domingo, 20 de novembro de 2011

“Meio” bebo


Eu acordo meio dia
De ressaca meio tonto
Vou ao banheiro meio apressado
Tomo um café meio zonzo

No trabalho meio expediente
Eu cheguei meio atrasado
O meu chefe meio nervoso
Ameaça meio salário

Chego em casa meio cansado
Mas logo saio meia noite
Vou pra festa meio liso
Encontro um amigo meio doido

Já me encontro meio lento
Meu amigo meio que cambaleia
Tomo pinga meio litro
E beijo uma nega meio feia

Com altura meio baixa
Uma cintura meio gorda
Olhando bem é meio corcunda
Parece até meio doida

O meu amigo é meio culpado
Tomei sozinho meio litro
O espertinho tomou meio copo
E eu fiquei com todo o prejuízo.

Por Claudio Castoriadis

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Mestre e o idiota: Dostoievski

O Idiota é sem dúvidas uma das obras-primas do autor russo Fiódor Dostoievski, um romance que explora uma perspectiva especificamente existencialista. Livro criado na cidade de Florença, entre 1867 e 1868, ao longo de quatro meses. Vale lembrar, que ao trabalhar nesse romance o escritor foi profundamente influenciado pela clássica novela de Cervantes, Dom Quixote. Há várias semelhanças entre o herói espanhol e o príncipe russo Míchkin. Mesmo o autor russo não gostando da roupagem cômica explorada na novela de Cervantes. Publicado em 1869, este volume perturbador foi, na época, sucesso de crítica. Nele Dostoievski narra a história de um príncipe herdeiro que, por alguns anos, permanece na Suíça para se recuperar de uma enfermidade conhecida como idiotia. Ao se considerar curado ele retorna para reivindicar o trono da Rússia. Nesta mesma ocasião ele conhece a inconstante e imprevisível  Aglaia, uma das filhas do casal Epantchiná, com quem ele tem remoto parentesco, e passa a nutrir pela jovem uma profunda afeição. O príncipe, que também é epilético, é a encarnação da bondade, da sinceridade, da fantasia e da inocência, qualidades que muitas vezes são confundidas com patetice e estupidez - Não se surpreenda com qualquer semelhança com a figura do Jesus Cristo.
Na verdade, porém, Míchkin é mais perceptivo, sagaz e inteligente que muitos daqueles que o injuriam e perseguem. Ele tem o poder de vislumbrar o interior das pessoas, de conhecer a essência dos que o cercam. Assim, o príncipe conhece muito bem cada ser a sua volta, embora ninguém sequer desconfie disso. O protagonista deste romance, além de ser o último de sua linhagem familiar, parece também ser o único remanescente de uma Rússia mais verdadeira e correta, idealizada, de certa forma, pelo autor. Desencantado com seu país, ele retrata nas páginas desta obra momentos intensos e terríveis. Sucedem-se convulsivamente episódios nos quais o dote combinado em uma transação de noivado é queimado em uma lareira; uma crise convulsiva no meio da escada de um hotel causa profunda confusão; uma mal sucedida cena de suicídio se desenrola publicamente; um homicídio inesperado choca os leitores. São atos dramáticos como estes que compõem O Idiota. E, como sempre nas criações de Dostoievski, estão presentes questões que assombram sua existência, tais como os surtos convulsivos, a crise financeira, autodestruição, a humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio e o vício nos jogos. Ele também enfoca, na tentativa de resgate o passado de sua terra natal, as problemáticas do nacionalismo típico da Rússia e da religião católica na região eslava. O escritor russo inflama sua obra com precisas interpretações de natureza psicológica, narrativas inquietantes e humor corrosivo. Sua visão de mundo e seus ideais delineiam cada página de O Idiota, bem como os lances de sua própria existência, como a epilepsia que o assediou por toda a vida e as mulheres que ele amou. Enfim, Fiódor Dostoievski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa, sendo considerado referência para o existencialismo: "O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoievsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo." JEAN PAUL SARTRE. O reconhecimento definitivo de Dostoievski como escritor universal surge somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances, que além dessa belíssima obra O idiota, lembremo-nos também de Crime e Castigo e seu último romance, Os Irmãos Karamázov, que foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O mestre cartola e sua poesia!

Quem gosta de um bom samba com certeza já ouviu falar do ilustre Angenor de Oliveira (1908-1980) mais conhecido como o mestre Cartola. Considerado por músicos como Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola como maior sambista de todos os tempos. Cartola não só fundou a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, como lhe deu nome e as cores verde e rosa (para quem contrariava as cores, ele respondia: "Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor, como o amor pode não combinar com a esperança?"). Mestre do lirismo e da paixão, cartola foi gravado pelos grandes cantores da década de 30, infelizmente ele desapareceu e somente no final década de 50 foi encontrado pelo cronista Sérgio Porto trabalhando como lavador de carros.  Ele sua esposa Zica fundaram na década de 60 o bar Zicartola no centro do Rio de Janeiro, que foi um pólo inflamado pelo samba e onde surgiram vários talentos. Somente aos 65 anos conseguiu gravar seu primeiro disco. Seus dois primeiros discos gravados por Marcus Pereira são marcos da música brasileira e obrigatórios na discoteca de qualquer um que goste samba. É autor de sambas imortais como O Mundo é um Moinho, As Rosas não Falam e Autonomia.
Por Claudio Castoriadis

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vizinhança maldita

Toc, Toc...


_Quem é?
_É a senhora morte
_ Sim, claro! O que deseja?
_Seu último suspiro de vida e sua alma
_Sei tudo bem. Olha, só tenho uma alma, mas posso emprestar, vai demorar muito?
_ Não que é isso imagina... Só o resto da eternidade durante o tempo que em que ela arderá no mármore do inferno. 
_Ok! Olha ver se não demora muito por que só tenho essa
_ Pode deixar vizinho. Grato pela gentileza.

Toc, toc...


_Quem é?
_O lobo mau amigo dos três porquinhos
_ Sim, claro! O que deseja camarada?
- Eu quero soprar tua casa e destruir tudo
_ Sei entendo! Gostaria a até de lhe ser útil senhor lobo, mas só tenho uma porta o resto da casa o terrorista Bin Laden pediu pra derrubar com dois aviões. Ele disse que precisava treinar sabe? Não sobrou pedra sobre pedra da minha casinha. Mas pelo menos ele me deixou essa porta. Assim todo dia posso atender meus adoráveis vizinhos.

                                                                                        
                                                                    Por claudio Castoriadis
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

SARTRE: INFORMAÇÃO E LIBERDADE


‘“Informação” essa é a palavra de ordem que movimenta o mundo. Estamos constantemente surpreendidos por um dilúvio de informações. Somos uma esponja, estamos freneticamente absorvendo tudo que nos cerca, coisas boas e coisas ruins. O mundo já não é o mesmo, os valores estão sempre despencando sobre nossas cabeças, não é fácil acordar todos os dias e bater de frente com a mesma paisagem- fome, miséria, má distribuição de renda, corrupção, desemprego, matança desenfreada dos animais e a poluição do meio ambiente. Tudo isso delineia um mundo que se encontrar longe da perfeição. “Perfeição” conceito que vaga feito um cego na imensidão do absurdo. O mundo pede socorro, será que alguém se importa? Alguém sente falta de um mundo melhor? Será que o sinônimo de homem remete a destruição? Estupidez desnecessária? Nós respiramos e ainda vivemos, isso já é um começo, para enxergar tudo diferente, arriscar métodos e ações. Como? A partir de atos benevolentes vindos de cada um em especial. Como ajudar? O que pode ser feito?  Existiram pessoas, intelectuais que fizeram a diferença. Entre eles podemos citar Sartre.

 

O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) se encontra entre os filósofos mais populares do cenário contemporâneo. Sua obra era conhecida de estudantes, intelectuais, revolucionários e mesmo do público em geral pelo mundo afora. É bem verdade que essa popularidade, singular para um filósofo, devia-se em parte ao comportamento revolucionário de Sartre, porém, não se deve deixar em segundo plano seu papel de porta-voz do existencialismo, que pregava a liberdade última do indivíduo — era a instigante e envolvente "filosofia da ação" que nas mãos de Sartre, tornou-se uma bandeira de luta contra os valores burgueses. Mas o que seria o existencialismo? Ora, o existencialismo ou a filosofia da existência é uma vasta corrente filosófica contemporânea que se afirma na Europa logo após a Primeira Guerra Mundial, se impõe no período entre as duas guerras, se desenvolve, e se expande até tornar-se moda, sobretudo nas duas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Vale lembrar que, a época do existencialismo é época de crise: a crise daquele otimismo romântico que, durante todo o século XIX e a primeira década do século XX, garantia o sentido da história em nome da Razão, do absoluto, da ideia ou da Humanidade, fundamentava valores estáveis e assegurava um progresso certo e incontível; o idealismo, o positivismo e o marxismo são todas filosofias otimistas, que presumem ter captado o princípio da realidade e o sentido progressivo absoluto da história. O existencialismo, por sua vez, considera o homem como ser finito, lançado no mundo e continuamente dilacerado por situações problemáticas ou absurdas.

 A habilidade de Sartre para desenvolver ideias filosóficas e suas implicações não encontrou rivais no século XX, visto que o mesmo escrevia com bastante brilhantismo. Sartre expressou seu pensamento em obras filosóficas e também em romances, em obras dramáticas, em ensaios políticos, porém as primeiras já são suficientes para delinear sua concepção da realidade. Sartre aceita a teoria da intencionalidade de Husserl: conhecer ou ter consciência é sempre ter consciência de alguma coisa, e ter consciência de alguma coisa significa estar diante de uma presença concreta e plena que não é a consciência. A essência do homem não precede sua ação, se o homem se faz justamente.

                                                                                                                                                   Por claudio Castoriadis

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cornelius Castoriadis : As encruzilhadas do labirinto


O Filósofo Castoriadis nasceu em Atenas, em 1922, onde cursou Direito, Economia e Filosofia. Pensador que levou a sério a prática intelectual, cedo se engajou em um marxismo militante que o levou a critica a política do PC grego e a integrar-se nas fileiras do trotskismo. Em 1945, transferiu-se para a França e fundou, quatro anos mais tarde, com Claude Lefort, a revista Socialismo ou Barbárie, que dirigiu até a dissolução em 1966. A revista reunia estudiosos e militantes e possuía inicialmente inspiração marxista. Porém, tal influência é deixada de lado quando a revista passou a tomar uma postura mais autônoma. Frente ao contexto social e politico o marxismo passou a ser mal quisto pela revista, visto que o mesmo era incapaz de fazer face a face, de maneira sofisticada, à novidade e originalidade dos fenômenos contemporâneos. Ainda assim, a inspiração revolucionária será constante, particularmente na obra de Castoriadis, sendo visível um alargamento considerável em tal inspiração.  Crítico do marxismo? Isso é indubitável. Porém, sem deixar de buscar os mesmos ideais. Audacioso, seu pensamento pautado no horizonte de temas aparentemente afastados um do outro, como por exemplo, a psicanálise, a linguagem, a ciência e a economia toma para si os riscos em aventura-se nos labirintos do conhecimento. Cornelius Castoriadis é sem dúvidas, um dos pensadores contemporâneos mais vigorosos. Esclarecedor e provocante suas ideias sobre temas tão intrigantes para nosso contexto político lhe garante o mérito de trazer a luz o importante papel da filosofia na prática cotidiana.

Para os leitores que pretendem adentrar no universo dinâmico do pensamento de Castoriadis uma obra que faz uma sucinta apresentação da complexidade das suas teses é certamente as encruzilhadas do labirinto. Um livro que chama atenção pela versatilidade do autor em lidar com vários temas e projetar os leitores em várias esferas teóricas de modo irreverente e intrigante, porem, de modo eficaz. Uma obra que visa, antes de qualquer coisa, a renovação da reflexão filosófica. Sendo seu maior intento preencher as possíveis lacunas do pensamento ocidental. Vale lembrar, que a leitura é rigorosa e precisa, dispensando um leitor leigo no que se infere aos grandes problemas que o mesmo pretende resolver. O título da obra já é sugestivo, temos que caminhar por arriscadas encruzilhadas terminológicas e persistir de forma coerente por um imenso labirinto imaginário. Alegoria que exprime bem o percurso de um pensamento que tenta estrategicamente pensar o dado das manifestações, nas suas mais audaciosas ocorrências, no seu desenvolvimento. Tudo fruto de um imaginário histórico social determinado.


Por Claudio Castoriadis

domingo, 11 de setembro de 2011

Desdobramento de imagens




Minha inteligência é inepta
Quando ouço por ventura
O silêncio- um tipo de silêncio
Que perturba
Entoando seu grasnido.

Desdobramento de imagens.

Maldita hora do meu infortúnio
Equivalente às neuroses
Da minha angustia imaculada
Uma nova forma, um novo
Sentido para meu corpo

Tenho os olhos flamejantes
E em meu corpo o brilho da
Estrela divina.

Minhas palavras tem como
Destino a poesia,
A mesma?
O desprezo pela massa.

A eloquência mais persuasiva
Levo como terno conforto,
Minha gratidão ainda que um gemido.
 — Não me assusta o rufo dos
Tambores, bárbaros, almas
Sombras ébrias que se afastem —.

Tenho uma meta – o mar
E sua suprema esperança
Assim exalta os mais densos
Pensamentos.

É a glória que eu respiro
Um paraíso, pleno e insolente
Eu sei de onde sou.






Por Claudio Castoriadis




sábado, 3 de setembro de 2011

Kant: uma nova revolução copernicana

 Por Claudio Castoriadis

Nunca sistema algum de pensamento dominou tanto uma época como a Filosofia de Emanuel Kant dominou o pensamento do século dezenove. Após quase sessenta anos de desenvolvimento quieto e retirado, o misterioso Filósofo de Kónigsberg despertou o mundo de sua "sonolência dogmática", em 1781, com a sua famosa Crítica da Razão' Pura; e daquele ano até agora a "filosofia crítica" tem dominado o campo especulativo da Europa. Kant nasceu em 1724 em Kónigsberg, Prússia. Com a exceção do pequeno período em que ensinou numa aldeia próxima, esse sossegado professor, que gostava tanto de discorrer sobre a geografia e etnologia de terras distantes, nunca saiu de sua cidade natal. Em 1755, Kant começou seu trabalho conto instrutor da Universidade de Kónigsberg. Durante quinze anos deixaram-no neste posto subalterno; duas vezes foi recusado seu pedido de se tornar professor. Finalmente, em 1770, foi nomeado professor de lógica e metafísica. Após muitos anos de experiência como professor, escreveu um livro didático sobre pedagogia e costumava dizer dele que continha muitos preceitos excelentes nenhum dos quais ele jamais aplicara. E no entanto foi talvez um melhor professor do que escritor; duas gerações de estudantes aprenderam a amá-lo. Um de seus princípios práticos era prestar mais atenção aos alunos de capacidade média; os tolos, dizia ele. não podiam ser auxiliados, e os gênios tratariam de si mesmos.


"das coisas conhecemos a priori só que nós mesmos colocamos nelas".


Kant é considerado como o maior filósofo do Iluminismo alemão. Em seu texto O que é a ilustração, o filósofo sintetiza o otimismo iluminista em relação à possibilidade de o homem se guiar por sua própria razão, sem se deixar enganar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. Com rigor, Ele apresenta o processo de ilustração como sendo "a saída do homem de sua menoridade" e a tomada de consciência por ele da autonomia da razão na fundamentação do agir humano. O ser humano, como ser dotado de razão e liberdade, é o centro da filosofia kantiana. Quando a teoria geocêntrica não mais conseguia explicar o conjunto de movimentos dos astros, Copérnico vislumbrou a necessidade de tirar-nos do centro do Universo. E, lançando o modelo heliocêntrico, ele resolveu todos os impasses da astronomia da época. Da mesma forma, invertendo a questão tradicional do conhecimento, o papel que Kant atribuiu ao sujeito representou para a filosofia uma revolução comparável à de Copérnico na astronomia. Antes de Kant, afirmava-se que a função de nossa mente era assimilar a realidade do mundo. Nessa operação, alguns filósofos só consideravam importante a atividade mental do sujeito (Racionalismo dogmático), enquanto outros ressaltavam o papel determinante do objeto real exterior (empirismo). Através de seu racionalismo crítico, Kant tentou formular a síntese entre sujeito e objeto, entre racionalismo dogmático e empirismo, mostrando que, ao conhecermos a realidade do mundo, participamos de sua construção mental, ou seja: "das coisas conhecemos a priori só que nós mesmos colocamos nelas".


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Solidão amiga...



“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

                                                                                                               Drummond

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Literatura latino-americana

HORACIO QUIROGA      
Por Claudio Castoriadis

Exuberância, violência e loucura. Sem esquecer da poesia latente em seu estilo temos na figura do intelectual Horacio Quiroga uma culminação de beleza e Horror. Escritor uruguaio, é sem sombra de dúvida o inventor do conto moderno na literatura latino-americana.

 A tragédia, sombra e abrigo dos maiores gênios, foi constante em sua vida, sucedendo-se um número insólito de mortes acidentais e de suicídios entre familiares e amigos mais próximos do autor, muito jovem, perdeu o pai, afeiçoando-se estreitamente ao padrasto que se suicidou, após ter ficado paralítico na sequência de uma hemorragia cerebral; a sua primeira esposa, Ana Maria Cires, incapaz de se adaptar à vivência na selvas suicidou-se em 1915, após uma violenta discussão com o escritor, deixando-o com a responsabilidade de educar os seus dois filhos. Em 1927, voltou a casar com Maria Elena Bravo, de quem terá mais uma filha. Por fim culminou no seu próprio suicídio. 

Em Los arrecifes de coral, livro dedicado ao seu amigo Leopoldo Lugones, outro grande escritor, temas permanentes em sua obra do tipo: mistério, solidão e melancolia contornam um estilo primoroso e único. Considerado por muitos como o inventor do conto. Com maestria sistematizou a narrativa curta elevando-a à categoria de gênero literário os seus contos se mostram herméticos e quando deseja maior intensidade, cada palavra irradia um espetáculo poético. 

Para os interessados uma boa dica de leitura que retrata bem o estilo contundente do Horacio seria a coletânea de contos intitulada CONTOS DE AMOR, LOUCURA E MORTE lançado pela editora cavalo de ferro, tradução da Ana santos. Se por acaso essa edição não for encontrada visite o site: www.cavalodeferro.com   

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Onde as horas não passam...Mawilda.

Mawilda
                                                         Por Claudio Castoriadis


Quando deixo o refeitório um tênue raio de luz descobre um sorriso com ar de casual, era a garota Mawilda. Franzindo a sobrancelha seu olhar ressumava ternura em um rosto angelical. Uma chuva ligeira caíra na noite anterior, por isso a pequena não se contia de alegria enquanto observa seu pequeno irmão brincar com as galhas secas e as poucas gotas que ainda caiam do teto. Intrigante, muitas pessoas desejariam falar com Deus, manter um contato direto com o criador, no momento contenta-me o simples - só queria ouvir por instantes a voz do pequeno irmão da Mawilda. Tentar compreender o que se passa na cabeça dessa criatura sagrada. Ele é nosso porto seguro, durante toda travessura do vale entre esse mundo pra o outro muitas forças malignas nos cercam, diversos entes das trevas, blasfemando contra ás leis eternas do divino e da compreensão, e graças a sua bravura e orações nenhum mal permanece muito tempo peregrinando sobre nossos passos. Taluiá Heniê, é como costumo denominá-lo, que significa “Filho que caminha sobre a luz da justiça divina”. Quando tive noção do meu dom requeimo-me uma sede ardente; desde então me ocupei em proteger essas duas crianças, verdadeiras e misteriosas. E foi somente a partir delas que passei a modificar todos os meus hábitos. A garota Mawilda foi a primeira a se manifestar para mim. Ainda quando criança ela aprontava no porão da minha casa, era tímida, tinha um modo de chamar atenção um tanto sutil. Não demorou muito ela tinha suas aparições em meu guarda-roupas; não tinha medo, mesmo quando ela passou a ser companhia constante ao lado da minha cama quando pela madrugada eu acordava com sede. Tinha por baixo do seu lindo cabelo encaracolado, um rosto cuja pela imaculada destilava uma imensa brancura. Olhos negros, bem desenhados, que se perdiam entre as têmporas realçadas por longas pestanas. De imediato qualquer um ficaria deslumbrado pelo brilho de seus olhos tão intensos e obstinados - Uma exuberância de juventude. Vestido curto, meio branco amarelado, seus trajes eram bem típicos de uma pequena boneca. Com o tempo suas aparições passaram a ser constantes e duradouras. Ela estava encarregada de ensina-me tudo o que fosse necessário para o aperfeiçoamento do meu dom. Quem a enviou? O porquê? Bem, para essas perguntas ela sempre me negou uma plausível resposta. Eu entendo e deverás respeito; afinal existe tanto mistério nessa vida, coisas que ultrapassam a experiência do possível.
Ninguém desse lugar passa despercebido do olhar dessa garota brincalhona. Bastante talentosa, Mawilda tem sempre ao lado um pequeno caderno onde passa horas rabiscando caricaturas, objetos e figuras extravagantes. As árvores, plantas, esculturas, bancos, cadeiras, instrumentos, enfermeiros e pacientes - todos são modelos que ganham vida nos graciosos traços da garota Mawilda. “O mundo não se resume apenas ao que vivenciamos” diz minha pequena amiga, “mas também a tudo que podemos representar pela arte”. Que assim seja Mawilda; que sua arte possa explodir em alegria e infinitas cores essa medonha realidade, que cada pedaço desse lugar seja abençoado por suas delicadas mãos. Quem não gostaria de possuir um caderno mágico? Sim, um caderno com folhas mágicas. Folhas que na verdade são espelhos encantados onde o feio se delineia como belo, onde as feridas são apenas rabiscos que não ferem. Você nem sabe o quanto é reconfortante seus traços Mawilda. Quando estou triste com a realidade fecho os olhos, tento não perder o controle, controlo minha respiração e deslumbro minha vista para uma só direção: as paginas sagradas de um simplório caderno. Simples assim, Espigão, Naldo, Dona Esperança e todos da clínica são verdadeiros heróis, ganham uma nova vida, todos são felizes com suas famílias, todos são iguais dourados por um novo sol, todos são belas flores cultivadas em um imenso jardim, um lugar onde o equilíbrio é possível.


Por Claudio Catoriadis

veja também : http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

domingo, 21 de agosto de 2011

As dores da minha existência

                                          Por Claudio Castoriadis

 Tem dias em que eu acordo gritando para as paredes as dores da minha existência, nessas horas o silêncio pesa esmagando minha esperança, dizimada por cada infortúnio e miséria, espelhos quebrados entre coisas empoeiradas refletem meu rosto em retalhos. Mesmo assim sou grato por cada lástima.  Tudo acontece como deveria ser afinal, a roda da existência não para, ela é sempre fiel com suas obrigações: gira e gira criando e destruindo tudo que se encontra em seu domínio. Busco por meu lugar onde meu equilíbrio possa ser como deveria. Eles podem destruir meu corpo, dilacerar meus sonhos, mas minha luz será forte. Que venha todo mal, nada temo - meu espírito ainda me pertence. O vale da sombra da morte é pouco para quem sobrevoa abismos. Meu coração está partido, são tantas as feridas. Pássaros selvagens me rodeiam. Eles querem a companhia desse miserável pecador que desde sempre definhou pela escuridão. Silêncio - uma oração cai sobre mim.

sábado, 13 de agosto de 2011

Lágrimas

                             Por Claudio Castoriadis

Hoje eu acordei pensando no infinito
 Por horas me banhei em
Suas águas,
Enquanto descansava pensei em todas
As dores do mundo
Pensei como um solitário perturbado pelo
Silêncio tortuoso,
Pensei em nomes, lugares, pessoas
Dediquei cada lágrima aqueles
Que eu já fiz sofrer
Seja por má-fé, malícia, covardia

Mergulhei nas estrelas
Confuso
Solitário
Clamei pelo fundamento da vida,
Descansei 
Chorei.

Em um canto distante
Longe de qualquer lugar
O sagrado da vida
Refrigera minha alma.

Que meu brilho não pereça
E minha dor não me destrua.

Que minha sombra seja
Refugio, um jardim para
Almas benevolentes,
Bem aventurados.

Que o meu pranto
Não justifique
Minhas feridas
E que meu "eu" seja
Uma centelha de ternura.


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