela multiplicidade de pontos de vista, com isso, as mais diversas possibilidades de abordamos uma problemática se concretiza mediante o perspectivismo que ganha contorno juntamente ao questionamento do valor da verdade:

“Ainda que fossemos suficientemente insensatos para considerar como verdadeiras todas as nossas opiniões, não desejaríamos, contudo, que fossem as únicas; não sei por que se haveria de desejar a unipotência e a tirania da verdade; basta-me saber que a verdade possui um grande poder” (Aurora, 507).

Com semelhante maestria o filósofo explora o pluralismo, termo convencionalmente  atribuído ao seu pensamento que reconhece não apenas sua interpretação filosófica como também exalta o exame estilístico e analise psicológica, objetos de múltiplas leituras. Por esse motivo uma pluralidade de estilos enriquece seus manuscritos. Um bom exemplo sua variedade formal e estilística se encontra latente em seu livro A gaia ciência onde sua escrita se alterna em diálogos humorísticos, textos argumentativos, aforismos, poesias e parábolas concentrando densos argumentos acerca da arte, verdade, metafisica, teoria do conhecimento, ontologia e história. Vale lembrar que, o próprio Nietzsche chegou a reconhecer seu grande estilo acreditando possuir “a arte do estilo mais variado do qual nenhum homem jamais dispôs”.

Visto esses dois termos Perspectivismo e pluralismo somado com a natureza antagônica do autor, torna-se relevante as considerações de Muller- lauter de que não há um único entendimento correto do pensamento de Nietzsche em um sentido definitivo e conclusivo. Ou seja, qualquer tentativa de cristalizar convicções acerca de sua filosofia é questionável. (Não seria essa a intenção do Nietzsche?). é compreensível também, que, considerações desse gênero possam intimidar qualquer leitor despreparado, porém, quando nos atemos ao experimentalismo latente no seu estilo, esse suposto obstáculo estrategicamente se converte em estimulo. Afinal, os constantes desafios propostos por sua filosofia esboçam o caráter dinâmico e, por conseguinte, experimental implícito em seus textos. “Pluralista, o pensamento nietzschiano apresenta ao leitor múltiplas provocações. Dinâmico, a eles propôs sempre novos desafios”. Afirma Scarlett Marton.

Se assim é, não podemos deixar de concluir que, pondo a prova hipóteses interpretativas, principalmente quando estas pesam sobre sua obra estrategicamente inaugura um leque de pontos de vistas quando desafia seus leitores incitando experimentos com o pensar.

A avaliação, tal como tratada nesse contexto, tem seu caráter ativo na medida em que explora uma multiplicidade de possibilidade e perspectivas deixando sempre em evidência confrontações de perspectivas não superadas como resultado de uma filosofia que se dar em constante reflexão:

“O mundo tornou-se novamente infinito para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações” (A Gaia Ciência – 374).

Fica desse modo explicitado que juntamente com os termos perspectivismo e pluralismo o experimentalismo também particulariza a filosofia nietzschiana. Visto que, o que está em jogo nessa visão é justamente explorar confrontações de perspectivas em um âmbito de incessante experimento. Aqui, então seria pertinente lembrar que a partir do momento que abriu as portas para as filosofias da vida, vinculando esta a vontade de potência, Nietzsche deixa entrever uma forte tendência naturalista e voluntarista na sua filosofia. Por ter conferido função primordial aos instintos vitais da natureza humana estudiosos compreendem, pois, sua filosofia também relacionada ao termo pragmatismo. Dando uma nova roupagem para a verdade, sua filosofia defende um radical deslocamento valorativo de tal conceito partindo de uma determinada concepção da essência humana.

“A falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranho. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo cultiva a espécie”. (Além do Bem e do Mal, 4).

Nesse contexto a verdade consiste na estreita relação do pensamento com os objetivos práticos do homem; verdadeiro nesse ponto exterioriza o mesmo que útil, promotor da vida; uma concordância entre pensamento e ser. Portanto, não existem fatos ou verdades, mas, interpretações ou perspectivas. Nessa radical e precisa guinada vitalista, as leis lógicas e cientificas, são critérios e esquemas de nossas interpretações do real. Localizando essas características da verdade em seu contexto essencialmente naturalistas , voluntarista, vitalista ou até mesmo pragmática; é certo que, o conhecimento, por sua vez, em Nietzsche pode ser abordado em seu caráter biológico, onde a verdade antes de ser um valor teórico é precisamente servidora da vida, instrumento de um determinado tipo de animal que necessita conserva-se, e, principalmente desenvolve-se; e como o individuo precisa viver em sociedade  e comunicar-se o conhecimento em Nietzsche também ganha seu sentido gregário:

Não temos nem um órgão para conhecer, para a verdade: nós sabemos (ou cremos, ou imaginamos) exatamente tanto quanto pode ser útil ao interesse da grege humana, espécie: e mesmo o que aqui se chama “utilidade” é afinal, apenas uma crença, uma imaginação e, talvez, precisamente a fatídica estupidez da qual um dia pereceremos”. ( A Gaia Ciência, 354).

Sendo assim, perante tais esclarecimentos, cabe a nós leitores reconhecer a ousadia estilística de um filósofo que soube estrategicamente garantir, num nível mais profundo dos demais intelectuais, a potencialidade de sua obra ao inflamar um preciso debate acerca do valor da verdade reconhecendo nesta a sua forma mumificada, metafisica e fixa. Desde o início de seu percurso intelectual a recusa de uma verdade em si foi uma constante em seu pensamento; Nietzsche não se deteve com demonstrações lógicas e com estruturas sistemáticas. A questão do valor é algo a ser julgado de acordo com a medida e exigência de quem o veste. Seja como for, o mais importante nesse contexto é seguir simpateticamente nosso caminho encontrando um refugio para as horas de inquietação, sentirmo-nos em harmonia com nossas perspectivas, liberto dos grilhões e das amarras moralistas nocivas a vida. Cada um de nós deve ser responsável e, acima de tudo, dar conta de seu próprio juízo jamais, sobre hipótese alguma tirar semelhante coisa de outro. Mesmo sendo este um erro, mesmo que fosse uma mentira. Enfim, ao lançarmos os olhos sobre este extraordinário autor, em todos seus detalhes e conflitos, tomamos consciência que, este personificou com genialidade e loucura a desoladora opinião que os grandes intelectuais e artistas são geralmente desprezados e negados pela sua geração. Dramático e, poeticamente conflituoso, em vida Nietzsche expressou ressonâncias com o culto a Dioniso, almejando a divina primavera incorporada no forte estupor da vida, onde da mais elevada alegria brotou o grito de horror, ritmado pelo cântico de Zaratustra- talvez por esse motivo, seu discurso ainda é gritante sem desfalecimento, ou talvez a relevância de sua filosofia se deve em muito a doçura do seu espírito que apaziguava seu pensamento intimidante como certa vez escreveu Malwina de Meysenburg : quanto sua natureza amável e generosa equilibra sua inteligência destruidora.

Foi principalmente no reino encantado do universo acadêmico, lugar sustentado por densos e exaustivos sistemas- onde um otimismo teórico buscava a verdade a qualquer custo- que a filosofia de Nietzsche foi mais densa e corrosiva. Enquanto todos buscavam um mundo plenamente calmo e esclarecido, os versos de Zaratustra irradiavam uma espécie de morte do vago causada pela desilusão frente uma razão decadente e apática, que escraviza e destrói. Nietzsche, uma filosofia de conflitos, uma sutil desconstrução do ser, justificável principalmente quando levamos em conta sua maestria estilística responsável pelas múltiplas imagens ao seu respeito que, para, sua surpresa e horror, vigora sem discrepância tanto na esfera acadêmica como fora dela. Conflitos, que, de certo modo vão de encontro ao principio hermenêutico de Heidegger, onde todo texto filosófico carrega em si uma margem de não pensado. E, se tratando em especial dos textos de Nietzsche, apercebemos que este compreendeu bem mais do que chegou a exprimir, presenteando a humanidade com um labirinto feito de diversos e profundos escritos de caráter estrategicamente perspectivista, pluralista e experimental.


Referencias bibliográficas

Nietzsche. F. A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: companhia da letras, 2001.
________,Além do bem e do mal. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: companhia das letras, 2005.
_________,Aurora. Trad. Mario Ferreira dos santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.



Por Claudio Castoriadis. (Franciclaudio Feliciano De Lima)

-Esse artigo foi elaborado em maio de 2008, com o intuito de ser utilizado futuramente como recurso didático na disciplina de Filosofia. Se for utilizado por outros, por favor, não deixem de mencionar a fonte.

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Eu "conto" pra ela

Me conte um conto
Que me encante
Que eu te canto
Na esquina.

Me conte um conto
Bem contado
Que no meu canto
Eu te guardo.




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