terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um brasileiro chamado Machado De Assis



  Em 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, Nasce Joaquim Maria Machado de Assis. Filho único de casal humilde: o pai era um pintor mulato Francisco José de Assis, descendente de escravos alforriados e a mãe era uma lavandeira portuguesa. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância. Machado ficou órfão bem cedo e permaneceu na escola por um período curto. Na verdade, ele precisou aprender tudo sozinho. Desde os 16 anos, frequentava a tipografia de uma revista chamada Marmota Fluminense, e logo se tornou um aprendiz de tipógrafo. Foi desta forma que sua carreira como escritor começou. No início ele revisava os manuscritos e depois se tornou um jornalista. Em 1869, Machado casou-se com Carolina, uma jovem portuguesa, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais. Depois da morte de Carolina, ele se isolou numa casa confortável no Cosme Velho - um bairro do Rio de Janeiro-, onde morreu em 1908, nos deixando uma obra composta por várias novelas e poemas, muitos contos, críticas e crônicas, algumas comédias e peças de teatro. Não por acaso Machado é considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos maiores escritores do mundo, enquanto romancista e contista. Refinado como poucos de seu tempo na prosa o gênio é contido e elegante esbanjando uma indescritível sensibilidade artística.  escreveu uma série de livros de caráter romântico. É a chamada primeira fase de sua carreira, marcada pelas obras: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), e Iaiá Garcia (1878), além das coletâneas de contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia Noite (1873), das coletâneas de poesias Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875), e das peças Os Deuses de Casaca (1866), O Protocolo (1863), Queda que as Mulheres têm para os Tolos (1864) e Quase Ministro (1864). Em sua segunda fase suas obras tinham caráter realista, tendo como características: a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à essência do homem e seu relacionamento com o mundo. Da segunda fase, são obras principais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (livro) (1904), Memorial de Aires (1908), além das coletâneas de contos Papéis Avulsos (1882), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1906), Relíquias da Casa Velha (1906), e da coletânea de poesias Ocidentais. Vale lembrar que, o estilo literário de Machado de Assis tem inspirado muitos escritores brasileiros ao longo do tempo e sua obra tem sido adaptada para a televisão , o teatro e o cinema sempre tendo uma boa desenvoltura em várias vertentes da rate. Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura, organizou e publicou as edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes. Suas principais obras foram traduzidas para diversos idiomas e grandes escritores contemporâneos como Salman Rushdie , Cabrera Infante e Carlos Fuentes confessam serem fãs de sua ficção , como também o confessou o saudoso Woody Allen que afirmou "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, como um dos seus cinco livros favoritos em depoimento ao jornal britânico Guardian. "É um livro maravilhoso, bastante original [...] Ele é tão moderno que você pensaria que foi escrito ontem.”


 Mediante a sua importância literária, a Academia Brasileira de Letras criou o Espaço Machado de Assis, com informações sobre a vida e a obra do escritor.


Por Claudio Castoriadis




domingo, 8 de janeiro de 2012

A sutil desconstrução do Ser: Considerações sobre Nietzsche



 1860. Um jovem professor é acolhido com bastante êxito pela universidade de Basiléia, ouvintes eufóricos contemplam sua aula inaugural, “sobre a personalidade de Homero” todos desejam ansiosamente escutar as palavras do brilhante Friedrich Nietzsche, jovem que por recomendação de Ritschl fora agraciado com a cátedra de filologia clássica, conquistando com os devidos méritos sua cadeira sem tese nem exames. Sem dúvida dias gloriosos e tranquilos, mesmo que breves, na vida daquele que iria protagonizar o drama da “Morte de Deus” se consagrando para sempre como o autor de Zaratustra. Mais de cem anos após sua morte e o seu legado ainda é centro de exaustivas discussões. Com efeito, os conflitos acerca de sua filosofia não apenas reafirma seu nome entre os grandes pensadores da humanidade, mas, principalmente contribuem para pensarmos a atualidade do seu discurso.


Qualquer um que se debruça sobre um texto de Nietzsche dificilmente não se deixa levar pela tentação de pensar com ele; na medida em que desafios são erguidos, um após o outro, um novo aspecto de seu discurso exterioriza sua viva sensibilidade. Não se pode desconhecer as dificuldades de acompanhar o pensamento de um gênio que se compreendia como o mais escondido de todos; um filósofo que contemplava o mundo como uma porta para milhares de desertos, vazia e gélida; um mestre  que fazia experimentos com o pensamento humano feito “argila dúctil”  nas mãos de um devoto escultor, que, com inefável talento tornava belo tudo que habitava o universo de suas críticas. Não obstante, compreender seu pensamento se revela um empreendimento extremamente ousado, palpável somente por uma íntima relação entre autor e leitor, um eterno jogo de encanto, sabedoria e experimentalismo. Um universo de prodigalidade se insinua quando contemplamos a grande declamação de seu espírito. É inegável a ternura do conteúdo que dar forma a sua arte dionisíaca, é incontestável que, dos diversos críticos, poucos ousaram compreender Nietzsche como ele se compreendeu. E, de certo modo tal agravante é compreensível, uma vez que o próprio tinha plena noção das dificuldades desse audacioso empreendimento; cuja meta central era quebrantar as amarras das ilusões nocivas á vida. Nietzsche não negava a hipótese da angustiante dor causada pelo desencantamento aderido diante a desmistificação com o modo tradicional de pensar a realidade. Nesse sentido salta ao olhos a vertente corrosiva de sua filosofia que, é justamente implodir nossa forma lógica de contemplamos á conduta humana. Eugen Rosentock-Huessy chegou a se utilizar da expressão “disangelho” (termo cunhado pelo próprio Nietzsche) para caracterizar os trabalhos daqueles que seriam os quatro principais intérpretes da realidade do século XIX. Marx, Gobineau, Nietzsche e Freud, pois ambos esboçaram o processo de desilusão da modernidade. Peter Sloterdijk por sua vez, descreve esse processo de desilusão como “um nível de desencantamento capaz de levar á beira de precipícios quase suicidas.” E, por esse motivo Nietzsche era convicto de sua solidão, “muito instrutivo! Ninguém quer o que eu escrevo” (carta a Peter Gast, 1887).

Pensar Nietzsche e a relevância dos seus manuscritos que ainda perdura em nossos dias é pensar sobre vários aspectos sua biografia e estilo sem perder de vista o fenômeno dionisíaco que esboça a grandeza de um angustiado gênio, um fenômeno que acima de tudo reflete a excessiva popularização de sua filosofia. Quem nunca se ateve a conceitos do tipo vontade de potência, eterno retorno do mesmo, teoria das forças, grande politica, e a morte de Deus?  Caráter tão trágico quanto o revolucionário Siegfrieud do drama musical de Wagner, o autor de Zaratustra defensor fiel da cultura nobre e sofisticada ironicamente tem inegável repercussão na cultura de massa. Maldição ou benção? O certo é que poucos autores conseguiram manter o domínio de sua obra tanto na esfera acadêmica como fora dela. Uma filosofia hermética? Um pensador contraditório? Esteta ou um politico? Revolucionário ou reacionário? Um autor pessimista? Enfim, até hoje Nietzsche é discutido em assembléias, livros e publicações que se seguem ininterruptamente. Mas, afinal, não seria essa a intenção ao introduzir na filosofia sua trama conceitual?  Através de aforismos e imagens poéticas Nietzsche não teria trabalhado o caráter experimental de sua filosofia? Os conflitos de opiniões não seriam reflexo de uma filosofia que se dá em reflexão incessante? Como isso é possível? Qual foi a estratégia adotada por Nietzsche? Melhor dizendo, tinha o Nietzsche uma estratégia? Ou mais, seria possível uma plausível resposta para essas questões introdutórias se deslocamos as mesmas para uma teoria pragmática? Mas até, poderíamos pensar com clareza e rigor um autor tão dramático e conflituoso? Ora, são essas as perguntas sobre a natureza dos conflitos de opiniões que pesam em sua filosofia que nos levam a considerar, nesse momento, todos seus escritos como resultado de um pensamento estrategicamente brilhante que buscou legitimidade articulando um discurso não conceitual mantendo-se em sua postura de ensaio e experimento. Sendo assim, a luz dessas reflexões como referência preliminar, ainda é preciso enfatizar o fio condutor de nossa pesquisa: explorar o resultado, entre tantos, do estilo estratégico adotado por Nietzsche que, além de rejeitar o uso da linguagem sistemática e conceitual em virtude de uma linguagem não conceitual, possibilita uma continua renovação de perspectivas sobre sua obra legitimando uma postura radical contrária ao instinto de verdade e suas armadilhas metafisicas.

Quando somos guiados passo a passo por seus questionamentos, apercebemos com clareza uma sensibilidade indizível que emana da multiplicidade dos seus escritos. A primeira tarefa para uma leitura bem fundamentada desse complexo universo consiste em nos familiarizamos de imediato com dois desafios: o primeiro implica em detectar as utilizações que se fez do autor; e um segundo, de suma importância, se constrói quando reconhecemos as dificuldades de compreensão que seus escritos apresentam em sua estrutura conceitual; um modo de pensamento que se vale de formulações extremamente corrosivas sustentadas por brilhantes termos que se encandeiam. É bem provável, com isso, que, o leitor possa incorrer em graves perigos ao adentrar em um universo tão hermético e recheado de armadilhas; onde o desanimo em se deparar com um texto tão denso pode se agravar com a petulância em apreender com precisão o que se insinua facilmente acessível. Com efeito, nada mais sensato para uma segura aventura em seus manuscritos do que, antes de qualquer coisa, desmascarar as apropriações ideológicas e com determinação lidar com as particularidades de sua maneira de expressa-se. Avesso à ideia de um conhecimento totalizante e unificado do real, Nietzsche exalta o perspectivismo, isto é, uma mesma ideia analisada e compreendida pela multiplicidade de pontos de vista, com isso, as mais diversas possibilidades de abordamos uma problemática se concretiza mediante o perspectivismo que ganha contorno juntamente ao questionamento do valor da verdade:

“Ainda que fossemos suficientemente insensatos para considerar como verdadeiras todas as nossas opiniões, não desejaríamos, contudo, que fossem as únicas; não sei por que se haveria de desejar a unipotência e a tirania da verdade; basta-me saber que a verdade possui um grande poder” (Aurora, 507).

Com semelhante maestria o filósofo explora o pluralismo, termo convencionalmente  atribuído ao seu pensamento que reconhece não apenas sua interpretação filosófica como também exalta o exame estilístico e analise psicológica, objetos de múltiplas leituras. Por esse motivo uma pluralidade de estilos enriquece seus manuscritos. Um bom exemplo sua variedade formal e estilística se encontra latente em seu livro A gaia ciência onde sua escrita se alterna em diálogos humorísticos, textos argumentativos, aforismos, poesias e parábolas concentrando densos argumentos acerca da arte, verdade, metafisica, teoria do conhecimento, ontologia e história. Vale lembrar que, o próprio Nietzsche chegou a reconhecer seu grande estilo acreditando possuir “a arte do estilo mais variado do qual nenhum homem jamais dispôs”.

Visto esses dois termos Perspectivismo e pluralismo somado com a natureza antagônica do autor, torna-se relevante as considerações de Muller- lauter de que não há um único entendimento correto do pensamento de Nietzsche em um sentido definitivo e conclusivo. Ou seja, qualquer tentativa de cristalizar convicções acerca de sua filosofia é questionável. (Não seria essa a intenção do Nietzsche?). é compreensível também, que, considerações desse gênero possam intimidar qualquer leitor despreparado, porém, quando nos atemos ao experimentalismo latente no seu estilo, esse suposto obstáculo estrategicamente se converte em estimulo. Afinal, os constantes desafios propostos por sua filosofia esboçam o caráter dinâmico e, por conseguinte, experimental implícito em seus textos. “Pluralista, o pensamento nietzschiano apresenta ao leitor múltiplas provocações. Dinâmico, a eles propôs sempre novos desafios”. Afirma Scarlett Marton.

Se assim é, não podemos deixar de concluir que, pondo a prova hipóteses interpretativas, principalmente quando estas pesam sobre sua obra estrategicamente inaugura um leque de pontos de vistas quando desafia seus leitores incitando experimentos com o pensar.

A avaliação, tal como tratada nesse contexto, tem seu caráter ativo na medida em que explora uma multiplicidade de possibilidade e perspectivas deixando sempre em evidência confrontações de perspectivas não superadas como resultado de uma filosofia que se dar em constante reflexão:

“O mundo tornou-se novamente infinito para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações” (A Gaia Ciência – 374).

Fica desse modo explicitado que juntamente com os termos perspectivismo e pluralismo o experimentalismo também particulariza a filosofia nietzschiana. Visto que, o que está em jogo nessa visão é justamente explorar confrontações de perspectivas em um âmbito de incessante experimento. Aqui, então seria pertinente lembrar que a partir do momento que abriu as portas para as filosofias da vida, vinculando esta a vontade de potência, Nietzsche deixa entrever uma forte tendência naturalista e voluntarista na sua filosofia. Por ter conferido função primordial aos instintos vitais da natureza humana estudiosos compreendem, pois, sua filosofia também relacionada ao termo pragmatismo. Dando uma nova roupagem para a verdade, sua filosofia defende um radical deslocamento valorativo de tal conceito partindo de uma determinada concepção da essência humana.

“A falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranho. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo cultiva a espécie”. (Além do Bem e do Mal, 4).

Nesse contexto a verdade consiste na estreita relação do pensamento com os objetivos práticos do homem; verdadeiro nesse ponto exterioriza o mesmo que útil, promotor da vida; uma concordância entre pensamento e ser. Portanto, não existem fatos ou verdades, mas, interpretações ou perspectivas. Nessa radical e precisa guinada vitalista, as leis lógicas e cientificas, são critérios e esquemas de nossas interpretações do real. Localizando essas características da verdade em seu contexto essencialmente naturalistas , voluntarista, vitalista ou até mesmo pragmática; é certo que, o conhecimento, por sua vez, em Nietzsche pode ser abordado em seu caráter biológico, onde a verdade antes de ser um valor teórico é precisamente servidora da vida, instrumento de um determinado tipo de animal que necessita conserva-se, e, principalmente desenvolve-se; e como o individuo precisa viver em sociedade  e comunicar-se o conhecimento em Nietzsche também ganha seu sentido gregário:

Não temos nem um órgão para conhecer, para a verdade: nós sabemos (ou cremos, ou imaginamos) exatamente tanto quanto pode ser útil ao interesse da grege humana, espécie: e mesmo o que aqui se chama “utilidade” é afinal, apenas uma crença, uma imaginação e, talvez, precisamente a fatídica estupidez da qual um dia pereceremos”. ( A Gaia Ciência, 354).

Sendo assim, perante tais esclarecimentos, cabe a nós leitores reconhecer a ousadia estilística de um filósofo que soube estrategicamente garantir, num nível mais profundo dos demais intelectuais, a potencialidade de sua obra ao inflamar um preciso debate acerca do valor da verdade reconhecendo nesta a sua forma mumificada, metafisica e fixa. Desde o início de seu percurso intelectual a recusa de uma verdade em si foi uma constante em seu pensamento; Nietzsche não se deteve com demonstrações lógicas e com estruturas sistemáticas. A questão do valor é algo a ser julgado de acordo com a medida e exigência de quem o veste. Seja como for, o mais importante nesse contexto é seguir simpateticamente nosso caminho encontrando um refugio para as horas de inquietação, sentirmo-nos em harmonia com nossas perspectivas, liberto dos grilhões e das amarras moralistas nocivas a vida. Cada um de nós deve ser responsável e, acima de tudo, dar conta de seu próprio juízo jamais, sobre hipótese alguma tirar semelhante coisa de outro. Mesmo sendo este um erro, mesmo que fosse uma mentira. Enfim, ao lançarmos os olhos sobre este extraordinário autor, em todos seus detalhes e conflitos, tomamos consciência que, este personificou com genialidade e loucura a desoladora opinião que os grandes intelectuais e artistas são geralmente desprezados e negados pela sua geração. Dramático e, poeticamente conflituoso, em vida Nietzsche expressou ressonâncias com o culto a Dioniso, almejando a divina primavera incorporada no forte estupor da vida, onde da mais elevada alegria brotou o grito de horror, ritmado pelo cântico de Zaratustra- talvez por esse motivo, seu discurso ainda é gritante sem desfalecimento, ou talvez a relevância de sua filosofia se deve em muito a doçura do seu espírito que apaziguava seu pensamento intimidante como certa vez escreveu Malwina de Meysenburg : quanto sua natureza amável e generosa equilibra sua inteligência destruidora.

Foi principalmente no reino encantado do universo acadêmico, lugar sustentado por densos e exaustivos sistemas- onde um otimismo teórico buscava a verdade a qualquer custo- que a filosofia de Nietzsche foi mais densa e corrosiva. Enquanto todos buscavam um mundo plenamente calmo e esclarecido, os versos de Zaratustra irradiavam uma espécie de morte do vago causada pela desilusão frente uma razão decadente e apática, que escraviza e destrói. Nietzsche, uma filosofia de conflitos, uma sutil desconstrução do ser, justificável principalmente quando levamos em conta sua maestria estilística responsável pelas múltiplas imagens ao seu respeito que, para, sua surpresa e horror, vigora sem discrepância tanto na esfera acadêmica como fora dela. Conflitos, que, de certo modo vão de encontro ao principio hermenêutico de Heidegger, onde todo texto filosófico carrega em si uma margem de não pensado. E, se tratando em especial dos textos de Nietzsche, apercebemos que este compreendeu bem mais do que chegou a exprimir, presenteando a humanidade com um labirinto feito de diversos e profundos escritos de caráter estrategicamente perspectivista, pluralista e experimental.


Referencias bibliográficas

Nietzsche. F. A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: companhia da letras, 2001.
________,Além do bem e do mal. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: companhia das letras, 2005.
_________,Aurora. Trad. Mario Ferreira dos santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.



Por Claudio Castoriadis. (Franciclaudio Feliciano De Lima)

-Esse artigo foi elaborado em maio de 2008, com o intuito de ser utilizado futuramente como recurso didático na disciplina de Filosofia. Se for utilizado por outros, por favor, não deixem de mencionar a fonte.

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Eu "conto" pra ela

Me conte um conto
Que me encante
Que eu te canto
Na esquina.

Me conte um conto
Bem contado
Que no meu canto
Eu te guardo.




Por Claudio Castoriadis

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

POEMA PARA A EXORCISTA - Mario Vargas Llosa


Mi vida parece sin misterio y                      
monótona
a quienes me ven
de paso a la oficina
en las mañanas apuradas.
La verdad es muy distinta.
Cada noche debo salir a pelear
contra un espíritu malvado
que, valiéndose de
disfraces -perro, grillo,
nube, lluvia, vago,
ladrón- trata de
infiltrarse en la ciudad
para estropear la vida humana
sembrando
la discordia.
A pesar de sus disfraces yo
siempre lo descubro
y lo espanto.
Nunca ha conseguido engañarme
ni vencerme.
Gracias
a mí, en esta ciudad
todavía es posible
la felicidad.
Pero los combates nocturnos me
dejan exhausta y magullada.
En pago de mis
refriegas contra el enemigo,
les pido unas sobras
de afecto y amistad.

Nueva York, noviembre de 2001


               ***

POEMA PARA A EXORCISTA

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.
Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras - cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão - trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.
Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.
Mas os combates noturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afeto e de amizade.





Mario Vargas Llosa

inédito

Nova Iorque

novembro de 2001





domingo, 1 de janeiro de 2012

Mario Vargas Llosa


Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais importantes escritores da atualidade. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, viveu em Paris na década de 1960 e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias ao longo dos anos. Aos 74 anos, é o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2010. Não por acaso foi apontado pela Academia Sueca como “um contador de histórias divinamente dotado” Quem já teve a oportunidade de ler o romance extraordinário “A casa verde” inconscientemente teve um contato com um arrebatador livro que nos convida para uma peregrinação imaginativa da relação da natureza/homem.  Com influências de William Faulkner e Gustave Flaubert, Vargas Llosa nessa exuberante obra nos presenteia com um texto primoroso, em que a voz do narrador se mostra híbrida quando se funde à fala dos personagens – uma sintonia intrigante.  Segundo romance de Vargas Llosa, A Casa Verde é, também, um de seus livros mais ambiciosos. Nele, o autor, Nobel de Literatura, da vida a voz de diferentes personagens para narrar a história de um prostíbulo montado perto de uma das cidades mais isoladas do Peru, mudando a rotina de seus habitantes. Publicado originalmente em 1966, o romance recebeu no mesmo ano o Prêmio da Crítica, na Espanha, e, em 1967, o Prêmio Internacional de Literatura Rómulo Gallegos, na Venezuela, como melhor romance em língua espanhola. Um livro que certamente não esgota o talento do escritor, mas embasa categoricamente o seu merecido prestigio entre os grandes nomes da literatura mundial.  Detalhe, nosso autor tinha apenas 29 anos quando terminou o romance. Se bem que seu sucesso já era previsto, basta uma lida nas publicações dos contos reunidos em Os chefes (1959) sem deixa de lado o lançamento de seu primeiro romance, A cidade e os cachorros (1963). Porém, Com A Casa Verde, ele se firmou como um dos principais autores latino-americanos dos anos 1960.

No Brasil, os livros de Mario Vargas Llosa, foram bem acolhidos, não obstante já foram publicados por várias editoras. Em 1962, a Nova Fronteira publicou "Batismo de fogo", em tradução de Milton Persson. Nos anos 1970, a Sabiá (de Fernando Sabino e Rubem Braga) lançou aqui "A casa verde". A Francisco Alves editou vários livros de Llosa nos anos 1970 e 1980. Durante muito tempo, o autor passou pela Companhia das Letras e pela Nova Fronteira. Seus livros hoje em catálogo e à venda nas livrarias estão editados pela Ediouro, pela Arx e pela Objetiva, que tem publicado todos os romances do escritor peruano dentro do selo Alfaguara. Seu livro mais recente editado aqui é a recém-lançada coleção de ensaios "Sabres e utopias" (Objetiva). Um ótimo autor alheio a qualquer crítica que vale a pena ser lido. Quer começar? Que tal adentrar em seu universo mágico a partir do seu clássico “A casa verde”?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Filosofia e Literatura nos escritos do Dostoiévski


 A influência do pensamento filosófico nas demais fontes de conhecimento é indubitável. Talvez seja nisso que consiste a grandeza da estrutura filosófica. Não existe limite para a filosofia. A virtude da filosofia se exterioriza em sua encantadora desenvoltura em qualquer espaço intelectual - A arte por exemplo, Filosofia tem um pouco de arte e a arte tem um pouco de filosofia. Pensar dessa forma é mais que pensar grande, é reconhecer a elegância do domínio da Filosofia em nossas vidas. E falando em arte que tal pensarmos a relação entre filosofia e literatura que perpassa as paredes frias dos limites do conhecimento? Os saberes se interrelacionam, se completam. Pois bem, podemos presenciar flagrantes diálogos entre filosofia e literatura nos romances do mestre Dostoievski. A obra dostoievskiana explora o lado mais obscuro da personalidade humana.  Autodestruição, a humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio; são temas trabalhados de forma mais lúdica pelo gênio russo. Seus escritos são chamados por isso de "romances de ideias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciados por suas ideias. Um autor intrigante sem dúvidas. Fiódor Dostoiévski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa, sendo considerado o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita".

"O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoiévsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo."  Assim falou o Filósofo JEAN PAUL SARTRE.

Com essas considerações testemunhamos um autor bem quisto não apenas na literatura, mas também acolhido pelo movimento filosófico denominado existencialismo. Contundente, é o mínimo que podemos pensar. Pois bem, vamos conhecer um pouco desse monstro do conhecimento humano.
Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasce em 1821, em Moscou, filho de um médico, homem austero e autoritário, e de uma mãe doce, segundo seus biógrafos, que sofreu em silêncio o despotismo do marido avaro. Aos dezesseis anos, perde a mãe, vítima de tuberculose e dos ciúmes injustificados do marido que, a partir de então, refugia-se na província e no álcool. Fiódor, logo a seguir à morte da mãe, sofre de uma doença de garganta, uma afonia que deixará vestígios para toda a sua vida. Marcado pela solidão, no colégio era tido como desconfiado e tímido. Segue a Escola de Engenheiros Militares de São Petersburgo, à qual não parece se adaptar, mas é nesse período que conhece os clássicos da literatura mundial. Dostoiévski se apaixona de imediato pelos textos textos de Púshkin, Schiller, Byron, Shakespeare e Balzac. A sua primeira publicação deu-se com a tradução do romance de Balzac ‘Eugenie Grandet'. Quanto à publicação de seu primeiro romance, Pobres Gentes, foi recebido com grande entusiasmo, do crítico literário Vissarion Beleinski, inclusive.

 Quando seu irmão fica noivo, Fiódor se depara com um acontecimento que o marcará para toda a vida: A morte do seu pai. Que provavelmente foi assassinado pelos seus servos, como vingança pelo cruel tratamento que recebiam. Quando soube da morte de seu pai, o escritor sofreu uma convulsão epilética. (Dostoiévski iria padecer do mal da epilepsia até os seus derradeiros dias.) Nosso autor sai da Escola, ao final de seus estudos, é nomeado alferes, e sua vida, isento da tutela patema, segue um curso inteiramente livre, pelos teatros, concertos, casas de jogo, ruas, cidades. Começa a escrever e, um ano mais tarde, sai do ofício de alferes. Em 1847, veria sua carreira de escritor sofrer uma trágica interrupção quando passou a integrar o grupo liderado por Petrachevski (Círculo de Petrashevski), que se reunia para discutir acontecimentos políticos, literários, temas relacionados com o socialismo, a censura, a abolição da servidão, entre outros; onde aproveitam para fumar, beber, discutir literatura, política, criticando o regime e censurando o estado deplorável dos camponeses, da economia. A expectativa de Dostoiévski era otimista ao mesmo tempo que infantil acreditando que as ousadas revolucionárias não convinham à Rússia, esperando que o próprio czar realizasse as reformas necessárias, e tomando-o como “um pai para o seu povo”. Por esta razão, abandona este movimento, fundando com outros companheiros uma outra sociedade, mas são denunciados, e, em abril de 1849, é preso na fortaleza de Pedro e Paulo, onde aguarda julgamento. Após idas e vindas do processo, ele é finalmente julgado e condenado a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, como presidiário, e depois mais quatro, como soldado raso. Mas o imperador, o mesmo que para o gênio russo deveria ser o pai do povo, deseja que seja dada uma lição aos conspiradores: os condenados serão colocados no patíbulo em praça pública, para serem fuzilados, serão atados aos postes, de olhos vendados, e verão alinhar-se na sua frente os pelotões de fuzilamento. Os soldados apontarão as espingardas e uma voz gritará “Fogo!”, mas os tiros não chegam a partir. Na voz do General Rostóviev, se ouvirá a sentença : “Em sua inefável clemência, Sua Majestade, o czar, concede-vos a graça da vida...” Esses momentos de tamanha maldade estão descritos em Diário de um Escritor. Dostoiévski estava apenas com 27 anos, quando, na véspera do Natal de 1849, foi conduzido com outros condenados, em trenós descobertos, com o frio de vinte graus negativos, para cumprir a pena na Prisão de Omsk, na Sibéria. Sobre essa prisão e sobre tratamento desumano que era dispensado aos prisioneiros, Dostoiévski fez alguns comentários: 

“Imaginem um velho barracão de madeira em ruínas. No verão asfixiávamos com falta de ar e no inverno o frio dilacera-nos a carne. O soalho era todo esburacado e cheio de imundícies; escorregávamos e caíamos a cada passo. O gelo cobria totalmente as vidraças, de modo que mal se podia ler durante o dia. A água pingava constantemente do telhado, e havia corrente de ar glaciais em todo lado. Estávamos comprimidos uns contra os outros como arengues numa barrica. Mesmo quando acendiam o fogão com chamas de lenha seca, mal amornávamos (o gelo derretia a muito custo) e ficávamos como que envenenados pela fumarada. Era assim que vivíamos todo o inverno (...). Cobríamos com peles de carneiro muito curtas, que me deixavam as pernas a descoberto. Tiritava de frio toda a noite. Havia milhões de percevejos, piolhos e carochas”.

Não foram tempos fáceis, Dostoiévski assistiu a terríveis espancamentos e torturas, e de tudo o que presenciou e sofreu resultaria na sua narrativa sobre esses anos cruéis, que passariam a integrar o seu livro Recordações da Casa dos Mortos. Nessa obra inflamada por passagens amargas compreendemos a condição de um presidiário em Omosk, no convívio com criminosos condenados pelos mais diversos crimes, além dos presos políticos. vale lembrar que, Dostoiévski é o primeiro escritor a escrever sobre os campos de trabalhos forçados da Rússia czarista. Choca a muitos pelo realismo de seus relatos: homens presos pelos pés por correntes, imundícies, promiscuidades, castigos corporais - os presos eram surrados com chicote ou vara, que só cessavam com a ordem do médico da prisão, para daí serem levados aos hospital, até retornarem para o cumprimento do castigo a que foram condenados. O tempo no exílio não o faz produzir suas maiores obras, mas é aí que ele recolherá material para sua inspiração, vivendo entre criminosos, assassinos, ladrões, e as leituras da Bíblia, única fonte de acesso em quase todo o período. Em 1854, ao sair do presídio, é enviado como soldado para uma pequena cidade da Sibéria, conhecendo aquela que viria a ser sua primeira mulher, Maria Dimitrievna, mulher de temperamento exaltado, sentimental e fantasista, casada, a essa época, com um alcoolista, desempregado. É com Maria que ele encontrará o diálogo sobre literatura e artes, até que o seu marido é novamente empregado e transferido para outra cidade. Fiódor a vê partir e sabe, adiante, do envolvimento de Maria com o preceptor de seu filho, a quem irá encontrar, para fazê-lo desistir dela. Maria fica viúva, mas não se decide a casar com Fiódor. Em 1856, ele é promovido a oficial, Maria se decide e no ano seguinte se casam. Na noite do casamento, ele sofre um violento ataque de epilepsia. Sete anos depois, morre Maria de tuberculose, e ele assim dirá dela : “Ela, meu amigo, amou-me sem limites, e eu a amava também sem medida, e, contudo, não fomos felizes; mas embora tenhamos sido verdadeiramente desgraçados, devido ao seu estranho caráter, receoso e morbidamente fantasioso, nunca deixamos de nos querer, e quanto menos felizes éramos, mais apego tínhamos um ao outro... Era a mulher mais nobre, mais leal e generosa de todas que tenho conhecido...” no ano de 1859 retorna à Rússia. 

O imperador agora é Alexandre II, que inicia as reformas, sem, contudo, apaziguar os ânimos mais exaltados. ainda assim, nosso herói permanece na crença de que caberá ao czar realizar os caminhos por uma Rússia mais justa, tomando-o como pai do povo. Sua segunda viagem à Europa, ele a fará não com sua esposa, que está moribunda, mas em companhia de uma jovem de 16 anos, admiradora fiel de suas oratórias. Fiódor tinha, a essa época, cerca de 40anos de idade. Pede um empréstimo à Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, planeja encontrar-se com Polina, mas desvia-se antes de chegar a Paris, detendo-se em Wiesbaden e aí perdendo todo o dinheiro... no jogo. Polina e ele ainda viajam, mas, no retomo por Wiesbaden, novamente Fiódor se detém e aí perde mais dinheiro, quase tudo o que levava. Pra piorar, seu irmão morre, deixando uma dívida que só poderá ser coberta com a publicação de todas as suas obras, e de mais uma inédita. 

Ele parte novamente em busca de Polina, que o recusa, volta para casa e vai ditar uma nova obra O Jogador, a uma estenógrafa de 20 anos de idade, uma moça modesta, moderna, medianamente instruída e inteligente, que cuidará de assegurar, a esse homem, o ambiente e as condições necessárias para realizar os seus mais belos trabalhos. As dívidas o levam para fora da Rússia por quatro anos, passados em diversos países da Europa, entre cassinos e obras literárias. Volta à Rússia, com dois filhos, e em 1881, aos 60 anos, com enfisema pulmonar e ainda com ataques de epilepsia, morre, deixando um grandioso acervo literário para as gerações póstumas. 



Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um doce ou uma solidão?



Neste pequeno espaço, de puro mistério, onde meu imaginário se contorce de amargura, sem a sobrecarga das minhas obrigações cotidianas, me debruço na mais sutil centelha de memória sem me aprisionar em meus devaneios egoístas e enfurecidos em busca de um sentimento último de consolo. Gostaria de, numa sequência de curtas lembranças explicar o motivo de minha amargura. Há uma semana e pouca horas eu fiz uma descoberta sobre minha pessoa que me abalou como nunca antes. Que descoberta seria essa vocês devem está se perguntando-, Eu sou um homem egoísta, um ser doente, desprezível, por que não afirmar o mais ignóbil de todos?... Sou um homem cruel. Sou um homem desagradável. E acreditem, isso me pesa, uma sobrecarga tal qual raramente me deparei em todo momento insólito da minha existência, mais real e mais verossímil de todas que posso suportar. Estou perturbado, há horas, nessa pequena sala, eu só faço andar e tentar esclarecer isso tudo para mim mesmo. É só o que faço andar e fumar um cigarro após o outro, andar, andar, andar...Santo Deus! Refrigera minha alma por que todo o meu horror remete justamente no fato de compreender tudo! Sou péssimo com palavras, ainda mais quando estou tão aflito. Porém, tenho que falar nem que seja da maneira mais medíocre possível. Eu sei que para muitos esse fato pode parecer ridículo, assim como sei que um sorriso desdenhoso se estampa no rosto de muita gente que já me conhece. Pois bem, eis minha história.

 Exatamente umas duas semanas de tardinha onde eu costumava ir passear com meu cão até o velho lago em lugar bastante frequentado por pessoas idosas e mulheres desocupadas- acho que meu sentimento por elas são os mais negativos possíveis- todas almas abortadas, mal amadas. Pessoas ridículas. Enfim, foi nesse lugar peculiar que recebi uma triste noticia; Um funcionário meu acabara de se matar. Ele havia saltado nas aguas cobertas pela ponte Golden Gate, que corta a baía de São Francisco, apesar de ser  um grande ponto turístico americano, é também o lugar do mundo com o maior índice de suicídios. Sua rotina mórbida revela uma sinistra parte do cartão-postal que eu não conhecia até o momento. Além do movimento de carros, pedestres e turistas, pessoas saltam dela em busca do desconhecido. Para mim poderia ser apenas mais um caso no meio de tantas estatísticas. Mas naquele dia se trava de um funcionário da minha empresa. A Golden Gate Bridge é a ponte localizada no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que liga a cidade de São Francisco a Sausalito, na região metropolitana de São Francisco, sobre o estreito de Golden Gate. Principal cartão postal da cidade, uma das mais conhecidas construções dos Estados Unidos, e é considerada uma das Sete maravilhas do Mundo Moderno pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis. É uma obra de arte, não foi a toa que resolvi instalar minha empresa imobiliária na região metropolitana de são Francisco. Perdão... Minhas estratégias administrativas não vêm ao caso e sim o fato de um funcionário da minha empresa ter tirado de forma tão estupida a própria vida. Mas sabe a maior irônia nisso tudo? A depauperação do meu angustiante dispêndio?  Eu não dava a mínima para ele. Sim! Exatamente. Minha relação com ele era apenas de um casual “bom dia” e “tenha um ótimo dia chefe”. Certa vez Albert Camus relatou que o suicídio era um problema Filosófico verdadeiramente sério. Foi pensando nisso e na imagem  estética da minha empresa que fiquei deveras abalado com o caso desse jovem e fui investigar a vida do mesmo para tentar entender uma tragédia tão delicada e controversa.

O que mais me deixava intrigado era que ele não demonstrava transparecer qualquer melancolia. Era um funcionário exemplar- era o primeiro a chegar e o último a sair. Ganhava o suficiente para uma vida confortável. Era casado, tinha uma bela esposa e dois filhos um garoto de que já passava dos sete anos e uma menina recém nascida. Obtive essa informação através de uma outra funcionaria minha que se dizia única amiga dele. Eu até tentei manter contato com a sua esposa, mas não foi possível ela mudou de cidade depois do ocorrido. Mas eu não entendo, geralmente, os casos de suicídio são marcados por um traço peculiar: a solidão. Ele não era só. Era agraciado por uma linda família. Me sinto curvado por um peso e sentimento de covardia. Estou sobrecarregado. Algo poderia ter sido feito? Foi algo que falei? Afinal sou um homem de palavras desumanas com meus funcionários; algum tipo de corte salarial? Não encontro respostas, maldição, maldição... Por quer estou tão abalado? Pobre criatura. Ele era franzino, loiro, baixo, sempre desajeitado no trato comigo. Mas quem não ficava perturbado na minha presença? Visto que eu sou um calhorda, um fraco que tem prazer em humilhar, sim, sou um sádico.

Já está escurecendo, estou sentado aqui há horas. Todos os funcionários já se foram; quem diria agora o chefe é o último a sair de sua empresa. Chega de arrodeio... Vou direto ao ponto.

Sabem por que estou assim? Ontem pela manhã assim que cheguei em meu escritório a mesma funcionaria que era meu único vinculo com ele me relatou algo que me acertou como uma bofetada no rosto. Foram exatamente essas suas palavras: “o senhor lembra que na mesa dele sempre tinha doces espalhados entre pilhas de papeis? E que geralmente eram seis? Todo santo dia ele repetia esse ritual, chegava cedinho, dava bom dia há todos ao seu redor e tirava do bolço um punhado de doces. Como amiga eu tive a curiosidade de perguntar por que tal extravagância. E por quer tinha que ser sempre seis doces. Foi então que ele confessou baixinho no meu ombro: “na verdade minha estimada amiga sempre compro nove balas antes de vim ao trabalho sabe por quê? É minha forma de reconhecer as pessoas que admiro... três deixo com minha família, uma guardo pro nosso chefe e as demais distribuo entre vocês” Por falar nisso, ele sempre voltava com um doce pra casa. Ainda tenho um aqui, na minha bolça, o senhor quer? – não obrigado senhorita guarde.  Acredite é o mais sensato. 

"em memória de todas as almas solitárias" 


"A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade" 
-Nietzsche


Por Claudio Castoriadis

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sorriam ouvindo Nat king cole


Às vezes entre meus devaneios nostálgicos fico me perguntando quem não gosta de um bom de Jazz? Sim, uma boa música elegante. Um estilo tão revigorante tão dinâmico e instigante. Sim, muita gente deve gostar de Jazz. Posso até deduzir que mesmo os que não gostam admitem que a vida seria mais pobre se não existisse esse gênero musical. Afinal, Temos que admitir que tal estilo musical é uma ponte vital para outros gêneros, tais como o Blues, ou o Rock, por exemplo. Dito de outra forma, um bom Jazz interessa direta ou indiretamente a todos os amantes da música e da arte de um modo geral. 

Surgido nos Estados Unidos, o jazz fez com que a voz do negro norte-americano ganhasse o mundo onde o improviso é uma característica muito presente em sua essência- uma provocação para os teóricos musicais da época. E convenhamos, nesse sentido o jazz soube provocar com extrema audácia. Tendo em mente a abrangência do gênero, que tal nos detemos nesta simpática figura querida pelos vários apreciadores da música, exatamente, com vocês: Nat king cole. 

Não é preciso escavacar a bibliografia do genial Nat king cole para ter acesso a uma de suas obras mais belas a canção “Smile”. Originalmente cantada por Nat King Cole, tendo alcançado seu extasse em 1954. vale lembrar que a cantora Sunny Gale também regravou a canção, partilhando vendas com Cole. Foi também regravado pela filha de Cole, Natalie, que não fez feio em seu álbum de 1991.
 
Sorria, embora seu coração esteja doendo Sorria, mesmo que ele esteja partido Quando há nuvens no céu, você sobreviverá... Se você apenas sorri com seu medo e tristeza Sorria e talvezamanhã você verá o sol vir brilhando para você” tem como não se emocionar com uma letra dessas?  exuberante, uma poesia! Pois bem, mediante essa obra de arte o grande artista Nat King Cole dispensa comentários. Nathaniel Adams Coles, com todo seu esplendor foi certamente um dos melhores cantores e músico de jazz norte-americano- O apelido de "King Cole" veio de uma popular cantiga de roda inglesa conhecida como Old King Cole. Agraciado por uma voz marcante imortalizou várias canções, como: Mona Lisa, Stardust, Unforgettable, Nature Boy, Christmas Song, "Quizás, Quizás, Quizás", entre outras, algumas das quais nas línguas espanhola e portuguesa. Suas músicas geralmente românticas tinham um toque especial junto a sua voz associada ao piano, tornando-o assim um artista de grande sucesso. Por isso não demorou muito para que sua estruturada formação piano, guitarra e baixo ao tempo das big bands torna-se popular para trios de jazz. Outra virtude desse mestre da arte foi sua postura contra o racismo. Cole sempre lutou Cole sempre lutou contra o racismo, jamais cantando em plateias com segregação racial. Parecia tudo perfeito, tudo no seu lugar, mas como nem tudo na vida é um mar de flores infelizmente para tristeza de seus fãs Cole matinha um frenético hábito de fumar diariamente três maços de cigarro, fatalmente o cantor morreu vítima de câncer. Um de seus últimos trabalhos foi no filme Cat Ballou, onde canta a balada da personagem título, interpretada por outra grande figura Jane Fonda. Chorar? lamentar? Jamais, afinal um poeta não morre, ele adormece; por isso fica o recado para os amantes do Jazz: Sorriam com o Nat king cole.


Por Claudio Castoriadis 




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