quarta-feira, 2 de maio de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


2.     A NOÇÃO DE MORAL COMO ANTINATUREZA


A questão dos valores é mais fundamental
que a questão da certeza: a seriedade desta
depende da solução que dermos àquela
Nietzsche
Vontade de Potência


Passemos, pois, à segunda significação da moral, para podermos compreender Nietzsche em sua análise crítica: uma moral compreendida como “antinatureza”. Seria de suma importância insistirmos em uma compreensão objetiva para o conceito de moral na perspectiva nietzschiana, para somente assim adentrarmos com clareza e cautela na esfera do seu discurso, visto que a busca de um justo conceito de moral evitaria possíveis contrassensos aderentes ao termo. Nesse momento, a análise da moral como objeto da crítica de Nietzsche não se detém na ética, em bons costumes, coisas positivamente valoráveis ou regras de comportamento, como já foi exposto. Sua crítica traz à tona todas as coisas humanas em sua plenitude: sentimentos, pensamentos e atos. Nesse aspecto podemos centralizar sua análise especificamente para uma moral cujo significado nos remete a formas de avaliação ou perspectivas avaliadoras. O grande problema agora é: quem está avaliando? Por que tal ou qual avaliação? O que sabemos de tal valor? O que podemos saber sobre o valor? Feitas essas perguntas nossa problemática agora se volta para a questão da criação.


2.1.   Procedimento genealógico


Foi analisada a moral como sentimento dos costumes. Agora será problematizado e aprofundado esse sentimento desde sua origem. Se a moral é uma condição de vida e tal condição é comprometida pelo sentimento de medo, então podemos pensar que a função última da moral apresenta-se como uma reação ao perigo. Sendo assim uma busca de conservação. Afinal, como já foi dito, uma moral implica em uma estrutura de valorações e as valorações são condições de uma determinada existência. Por tanto, um valor é um instrumento pelo qual um tipo específico de vida se exterioriza, seja para expandir seu domínio ou para conservar-se.
Sabemos que a moral é uma condição de vida e tal condição é um reflexo de quem se impõe ou se conserva. Porém, a questão central que Nietzsche levanta é a seguinte: qual seria o sentido de uma determinada tábua de valores? Sobre que solo os valores foram fincados? Afinal, vale para quê determinada valoração? Qual a base de determinada perspectiva? Quem está reagindo ao perigo? Quem está buscando conservação? Sobre quais circunstâncias surgem os valores morais? Como esses valores são construídos e transmitidos? Quem cria um valor o faz somente por determinadas condições; quais seriam elas? Enfim, qual o valor da invenção humana do bom e do mal?
Em seu cultuado livro A Genealogia da Moral, Nietzsche escreve o que seria uma das tarefas da sua filosofia:
Necessitamos de uma crítica dos valores morais e, antes de tudo, deve-se discutir o valor desses valores e por isso é totalmente necessário conhecer as condições e os ambientes em que nasceram, em favor dos quais se desenvolveram e nos quais se deformaram – a moral como consequência, como sintoma, como máscara, hipocrisia, enfermidade, equívoco; mas também a moral como causa, remédio, estimulante, inibição, veneno – como certo conhecimento que nunca houve outro igual nem poderá haver (Nietzsche, 1998, 12).
Partindo de rigorosos exames de caráter etimológico, histórico, filosófico e psicológico para investigar a linguagem acerca dos adjetivos morais, Nietzsche segue à risca seu procedimento genealógico, como crítica dos valores morais que visa demolir toda a base da conduta humana. Estrategicamente nosso filósofo foi minando tudo o que se encontrava à sombra dos hábitos valorizados e valores habituais, questionando-se pelo valor dos valores. A pergunta não se restringe aos valores existentes, mas estende-se ao valor desses valores. Não se detendo apenas no esclarecimento da estrutura moral, mas principalmente questionando sobre quais circunstâncias surgiu um determinado valor, e de que modo eles foram favoráveis ou não ao desenvolvimento humano. Daí Nietzsche se pergunta: são sintomas de indigência? De mediocridade? Empobrecimento? De degeneração da cultura? Com efeito, cada manifestação da conduta humana, as instituições, a filosofia, a arte, a política, o Estado, enfim, todos são contestáveis mediante seu corrosivo procedimento genealógico. 

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

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terça-feira, 1 de maio de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.3.   Custos negativos dos costumes


Conforme exposto, existe a íntima relação à margem do encanto de uma tradição em que um suposto bom costume se exterioriza, na maioria das vezes, de forma irreflexiva e submissa, mascarando um sentimento de medo. É tal a estratégia acerca da crítica dos costumes que Nietzsche coloca sob suspeita tudo o que é conhecido e cognoscível. Espontaneamente, o autor de Zaratustra nos convida a adentrarmos na dimensão da sua crítica quando instaura uma ampla discussão sobre o costume e assegura uma reflexão axiológica, analisando as possibilidades do conhecimento e a dimensão valorativa da consciência humana.
Costumes todos temos. Valores é o que nos diferem dos animais. Para conviver precisamos estabelecer uma série de valores. Cada conduta nossa em sociedade deve ser ponderada na medida do possível. Devemos decidir quais os valores que sustentaram nossas vidas. Porém o modo de conceber a realidade pelo prisma da moralidade, tal como Nietzsche apresenta, é negativo por rejeitar novas experiências. Desse modo, o grande problema do costume é quando este se encontra em sua forma estática; quando não existem possibilidades de novas práticas, novas experiências. O que, na verdade, Nietzsche tenta mostrar é que a vida refletida na individualidade do indivíduo não pode ser enclausurada; os sentimentos não devem ser os mesmos para todos. Com isso a moralidade embrutece os costumes debilitando toda e qualquer forma de avaliação.
Pois bem! Até aqui sabemos os custos negativos dos costumes. Sabemos também de que forma o mesmo exerce seu domínio e sabemos ainda o pilar principal que sustenta uma comunidade: o sentimento de medo.
Através de milhares de anos viu um perigo quando o rodeava, em tudo quanto o rodeava, em tudo quanto lhe era estranho, em tudo quanto estava vivo desde o momento em que semelhante espetáculo se oferecia a seus olhos, imitava os traços e a atitude que via ante si, e tirava uma conclusão sobre as intenções boas ou más que pudessem haver atrás daqueles traços e daquela atitude.  (Nietzsche, idem, p.107)
Observe-se que o sentimento de medo é pensado como um instrumento de compreensão. Tal prática de temor desde muito tempo serviu de sustento para a moral. O medo gera a adesão em um comportamento ordenado e submisso. Assim Nietzsche compreende o homem em sua fragilidade tão peculiar que, temendo o que lhe é estranho – o outro –, tira conclusões em pró de sua sobrevivência. Dentro dessa discussão identificamos dois pontos importantes (para nossa pesquisa): primeiro que o sentimento de medo é pensado como princípio articulador da moral, uma vez que o mesmo principia juízos e valorações e, segundo, o mesmo sentimento de medo tem seu caráter gregário. Afinal, os juízos e valorações remetem a um individuo que desenvolve sua sensibilidade e inteligência necessitando viver em sociedade.
O que dissemos até agora parece suficiente para proporcionar algumas afirmações fundamentais da crítica nietzschiana:
a)       A moral é tratada como condição de vida;
b)       A condição de vida é cultivada pelo sentimento de medo;
c)       O sentimento de medo serve de base para a moral de animal de rebanho.
Sabemos que a raiz do problema foi questionada: a formação da moral desde sua base na adoração pelo costume, cultivada pelo sentimento de medo. Porém, os homens não devem reprimir o medo e sim questionar a tradição. Enfim, qual postura assumir frente à moral reduzida e fortificada no tradicionalismo? Aquilo que efetivamente está em jogo nessa crítica consiste no convite em adotarmos uma postura de profunda desconfiança. Pois bem! Nietzsche tinha uma meta ao escrever Aurora. Pois o subtítulo de tal obra delimita sua pesquisa: fundamentar reflexões sobre preconceitos morais – a razão, a consciência, a boa opinião, amor ao próximo, Deus, virtude, justiça, pecado, o inferno, bem e mal. Preceitos expostos, desde sempre as piores análises.
Por quê? Ora Nietzsche responde que na presença da moral as reflexões são podadas por se tratar uma autoridade e na presença de uma autoridade o mais sensato durante muito tempo foi obedecer:
Desde que o mundo é mundo, nenhuma autoridade permitiu tornar-                se objeto de crítica; e chegar à crítica moral, ter por problemática a moral, como? Não foi sempre, não é ainda imoral? A moral, contudo não dispõe de toda classe de meios de intimidação para manter a distância as investigações críticas e os instrumentos de tortura; sua certeza repousa mais numa certa espécie de sedução que só ela conhece: sabe “entusiasmar”.  (Nietzsche, idem, p. 10).
 Considerando essas afirmações compreendemos que Nietzsche incessantemente nos conduz para uma crítica da estrutura da sociedade, visto que a mesma se mostra estabelecida no conjunto e tem como finalidade última a proteção dos indivíduos contra os perigos externos. A comunidade deve assim ser considerada um problema, pois para garantir sua permanência, afirma Nietzsche, ela busca um nivelamento de juízos. Nesse contexto, viver em comunidade significa abraçar o temor e desprezar qualquer postura que eleve o sujeito para um patamar além da comunidade. Ações individualistas que possam ameaçar a subsistência da comunidade são estigmatizados como imorais, de modo que tudo que infunde temor ao próximo é malquisto e denominado de mau.
Que fique claro: falar em moral mediante essas considerações é o mesmo que falar em uma condição de vida. E a condição criticada nesse momento é a condição de rebanho, um modo de pensar e viver que implicou na redução do homem à condição de animal doméstico, amansado e decadente. Portanto, o perigo que reside na comunidade é justamente quando ela está atrelada à moral de rebanho. Interessante notar que essa ligação do homem com a moral pela figura de animal de rebanho visa justamente personificar o moralista como uma ovelha frágil e decadente que desgarrada do seu rebanho (comunidade) e desconhece uma forma nobre de sobrevivência. Não consegue trazer para si a responsabilidade de viver a vida em suas mais notórias peculiaridades. Seja por má fé ou pelo sentimento de medo, ele cultua uma memória fraca que em nada lhe permite superar as amarguras, as desilusões, humilhações, as dores vividas, sempre amarrado a essas experiências. Salientando o temor na moral de rebanho, Nietzsche escreve:
O quanto de perigoso para a comunidade, para a igualdade, existe numa opinião, num estado, no afeto, numa vontade, num dom, passa a constituir a perspectiva moral: o temor é aqui novamente o pai da moral. (Nietzsche, 2006, p.88)
O animal de rebanho é, portanto, aquele incapaz de acolher e aceitar as imperfeições da vida. Ele desvia o olhar evitando o lado mais trágico da vida; está permanentemente buscando culpados por seus infortúnios; é fraco e carrega em sua alma o desejo de vingança. Dessa forma é incapaz de caminhar por seus próprios pés. Vive a esmo,  espera  um conforto vindo de fora, de um outro, concebido como Poderoso, Absoluto, quer seja a tradição ou uma comunidade. O temor para o animal de rebanho será sempre o pai da moral.

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

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domingo, 29 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.2.   Manipulação: Essência antropológica da tradição


 É assim trazida à luz a essência antropológica da tradição, uma forma de manipulação que está por trás de dogmas. Visto que ideias que afrontavam a tradição eram acolhidas geralmente de forma hostil, uma grande parte da humanidade ainda vive à sombra dessa manipulação. E Nietzsche alerta para a possibilidade de que ao longo de nossa existência é a tradição que decide por nós. Sob o império da moralidade dos costumes as ideias novas e divergentes são condenadas. Assim, toda ação individual é malquista quando compreendida segundo o olhar do moralista, visto que o nivelamento massivo de opiniões é assegurado pela covardia, má-fé e preguiça. E mais: chegamos desse modo ao ataque à moral reduzida a mero tradicionalismo, haja vista a moralidade não passar de obediência incondicional ao costume. Não importa de qual tipo, o costume foi sempre um modo tradicional de agir e julgar.
Nesse contexto, como compreendemos a tradição aqui problematizada? Com justeza, podemos compreender esta como sendo um tipo de autoridade superior à qual obedecemos cegamente, não porque nos ordena algo útil, mas simplesmente pelo fato de que ordena. Ora, onde não existe tradição não existe decência. Ou dito de outra forma: se conseguimos manter fidelidade pela tradição, de maneira alguma seremos pessoas decentes, pessoas de caráter moral íntegro. Por isso, podemos concluir que a moral delimita a ação do sujeito, visto que posturas contrárias ao imperativo da tradição não são bem acolhidas em uma comunidade.
Por esse motivo quanto menos a vida é determinada pela tradição tanto mais se restringe a área da moralidade. Não obstante, o que interessa a Nietzsche ao denunciar o encanto e servidão voluntária é justamente seu problema psicológico: o sentimento de medo.
Em que se distingue este sentido da tradição de um sentido geral de temor? É temor de uma inteligência superior que ordena, o temor de uma potência incompreensível e indefinida, de algo que é mais pessoal – há superstição neste temor. (idem, p. 19)
Quando em 1881 Nietzsche publica Aurora: Reflexões sobre Preconceitos Morais ele dá continuidade em sua análise à estrutura da moral que teve início já nos 638 aforismos do primeiro volume de Humano Demasiado Humano (1878). Ampliando a discussão sobre a cultura e introduzindo considerações sobre a vida social Nietzsche trata especificamente de um problema psicológico: o sentimento de medo. Seu argumento problematiza a moral sustentada a mero tradicionalismo legitimada pelo sentimento de medo que vigora perante uma autoridade ou superstição. Nesse contexto prestamos obediência moral, como uma autoridade incontestável, um tipo de moral atrelada à tradição, nos hábitos e modos de agir costumeiros. Nesses termos a costumeira crítica da cultura através da vida social conduz ao problema da moral, visto também como o problema do medo, pois tal sentimento é guia na participação do sentir dos outros. É por medo que somos domesticados pela tradição, escravizados pelo hábito e debilitados pela moral. Onde existe uma comunidade prevalece uma moralidade dos costumes e a moral inflamada de preconceitos será sempre uma moradia dos fracos. A esse respeito escreve Eduardo Rezende Melo:
 A verdadeira cara da moral mostra-se, então, como uma reação ao perigo e, portanto uma busca de conservação, construindo, a partir dessa reação, todo um modo de conceber o homem, o mundo e a vida e, nessa mesma resposta ao perigo, nessa reação moral, encontraram, para Nietzsche, o germe da filosofia. (2004, p. 123) 

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.1.  A Falta de sentido histórico e o sentimento de medo


Ora, por moral compreendemos uma estrutura de valorações. Por valorações, condições de existência ou, como dirá nosso filósofo em Para além do bem e do mal: [...] exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida (2005a, p.11). E as valorações puramente humanas estão de uma maneira ou de outra submetidas a mudanças no decorrer do tempo. Dessa forma Nietzsche vislumbra o homem como sendo uma entidade histórica em incessante transformação. Por esse motivo não é prudente falar de essências imutáveis, muito menos de verdades absolutas.
Assim encontramos o principal defeito dos filósofos contemporâneos a Nietzsche, segundo ele: a falta de sentido histórico. Uma falha involuntária de imaginar o homem como uma verdade eterna quando na verdade este veio a ser.
Nesse contexto, torna-se suspeito ainda todo sentimento por determinado costume, por ser proveniente das apreciações de juízos morais errôneos, na maioria das vezes, e por corrermos o risco de perdemos o direito por nosso juízo quando cegamente confiamos em uma tradição. Seja observado que Nietzsche inclina seu desprezo para o instinto de escravidão que vigora mediante a postura a que aderimos de total irreflexão e submissão quando somos guiados pelos sentimentos, visto que estes tem sua proveniência em juízos morais. E, nessa mesma dimensão tomada pelo encanto embriagante do costume – hábito, tradição –, as religiões, ciência e o Estado facilmente fortificam seus alicerces na medida em que se desenvolvem cultivando seu rebanho, adeptos da indiscutibilidade dos costumes. Com efeito, compreendemos nessa perspectiva que o encanto derivado do costume consiste em manter permanentemente na consciência o dever ininterrupto de servi-lo.
Permanecemos preponderantemente, durante toda a nossa vida, vítimas dos juízos infantis aos quais nos habituamos, e isto no que se refere à maneira de julgar nossos próximos (seu espírito, sua classe, sua moralidade, seu caráter, o que tem de louvável ou de censurável, prestando homenagem às suas apreciações). (idem, p. 75)
A genialidade particular dessa crítica consiste na facilidade com que seus argumentos criam uma dimensão corrosiva, instaurando uma problemática no círculo de possíveis perspectivas do objeto posto em discurso. Com efeito, o alcance de sua crítica ao costume é devastador na medida em que ela visa desmistificar as instituições, o Estado, a moral, a filosofia dogmática, as religiões. Enfim, é inegável a ligação de ambos quando nos reportamos ao costume.
É visível na história da humanidade as consequências que pesam sobre aqueles que confrontam a tradição e costumes, denunciando sua insustentabilidade argumentativa e reflexiva. Temos exemplos deploráveis como a condenação à prisão perpétua aplicada sobre Galileu Galilei (1564-1642), tão-somente por afirmar uma determinada doutrina que decerto contrariou as que vogavam em sua época. Sendo obrigado a recitar sete salmos penitenciais uma vez por semana ele teve de abjurar, maldizer e detestar a teoria copernicana. E não menos intrigante, não podemos deixar de citar o pensador holandês Benedictus Spinoza (1632-1677). Este, excomungado da comunidade judaica por afrontar a tradição da época em defesa da sua exuberante doutrina de um Deus inteiramente imanente: Deus sive natura. Pensamento polêmico, de beleza singular, porém um escândalo para a religião do seu tempo. Sendo sua obra Ética publicada apenas depois de sua morte. Assim como Nietzsche, Spinoza seguiu sua filosofia criticando os valores morais transcendentes. Críticas desse gênero que se chocavam bruscamente com a tradição religiosa. Vale lembrar ainda o trágico fim do pensador Giordano Bruno. Queimado no mercado de flores de Roma, dentre as acusações que pesou sobre ele, uma delas foi por defender que Deus estava presente na natureza; e outra, um escândalo para a época: acreditar na infinitude do universo.
Poder-se-ia até mesmo dizer que à primeira vista é mais que gritante a divergência de pensamento de desses intelectuais (Galileu Galilei, Benedictus Spinoza, Giordano Bruno). Entretanto, o que se torna evidente para qualquer um que analise as perseguições sofridas por Galileu, Spinoza ou Giordano foi como os argumentos contra eles se mostraram volúveis e grosseiros no decorrer do tempo. Tornou-se clara a insustentabilidade dos juízos contra as figuras desses pensadores, visto que seus crimes foram suas posturas firmes com as quais não se desprenderam dos seus juízos, não se rendendo a convicções superadas e falsas. Vale observar que o critério do julgamento na maioria dos casos expostos pelos juízes não tinha como princípio a veracidade dos fatos, mas a defesa dos costumes: uma perspectiva moralista.
                                                                                                                            
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Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

quarta-feira, 25 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.     A NOÇÃO DE MORAL COMO SENTIMENTO DOS COSTUMES



E cada um organizará seu próprio caos, voltando-se
para sua vida interior esquecido das aparências
ilusórias. E cada um compreenderá que a cultura
é mais que uma simples ‘decoração da vida’
(Nietzsche,
Considerações Extemporâneas)


Ao adotar uma postura para além do bem e do mal, Nietzsche joga de forma paródica e sarcástica com os até então cultuados ideias da humanidade. Em suas reflexões ele descreve os conflitos da vida moral em termos que para muitos parecem exagerados, talvez pela sua pretensão em ser o primeiro a problematizar até que ponto os valores morais deformam a cultura de seu tempo. Disso decorrem suas contundentes críticas àqueles que falharam na análise da moral até então.
Assinalando um ponto de vista contrário aos costumeiros preconceitos morais, coerentemente, Nietzsche se posiciona de forma “extra moral”, “supra moral” ou “extemporânea”, ao contrário do que fez Kant, que denuncia as falsas pretensões ao conhecimento, mas peca por não colocar em causa o ideal de conhecer: se por um lado denuncia a falsa moral, por outro lado falha em não questionar as pretensões da moralidade nem da natureza nem da origem dos valores. Ou seja, ele critica aqueles que misturam domínios e interesses da razão; mas em seu discurso os sagrados domínios permanecem intactos e os interesses da razão preservados a sete chaves quando estrutura seu imperativo categórico: a verdadeira moral, a verdadeira religião. Por isso seria prudente perguntar: encontrou Kant a ideia de um filósofo legislador, como pensou o Nietzsche?  Não resta dúvida que nesse caso Kant não pôde superar as armadilhas da moral, justamente por ter invocado um estranho fator da razão de ordem transcendental.
Seguindo suas críticas para com aqueles que falharam em suas pesquisas, Nietzsche prossegue questionando a moral do dever shopenhaureriana, visto que este fracassou quando buscou um novo fundamento de uma moral universal no sentimento de compaixão. Como a vida é dor, segundo ele, a caridade para com o outro é antes de qualquer coisa participação de sua dor, ou seja, piedade, compaixão. Dessa forma, nem Kant nem Schopenhauer foram felizes em suas análises da moral, pois, segundo Nietzsche, eles tiveram a pretensão de encontrar e reformular as apreciações da consciência comum e mais imediata. A partir daí, ainda gravitaram em uma posição moral, solidamente fundada frente ao instinto divino infalível da consciência humana.
Cada filósofo, segundo Nietzsche, pensou ter fundamentado a moral. Porém, todos os pensadores conheciam os fatos morais apenas superficialmente e eram mal informados. Ou seja, faltou aos grandes pesquisadores o que nosso autor vai denominar de sentido histórico e, em consequência disso, a moral era tida como dada, faltando assim a suspeita de que ali havia algo problemático. Evitando cometer o mesmo erro, Nietzsche dá a receita de sua análise logo no prefácio do seu precioso livro, Genealogia da Moral:
Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições inventaram os homens para si os juízos de valor bom e mal? (Nietzsche, 1998, p, 9)
O que Nietzsche denuncia aqui de preconceito teológico implica na postura adotada pelo mesmo: uma posição para fora da moral, um alerta para vivência dos valores irremediavelmente comprometidos pelos preconceitos morais. Ou seja, qualquer tipo de sentimento que gravite na órbita dos preconceitos morais tem que ser posto sob suspeita. Como? Mediante qual método? Nesse sentido o aforismo é bem claro: uma análise psicológica embasada sobre dados históricos e filológicos. Um tipo de trabalho voltado para a coisa documentada com hipóteses cinzas. Nessa situação, Nietzsche chega a provocar seus antecessores argumentando que, eles principiavam suas pesquisas sob hipóteses que se perderam no “azul”, desqualificadas por partirem de especulações metafisicas ou teológicas.
 Em Aurora, mais precisamente no aforismo 163, escreve Nietzsche:
Se é verdade que nossa civilização é, por si mesma, algo deplorável, vocês tem a possibilidade de prosseguir com suas conclusões com Rousseau: ‘esta civilização deplorável é causa de nossa má moralidade’ ou de concluir invertendo a fórmula de Rousseau: nossa boa moralidade é causa desta deplorável civilização. (Nietzsche, 2008, p.120)
Percebe-se, pois, que nesse aforismo de 1881 Nietzsche nos oferece o argumento necessário para compreendermos o exercício de seu pensamento, sendo sua principal atividade o problema da moral. Compreender as ideias fundamentais que precedem a formação da moral foi uma das principais metas de Nietzsche. Segundo ele, onde existe uma moral existe uma estrutura de valorações, ou seja, “exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida” (Nietzsche, 2005a, p.11) Por uma questão de sobrevivência questionamos: o que é correto? O que é bom e mal? O que é justo? O que é injusto? O que realmente é necessário? O que é virtude? O que é vício? O que é justiça? O que deveras é moral? E imoral? O que é digno? Por conseguinte, o que é indigno? Enfim, podemos notar que os valores morais desempenham uma função importante em nossa vida, visto que sentimentos e ações são expostos facilitando ou dificultando nossas relações sociais. Para Nietzsche, entender uma moral é também uma tentativa de entender o poder dos costumes. Ora, sabemos que os costumes são a forma tradicional de uma avaliação e representam as experiências dos homens de outrora sobre o que eles consideram útil ou nocivo, aquilo que deveras interessa para estruturar de forma razoável uma comunidade. Mediante uma avaliação inclinada a uma tradição estabelecida ou um costume, aderimos com facilidade a certa postura moral. Assim, podemos concluir que a moral nesse contexto está atrelada ao costume, de modo que, para o pensador Nietzsche, ela é “o sentimento do costume” (2008, p 27).
Nietzsche denuncia o hábito como importante gênero de prazer, fonte de moralidade. Ora, é justamente pela facilidade que aderimos ao hábito, um valor precisamente pronto; melhor: de bom grado; pelo sentimento sereno que vigora e pela possibilidade fortificada na experiência do habitual comprovado, sendo, portanto, útil que acreditamos desse modo em tal costume com o qual podemos viver; diferentemente de todas as possíveis novas tentativas não comprovadas. O costume então se cristaliza na junção do útil ao agradável fundamentando seu caráter inclinado exclusivamente para uma postura prática, rejeitando assim, na maioria das vezes, um pensar reflexivo ou intelectual. Com isso, temos então um tipo de encanto que, ao invés de propagar uma diversidade de pontos de vista, sufoca por assim dizer o caráter dinâmico da vida limitando-a em um medíocre ponto de vista.
O encanto do costume consiste em pensarmos que tal é o nosso único meio, no qual é possível nos sentirmos bem. É pela busca da mais confiável segurança que nos rendemos por sua utilidade aparentemente única, comumente sentida por tudo um grupo ou ordem social. Porém, é justamente para esse suposto encanto que provém do hábito ou costume que Nietzsche imputa sua crítica. Ora, os costumes, até mesmo os mais rudes e duros, com o passar do tempo se mostram mais agradáveis e de bom grado. E por mais áspero, hostil ou desagradável um hábito de visar se apresente, possivelmente tais palpitações venham a se converter futuramente em uma instigante fonte de prazer. Pois bem! A hipótese de Nietzsche nesse contexto é: um objeto que outrora era acolhido de modo hostil provavelmente pode vir a se converter em objeto “sacrossanto”. Sendo assim, é importante observar a estreita relação entre ética e moral, quando estas remetem a um determinado conjunto de costumes. Nesse ponto Nietzsche deixa evidente:
Eis-nos aqui no imenso terreno de manobra da inteligência: não somente se desenvolvem e se aperfeiçoam aqui as religiões, mas também a ciência encontra aqui seus precursores veneráreis, embora terríveis; é ali que o poeta, o pensador, o médico, e o legislador de nossas cerimônias, se revestiu a pouco e pouco do atrativo do que é difícil de compreender e, quando se chegou a aprofundar, aprendeu-se a crer.   (Nietzsche, 2008, p.39)
Uma vez que Nietzsche compreendeu a moral como sentimento do costume, apreciar-se-á por meio dessa hipótese um alerta que permite repensarmos com os critérios os costumes, hábitos e tradições. Torna-se-nos evidente mediante tal observação que o costume é apresentado por Nietzsche como inconstante, longe de tomar uma postura definitiva. E por ser o hábito fonte de uma moralidade, Nietzsche circunscreve sua crítica para o sentimento aderido mediante o encanto do hábito ou costume.

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima ) 

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