quarta-feira, 25 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.     A NOÇÃO DE MORAL COMO SENTIMENTO DOS COSTUMES



E cada um organizará seu próprio caos, voltando-se
para sua vida interior esquecido das aparências
ilusórias. E cada um compreenderá que a cultura
é mais que uma simples ‘decoração da vida’
(Nietzsche,
Considerações Extemporâneas)


Ao adotar uma postura para além do bem e do mal, Nietzsche joga de forma paródica e sarcástica com os até então cultuados ideias da humanidade. Em suas reflexões ele descreve os conflitos da vida moral em termos que para muitos parecem exagerados, talvez pela sua pretensão em ser o primeiro a problematizar até que ponto os valores morais deformam a cultura de seu tempo. Disso decorrem suas contundentes críticas àqueles que falharam na análise da moral até então.
Assinalando um ponto de vista contrário aos costumeiros preconceitos morais, coerentemente, Nietzsche se posiciona de forma “extra moral”, “supra moral” ou “extemporânea”, ao contrário do que fez Kant, que denuncia as falsas pretensões ao conhecimento, mas peca por não colocar em causa o ideal de conhecer: se por um lado denuncia a falsa moral, por outro lado falha em não questionar as pretensões da moralidade nem da natureza nem da origem dos valores. Ou seja, ele critica aqueles que misturam domínios e interesses da razão; mas em seu discurso os sagrados domínios permanecem intactos e os interesses da razão preservados a sete chaves quando estrutura seu imperativo categórico: a verdadeira moral, a verdadeira religião. Por isso seria prudente perguntar: encontrou Kant a ideia de um filósofo legislador, como pensou o Nietzsche?  Não resta dúvida que nesse caso Kant não pôde superar as armadilhas da moral, justamente por ter invocado um estranho fator da razão de ordem transcendental.
Seguindo suas críticas para com aqueles que falharam em suas pesquisas, Nietzsche prossegue questionando a moral do dever shopenhaureriana, visto que este fracassou quando buscou um novo fundamento de uma moral universal no sentimento de compaixão. Como a vida é dor, segundo ele, a caridade para com o outro é antes de qualquer coisa participação de sua dor, ou seja, piedade, compaixão. Dessa forma, nem Kant nem Schopenhauer foram felizes em suas análises da moral, pois, segundo Nietzsche, eles tiveram a pretensão de encontrar e reformular as apreciações da consciência comum e mais imediata. A partir daí, ainda gravitaram em uma posição moral, solidamente fundada frente ao instinto divino infalível da consciência humana.
Cada filósofo, segundo Nietzsche, pensou ter fundamentado a moral. Porém, todos os pensadores conheciam os fatos morais apenas superficialmente e eram mal informados. Ou seja, faltou aos grandes pesquisadores o que nosso autor vai denominar de sentido histórico e, em consequência disso, a moral era tida como dada, faltando assim a suspeita de que ali havia algo problemático. Evitando cometer o mesmo erro, Nietzsche dá a receita de sua análise logo no prefácio do seu precioso livro, Genealogia da Moral:
Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições inventaram os homens para si os juízos de valor bom e mal? (Nietzsche, 1998, p, 9)
O que Nietzsche denuncia aqui de preconceito teológico implica na postura adotada pelo mesmo: uma posição para fora da moral, um alerta para vivência dos valores irremediavelmente comprometidos pelos preconceitos morais. Ou seja, qualquer tipo de sentimento que gravite na órbita dos preconceitos morais tem que ser posto sob suspeita. Como? Mediante qual método? Nesse sentido o aforismo é bem claro: uma análise psicológica embasada sobre dados históricos e filológicos. Um tipo de trabalho voltado para a coisa documentada com hipóteses cinzas. Nessa situação, Nietzsche chega a provocar seus antecessores argumentando que, eles principiavam suas pesquisas sob hipóteses que se perderam no “azul”, desqualificadas por partirem de especulações metafisicas ou teológicas.
 Em Aurora, mais precisamente no aforismo 163, escreve Nietzsche:
Se é verdade que nossa civilização é, por si mesma, algo deplorável, vocês tem a possibilidade de prosseguir com suas conclusões com Rousseau: ‘esta civilização deplorável é causa de nossa má moralidade’ ou de concluir invertendo a fórmula de Rousseau: nossa boa moralidade é causa desta deplorável civilização. (Nietzsche, 2008, p.120)
Percebe-se, pois, que nesse aforismo de 1881 Nietzsche nos oferece o argumento necessário para compreendermos o exercício de seu pensamento, sendo sua principal atividade o problema da moral. Compreender as ideias fundamentais que precedem a formação da moral foi uma das principais metas de Nietzsche. Segundo ele, onde existe uma moral existe uma estrutura de valorações, ou seja, “exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida” (Nietzsche, 2005a, p.11) Por uma questão de sobrevivência questionamos: o que é correto? O que é bom e mal? O que é justo? O que é injusto? O que realmente é necessário? O que é virtude? O que é vício? O que é justiça? O que deveras é moral? E imoral? O que é digno? Por conseguinte, o que é indigno? Enfim, podemos notar que os valores morais desempenham uma função importante em nossa vida, visto que sentimentos e ações são expostos facilitando ou dificultando nossas relações sociais. Para Nietzsche, entender uma moral é também uma tentativa de entender o poder dos costumes. Ora, sabemos que os costumes são a forma tradicional de uma avaliação e representam as experiências dos homens de outrora sobre o que eles consideram útil ou nocivo, aquilo que deveras interessa para estruturar de forma razoável uma comunidade. Mediante uma avaliação inclinada a uma tradição estabelecida ou um costume, aderimos com facilidade a certa postura moral. Assim, podemos concluir que a moral nesse contexto está atrelada ao costume, de modo que, para o pensador Nietzsche, ela é “o sentimento do costume” (2008, p 27).
Nietzsche denuncia o hábito como importante gênero de prazer, fonte de moralidade. Ora, é justamente pela facilidade que aderimos ao hábito, um valor precisamente pronto; melhor: de bom grado; pelo sentimento sereno que vigora e pela possibilidade fortificada na experiência do habitual comprovado, sendo, portanto, útil que acreditamos desse modo em tal costume com o qual podemos viver; diferentemente de todas as possíveis novas tentativas não comprovadas. O costume então se cristaliza na junção do útil ao agradável fundamentando seu caráter inclinado exclusivamente para uma postura prática, rejeitando assim, na maioria das vezes, um pensar reflexivo ou intelectual. Com isso, temos então um tipo de encanto que, ao invés de propagar uma diversidade de pontos de vista, sufoca por assim dizer o caráter dinâmico da vida limitando-a em um medíocre ponto de vista.
O encanto do costume consiste em pensarmos que tal é o nosso único meio, no qual é possível nos sentirmos bem. É pela busca da mais confiável segurança que nos rendemos por sua utilidade aparentemente única, comumente sentida por tudo um grupo ou ordem social. Porém, é justamente para esse suposto encanto que provém do hábito ou costume que Nietzsche imputa sua crítica. Ora, os costumes, até mesmo os mais rudes e duros, com o passar do tempo se mostram mais agradáveis e de bom grado. E por mais áspero, hostil ou desagradável um hábito de visar se apresente, possivelmente tais palpitações venham a se converter futuramente em uma instigante fonte de prazer. Pois bem! A hipótese de Nietzsche nesse contexto é: um objeto que outrora era acolhido de modo hostil provavelmente pode vir a se converter em objeto “sacrossanto”. Sendo assim, é importante observar a estreita relação entre ética e moral, quando estas remetem a um determinado conjunto de costumes. Nesse ponto Nietzsche deixa evidente:
Eis-nos aqui no imenso terreno de manobra da inteligência: não somente se desenvolvem e se aperfeiçoam aqui as religiões, mas também a ciência encontra aqui seus precursores veneráreis, embora terríveis; é ali que o poeta, o pensador, o médico, e o legislador de nossas cerimônias, se revestiu a pouco e pouco do atrativo do que é difícil de compreender e, quando se chegou a aprofundar, aprendeu-se a crer.   (Nietzsche, 2008, p.39)
Uma vez que Nietzsche compreendeu a moral como sentimento do costume, apreciar-se-á por meio dessa hipótese um alerta que permite repensarmos com os critérios os costumes, hábitos e tradições. Torna-se-nos evidente mediante tal observação que o costume é apresentado por Nietzsche como inconstante, longe de tomar uma postura definitiva. E por ser o hábito fonte de uma moralidade, Nietzsche circunscreve sua crítica para o sentimento aderido mediante o encanto do hábito ou costume.

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima ) 

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL

Monografia defendida como Trabalho de Conclusão do Curso de Filosofia, para obtenção do respectivo título de Licenciado.
Orientador
Prof. Ms. William Coelho de Oliveira
DFI-FAFIC



 

                                                               RESUMO



Este trabalho trata da crítica do filósofo Nietzsche à moral e, por conseguinte, aos valores que permeiam a cultura ocidental. Avaliar esses valores consiste em pensar suas origens e como eles estruturam a moral. Em sua obra Genealogia da Moral, o autor constata dois tipos de moral: a moral nobre e a moral dos escravos. Daí segue-se uma avaliação acerca da moral, problematizando o valor dos valores: como os valores “bom e ruim”, criados por uma moral dos senhores, foram transformados em “bom e mau”, pela moral dos escravos? Mediante breve análise fica compreendido que permeia em nossa cultura a moral ressentida que se sobressaiu da moral do tipo nobre: uma moral contra os instintos vitais, responsável pela decadência da cultura europeia e pela asserção do cristianismo. Delimitado o problema da moral, tentar-se-á mostrar a degenerescência da cultura a partir de uma crítica ao pensador Sócrates. Ou seja, tudo que foi dito acerca dos custos negativos da moral acaba dando cor e contorno para uma problemática marcante dessa pesquisa: o otimismo teórico de Sócrates, que para Nietzsche ocupa um lugar central na história da decadência da cultura. Não obstante, o problema da cultura racionalista que finda na ética e o otimismo socrático será o argumento de Nietzsche contra a moral ressentida, do cristianismo e da metafísica.



PALAVRAS-CHAVES: Moral. Decadência. Sócrates.




                                                        

Explicar a análise nietzschiana acerca da cultura ocidental é uma tarefa cuja complexidade se exterioriza de imediato na interpretação do seu campo discursivo. Serenados conflitos tão clarividentes em seu trágico "evangelho", não apenas dificultam, como também instigam em destrincharmos seu complicadíssimo pensamento, este correlato da identidade própria de sua filosofia. No trabalho que nos propomos apresentar parcialmente, teremos como objeto principal trabalhar com imagens, conceitos, expressões, introduzindo ideias que certamente justifiquem a relevância da obra do filósofo Nietzsche ainda em nossos dias.

Nesse contexto, a noção de moral e sua estreita relação com a cultura será problematizada, partindo do princípio de que tais questões são de extrema importância na filosofia nietzschiana. Daí, conforme a leitura de sua obra, principalmente em sua primeira etapa, constantemente são empregados termos como degradação, decadência, degenerescência, quando o panorama da tradição ocidental é diagnosticado. Por sua filosofia se tratar de uma interpretação do corpo, na qual o papel do filósofo se delineia como médico da civilização, compreendemos que sua análise da cultura remete diretamente ao adoecimento drástico do tipo humano. Nesse ponto, foi com extrema audácia que Nietzsche aventurou-se por caminhos profundos, explorando e redescobrindo a natureza humana, problematizando os princípios dos valores éticos constituídos desde a antiguidade clássica até nossos dias.

Com rigor, Nietzsche denuncia uma lamentável depauperação impregnada em várias expressões culturais, principalmente na arte e na filosofia. Aos olhos de Nietzsche isso teve início desde a morte da tragédia grega, sendo consolidada com o domínio da razão a partir de Sócrates. Tal acontecimento deixa marcas indeléveis na modernidade, desqualificando a cultura ocidental. O homem cultuado na história europeia, segundo o diagnóstico de Nietzsche, se personifica na posição de animal doméstico, calmo e pacato, uma serenidade que mascara a degeneração dos instintos vitais na Europa.

 Dessa forma, a descrição de Nietzsche acerca da modernidade e, por conseguinte, da cultura europeia é no mínimo assustadora: esboça uma civilização que se encontra impregnada por uma espécie de “consciência formal” cujo triunfante “você deve” exalta virtudes que supostamente delineiam um padrão humano: o espírito comunitário marcado pela benevolência, diligência, moderação, modéstia, indulgência e a compaixão. Sua crítica dá testemunho inequívoco da dialética entre indivíduo e sociedade. Sua intervenção a respeito da cultura ganha sentido em seu rico diálogo, sempre problematizando as ideias modernas, tendo como referência central o espírito da antiguidade clássica pela qual Nietzsche desqualifica a cultura de seu tempo, por essa não alcançar uma visão abrangente e real sobre a vida. Ao invés disso a sociedade é tiranicamente governada por sentimentos fracos, cultivados por fortes modelos éticos, deixando de joelhos os filósofos e a ciência, perpetuando um novo tipo de indivíduo prisioneiro do imperativo categórico da moralidade.

Nesse contexto, nos situamos num campo de indagações no que tange à temática do nosso problema: o declínio da cultura segundo Nietzsche. Seguindo nessa linha de raciocínio as perguntas imediatas que surgem são: o que e quais são os sintomas da decadência cultural? Qual a relação entre cultura e moral? O que há de espantoso na religião judaica e cristã? Qual foi a principal causa da degenerescência da filosofia na Grécia? Como compreender a mediocrização do tipo homem? Por que a degenerescência da cultura se dá a partir de Sócrates? Qual seria a relação do mestre de Platão com o enfraquecimento e mitigação de certos impulsos vitais? Por que não existe um diálogo entre a cultura grega clássica com as ideias modernas? Até que ponto a moral se dirige contra os instintos da vida? Tal como entende Nietzsche, a moral tradicional passa por caminhos obscuros e antivitais, sufocando a produção das perspectivas e o estabelecimento dos valores, mas como se dá esse processo?

 Pois bem! O fio condutor para um desfecho satisfatório da nossa pesquisa será abordarmos a moral como problema central na análise nietzschiana da cultura. Com justeza, trataremos o tema da moral em dois momentos: no primeiro, a moral se exterioriza como sentimento dos costumes, delimitando nossa pesquisa em seu livro Aurora (1881); e no segundo, a moral será apresentada como antinatureza, delimitando tal problemática especificamente em sua Genealogia da Moral (1887). Se conseguirmos com a apresentação dessas ideias uma aproximação da moral como condição de existência, a partir de uma análise psicológica tentaremos logo em seguida ascender ao problema central de nossa análise: a degenerescência da cultura a partir de uma crítica à metafisica.
 Seguiremos, pois, consistindo em uma observação criteriosa pela qual possamos compreender o problema da cultura sem perder de vista o escopo dessa questão tão ampla, cuja problemática implica em trazermos à tona uma série de outras discussões: a crítica da linguagem, da noção de sujeito, da subjetividade, o niilismo, crítica da racionalidade, crítica à razão, crítica à civilização socrática, crítica ao otimismo teórico, à moral dos ressentidos, à noção de valor, crítica às religiões. Por fim, temas que Nietzsche pensou com tanta genialidade e audácia em seu denso “evangelho” tratando com palavras desesperadas um assunto desesperado: a natureza e o rumo da cultura de seu tempo

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Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima)

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

quinta-feira, 22 de março de 2012

Carta de tolstoi falando sobre sua pesquisa sobre guerra e paz.

Moscou, 27 de setembro de 1867
 
Acabei de voltar de Borodinó. Estou muito feliz, muito, com a minha viagem e também com a forma com que a suportei, apesar da falta de sono e de comida decente. Se Deus me conceder saúde e tranquilidade, escreverei uma batalha de Borodinó como nunca se viu. Sempre me exibindo! Sonhei com você na noite que dormi no monastério, e foi um sonho tão claro que quando me lembro dele é como se lembrasse de algo que aconteceu de verdade, e penso em você com medo.

Não lhe escrevo os detalhes da viagem, os darei de viva voz. Na primeira noite viajei cem verstas até Mojáisk e já perto do amanhecer dormi um pouco na estação; na segunda noite dormimos no albergue do monastério. Me levantei na aurora, voltei a percorrer o campo, e durante o dia todo viajamos de volta a Moscou.

Recebi suas duas cartas. Fiquei triste com o que houve com a Tânia, a mais velha, e senti medo, muito medo pela pequena Tânia. (Eu a conheço, a vejo e a amo, e temo por ela com essa febre alta.) Mas o principal é que suas cartas fizeram com que me sentisse bem porque você está nelas. E você põe o melhor de você nas cartas que me escreve e nos pensamentos que me dedica. Na vida cotidiana, ao contrário, a aversão e a predisposição à discussão sufocam isso com frequência. Eu sei.

Pedirei mil rublos a Perfíliev e serei rico e comprarei para você o chapéu e as botas e tudo o que me pedir. Sei que vai ficar brava que eu peça dinheiro emprestado. Não fique brava; peço para gozar de certa liberdade durante essas primeiras semanas do inverno, para não estar apertado ou angustiado por questões de dinheiro, e para isso tenho pensado em economizar esse dinheiro o máximo possível e tê-lo só para saber que está ali, caso precisemos despedir alguém que esteja sobrando ou que não sirva etc. Você me entenderá e saberá me ajudar. Suas cartas, querida, me dão um grande prazer, e não me venha com a bobagem de que eu as dou para outras pessoas lerem.

Aproveitei minha visita a Borodinó e tive a consciência de estar fazendo o que tinha de fazer; o que eu não suporto é me ver na cidade, e você diz que eu gosto de me perder pelas ruas. Não sabe como eu gostaria que você gostasse da aldeia, nem que fosse uma décima parte do que eu a amo, e que detestasse a vaidade oca das cidades, nem que fosse uma décima parte do que eu a detesto. Amanhã irei à casa dos Perfíliev para lhes agradecer, verei Rees, farei compras, e se tiver terminado tudo e Diákov estiver pronto, partirei sexta-feira pela manhã. Adeus, querida, beijo para você e para as crianças.



Carta traduzida do espanhol

quarta-feira, 14 de março de 2012

Fora do lugar


Saliva nos olhos
Lágrimas na boca
Coração na mão
Um beija- flor beijando
Pedra

Um sabiá cantando samba
Um João de barro morando
Em um aquário
Um roxinho bêbado-
 Em plena manhã

Um sabiá que não canta roco
De tanto tanto cantar uma coruja

Laranjeira verde, em um vulcão
Adormecido
Palmeiras verdes e saudáveis

Um livro sem capa pairando no ar
É tudo mentira, retórica e blá blá
Silêncio, silêncio que agora minha
Poesia vai calar e a banda? 
a banda vai passar...


Por Claudio Castoriadis


terça-feira, 13 de março de 2012

A moda nossa de cada dia.

Uma temática que penso ser bastante relevante para o comportamento humano é a questão da moda. Pensar uma tendência que a cada dia ganha mais seu espaço em nosso cotidiano deveria ter mais relevância no mundo intelectual. De uma abordagem artificial seria mais sensato que tal fenômeno fosse trabalhado com bastante cuidado: no momento mesmo em que a moda não cessa de ganhar importante espaço em nosso meio social, não cessa de acelerar sua legislação fugidia, de invadir novas esferas, ganhar novos horizontes, de arrebatar em seu contexto todas as camadas sociais, todos os grupos de idade, deixa impassíveis aqueles que têm vocação de elucidar as forças e o seu encanto no funcionamento das sociedades modernas. Como se fosse uma paisagem, a moda é celebrada no museu, a moda nossa de cada dia é relegada à antecâmara das preocupações intelectuais reais; não podemos negar que a mesma está por toda parte na rua, na indústria e na mídia, porém quase não aparece de forma detalhada nos grandes pensamentos teóricos das cabeças pensantes. Esfera tipicamente artificial, por assim dizer, e socialmente inferior, não merece a investigação problemática; questão superficial que desencoraja a abordagem conceitual; a moda suscita o reflexo crítico antes de estudo objetivo, é evocada principalmente para ser fastigada, para marcar sua distância, para deplorar o embotamento dos homens e o vício dos negócios: a moda é sempre os outros. Com isso, o que nos resta na maioria das vezes são, breves resenhas, crônicas jornalísticas, subdesenvolvidos em matéria de compreensão histórica e social do fenômeno. Ora, a moda com um certo grau de raciocínio segue uma linha  existencialista, pode ser pensada como sendo a maneira de vestir-se e comportar-se, não importa os limites e convenções sociais, o sujeito sempre afirma sua identidade mediante uma moda, e para isso a escolha de um estilo de vida e estética é imprescindível. Mediante essas considerações como não pensar a moda como um meio de exercer a liberdade, sempre inventando, criando e recriando?

Por Claudio Castoriadis

quinta-feira, 8 de março de 2012

Fernanda Montenegro e Simone de Beauvoir




Em Viver sem tempos mortos, Fernanda Montenegro dá voz aos pensamentos de Simone de Beauvoir (1908-1986), escritora e pensadora francesa que foi ícone da liberdade feminina. A encenação – como Fernanda gosta de chamar, por ser menos pretensioso do que uma peça – faz parte do projeto Caminhos da Liberdade, que inclui palestras e exibição de documentário sobre a escritora. Ao Mulher 7×7, a atriz explica por que voltou à obra de Simone de Beauvoir e diz que Irmã Dulce é a brasileira que lembra o legado da libertária francesa.
                             
Como a senhora define esse novo projeto sobre Simone de Beauvoir?
Fernanda Montenegro - Ele não é nem uma peça. É uma encenação. Eu diria que é quase o porta-voz de uma escrita, de um pensamento, da vivência de uma mulher que tem uma obra inesgotável.

A senhora leu Simone de Beauvoir na juventude, durante a ascensão do movimento feminista. Como foi voltar a ter contato com sua obra?
Fernanda - Foi uma espécie de volta à extrema mocidade. Nessa releitura, vi que ela é fantástica. Um ser que se usou como instrumento de sua teoria. Fez de seu sentimento e de sua busca pela liberdade o próprio campo experimental. E isso custa contestação e rejeição que, de certa forma, duram até hoje. Se o mundo ousasse tudo o que ela ousou, ela não sofreria tanto preconceito, especialmente na terra dela, a França. É uma mulher muito interessante e forte em suas convicções.

Naquele início de 50, quando a li pela primeira vez, foi uma descoberta ter uma visão racional como a dela do que era ser mulher. A história sempre teve mulheres que fizeram sua vida na liberdade. Mas o que ela fez foi sistematizar a visão do que é o ser feminino. E foi interessante ver que nós podemos ser o que nós somos. Temos o direito de buscar o que queremos. Talvez um pouco antes dessa época a mulher, para cortar o cabelo, precisava da autorização do homem. Não por causa de fetiches eróticos, mas porque precisava da permissão de um senhor. Depois da guerra, nos anos 50, isso já tinha diminuído, mas acho que existe até hoje, mesmo que envergonhado.

Como a senhora vê a evolução da condição da mulher pelas últimas décadas?
Fernanda - Não sou uma especialista em feminismo, não sou antropóloga ou socióloga. Mas as coisas avançaram muito. O homem hoje está assustado. Por “n” razões que a gente ficaria aqui um dia inteiro jogando na mesa, mas basicamente porque as mulheres vieram também para a vida fora do lar. Vieram para o convívio “do perigo”. Saíram da gaiola, do domínio absoluto do espaço doméstico.

A senhora já sofreu com o machismo?
Fernanda - Vou lhe dizer uma coisa: a nossa profissão, o teatro, é libertária. Hoje, talvez, as pessoas confundam teatro com televisão e, pensam que, você indo para a televisão, você é um artista, um ator. Mas, nos velhos tempos, era uma audácia vir para esse campo. O teatro sempre teve isso. Se ao lado de um ator de enorme talento tiver uma atriz de enorme talento, eles são iguais. O teatro sempre foi um campo muito liberto. Não havia isso de se submeter, da relação de dono e domado.

Por que Simone de Beauvoir?
Fernanda - Porque calhou. Foi o acaso. Um dos conceitos do existencialismo é que a última palavra é sempre do acaso. Sérgio Britto, meu querido amigo, propôs fazermos Simone e Sartre. Por “n” caminhos, ele seguiu com seu espetáculo Beckett, que é um extraordinário sucesso, e fiquei com a bagagem de Simone, com quem já estava envolvida há um ano. E, com a produtora Carmen Mello, fizemos esse projeto cultural e educacional confiantes, embora muitos achem um absurdo levar Simone de Beauvoir pela periferia. Tem gente que acha que algo mais do que o elementar não vai ter ressonância, credibilidade, interesse. Mas nós fomos bem recebidos em seis cidades da Baixada Fluminense e da Serra fazendo apresentações de graça ou com um preço muito acessível, de R$ 2 e R$ 4.

A senhora pode explicar o significado do título da encenação, Viver sem tempos mortos?
Fernanda - É um dos slogans da revolução de 1968, da revolução dos jovens. E Simone de Beauvoir, em certo momento, disse que viveu dessa maneira. Achamos que era um título interessante para a encenação dirigida pelo Felipe Hirsch. Era a compilação de uma compilação. Ele leu, achou que poderia dar uma coisa viva e radicalizou. Fez uma encenação muito clean, minimalista. É mais um porta-voz do que um dó-de-peito. Não se pretende imitar trejeitos ou exibir. É muito simples. Nunca fiz nada tão minimalista.

Como vocês chegaram a esse formato?
Fernanda - Esperei que ele chegasse. Acredito muito na palavra, na força do pensamento explicitado. Não acho que teatro deva ser só isso. Mas há uma escrita que pode não ser de dramaturgia mas pode ser adaptada e elaborada para o teatro e ter sua força. Quanto menos a gente mexer e se mexer e se exibir, melhor. Porque o pensamento já é tão forte, o sentimento já é tão forte… Eu esperei que ele, diretor e encenador, chegasse a isso. Cada vez que ele limpava o cenário, eu ficava mais feliz. Dentro da minha alma, dizia: “É isso mesmo”. Quando finalmente ele tirou tudo, achei: “Ah, que bom, que maravilha!”

O que devemos aprender com Simone de Beauvoir hoje?
Fernanda – O sentido da liberdade. E ser livre é difícil. Ela mesma diz: “ser livre é assustador”. O que é, no fundo, a liberdade absoluta? Em que isso se mistura com necessidade neurótica com isolamento?

É possível comparar sua relação com Fernando Torres com a relação de Simone de Beauvoir com Jean-Paul Sartre?
Fernanda - São vidas completamente diferentes. O que talvez tenhamos em comum é aceitar a liberdade e os caminhos da liberdade, que podem ser muitos também. Não existe só o caminho dela ou o do Sartre.

A senhora conversou sobre feminismo ou sobre Simone com sua filha (a atriz Fernanda Torres)?
Fernanda - Não, isso nunca foi uma questão. Lá em casa não se viveu e nem se vive esse problema. Somos mulheres peitudas desde avós, de bisavós. Os homens têm que ter coragem para se meter com a gente, somos de uma boa safra.

Como a senhora gostaria que as pessoas vissem seu novo trabalho?
Fernanda - Como uma ponte de sensibilização. Ele não tem nenhum gancho para pegar a plateia. Ela que tem que entrar. A encenação não tem nenhum golpe cênico, nenhum ruído que o acorde na cadeira. Foi onde pudemos chegar com esse material tão inquietante sem esgotar o assunto. É o arranhar de uma temática imensa.

E qual foi a reação das pessoas diante de Simone?
Fernanda - As mais variadas, inclusive confissões. Ouvi, por exemplo, de uma mulher: “Tenho três filhos de pais diferentes e não sinto falta deles. Crio todos sozinha. Portanto, tenho uma vida livre.” Um senhor disse: “Mas se ela tinha orgasmo completo com esse amante, como largou esse homem para ficar com outro que não lhe dava o famoso orgasmo completo”? Outros dizem assim: “Ela fala tanto em liberdade mas era submissa a ele! Era entregue a ele, não conseguia se livrar dele”. Vem o discurso da vida, não o acadêmico ou o das discussões filosóficas. Queríamos dar algo mais do que uma coisa eletrônica do que um rádio ou uma televisão: queríamos a comunicação humana direta. E aproveitamos para “dessacralizar” essa coisa do artista. Parece que você não tem cárie no dente, caspa, dor de barriga, calo, isso para não dizer coisas mais escatológicas.

Existe uma brasileira comparável a Simone?
Fernanda - Vou dizer um absurdo. Mas, é verdade: irmã Dulce. A baianinha de família rica que resolve ir para o convento contra tudo e contra todos e faz o trabalho social que ela fez, de porta em porta. É um exemplo extraordinário. Não porque entrou numa igreja, numa religião, mas pela liberdade de ir contra tudo e contra todos e fazer uma obra social enorme. Porque a liberdade pode ser ter muitos parceiros ou ter parceiro nenhum. O que significa a liberdade? Uma vez, vi uma entrevista quando estava em Paris. Era um programa sobre liberdade. Estavam entrevistando diversas pessoas. O jornalista foi a um convento das carmelitas e entrevistou uma freira que estava atrás de uma porta. Ele não via a mulher e nem ela o via. E ela falando de liberdade. E ele disse: “Mas a senhora está falando de liberdade atrás de uma porta, de onde a senhora não tem nem permissão de me ver! Como a senhora explica isso?”. Ela respondeu: “Liberdade, para mim, é um ser humano estar onde ele deseja estar.”


Por: Letícia Sorg, repórter especial de ÉPOCA em São Paulo.



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