terça-feira, 24 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Um brasileiro chamado Machado De Assis
Em 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro,
Nasce Joaquim Maria Machado de Assis. Filho único de casal humilde: o pai era
um pintor mulato Francisco José de Assis, descendente de escravos alforriados e
a mãe era uma lavandeira portuguesa. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se
pouco de sua infância. Machado ficou órfão bem cedo e permaneceu na escola por
um período curto. Na verdade, ele precisou aprender tudo sozinho. Desde os 16
anos, frequentava a tipografia de uma revista chamada Marmota Fluminense, e
logo se tornou um aprendiz de tipógrafo. Foi desta forma que sua carreira como
escritor começou. No início ele revisava os manuscritos e depois se tornou um
jornalista. Em 1869, Machado casou-se com Carolina, uma jovem portuguesa, irmã
do poeta Faustino Xavier de Novais. Depois da morte de Carolina, ele se isolou
numa casa confortável no Cosme Velho - um bairro do Rio de Janeiro-, onde
morreu em 1908, nos deixando uma obra composta por várias novelas e poemas,
muitos contos, críticas e crônicas, algumas comédias e peças de teatro. Não por
acaso Machado é considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os
tempos e um dos maiores escritores do mundo, enquanto romancista e contista. Refinado
como poucos de seu tempo na prosa o gênio é contido e elegante esbanjando uma indescritível
sensibilidade artística. escreveu uma
série de livros de caráter romântico. É a chamada primeira fase de sua
carreira, marcada pelas obras: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874),
Helena (1876), e Iaiá Garcia (1878), além das coletâneas de contos Fluminenses (1870),
Histórias da Meia Noite (1873), das coletâneas de poesias Crisálidas (1864),
Falenas (1870), Americanas (1875), e das peças Os Deuses de Casaca (1866), O
Protocolo (1863), Queda que as Mulheres têm para os Tolos (1864) e Quase
Ministro (1864). Em sua segunda fase suas obras tinham caráter realista, tendo
como características: a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à
essência do homem e seu relacionamento com o mundo. Da segunda fase, são obras
principais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom
Casmurro (1900), Esaú e Jacó (livro) (1904), Memorial de Aires (1908), além das
coletâneas de contos Papéis Avulsos (1882), Várias Histórias (1896), Páginas
Recolhidas (1906), Relíquias da Casa Velha (1906), e da coletânea de poesias
Ocidentais. Vale lembrar que, o estilo literário de Machado de Assis tem
inspirado muitos escritores brasileiros ao longo do tempo e sua obra tem sido
adaptada para a televisão , o teatro e o cinema sempre tendo uma boa
desenvoltura em várias vertentes da rate. Em 1975, a Comissão Machado de Assis,
instituída pelo Ministério da Educação e Cultura, organizou e publicou as
edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes. Suas principais
obras foram traduzidas para diversos idiomas e grandes escritores
contemporâneos como Salman Rushdie , Cabrera Infante e Carlos Fuentes confessam
serem fãs de sua ficção , como também o confessou o saudoso Woody Allen que
afirmou "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, como
um dos seus cinco livros favoritos em depoimento ao jornal britânico Guardian.
"É um livro maravilhoso, bastante original [...] Ele é tão moderno que
você pensaria que foi escrito ontem.”
Mediante a sua importância literária, a
Academia Brasileira de Letras criou o Espaço Machado de Assis, com informações
sobre a vida e a obra do escritor.
Por Claudio Castoriadis
domingo, 8 de janeiro de 2012
A sutil desconstrução do Ser: Considerações sobre Nietzsche
1860. Um jovem professor é acolhido
com bastante êxito pela universidade de Basiléia, ouvintes eufóricos contemplam
sua aula inaugural, “sobre a personalidade de Homero” todos desejam ansiosamente
escutar as palavras do brilhante Friedrich Nietzsche, jovem que por
recomendação de Ritschl fora agraciado com a cátedra de filologia clássica,
conquistando com os devidos méritos sua cadeira sem tese nem exames. Sem dúvida
dias gloriosos e tranquilos, mesmo que breves, na vida daquele que iria protagonizar
o drama da “Morte de Deus” se consagrando para sempre como o autor de
Zaratustra. Mais de cem anos após sua morte e o seu legado ainda é centro de
exaustivas discussões. Com efeito, os conflitos acerca de sua filosofia não
apenas reafirma seu nome entre os grandes pensadores da humanidade, mas,
principalmente contribuem para pensarmos a atualidade do seu discurso.
Qualquer um que se debruça sobre um
texto de Nietzsche dificilmente não se deixa levar pela tentação de pensar com
ele; na medida em que desafios são erguidos, um após o outro, um novo aspecto
de seu discurso exterioriza sua viva sensibilidade. Não se pode desconhecer as
dificuldades de acompanhar o pensamento de um gênio que se compreendia como o
mais escondido de todos; um filósofo que contemplava o mundo como uma porta
para milhares de desertos, vazia e gélida; um mestre que fazia experimentos com o pensamento
humano feito “argila dúctil” nas mãos de
um devoto escultor, que, com inefável talento tornava belo tudo que habitava o
universo de suas críticas. Não obstante, compreender seu pensamento se revela
um empreendimento extremamente ousado, palpável somente por uma íntima relação
entre autor e leitor, um eterno jogo de encanto, sabedoria e experimentalismo.
Um universo de prodigalidade se insinua quando contemplamos a grande declamação
de seu espírito. É inegável a ternura do conteúdo que dar forma a sua arte
dionisíaca, é incontestável que, dos diversos críticos, poucos ousaram
compreender Nietzsche como ele se compreendeu. E, de certo modo tal agravante é
compreensível, uma vez que o próprio tinha plena noção das dificuldades desse
audacioso empreendimento; cuja meta central era quebrantar as amarras das
ilusões nocivas á vida. Nietzsche não negava a hipótese da angustiante dor
causada pelo desencantamento aderido diante a desmistificação com o modo
tradicional de pensar a realidade. Nesse sentido salta ao olhos a vertente
corrosiva de sua filosofia que, é justamente implodir nossa forma lógica de
contemplamos á conduta humana. Eugen Rosentock-Huessy chegou a se utilizar da
expressão “disangelho” (termo cunhado pelo próprio Nietzsche) para caracterizar
os trabalhos daqueles que seriam os quatro principais intérpretes da realidade
do século XIX. Marx, Gobineau, Nietzsche e Freud, pois ambos esboçaram o
processo de desilusão da modernidade. Peter Sloterdijk por sua vez, descreve
esse processo de desilusão como “um nível de desencantamento capaz de levar á
beira de precipícios quase suicidas.” E, por esse motivo Nietzsche era convicto
de sua solidão, “muito instrutivo! Ninguém quer o que eu escrevo” (carta a
Peter Gast, 1887).
Pensar Nietzsche e a relevância dos
seus manuscritos que ainda perdura em nossos dias é pensar sobre vários
aspectos sua biografia e estilo sem perder de vista o fenômeno dionisíaco que
esboça a grandeza de um angustiado gênio, um fenômeno que acima de tudo reflete
a excessiva popularização de sua filosofia. Quem nunca se ateve a conceitos do
tipo vontade de potência, eterno retorno do mesmo, teoria das forças, grande
politica, e a morte de Deus? Caráter tão
trágico quanto o revolucionário Siegfrieud do drama musical de Wagner, o autor
de Zaratustra defensor fiel da cultura nobre e sofisticada ironicamente tem
inegável repercussão na cultura de massa. Maldição ou benção? O certo é que
poucos autores conseguiram manter o domínio de sua obra tanto na esfera
acadêmica como fora dela. Uma filosofia hermética? Um pensador contraditório?
Esteta ou um politico? Revolucionário ou reacionário? Um autor pessimista? Enfim,
até hoje Nietzsche é discutido em assembléias, livros e publicações que se
seguem ininterruptamente. Mas, afinal, não seria essa a intenção ao introduzir
na filosofia sua trama conceitual? Através de aforismos e imagens poéticas
Nietzsche não teria trabalhado o caráter experimental de sua filosofia? Os
conflitos de opiniões não seriam reflexo de uma filosofia que se dá em reflexão
incessante? Como isso é possível? Qual foi a estratégia adotada por Nietzsche?
Melhor dizendo, tinha o Nietzsche uma estratégia? Ou mais, seria possível uma
plausível resposta para essas questões introdutórias se deslocamos as mesmas
para uma teoria pragmática? Mas até, poderíamos pensar com clareza e rigor um
autor tão dramático e conflituoso? Ora, são essas as perguntas sobre a natureza
dos conflitos de opiniões que pesam em sua filosofia que nos levam a
considerar, nesse momento, todos seus escritos como resultado de um pensamento
estrategicamente brilhante que buscou legitimidade articulando um discurso não
conceitual mantendo-se em sua postura de ensaio e experimento. Sendo assim, a
luz dessas reflexões como referência preliminar, ainda é preciso enfatizar o
fio condutor de nossa pesquisa: explorar o resultado, entre tantos, do estilo
estratégico adotado por Nietzsche que, além de rejeitar o uso da linguagem
sistemática e conceitual em virtude de uma linguagem não conceitual,
possibilita uma continua renovação de perspectivas sobre sua obra legitimando
uma postura radical contrária ao instinto de verdade e suas armadilhas metafisicas.
Quando somos guiados passo a passo por seus
questionamentos, apercebemos com clareza uma sensibilidade indizível que emana
da multiplicidade dos seus escritos. A primeira tarefa para uma leitura bem
fundamentada desse complexo universo consiste em nos familiarizamos de imediato
com dois desafios: o primeiro implica em detectar as utilizações que se fez do
autor; e um segundo, de suma importância, se constrói quando reconhecemos as
dificuldades de compreensão que seus escritos apresentam em sua estrutura
conceitual; um modo de pensamento que se vale de formulações extremamente
corrosivas sustentadas por brilhantes termos que se encandeiam. É bem provável,
com isso, que, o leitor possa incorrer em graves perigos ao adentrar em um
universo tão hermético e recheado de armadilhas; onde o desanimo em se deparar
com um texto tão denso pode se agravar com a petulância em apreender com
precisão o que se insinua facilmente acessível. Com efeito, nada mais sensato
para uma segura aventura em seus manuscritos do que, antes de qualquer coisa,
desmascarar as apropriações ideológicas e com determinação lidar com as
particularidades de sua maneira de expressa-se. Avesso à ideia de um
conhecimento totalizante e unificado do real, Nietzsche exalta o
perspectivismo, isto é, uma mesma ideia analisada e compreendida pela
multiplicidade de pontos de vista, com isso, as mais diversas possibilidades de
abordamos uma problemática se concretiza mediante o perspectivismo que ganha
contorno juntamente ao questionamento do valor da verdade:
“Ainda que fossemos suficientemente insensatos para considerar como
verdadeiras todas as nossas opiniões, não desejaríamos, contudo, que fossem as
únicas; não sei por que se haveria de desejar a unipotência e a tirania da
verdade; basta-me saber que a verdade possui um grande poder” (Aurora, 507).
Com semelhante maestria o filósofo
explora o pluralismo, termo convencionalmente
atribuído ao seu pensamento que reconhece não apenas sua interpretação
filosófica como também exalta o exame estilístico e analise psicológica,
objetos de múltiplas leituras. Por esse motivo uma pluralidade de estilos
enriquece seus manuscritos. Um bom exemplo sua variedade formal e estilística
se encontra latente em seu livro A gaia
ciência onde sua escrita se alterna em diálogos humorísticos, textos
argumentativos, aforismos, poesias e parábolas concentrando densos argumentos
acerca da arte, verdade, metafisica, teoria do conhecimento, ontologia e
história. Vale lembrar que, o próprio Nietzsche chegou a reconhecer seu grande
estilo acreditando possuir “a arte do
estilo mais variado do qual nenhum homem jamais dispôs”.
Visto esses dois termos
Perspectivismo e pluralismo somado com a natureza antagônica do autor, torna-se
relevante as considerações de Muller- lauter de que não há um único
entendimento correto do pensamento de Nietzsche em um sentido definitivo e
conclusivo. Ou seja, qualquer tentativa de cristalizar convicções acerca de sua
filosofia é questionável. (Não seria essa a intenção do Nietzsche?). é compreensível
também, que, considerações desse gênero possam intimidar qualquer leitor
despreparado, porém, quando nos atemos ao experimentalismo latente no seu
estilo, esse suposto obstáculo estrategicamente se converte em estimulo.
Afinal, os constantes desafios propostos por sua filosofia esboçam o caráter
dinâmico e, por conseguinte, experimental implícito em seus textos. “Pluralista, o pensamento nietzschiano
apresenta ao leitor múltiplas provocações. Dinâmico, a eles propôs sempre novos
desafios”. Afirma Scarlett Marton.
Se assim é, não podemos deixar de
concluir que, pondo a prova hipóteses interpretativas, principalmente quando
estas pesam sobre sua obra estrategicamente inaugura um leque de pontos de
vistas quando desafia seus leitores incitando experimentos com o pensar.
A avaliação, tal como tratada nesse
contexto, tem seu caráter ativo na medida em que explora uma multiplicidade de
possibilidade e perspectivas deixando sempre em evidência confrontações de
perspectivas não superadas como resultado de uma filosofia que se dar em
constante reflexão:
“O mundo tornou-se novamente infinito para nós: na medida em que não
podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações”
(A Gaia Ciência – 374).
Fica desse modo explicitado que juntamente
com os termos perspectivismo e pluralismo o experimentalismo também
particulariza a filosofia nietzschiana. Visto que, o que está em jogo nessa
visão é justamente explorar confrontações de perspectivas em um âmbito de
incessante experimento. Aqui, então seria pertinente lembrar que a partir do
momento que abriu as portas para as filosofias da vida, vinculando esta a
vontade de potência, Nietzsche deixa entrever uma forte tendência naturalista e
voluntarista na sua filosofia. Por ter conferido função primordial aos
instintos vitais da natureza humana estudiosos compreendem, pois, sua filosofia
também relacionada ao termo pragmatismo. Dando uma nova roupagem para a
verdade, sua filosofia defende um radical deslocamento valorativo de tal
conceito partindo de uma determinada concepção da essência humana.
“A falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção
contra ele; é talvez nesse ponto que a nossa nova linguagem soa mais estranho.
A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida, conserva ou até mesmo
cultiva a espécie”. (Além do Bem e do Mal, 4).
Nesse contexto a verdade consiste na
estreita relação do pensamento com os objetivos práticos do homem; verdadeiro
nesse ponto exterioriza o mesmo que útil, promotor da vida; uma concordância
entre pensamento e ser. Portanto, não existem fatos ou verdades, mas,
interpretações ou perspectivas. Nessa radical e precisa guinada vitalista, as
leis lógicas e cientificas, são critérios e esquemas de nossas interpretações
do real. Localizando essas características da verdade em seu contexto
essencialmente naturalistas , voluntarista, vitalista ou até mesmo pragmática;
é certo que, o conhecimento, por sua vez, em Nietzsche pode ser abordado em seu
caráter biológico, onde a verdade antes de ser um valor teórico é precisamente
servidora da vida, instrumento de um determinado tipo de animal que necessita
conserva-se, e, principalmente desenvolve-se; e como o individuo precisa viver
em sociedade e comunicar-se o
conhecimento em Nietzsche também ganha seu sentido gregário:
Não temos nem um órgão para conhecer, para a verdade: nós sabemos (ou
cremos, ou imaginamos) exatamente tanto quanto pode ser útil ao interesse da
grege humana, espécie: e mesmo o que aqui se chama “utilidade” é afinal, apenas
uma crença, uma imaginação e, talvez, precisamente a fatídica estupidez da qual
um dia pereceremos”. ( A Gaia Ciência, 354).
Sendo assim, perante tais
esclarecimentos, cabe a nós leitores reconhecer a ousadia estilística de um
filósofo que soube estrategicamente garantir, num nível mais profundo dos
demais intelectuais, a potencialidade de sua obra ao inflamar um preciso debate
acerca do valor da verdade reconhecendo nesta a sua forma mumificada,
metafisica e fixa. Desde o início de seu percurso intelectual a recusa de uma
verdade em si foi uma constante em seu pensamento; Nietzsche não se deteve com
demonstrações lógicas e com estruturas sistemáticas. A questão do valor é algo
a ser julgado de acordo com a medida e exigência de quem o veste. Seja como
for, o mais importante nesse contexto é seguir simpateticamente nosso caminho
encontrando um refugio para as horas de inquietação, sentirmo-nos em harmonia
com nossas perspectivas, liberto dos grilhões e das amarras moralistas nocivas
a vida. Cada um de nós deve ser responsável e, acima de tudo, dar conta de seu
próprio juízo jamais, sobre hipótese alguma tirar semelhante coisa de outro.
Mesmo sendo este um erro, mesmo que fosse uma mentira. Enfim, ao lançarmos os
olhos sobre este extraordinário autor, em todos seus detalhes e conflitos,
tomamos consciência que, este personificou com genialidade e loucura a
desoladora opinião que os grandes intelectuais e artistas são geralmente
desprezados e negados pela sua geração. Dramático e, poeticamente conflituoso,
em vida Nietzsche expressou ressonâncias com o culto a Dioniso, almejando a
divina primavera incorporada no forte estupor da vida, onde da mais elevada
alegria brotou o grito de horror, ritmado pelo cântico de Zaratustra- talvez
por esse motivo, seu discurso ainda é gritante sem desfalecimento, ou talvez a
relevância de sua filosofia se deve em muito a doçura do seu espírito que
apaziguava seu pensamento intimidante como certa vez escreveu Malwina de
Meysenburg : quanto sua natureza amável e
generosa equilibra sua inteligência destruidora.
Foi principalmente no reino encantado
do universo acadêmico, lugar sustentado por densos e exaustivos sistemas- onde
um otimismo teórico buscava a verdade a qualquer custo- que a filosofia de
Nietzsche foi mais densa e corrosiva. Enquanto todos buscavam um mundo
plenamente calmo e esclarecido, os versos de Zaratustra irradiavam uma espécie
de morte do vago causada pela desilusão frente uma razão decadente e apática,
que escraviza e destrói. Nietzsche, uma filosofia de conflitos, uma sutil
desconstrução do ser, justificável principalmente quando levamos em conta sua
maestria estilística responsável pelas múltiplas imagens ao seu respeito que,
para, sua surpresa e horror, vigora sem discrepância tanto na esfera acadêmica
como fora dela. Conflitos, que, de certo modo vão de encontro ao principio
hermenêutico de Heidegger, onde todo texto filosófico carrega em si uma margem
de não pensado. E, se tratando em especial dos textos de Nietzsche, apercebemos
que este compreendeu bem mais do que chegou a exprimir, presenteando a
humanidade com um labirinto feito de diversos e profundos escritos de caráter
estrategicamente perspectivista, pluralista e experimental.
Referencias bibliográficas
Nietzsche. F. A Gaia Ciência. Trad.
Paulo César de Souza. São Paulo: companhia da letras, 2001.
________,Além do bem e do mal. Trad.
Paulo César de Souza. São Paulo: companhia das letras, 2005.
_________,Aurora. Trad. Mario Ferreira
dos santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
Por Claudio Castoriadis. (Franciclaudio
Feliciano De Lima)
-Esse artigo foi elaborado em maio de
2008, com o intuito de ser utilizado futuramente como recurso didático na
disciplina de Filosofia. Se for utilizado por outros, por favor, não deixem de
mencionar a fonte.
![]() |
Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura > |
Eu "conto" pra ela
Me conte um conto
Que me encante
Que eu te canto
Na esquina.
Me conte um conto
Bem contado
Que no meu canto
Eu te guardo.
Por Claudio Castoriadis
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
POEMA PARA A EXORCISTA - Mario Vargas Llosa
Mi vida parece sin misterio y
monótona
a quienes me ven
de paso a la oficina
en las mañanas apuradas.
La verdad es muy distinta.
Cada noche debo salir a pelear
contra un espíritu malvado
que, valiéndose de
disfraces -perro, grillo,
nube, lluvia, vago,
ladrón- trata de
infiltrarse en la ciudad
para estropear la vida humana
sembrando
la discordia.
A pesar de sus disfraces yo
siempre lo descubro
y lo espanto.
Nunca ha conseguido engañarme
ni vencerme.
Gracias
a mí, en esta ciudad
todavía es posible
la felicidad.
Pero los combates nocturnos me
dejan exhausta y magullada.
En pago de mis
refriegas contra el enemigo,
les pido unas sobras
de afecto y amistad.
Nueva York, noviembre de 2001
***
POEMA PARA A EXORCISTA
A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.
Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras - cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão - trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.
Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.
Mas os combates noturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afeto e de amizade.
inédito
Nova Iorque
novembro de 2001
domingo, 1 de janeiro de 2012
Mario Vargas Llosa
Jornalista, dramaturgo, ensaísta e
crítico literário, Mario Vargas Llosa é um dos mais importantes escritores da
atualidade. Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, viveu em Paris na década de
1960 e lecionou em diversas universidades norte-americanas e europeias ao longo
dos anos. Aos 74 anos, é o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2010. Não por
acaso foi apontado pela Academia Sueca como “um contador de histórias
divinamente dotado” Quem já teve a oportunidade de ler o romance extraordinário
“A casa verde” inconscientemente teve um contato com um arrebatador livro que
nos convida para uma peregrinação imaginativa da relação da natureza/homem. Com influências de William
Faulkner e Gustave Flaubert, Vargas Llosa nessa exuberante obra nos presenteia
com um texto primoroso, em que a voz do narrador se mostra híbrida quando se
funde à fala dos personagens – uma sintonia intrigante. Segundo romance de Vargas Llosa, A Casa Verde
é, também, um de seus livros mais ambiciosos. Nele, o autor, Nobel de
Literatura, da vida a voz de diferentes personagens para narrar a história de
um prostíbulo montado perto de uma das cidades mais isoladas do Peru, mudando a
rotina de seus habitantes. Publicado originalmente em 1966, o romance recebeu
no mesmo ano o Prêmio da Crítica, na Espanha, e, em 1967, o Prêmio
Internacional de Literatura Rómulo Gallegos, na Venezuela, como melhor romance
em língua espanhola. Um livro que certamente não esgota o talento do escritor,
mas embasa categoricamente o seu merecido prestigio entre os grandes nomes da
literatura mundial. Detalhe, nosso autor
tinha apenas 29 anos quando terminou o romance. Se bem que seu sucesso já era
previsto, basta uma lida nas publicações dos contos reunidos em Os chefes
(1959) sem deixa de lado o lançamento de seu primeiro romance, A cidade e os
cachorros (1963). Porém, Com A Casa Verde, ele se firmou como um dos principais
autores latino-americanos dos anos 1960.
No Brasil, os livros de Mario Vargas
Llosa, foram bem acolhidos, não obstante já foram publicados por várias
editoras. Em 1962, a Nova Fronteira publicou "Batismo de fogo", em
tradução de Milton Persson. Nos anos 1970, a Sabiá (de Fernando Sabino e Rubem
Braga) lançou aqui "A casa verde". A Francisco Alves editou vários
livros de Llosa nos anos 1970 e 1980. Durante muito tempo, o autor passou pela
Companhia das Letras e pela Nova Fronteira. Seus livros hoje em catálogo e à
venda nas livrarias estão editados pela Ediouro, pela Arx e pela Objetiva, que
tem publicado todos os romances do escritor peruano dentro do selo Alfaguara.
Seu livro mais recente editado aqui é a recém-lançada coleção de ensaios
"Sabres e utopias" (Objetiva). Um ótimo autor alheio a qualquer
crítica que vale a pena ser lido. Quer começar? Que tal adentrar em seu
universo mágico a partir do seu clássico “A casa verde”?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Filosofia e Literatura nos escritos do Dostoiévski
A influência do pensamento filosófico nas
demais fontes de conhecimento é indubitável. Talvez seja nisso que consiste a grandeza
da estrutura filosófica. Não existe limite para a filosofia. A virtude da
filosofia se exterioriza em sua encantadora desenvoltura em qualquer espaço intelectual
- A arte por exemplo, Filosofia tem um pouco de arte e a arte tem um pouco de
filosofia. Pensar dessa forma é mais que pensar grande, é reconhecer a elegância
do domínio da Filosofia em nossas vidas. E falando em arte que tal pensarmos a
relação entre filosofia e literatura que perpassa as paredes frias dos limites
do conhecimento? Os saberes se interrelacionam, se completam. Pois bem, podemos
presenciar flagrantes diálogos entre filosofia e literatura nos romances do
mestre Dostoievski. A obra dostoievskiana explora o lado mais obscuro da
personalidade humana. Autodestruição, a
humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao
suicídio, à loucura e ao homicídio; são temas trabalhados de forma mais lúdica
pelo gênio russo. Seus escritos são chamados por isso de "romances de
ideias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O
modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram
influenciados por suas ideias. Um autor intrigante sem dúvidas. Fiódor
Dostoiévski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa,
sendo considerado o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas
do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para
existencialismo já escrita".
"O
existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não
exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu
inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma
consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma
que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que
precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoiévsky
escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa
o ponto de partida do existencialismo." Assim falou o Filósofo JEAN PAUL SARTRE.
Com essas
considerações testemunhamos um autor bem quisto não apenas na literatura, mas
também acolhido pelo movimento filosófico denominado existencialismo. Contundente,
é o mínimo que podemos pensar. Pois bem, vamos conhecer um pouco desse monstro
do conhecimento humano.
Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasce em
1821, em Moscou, filho de um médico, homem austero e autoritário, e de uma mãe
doce, segundo seus biógrafos, que sofreu em silêncio o despotismo do marido
avaro. Aos dezesseis anos, perde a mãe, vítima de tuberculose e dos ciúmes
injustificados do marido que, a partir de então, refugia-se na província e no
álcool. Fiódor, logo a seguir à morte da mãe, sofre de uma doença de garganta,
uma afonia que deixará vestígios para toda a sua vida. Marcado pela
solidão, no colégio era tido como desconfiado e tímido. Segue a Escola de
Engenheiros Militares de São Petersburgo, à qual não parece se adaptar, mas é
nesse período que conhece os clássicos da literatura mundial. Dostoiévski se
apaixona de imediato pelos textos textos de Púshkin, Schiller, Byron, Shakespeare
e Balzac. A sua primeira publicação deu-se com a tradução do romance de Balzac
‘Eugenie Grandet'. Quanto à publicação de seu primeiro romance, Pobres Gentes,
foi recebido com grande entusiasmo, do crítico literário Vissarion Beleinski,
inclusive.
Quando seu irmão fica noivo, Fiódor se depara
com um acontecimento que o marcará para toda a vida: A morte do seu pai. Que provavelmente
foi assassinado pelos seus servos, como vingança pelo cruel tratamento que
recebiam. Quando soube da morte de seu pai, o escritor sofreu uma convulsão
epilética. (Dostoiévski iria padecer do mal da epilepsia até os seus
derradeiros dias.) Nosso autor sai da Escola, ao final de seus estudos, é
nomeado alferes, e sua vida, isento da tutela patema, segue um curso
inteiramente livre, pelos teatros, concertos, casas de jogo, ruas, cidades.
Começa a escrever e, um ano mais tarde, sai do ofício de alferes. Em 1847, veria
sua carreira de escritor sofrer uma trágica interrupção quando passou a
integrar o grupo liderado por Petrachevski (Círculo de Petrashevski), que se
reunia para discutir acontecimentos políticos, literários, temas relacionados
com o socialismo, a censura, a abolição da servidão, entre outros; onde
aproveitam para fumar, beber, discutir literatura, política, criticando o
regime e censurando o estado deplorável dos camponeses, da economia. A
expectativa de Dostoiévski era otimista ao mesmo tempo que infantil acreditando
que as ousadas revolucionárias não convinham à Rússia, esperando que o próprio
czar realizasse as reformas necessárias, e tomando-o como “um pai para o seu
povo”. Por esta razão, abandona este movimento, fundando com outros
companheiros uma outra sociedade, mas são denunciados, e, em abril de 1849, é
preso na fortaleza de Pedro e Paulo, onde aguarda julgamento. Após idas e
vindas do processo, ele é finalmente julgado e condenado a quatro anos de
trabalhos forçados na Sibéria, como presidiário, e depois mais quatro, como
soldado raso. Mas o imperador, o mesmo que para o gênio russo deveria ser o pai
do povo, deseja que seja dada uma lição aos conspiradores: os condenados serão
colocados no patíbulo em praça pública, para serem fuzilados, serão atados aos
postes, de olhos vendados, e verão alinhar-se na sua frente os pelotões de fuzilamento.
Os soldados apontarão as espingardas e uma voz gritará “Fogo!”, mas os tiros não
chegam a partir. Na voz do General Rostóviev, se ouvirá a sentença : “Em sua
inefável clemência, Sua Majestade, o czar, concede-vos a graça da vida...”
Esses momentos de tamanha maldade estão descritos em Diário de um Escritor. Dostoiévski
estava apenas com 27 anos, quando, na véspera do Natal de 1849, foi conduzido
com outros condenados, em trenós descobertos, com o frio de vinte graus
negativos, para cumprir a pena na Prisão de Omsk, na Sibéria. Sobre essa prisão
e sobre tratamento desumano que era dispensado aos prisioneiros, Dostoiévski
fez alguns comentários:
“Imaginem um
velho barracão de madeira em ruínas. No verão asfixiávamos com falta de ar e no
inverno o frio dilacera-nos a carne. O soalho era todo esburacado e cheio de
imundícies; escorregávamos e caíamos a cada passo. O gelo cobria totalmente as
vidraças, de modo que mal se podia ler durante o dia. A água pingava
constantemente do telhado, e havia corrente de ar glaciais em todo lado.
Estávamos comprimidos uns contra os outros como arengues numa barrica. Mesmo
quando acendiam o fogão com chamas de lenha seca, mal amornávamos (o gelo
derretia a muito custo) e ficávamos como que envenenados pela fumarada. Era
assim que vivíamos todo o inverno (...). Cobríamos com peles de carneiro muito
curtas, que me deixavam as pernas a descoberto. Tiritava de frio toda a noite.
Havia milhões de percevejos, piolhos e carochas”.
Não foram tempos
fáceis, Dostoiévski assistiu a terríveis espancamentos e torturas, e de tudo o
que presenciou e sofreu resultaria na sua narrativa sobre esses anos cruéis,
que passariam a integrar o seu livro Recordações da Casa dos Mortos. Nessa obra
inflamada por passagens amargas compreendemos a condição de um presidiário em
Omosk, no convívio com criminosos condenados pelos mais diversos crimes, além
dos presos políticos. vale lembrar que, Dostoiévski é o primeiro escritor a escrever sobre os
campos de trabalhos forçados da Rússia czarista. Choca a muitos pelo realismo
de seus relatos: homens presos pelos pés por correntes, imundícies,
promiscuidades, castigos corporais - os presos eram surrados com chicote ou vara,
que só cessavam com a ordem do médico da prisão, para daí serem levados aos
hospital, até retornarem para o cumprimento do castigo a que foram condenados.
O tempo no exílio não o faz produzir suas maiores obras, mas é aí que ele
recolherá material para sua inspiração, vivendo entre criminosos, assassinos,
ladrões, e as leituras da Bíblia, única fonte de acesso em quase todo o período.
Em 1854, ao sair do presídio, é enviado como soldado para uma pequena cidade da
Sibéria, conhecendo aquela que viria a ser sua primeira mulher, Maria
Dimitrievna, mulher de temperamento exaltado, sentimental e fantasista, casada,
a essa época, com um alcoolista, desempregado. É com Maria que ele encontrará o
diálogo sobre literatura e artes, até que o seu marido é novamente empregado e
transferido para outra cidade. Fiódor a vê partir e sabe, adiante, do
envolvimento de Maria com o preceptor de seu filho, a quem irá encontrar, para
fazê-lo desistir dela. Maria fica viúva, mas não se decide a casar com Fiódor.
Em 1856, ele é promovido a oficial, Maria se decide e no ano seguinte se casam. Na noite do
casamento, ele sofre um violento ataque de epilepsia. Sete anos depois, morre Maria
de tuberculose, e ele assim dirá dela : “Ela, meu amigo, amou-me sem limites, e
eu a amava também sem medida, e, contudo, não fomos felizes; mas embora
tenhamos sido verdadeiramente desgraçados, devido ao seu estranho caráter,
receoso e morbidamente fantasioso, nunca deixamos de nos querer, e quanto menos
felizes éramos, mais apego tínhamos um ao outro... Era a mulher mais nobre,
mais leal e generosa de todas que tenho conhecido...” no ano de 1859
retorna à Rússia.
O imperador agora é Alexandre II, que inicia as reformas, sem, contudo, apaziguar os ânimos mais exaltados. ainda assim, nosso herói permanece na crença de que caberá ao czar realizar os caminhos por uma Rússia mais justa, tomando-o como pai do povo. Sua segunda viagem à Europa, ele a fará não com sua esposa, que está moribunda, mas em companhia de uma jovem de 16 anos, admiradora fiel de suas oratórias. Fiódor tinha, a essa época, cerca de 40anos de idade. Pede um empréstimo à Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, planeja encontrar-se com Polina, mas desvia-se antes de chegar a Paris, detendo-se em Wiesbaden e aí perdendo todo o dinheiro... no jogo. Polina e ele ainda viajam, mas, no retomo por Wiesbaden, novamente Fiódor se detém e aí perde mais dinheiro, quase tudo o que levava. Pra piorar, seu irmão morre, deixando uma dívida que só poderá ser coberta com a publicação de todas as suas obras, e de mais uma inédita.
O imperador agora é Alexandre II, que inicia as reformas, sem, contudo, apaziguar os ânimos mais exaltados. ainda assim, nosso herói permanece na crença de que caberá ao czar realizar os caminhos por uma Rússia mais justa, tomando-o como pai do povo. Sua segunda viagem à Europa, ele a fará não com sua esposa, que está moribunda, mas em companhia de uma jovem de 16 anos, admiradora fiel de suas oratórias. Fiódor tinha, a essa época, cerca de 40anos de idade. Pede um empréstimo à Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, planeja encontrar-se com Polina, mas desvia-se antes de chegar a Paris, detendo-se em Wiesbaden e aí perdendo todo o dinheiro... no jogo. Polina e ele ainda viajam, mas, no retomo por Wiesbaden, novamente Fiódor se detém e aí perde mais dinheiro, quase tudo o que levava. Pra piorar, seu irmão morre, deixando uma dívida que só poderá ser coberta com a publicação de todas as suas obras, e de mais uma inédita.
Ele parte
novamente em busca de Polina, que o recusa, volta para casa e vai ditar uma
nova obra O Jogador, a uma estenógrafa de 20 anos de idade, uma moça modesta,
moderna, medianamente instruída e inteligente, que cuidará de assegurar, a esse
homem, o ambiente e as condições necessárias para realizar os seus mais belos
trabalhos. As dívidas o levam para fora da Rússia por quatro anos, passados em diversos
países da Europa, entre cassinos e obras literárias. Volta à Rússia, com dois
filhos, e em 1881, aos 60 anos, com enfisema pulmonar e ainda com ataques de
epilepsia, morre, deixando um grandioso acervo literário para as gerações
póstumas.
Por Claudio Castoriadis
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Claudio Castoriadis |
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Um doce ou uma solidão?
Neste pequeno espaço, de puro mistério, onde meu imaginário se contorce
de amargura, sem a sobrecarga das minhas obrigações cotidianas, me debruço na
mais sutil centelha de memória sem me aprisionar em meus devaneios egoístas e
enfurecidos em busca de um sentimento último de consolo. Gostaria de, numa
sequência de curtas lembranças explicar o motivo de minha amargura. Há uma
semana e pouca horas eu fiz uma descoberta sobre minha pessoa que me abalou
como nunca antes. Que descoberta seria essa vocês devem está se perguntando-, Eu
sou um homem egoísta, um ser doente, desprezível, por que não afirmar o mais
ignóbil de todos?... Sou um homem cruel. Sou um homem desagradável. E acreditem,
isso me pesa, uma sobrecarga tal qual raramente me deparei em todo momento
insólito da minha existência, mais real e mais verossímil de todas que posso
suportar. Estou perturbado, há horas, nessa pequena sala, eu só faço andar e
tentar esclarecer isso tudo para mim mesmo. É só o que faço andar e fumar um
cigarro após o outro, andar, andar, andar...Santo Deus! Refrigera minha alma
por que todo o meu horror remete justamente no fato de compreender tudo! Sou péssimo
com palavras, ainda mais quando estou tão aflito. Porém, tenho que falar nem
que seja da maneira mais medíocre possível. Eu sei que para muitos esse fato
pode parecer ridículo, assim como sei que um sorriso desdenhoso se estampa no
rosto de muita gente que já me conhece. Pois bem, eis minha história.
Exatamente umas duas semanas de
tardinha onde eu costumava ir passear com meu cão até o velho lago em lugar
bastante frequentado por pessoas idosas e mulheres desocupadas- acho que meu
sentimento por elas são os mais negativos possíveis- todas almas abortadas, mal
amadas. Pessoas ridículas. Enfim, foi nesse lugar peculiar que recebi uma triste
noticia; Um funcionário meu acabara de se matar. Ele havia saltado nas aguas
cobertas pela ponte Golden Gate, que corta a baía de São Francisco, apesar de
ser um grande ponto turístico americano, é também o lugar do mundo com o maior
índice de suicídios. Sua rotina mórbida revela uma sinistra parte do
cartão-postal que eu não conhecia até o momento. Além do movimento de carros,
pedestres e turistas, pessoas saltam dela em busca do desconhecido. Para mim
poderia ser apenas mais um caso no meio de tantas estatísticas. Mas naquele dia
se trava de um funcionário da minha empresa. A Golden Gate Bridge é a ponte
localizada no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, que liga a cidade de
São Francisco a Sausalito, na região metropolitana de São Francisco, sobre o
estreito de Golden Gate. Principal cartão postal da cidade, uma das mais conhecidas
construções dos Estados Unidos, e é considerada uma das Sete maravilhas do
Mundo Moderno pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis. É uma obra de arte,
não foi a toa que resolvi instalar minha empresa imobiliária na região
metropolitana de são Francisco. Perdão... Minhas estratégias administrativas
não vêm ao caso e sim o fato de um funcionário da minha empresa ter tirado de forma tão estupida a própria vida. Mas sabe a maior irônia nisso tudo? A depauperação
do meu angustiante dispêndio? Eu não
dava a mínima para ele. Sim! Exatamente. Minha relação com ele era apenas de um
casual “bom dia” e “tenha um ótimo dia chefe”. Certa vez Albert Camus relatou
que o suicídio era um problema Filosófico verdadeiramente sério. Foi pensando
nisso e na imagem estética da minha
empresa que fiquei deveras abalado com o caso desse jovem e fui investigar a
vida do mesmo para tentar entender uma tragédia tão delicada e controversa.
O que mais me deixava intrigado era que ele não demonstrava transparecer
qualquer melancolia. Era um funcionário exemplar- era o primeiro a chegar e o
último a sair. Ganhava o suficiente para uma vida confortável. Era casado,
tinha uma bela esposa e dois filhos um garoto de que já passava dos sete anos e
uma menina recém nascida. Obtive essa informação através de uma outra funcionaria
minha que se dizia única amiga dele. Eu até tentei manter contato com a sua
esposa, mas não foi possível ela mudou de cidade depois do ocorrido. Mas eu não
entendo, geralmente, os casos de suicídio são marcados por um traço peculiar: a
solidão. Ele não era só. Era agraciado por uma linda família. Me sinto curvado
por um peso e sentimento de covardia. Estou sobrecarregado. Algo poderia ter sido
feito? Foi algo que falei? Afinal sou um homem de palavras desumanas com meus funcionários;
algum tipo de corte salarial? Não encontro respostas, maldição, maldição... Por
quer estou tão abalado? Pobre criatura. Ele era franzino, loiro, baixo, sempre
desajeitado no trato comigo. Mas quem não ficava perturbado na minha presença? Visto
que eu sou um calhorda, um fraco que tem prazer em humilhar, sim, sou um sádico.
Já está escurecendo, estou sentado aqui há horas. Todos os funcionários já
se foram; quem diria agora o chefe é o último a sair de sua empresa. Chega de arrodeio...
Vou direto ao ponto.
Sabem por que estou assim? Ontem pela manhã assim que cheguei em meu escritório
a mesma funcionaria que era meu único vinculo com ele me relatou algo que me
acertou como uma bofetada no rosto. Foram exatamente essas suas palavras: “o senhor lembra que na mesa dele sempre
tinha doces espalhados entre pilhas de papeis? E que geralmente eram seis? Todo
santo dia ele repetia esse ritual, chegava cedinho, dava bom dia há todos ao
seu redor e tirava do bolço um punhado de doces. Como amiga eu tive a
curiosidade de perguntar por que tal extravagância. E por quer tinha que ser
sempre seis doces. Foi então que ele confessou baixinho no meu ombro: “na verdade
minha estimada amiga sempre compro nove balas antes de vim ao trabalho sabe por
quê? É minha forma de reconhecer as pessoas que admiro... três deixo com minha família,
uma guardo pro nosso chefe e as demais distribuo entre vocês” Por falar
nisso, ele sempre voltava com um doce pra casa. Ainda tenho um aqui, na minha
bolça, o senhor quer? – não obrigado senhorita guarde. Acredite é o mais sensato.
"em memória de todas as almas solitárias"
"A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade"
"A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade"
-Nietzsche
Por Claudio Castoriadis
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