quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mario Lago - 1911-2002



 Arrebatar os sentimentos mais ternos da essência humana não ficou pra qualquer um. Nesse sentido foi com maestria que o grandioso Mario Lago cativou plateias do país inteiro.  Um dos maiores nomes da cultura brasileira e um dos personagens mais queridos da televisão, o ator poeta, mago das palavras e dono de versos e composições ontológicas Mario Lago construiu sua sólida carreira artística em vários campos da arte.  Quem não lembra do refrão “aí, que saudades de Amélia”? Música de sua autoria que estourou no ano de 1933. Pois é, como se não bastasse seu enorme talento os trabalhos do poeta foi imortalizado na voz de alguns dos maiores artistas brasileiros da época desde Carmem Miranda ao tão popular Roberto Carlos. Gravou a primeira música em parceria com Custódio Mesquita, em 1935.  Investindo na carreira de ator obteve seu merecido êxito. Começou com a Companhia Joracy Camargo indo logo em seguida para São Paulo atuar com Oduvaldo Viana. O resultado dessa mágica aventura? Chegou a ser um dos mais famosos galãs do teatro de comédia brasileiro nos anos 1940. A essas atividades incorporou as de radialista e ativista político. Trabalhou no rádio-teatro com Dias Gomes, que já despontava como autor de peças teatrais. Por sua atuação política de esquerda, os dois eram perseguidos pela força política. Depois da temporada paulista, Mário Lago voltou para o Rio de Janeiro. Foi trabalhar na Rádio Nacional, líder de audiência na década de 1940. A chamada "época de ouro" do rádio brasileiro. Na disputa pelos ouvintes, novos programas eram trabalhados, e foi assim com o radioteatro e a radionovela, lançada pela Nacional em 1942. Ali Mário trabalhou de forma frenética, escrevendo, dirigindo e atuando com extrema competência até 1948, quando foi repetir seu padrão de múltiplos talentos na Rádio Mayrink Veiga. Mário foi contratado e atuou por mais de 30 anos na Globo - em mais de 30 telenovelas -, e recebeu várias vezes o prêmio de Melhor Ator. Também foi ator de cinema, em mais de 20 filmes. Representou no teatro até o fim da sua longa vida - subiu pela última vez no palco em janeiro de 2002. Morreu no dia 30 de maio de 2002, aos noventa anos de idade, em sua casa, na Zona Sul do Rio de Janeiro, de enfisema pulmonar. "Fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele". Assim falou o Mario.


Por Claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Niklas Luhmann , sistemas , Ciências jurídicas .


Durante muito tempo, atrelada a reflexão jurídica pela sombra positivista, pregou-se a possibilidade de um possível parentesco entre método das ciências naturais com as ciências humanas, vale lembrar que nessas últimas estão incluídas as ciências jurídicas. O resultado dessa ambição foi um prejudicial raciocínio que tornou viável o pensamento absurdo de que a estrutura e a lógica jurídica obedecem ao mesmo grau de certeza dos saberes naturais, que estruturam a partir das categorias de causa e efeito. Eu particularmente acho uma estupidez pensar dessa forma por que dessa maneira retiramos das ciências jurídicas sua principal virtude: seu caráter de ciência valorativa. E, por conseguinte pensar de tal forma anacrônica é adentrar em uma esfera desumana constantemente atrofiando a possibilidade de revisão de suas conclusões. A postura jurídica deve ser independente de preceitos morais e dos caminhos tortuosos da sociedade.

Estamos lidando com pessoas. Bem ou mal, é de pessoas que estamos tratando não de um rebanho ou animal selvagem, temos valores. Onde há cultura há valor, e onde á valor existe uma dimensão rica de pontos de vistas axiológicos. Em suma, estamos tratando de um vasto sistema. Em última análise, a função do direito é justamente reduzir a complexidade do ambiente. A ciência jurídica como sistema deve se adaptar a uma dupla complexidade: a do ambiente e a dele mesmo. Se o direito não se preocupasse em diminuir a complexidade do ambiente, selecionados elementos, e a sua própria, autodiferenciando-se, seria diluído no mais rustico caos, por não conseguir lidar com o excesso de possibilidade. Os textos de Niklas Luhmann sobre direito por exemplo, são ramificações que provem da base comum de sua teoria. Em um contexto jurídico, a interdisciplinidade é um exemplo da irreverência de luhmann. Ou seja o empréstimo ou a troca de metodologia e fontes de uma disciplina para outra, assim como física nuclear instrumentalizada a medicina, a lógica formal é aplicada ao Direito etc. Mais só um instante, não estamos falando em ciência jurídica? Sim claro; mas não podemos deixar perder de vista que tal ciência trata de valores e os valores implica em um sistema sociológico. Por isso, ao invés de limitar a fundamentação de suas teses aos clássicos da sociologia, Luhmann utilizou conceitos oriundos de outras áreas, como a biologia, e de tecnologias inovadoras, como a cibernética e a neurofisiologia. Concluindo, falar em ciência jurídica é falar é um sistema que lida com valores visto que, entre as ciências humanas ou sociais a ciência jurídica é normativa e aplicada. Sendo especifica por se voltar para preocupações não naturalísticas, mais valorativas. Valores que para tanto os tradicionais conceitos da sociologia foram fundamentais para o iluminismo, pertencendo atualmente ao que Luhmann chamou de velho pensamento europeu, que já não conseguem resolver os problemas da sociedade contemporânea. Qual seria a solução então? Pergunta contundente- Seria necessário um iluminismo do iluminismo. Com novos conceitos adequados à complexidade da sociedade moderna. Pois bem, a sociedade complexa tem como características o indeterminismo, a entropia, a incerteza, tendo como resultado o caos. Luhmann se preocupou com a complexidade do mundo e buscou com sua teoria como é possível nascer a ordem do caos. Não seria esse o mais nobre sentido das ciências jurídicas? Sempre aberta voltada para os valores humanos que se transformam constantemente? Enfim, não estou provocando nem inflamando ideias. Apenas deixei minha opinião no meio de um grande sistema chamado código penal.
Por Claudio Castoriadis

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

Um pouco de Franz Kafka : A Ponte

Eu era rígido e frio, eu era uma ponte; estendido sobre um precipício eu estava. Aquém estavam as pontas dos pés, além, as mãos, encravadas; no lôdo quebradiço mordi, firmando-me. As pontas da minha casaca ondeavam aos meus lados. No fundo rumorejava o gelado arroio das trutas. Nenhum turista se extraviava até estas alturas intransitáveis, a ponte não figurava ainda nos mapas. Assim jazia eu e esperava; devia esperar. Nenhuma ponte que tenha sido construída alguma vez, pode deixar de ser ponte sem destruir-me. Foi certa vez, para o entardecer – se foi o primeiro, se foi o milésimo, não o sei – meus pensamentos andavam sempre confusos, giravam, sempre em círculo. Para o entardecer, no verão, obscuramente murmurava o arroio, quando ouvi o passo de um homem. A mim, a mim. Estira-te, ponte, coloca-te em posição, viga órfã de balaústres, sustém aquele que te foi confiado. Nivela imperceptivelmente a incerteza de seu passo, mas se cambaleia, dá-te a conhecer e, como um deus da montanha, atira-o à terra firme. Veio, golpeou-me com a ponta férrea de seu bastão, depois ergueu com ela as pontas de minha casaca e arrumou-as sôbre mim. Com a ponta andou entre meu cabelo emaranhado e a deixou longo tempo ali dentro, olhando provavelmente com olhos selvagens ao seu redor. Mas então – quando eu sonhava atrás dele sobre montanhas e vales – saltou, caindo com ambos os pés na metade de meu corpo. Estremeci-me em meio da dor selvagem, ignorante de tudo o mais. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um assaltante de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E voltei-me para vê-lo. A ponta de volta! Não me voltara ainda, e já me precipitava, precipitava-me e já estava dilacerado e varado nos pontiagudos calhaus que sempre me tinham olhado tão aprazilvelmente da água veloz.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Franz Kafka e suas deformações




Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883, cidade que durante todos os 40 anos da vida do escritor pertenceu à monarquia austro-húngara. Filho de um abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judia, a tcheca e a alemã. Formado em direito, ele fez parte, junto com outros escritores da época, da chamada Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico. Suas obras também conseguem formalizar e abrigar leituras totalmente relacionadas com a condição do ser humano moderno. O olhar kafkiano é direcionado para coisas como a opressão burocrática das instituições, a "justiça" e a fragilidade do homem comum frente a problemas cotidianos. As obras mais famosas de Kafka foram escritas entre 1913 e 1921, são elas: "A Metamorfose", "O Processo", "OCastelo", "O Foguista" (que é na verdade o primeiro capítulo de "América"), "A Sentença" e "O Artista da Fome. 

As obras de Kafka nos perturbam profundamente. Uma leitura delicada, sombria, recheada por uma terminologia peculiar. Conhecer seus personagens requer, preliminarmente, um passeio pelo lado mais obscuro da vida. Basta uma breve olhada nas suas contundentes Histórias que adentramos em seu rico universo assegurando uma interpretação quase plena de sua obra. Para ler Kafka são necessários alguns cuidados especiais, entre eles, contar com uma certa atenção à maneira com que toda obra se constrói, principalmente seus períodos; estar sempre consciente de que toda a criação literária de Kafka foi dolorida, feita com o intuito de não parecer bonita, de ser, principalmente, uma obra baseada na dor; ficar atento a todos os detalhes do texto, pois em Kafka, até as imperfeições são propositais, ou seja, segundo Theodor Adorno, até "as deformações em Kafka são precisas" o que justifica a constante ambiguidade, o artifício do simbolismo e os contrastes irônicos. Durante sua vida, Kafka nunca conseguiu atingir grande fama com seus livros, porém, algum tempo depois de sua morte, no dia 3 de junho de 1924, em um sanatório perto de Viena, onde internara-se por causa de sua tuberculose, sua obra literária atingiria enorme influência sobre as pessoas, passando a ser cultuada por leitores de quase todo o planeta.Franz Kafka e suas deformações

sábado, 26 de novembro de 2011

E O SONHO VAI PARAR NO TEATRO...


 Sinopse



Sonho de um Homem Ridículo conta a história de um personagem solitário de São Petersburgo em pleno século XIX. Na época, a cidade era o centro de toda a Rússia, e como em toda grande cidade, os homens são introspectivos e mais voltados para si mesmos. É um personagem fantástico, pois com a introspecção a alma aflora de maneira exuberante, define Frateschi.

O personagem, um funcionário público, sabe que é ridículo desde a infância. Motivo de desprezo e zombaria de seus semelhantes,já não tem mais nenhum interesse na continuação da sua existência. Num dia inútil como todos os outros, em que mais uma vez esperava ter encontrado o momento de meter uma bala na cabeça, foi abordado por uma menina que clamava por ajuda. Ele não só recusa o apoio à criança, como a espanta aos berros.

Ao voltar para casa, não consegue dar fim a sua existência. Adormece e sonha com a sua própria morte, com seu enterro e com uma vida após a morte. Viaja pelo espaço e por desconhecidas esferas. Experimenta a terra não manchada pelo pecado original e conhece os homens na plenitude da sabedoria e equilíbrio. Ele acredita que aquilo tudo foi real, pois as coisas terríveis que sucederam não poderiam ter sido engendradas num sonho.

Ficha Técnica

Texto  Fiódor Dostoiévski
Dramaturgia e interpretação   Celso Frateschi.
Direção Roberto Lage
Cenário e Figurino Sylvia Moreira
Luz  Wagner Freire
Trilha Sonora  Aline Meyer
Imagens  Elisa Gomes






Suspiros de um solitário : "O Sonho de um Homem Ridículo"

Quem se atreveria a escutar os suspiros
Dos solitários e dos extraviados?
Ai, concedei-me a loucura, poderes divinos!
A loucura, para que, ao fim, acabe por crer
Em mim mesmo!

(Friedrich Nietzsche)

Creio que são poucas as pessoas que ao se deparar com as obras do Filósofo Nietzsche não se deixa levar pela sua bela e conturbada trajetória. Marcado por uma vida errante própria de um génio solitário suas palavras arrebatam as mais diversas almas pelo seu encanto e melancolia. Sua solidão grita em nosso imaginário da mesma forma que martelava seu nobre espírito. Com isso, faço das suas palavras inflamadas de solidão um convite para o mundo de um belo conto cujo título "O Sonho de um Homem Ridículo", de certo modo retrata o sentimento daqueles angustiados heróis que tanto suscitam exuberância em nossos corações. Narrado em primeira pessoa, "O Sonho de um Homem Ridículo", escrito por Dostoiévski, centra-se no relato feito por um sujeito acerca das suas amarguras e neuroses. Exaurido por conflitos teóricos durante sua trajetória intelectual o mesmo reconhece sua condição medíocre. Assim como em todas suas obras essa trama traz um forte apelo emocional cravando na alma dos seus leitores questionamentos existenciais e contundentes. De forma peculiar e intensa esse conto traz à tona toda a introspecção de um personagem dramático desorientado pelo racionalismo e moralismo que desde sempre lhe tortura. Com o decorrer do texto nos deparamos no centro de um monólogo de tirar o fôlego onde um sujeito no auge do desespero decide tirar a própria vida. Obra do acaso ou não durante suas andanças pelas ruas de São Petersburgo, o narrador olha para o céu e vê uma estrela solitária, pouco depois, uma menina vem correndo na direção dele. O narrador supõe que algo está errado com a mãe da menina, ainda assim a garota é deixada de lado, e solitário sujeito finda em seu apartamento amparado apenas por seus dispêndios. Um dos pontos auto da narrativa acontece especificamente quando o conturbado narrador se deixa tomar pelo sentimento de compaixão para com o sofrimento de uma pobre garotinha; o que possivelmente lhe traz reflexões sobre sua ligação afetiva com a humanidade, retardando a ideia de cometer suicídio. Numa noite desconfortante e sombria tal como a sua existência, ele irá adormecer em sua velha poltrona, e irá sonhar com uma espécie de “paraíso”, mas um paraíso que é na Terra e não em outro mundo. Com isso, o texto ganha um novo sentido onde o narrador-protagonista, tem uma revelação através de um sonho utópico. Mediante magnifico sonho o homem ridículo é agraciado por uma nova visão do instinto humano. O que ele vê são homens e animais convivendo pacificamente, numa terra onde todos se amam e compreendem a vida e a morte em perfeita harmonia. Os vivos não choram diante dos mortos, se alegram; e os mortos não lamentam, partem amando. Ele se convence de uma verdade exuberante: Pois eu vi a verdade, sei-o; os homens podem tornar-se belos e felizes sem que, para isso, tenham de deixar de viver na Terra. Eu não quero nem posso crer que a maldade seja o estado normal do homem. Mas eles troçam desta minha crença. Não acreditam em mim! Eu vi a verdade!  Certo dia, o narrador começa a ensinar os outros habitantes como cultivar novos valores. Isto gera a corrupção do paraíso: Indiferenças, mentiras, orgulho e um diluvio de outros pecados. Logo, o primeiro assassinato ocorre. As divisões são feitas, as guerras são travadas a discórdia é propagada. A ciência sufoca os valores mais nobres, o conhecimento se personifica como uma pérfida ferida e os membros da antiga utopia são incapazes de lembrar a sua forma de vida anterior- Esse momento da narrativa é incisivo por abrir um leque de possibilidades para se pensar a natureza humana em sua complexidade e morbidez. O narrador então acorda. Agora agraciado por um novo sentido, completamente transbordando de alegria com a vida. Ele promete passar o resto de seus dias pregando a verdade que ele viu. Sua principal lição? É a de amar os outros: e desde então anuncio a boa nova!...Amo-os a todos, e mais que a ninguém, aqueles que riem de mim. Por amo mais a estes? Não sei, nem tampouco posso explica-lo, mas é assim. Dizem que estou enganado...

Boa leitura!!!

Por Claudio Castoriadis 

Veja também o curta : O sonho de um homem rídiculo
Direção: Aleksandr Petrov
Roteiro: Alexandr Petrov, baseado na obra de Fiódor Dostoiévski
Título Original: Son smeshnogo cheloveka
Origem: Rússia
Duração: 20 min
Idioma: Russo
Legendas: Português

http://www.youtube.com/watch?v=LZZPMxxqZPo&noredirect=1
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

UMA CRIATURA DÓCIL SEGUNDO DOSTOIEVSKI


É indubitável a importância de Dostoievski na literatura mundial. Não por acaso, o escritor russo é universalmente conhecido como um dos maiores romancistas que já existiram. Um grande número de escritores se inspirou no trabalho dele e utilizou um ou outro aspecto do seu estilo para suas próprias finalidades. O escritor russo renovou o gênero literário, o de romance, ao ter criado romance polifônico, ou seja, seus personagens se exteriorizam com vida própria. Essa é a grande cartada do autor: não criar escravos do narrador, mas gente livre, capaz de contradizer o próprio autor.

 Em sua edição de 2 de outubro de 1876, o jornal Golos (A voz), de São Petersburgo, estampava a notícia do suicídio de uma certa Maria Boríssova, jovem costureira moscovita que  viera tentar a sorte na capital do império. Sozinha na cidade grande, ela caíra na miséria e, por desespero, jogara-se do alto de um prédio, abraçada a um ícone da Virgem. A tragédia de imediato chama a atenção de Dostoievski. O escritor, que já publicara três de seus romances – Crime e castigo saiu em 1866, O idiota foi publicado em 1868, e 1872 é o ano de Os demônios –, dedicava-se então ao Diário de um escritor, uma coluna de sucesso no jornal Grazhdanin (O cidadão) que logo se tornou uma revista mensal autônoma, dirigida pelo próprio Dostoievski. No número de outubro de 1876, sobre a tragédia ele comenta nos seguintes termos: “Durante muito tempo não conseguimos deixar de pensar em certas coisas, por mais simples que pareçam, elas como que nos perseguem, e até nos parece então que temos culpa dessas coisas. Essa alma doce e humilde que destruiu a si mesma forçosamente tortura o pensamento.” Compara ainda o caso de Maria Boríssova ao de Liza, filha do revolucionário Aleksandr Herzen, que pouco antes também cometera suicídio. Esta última deixara um bilhete de despedida que parece “frívolo” ao escritor: a jovem estipulava as providências a serem tomadas para um enterro “chique”. Da notícia de jornal, Dostoievski retém particularmente um detalhe concreto, que deve ter atiçado sua imaginação de romancista: “Essa imagem nas mãos é um traço estranho e ainda desconhecido nos suicidas!”. Prova disso é que, no mês seguinte, o Diário de um escritor é inteiramente ocupado pela novela Uma criatura dócil, em que o artigo de jornal se transforma em uma “história fantástica”.  Com grande amor e detalhes precisos nesse pequeno ensaio o mestre russo desenvolve um estudo sobre a opressão. A trama que de imediato aparenta ser simples trata sobre uma mulher em busca progressiva de liberdade, e que afinal é envenenada por desigualdades de sexo, idade e classe. A novela narra a trágica trajetória de seu casamento, pontuado de orgulho e humilhação. Um tiro certeiro na alma humana e no moralismo tirano de sua época. Por isso, perguntas pesam no decorrer da obra: até que ponto estamos cegos por nossas neuroses? Qual o verdadeiro papel da mulher na sociedade? Nossas virtudes não seriam vícios disfarçados? Quando floresce na alma humana a ideia de suicídio? Enfim, Uma criatura dócil é mais uma exuberante narrativa do final da vida de Dostoievski que vale a pena preencher nossa biblioteca.

"Uma criatura dócil", Fiódor Dostoiévski, tradução de Fátima bianchi, editora Cosac & Naify, 1a. edição (2003) brochura 13.5x20cm, 96 págs., ISBN: 978-85-7503-197-X

Por Claudio Castoriadis

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O romance o idiota vai ao teatro e as telas


A peça foi uma das três finalistas do Prêmio BRAVO 2010 como Melhor Espetáculo e recebeu o Prêmio APCA de Teatro 2010 na categoria Prêmio Especial da Crítica pela realização do projeto. 

Direção: Cibele Forjaz
Texto: Fiódor Dostoiévski
Trilha Sonora: Otávio Ortega
Elenco: Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luís Mármora, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado, Vanderlei Bernardino
Indicação: Maiores de 14 anos

Conlheça também a Minissérie russa - "O Idiota"

confira o trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=ChZ9P3-8snU&feature=related

domingo, 20 de novembro de 2011

“Meio” bebo


Eu acordo meio dia
De ressaca meio tonto
Vou ao banheiro meio apressado
Tomo um café meio zonzo

No trabalho meio expediente
Eu cheguei meio atrasado
O meu chefe meio nervoso
Ameaça meio salário

Chego em casa meio cansado
Mas logo saio meia noite
Vou pra festa meio liso
Encontro um amigo meio doido

Já me encontro meio lento
Meu amigo meio que cambaleia
Tomo pinga meio litro
E beijo uma nega meio feia

Com altura meio baixa
Uma cintura meio gorda
Olhando bem é meio corcunda
Parece até meio doida

O meu amigo é meio culpado
Tomei sozinho meio litro
O espertinho tomou meio copo
E eu fiquei com todo o prejuízo.

Por Claudio Castoriadis

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Mestre e o idiota: Dostoievski

O Idiota é sem dúvidas uma das obras-primas do autor russo Fiódor Dostoievski, um romance que explora uma perspectiva especificamente existencialista. Livro criado na cidade de Florença, entre 1867 e 1868, ao longo de quatro meses. Vale lembrar, que ao trabalhar nesse romance o escritor foi profundamente influenciado pela clássica novela de Cervantes, Dom Quixote. Há várias semelhanças entre o herói espanhol e o príncipe russo Míchkin. Mesmo o autor russo não gostando da roupagem cômica explorada na novela de Cervantes. Publicado em 1869, este volume perturbador foi, na época, sucesso de crítica. Nele Dostoievski narra a história de um príncipe herdeiro que, por alguns anos, permanece na Suíça para se recuperar de uma enfermidade conhecida como idiotia. Ao se considerar curado ele retorna para reivindicar o trono da Rússia. Nesta mesma ocasião ele conhece a inconstante e imprevisível  Aglaia, uma das filhas do casal Epantchiná, com quem ele tem remoto parentesco, e passa a nutrir pela jovem uma profunda afeição. O príncipe, que também é epilético, é a encarnação da bondade, da sinceridade, da fantasia e da inocência, qualidades que muitas vezes são confundidas com patetice e estupidez - Não se surpreenda com qualquer semelhança com a figura do Jesus Cristo.
Na verdade, porém, Míchkin é mais perceptivo, sagaz e inteligente que muitos daqueles que o injuriam e perseguem. Ele tem o poder de vislumbrar o interior das pessoas, de conhecer a essência dos que o cercam. Assim, o príncipe conhece muito bem cada ser a sua volta, embora ninguém sequer desconfie disso. O protagonista deste romance, além de ser o último de sua linhagem familiar, parece também ser o único remanescente de uma Rússia mais verdadeira e correta, idealizada, de certa forma, pelo autor. Desencantado com seu país, ele retrata nas páginas desta obra momentos intensos e terríveis. Sucedem-se convulsivamente episódios nos quais o dote combinado em uma transação de noivado é queimado em uma lareira; uma crise convulsiva no meio da escada de um hotel causa profunda confusão; uma mal sucedida cena de suicídio se desenrola publicamente; um homicídio inesperado choca os leitores. São atos dramáticos como estes que compõem O Idiota. E, como sempre nas criações de Dostoievski, estão presentes questões que assombram sua existência, tais como os surtos convulsivos, a crise financeira, autodestruição, a humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio e o vício nos jogos. Ele também enfoca, na tentativa de resgate o passado de sua terra natal, as problemáticas do nacionalismo típico da Rússia e da religião católica na região eslava. O escritor russo inflama sua obra com precisas interpretações de natureza psicológica, narrativas inquietantes e humor corrosivo. Sua visão de mundo e seus ideais delineiam cada página de O Idiota, bem como os lances de sua própria existência, como a epilepsia que o assediou por toda a vida e as mulheres que ele amou. Enfim, Fiódor Dostoievski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa, sendo considerado referência para o existencialismo: "O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoievsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo." JEAN PAUL SARTRE. O reconhecimento definitivo de Dostoievski como escritor universal surge somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances, que além dessa belíssima obra O idiota, lembremo-nos também de Crime e Castigo e seu último romance, Os Irmãos Karamázov, que foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O mestre cartola e sua poesia!

Quem gosta de um bom samba com certeza já ouviu falar do ilustre Angenor de Oliveira (1908-1980) mais conhecido como o mestre Cartola. Considerado por músicos como Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola como maior sambista de todos os tempos. Cartola não só fundou a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, como lhe deu nome e as cores verde e rosa (para quem contrariava as cores, ele respondia: "Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor, como o amor pode não combinar com a esperança?"). Mestre do lirismo e da paixão, cartola foi gravado pelos grandes cantores da década de 30, infelizmente ele desapareceu e somente no final década de 50 foi encontrado pelo cronista Sérgio Porto trabalhando como lavador de carros.  Ele sua esposa Zica fundaram na década de 60 o bar Zicartola no centro do Rio de Janeiro, que foi um pólo inflamado pelo samba e onde surgiram vários talentos. Somente aos 65 anos conseguiu gravar seu primeiro disco. Seus dois primeiros discos gravados por Marcus Pereira são marcos da música brasileira e obrigatórios na discoteca de qualquer um que goste samba. É autor de sambas imortais como O Mundo é um Moinho, As Rosas não Falam e Autonomia.
Por Claudio Castoriadis

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vizinhança maldita

Toc, Toc...


_Quem é?
_É a senhora morte
_ Sim, claro! O que deseja?
_Seu último suspiro de vida e sua alma
_Sei tudo bem. Olha, só tenho uma alma, mas posso emprestar, vai demorar muito?
_ Não que é isso imagina... Só o resto da eternidade durante o tempo que em que ela arderá no mármore do inferno. 
_Ok! Olha ver se não demora muito por que só tenho essa
_ Pode deixar vizinho. Grato pela gentileza.

Toc, toc...


_Quem é?
_O lobo mau amigo dos três porquinhos
_ Sim, claro! O que deseja camarada?
- Eu quero soprar tua casa e destruir tudo
_ Sei entendo! Gostaria a até de lhe ser útil senhor lobo, mas só tenho uma porta o resto da casa o terrorista Bin Laden pediu pra derrubar com dois aviões. Ele disse que precisava treinar sabe? Não sobrou pedra sobre pedra da minha casinha. Mas pelo menos ele me deixou essa porta. Assim todo dia posso atender meus adoráveis vizinhos.

                                                                                        
                                                                    Por claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

SARTRE: INFORMAÇÃO E LIBERDADE


‘“Informação” essa é a palavra de ordem que movimenta o mundo. Estamos constantemente surpreendidos por um dilúvio de informações. Somos uma esponja, estamos freneticamente absorvendo tudo que nos cerca, coisas boas e coisas ruins. O mundo já não é o mesmo, os valores estão sempre despencando sobre nossas cabeças, não é fácil acordar todos os dias e bater de frente com a mesma paisagem- fome, miséria, má distribuição de renda, corrupção, desemprego, matança desenfreada dos animais e a poluição do meio ambiente. Tudo isso delineia um mundo que se encontrar longe da perfeição. “Perfeição” conceito que vaga feito um cego na imensidão do absurdo. O mundo pede socorro, será que alguém se importa? Alguém sente falta de um mundo melhor? Será que o sinônimo de homem remete a destruição? Estupidez desnecessária? Nós respiramos e ainda vivemos, isso já é um começo, para enxergar tudo diferente, arriscar métodos e ações. Como? A partir de atos benevolentes vindos de cada um em especial. Como ajudar? O que pode ser feito?  Existiram pessoas, intelectuais que fizeram a diferença. Entre eles podemos citar Sartre.

 

O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) se encontra entre os filósofos mais populares do cenário contemporâneo. Sua obra era conhecida de estudantes, intelectuais, revolucionários e mesmo do público em geral pelo mundo afora. É bem verdade que essa popularidade, singular para um filósofo, devia-se em parte ao comportamento revolucionário de Sartre, porém, não se deve deixar em segundo plano seu papel de porta-voz do existencialismo, que pregava a liberdade última do indivíduo — era a instigante e envolvente "filosofia da ação" que nas mãos de Sartre, tornou-se uma bandeira de luta contra os valores burgueses. Mas o que seria o existencialismo? Ora, o existencialismo ou a filosofia da existência é uma vasta corrente filosófica contemporânea que se afirma na Europa logo após a Primeira Guerra Mundial, se impõe no período entre as duas guerras, se desenvolve, e se expande até tornar-se moda, sobretudo nas duas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Vale lembrar que, a época do existencialismo é época de crise: a crise daquele otimismo romântico que, durante todo o século XIX e a primeira década do século XX, garantia o sentido da história em nome da Razão, do absoluto, da ideia ou da Humanidade, fundamentava valores estáveis e assegurava um progresso certo e incontível; o idealismo, o positivismo e o marxismo são todas filosofias otimistas, que presumem ter captado o princípio da realidade e o sentido progressivo absoluto da história. O existencialismo, por sua vez, considera o homem como ser finito, lançado no mundo e continuamente dilacerado por situações problemáticas ou absurdas.

 A habilidade de Sartre para desenvolver ideias filosóficas e suas implicações não encontrou rivais no século XX, visto que o mesmo escrevia com bastante brilhantismo. Sartre expressou seu pensamento em obras filosóficas e também em romances, em obras dramáticas, em ensaios políticos, porém as primeiras já são suficientes para delinear sua concepção da realidade. Sartre aceita a teoria da intencionalidade de Husserl: conhecer ou ter consciência é sempre ter consciência de alguma coisa, e ter consciência de alguma coisa significa estar diante de uma presença concreta e plena que não é a consciência. A essência do homem não precede sua ação, se o homem se faz justamente.

                                                                                                                                                   Por claudio Castoriadis

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cornelius Castoriadis : As encruzilhadas do labirinto


O Filósofo Castoriadis nasceu em Atenas, em 1922, onde cursou Direito, Economia e Filosofia. Pensador que levou a sério a prática intelectual, cedo se engajou em um marxismo militante que o levou a critica a política do PC grego e a integrar-se nas fileiras do trotskismo. Em 1945, transferiu-se para a França e fundou, quatro anos mais tarde, com Claude Lefort, a revista Socialismo ou Barbárie, que dirigiu até a dissolução em 1966. A revista reunia estudiosos e militantes e possuía inicialmente inspiração marxista. Porém, tal influência é deixada de lado quando a revista passou a tomar uma postura mais autônoma. Frente ao contexto social e politico o marxismo passou a ser mal quisto pela revista, visto que o mesmo era incapaz de fazer face a face, de maneira sofisticada, à novidade e originalidade dos fenômenos contemporâneos. Ainda assim, a inspiração revolucionária será constante, particularmente na obra de Castoriadis, sendo visível um alargamento considerável em tal inspiração.  Crítico do marxismo? Isso é indubitável. Porém, sem deixar de buscar os mesmos ideais. Audacioso, seu pensamento pautado no horizonte de temas aparentemente afastados um do outro, como por exemplo, a psicanálise, a linguagem, a ciência e a economia toma para si os riscos em aventura-se nos labirintos do conhecimento. Cornelius Castoriadis é sem dúvidas, um dos pensadores contemporâneos mais vigorosos. Esclarecedor e provocante suas ideias sobre temas tão intrigantes para nosso contexto político lhe garante o mérito de trazer a luz o importante papel da filosofia na prática cotidiana.

Para os leitores que pretendem adentrar no universo dinâmico do pensamento de Castoriadis uma obra que faz uma sucinta apresentação da complexidade das suas teses é certamente as encruzilhadas do labirinto. Um livro que chama atenção pela versatilidade do autor em lidar com vários temas e projetar os leitores em várias esferas teóricas de modo irreverente e intrigante, porem, de modo eficaz. Uma obra que visa, antes de qualquer coisa, a renovação da reflexão filosófica. Sendo seu maior intento preencher as possíveis lacunas do pensamento ocidental. Vale lembrar, que a leitura é rigorosa e precisa, dispensando um leitor leigo no que se infere aos grandes problemas que o mesmo pretende resolver. O título da obra já é sugestivo, temos que caminhar por arriscadas encruzilhadas terminológicas e persistir de forma coerente por um imenso labirinto imaginário. Alegoria que exprime bem o percurso de um pensamento que tenta estrategicamente pensar o dado das manifestações, nas suas mais audaciosas ocorrências, no seu desenvolvimento. Tudo fruto de um imaginário histórico social determinado.


Por Claudio Castoriadis

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