segunda-feira, 19 de setembro de 2011

SARTRE: INFORMAÇÃO E LIBERDADE


‘“Informação” essa é a palavra de ordem que movimenta o mundo. Estamos constantemente surpreendidos por um dilúvio de informações. Somos uma esponja, estamos freneticamente absorvendo tudo que nos cerca, coisas boas e coisas ruins. O mundo já não é o mesmo, os valores estão sempre despencando sobre nossas cabeças, não é fácil acordar todos os dias e bater de frente com a mesma paisagem- fome, miséria, má distribuição de renda, corrupção, desemprego, matança desenfreada dos animais e a poluição do meio ambiente. Tudo isso delineia um mundo que se encontrar longe da perfeição. “Perfeição” conceito que vaga feito um cego na imensidão do absurdo. O mundo pede socorro, será que alguém se importa? Alguém sente falta de um mundo melhor? Será que o sinônimo de homem remete a destruição? Estupidez desnecessária? Nós respiramos e ainda vivemos, isso já é um começo, para enxergar tudo diferente, arriscar métodos e ações. Como? A partir de atos benevolentes vindos de cada um em especial. Como ajudar? O que pode ser feito?  Existiram pessoas, intelectuais que fizeram a diferença. Entre eles podemos citar Sartre.

 

O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) se encontra entre os filósofos mais populares do cenário contemporâneo. Sua obra era conhecida de estudantes, intelectuais, revolucionários e mesmo do público em geral pelo mundo afora. É bem verdade que essa popularidade, singular para um filósofo, devia-se em parte ao comportamento revolucionário de Sartre, porém, não se deve deixar em segundo plano seu papel de porta-voz do existencialismo, que pregava a liberdade última do indivíduo — era a instigante e envolvente "filosofia da ação" que nas mãos de Sartre, tornou-se uma bandeira de luta contra os valores burgueses. Mas o que seria o existencialismo? Ora, o existencialismo ou a filosofia da existência é uma vasta corrente filosófica contemporânea que se afirma na Europa logo após a Primeira Guerra Mundial, se impõe no período entre as duas guerras, se desenvolve, e se expande até tornar-se moda, sobretudo nas duas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Vale lembrar que, a época do existencialismo é época de crise: a crise daquele otimismo romântico que, durante todo o século XIX e a primeira década do século XX, garantia o sentido da história em nome da Razão, do absoluto, da ideia ou da Humanidade, fundamentava valores estáveis e assegurava um progresso certo e incontível; o idealismo, o positivismo e o marxismo são todas filosofias otimistas, que presumem ter captado o princípio da realidade e o sentido progressivo absoluto da história. O existencialismo, por sua vez, considera o homem como ser finito, lançado no mundo e continuamente dilacerado por situações problemáticas ou absurdas.

 A habilidade de Sartre para desenvolver ideias filosóficas e suas implicações não encontrou rivais no século XX, visto que o mesmo escrevia com bastante brilhantismo. Sartre expressou seu pensamento em obras filosóficas e também em romances, em obras dramáticas, em ensaios políticos, porém as primeiras já são suficientes para delinear sua concepção da realidade. Sartre aceita a teoria da intencionalidade de Husserl: conhecer ou ter consciência é sempre ter consciência de alguma coisa, e ter consciência de alguma coisa significa estar diante de uma presença concreta e plena que não é a consciência. A essência do homem não precede sua ação, se o homem se faz justamente.

                                                                                                                                                   Por claudio Castoriadis

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cornelius Castoriadis : As encruzilhadas do labirinto


O Filósofo Castoriadis nasceu em Atenas, em 1922, onde cursou Direito, Economia e Filosofia. Pensador que levou a sério a prática intelectual, cedo se engajou em um marxismo militante que o levou a critica a política do PC grego e a integrar-se nas fileiras do trotskismo. Em 1945, transferiu-se para a França e fundou, quatro anos mais tarde, com Claude Lefort, a revista Socialismo ou Barbárie, que dirigiu até a dissolução em 1966. A revista reunia estudiosos e militantes e possuía inicialmente inspiração marxista. Porém, tal influência é deixada de lado quando a revista passou a tomar uma postura mais autônoma. Frente ao contexto social e politico o marxismo passou a ser mal quisto pela revista, visto que o mesmo era incapaz de fazer face a face, de maneira sofisticada, à novidade e originalidade dos fenômenos contemporâneos. Ainda assim, a inspiração revolucionária será constante, particularmente na obra de Castoriadis, sendo visível um alargamento considerável em tal inspiração.  Crítico do marxismo? Isso é indubitável. Porém, sem deixar de buscar os mesmos ideais. Audacioso, seu pensamento pautado no horizonte de temas aparentemente afastados um do outro, como por exemplo, a psicanálise, a linguagem, a ciência e a economia toma para si os riscos em aventura-se nos labirintos do conhecimento. Cornelius Castoriadis é sem dúvidas, um dos pensadores contemporâneos mais vigorosos. Esclarecedor e provocante suas ideias sobre temas tão intrigantes para nosso contexto político lhe garante o mérito de trazer a luz o importante papel da filosofia na prática cotidiana.

Para os leitores que pretendem adentrar no universo dinâmico do pensamento de Castoriadis uma obra que faz uma sucinta apresentação da complexidade das suas teses é certamente as encruzilhadas do labirinto. Um livro que chama atenção pela versatilidade do autor em lidar com vários temas e projetar os leitores em várias esferas teóricas de modo irreverente e intrigante, porem, de modo eficaz. Uma obra que visa, antes de qualquer coisa, a renovação da reflexão filosófica. Sendo seu maior intento preencher as possíveis lacunas do pensamento ocidental. Vale lembrar, que a leitura é rigorosa e precisa, dispensando um leitor leigo no que se infere aos grandes problemas que o mesmo pretende resolver. O título da obra já é sugestivo, temos que caminhar por arriscadas encruzilhadas terminológicas e persistir de forma coerente por um imenso labirinto imaginário. Alegoria que exprime bem o percurso de um pensamento que tenta estrategicamente pensar o dado das manifestações, nas suas mais audaciosas ocorrências, no seu desenvolvimento. Tudo fruto de um imaginário histórico social determinado.


Por Claudio Castoriadis

domingo, 11 de setembro de 2011

Desdobramento de imagens




Minha inteligência é inepta
Quando ouço por ventura
O silêncio- um tipo de silêncio
Que perturba
Entoando seu grasnido.

Desdobramento de imagens.

Maldita hora do meu infortúnio
Equivalente às neuroses
Da minha angustia imaculada
Uma nova forma, um novo
Sentido para meu corpo

Tenho os olhos flamejantes
E em meu corpo o brilho da
Estrela divina.

Minhas palavras tem como
Destino a poesia,
A mesma?
O desprezo pela massa.

A eloquência mais persuasiva
Levo como terno conforto,
Minha gratidão ainda que um gemido.
 — Não me assusta o rufo dos
Tambores, bárbaros, almas
Sombras ébrias que se afastem —.

Tenho uma meta – o mar
E sua suprema esperança
Assim exalta os mais densos
Pensamentos.

É a glória que eu respiro
Um paraíso, pleno e insolente
Eu sei de onde sou.






Por Claudio Castoriadis




sábado, 3 de setembro de 2011

Kant: uma nova revolução copernicana

 Por Claudio Castoriadis

Nunca sistema algum de pensamento dominou tanto uma época como a Filosofia de Emanuel Kant dominou o pensamento do século dezenove. Após quase sessenta anos de desenvolvimento quieto e retirado, o misterioso Filósofo de Kónigsberg despertou o mundo de sua "sonolência dogmática", em 1781, com a sua famosa Crítica da Razão' Pura; e daquele ano até agora a "filosofia crítica" tem dominado o campo especulativo da Europa. Kant nasceu em 1724 em Kónigsberg, Prússia. Com a exceção do pequeno período em que ensinou numa aldeia próxima, esse sossegado professor, que gostava tanto de discorrer sobre a geografia e etnologia de terras distantes, nunca saiu de sua cidade natal. Em 1755, Kant começou seu trabalho conto instrutor da Universidade de Kónigsberg. Durante quinze anos deixaram-no neste posto subalterno; duas vezes foi recusado seu pedido de se tornar professor. Finalmente, em 1770, foi nomeado professor de lógica e metafísica. Após muitos anos de experiência como professor, escreveu um livro didático sobre pedagogia e costumava dizer dele que continha muitos preceitos excelentes nenhum dos quais ele jamais aplicara. E no entanto foi talvez um melhor professor do que escritor; duas gerações de estudantes aprenderam a amá-lo. Um de seus princípios práticos era prestar mais atenção aos alunos de capacidade média; os tolos, dizia ele. não podiam ser auxiliados, e os gênios tratariam de si mesmos.


"das coisas conhecemos a priori só que nós mesmos colocamos nelas".


Kant é considerado como o maior filósofo do Iluminismo alemão. Em seu texto O que é a ilustração, o filósofo sintetiza o otimismo iluminista em relação à possibilidade de o homem se guiar por sua própria razão, sem se deixar enganar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. Com rigor, Ele apresenta o processo de ilustração como sendo "a saída do homem de sua menoridade" e a tomada de consciência por ele da autonomia da razão na fundamentação do agir humano. O ser humano, como ser dotado de razão e liberdade, é o centro da filosofia kantiana. Quando a teoria geocêntrica não mais conseguia explicar o conjunto de movimentos dos astros, Copérnico vislumbrou a necessidade de tirar-nos do centro do Universo. E, lançando o modelo heliocêntrico, ele resolveu todos os impasses da astronomia da época. Da mesma forma, invertendo a questão tradicional do conhecimento, o papel que Kant atribuiu ao sujeito representou para a filosofia uma revolução comparável à de Copérnico na astronomia. Antes de Kant, afirmava-se que a função de nossa mente era assimilar a realidade do mundo. Nessa operação, alguns filósofos só consideravam importante a atividade mental do sujeito (Racionalismo dogmático), enquanto outros ressaltavam o papel determinante do objeto real exterior (empirismo). Através de seu racionalismo crítico, Kant tentou formular a síntese entre sujeito e objeto, entre racionalismo dogmático e empirismo, mostrando que, ao conhecermos a realidade do mundo, participamos de sua construção mental, ou seja: "das coisas conhecemos a priori só que nós mesmos colocamos nelas".


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Solidão amiga...



“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

                                                                                                               Drummond

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Literatura latino-americana

HORACIO QUIROGA      
Por Claudio Castoriadis

Exuberância, violência e loucura. Sem esquecer da poesia latente em seu estilo temos na figura do intelectual Horacio Quiroga uma culminação de beleza e Horror. Escritor uruguaio, é sem sombra de dúvida o inventor do conto moderno na literatura latino-americana.

 A tragédia, sombra e abrigo dos maiores gênios, foi constante em sua vida, sucedendo-se um número insólito de mortes acidentais e de suicídios entre familiares e amigos mais próximos do autor, muito jovem, perdeu o pai, afeiçoando-se estreitamente ao padrasto que se suicidou, após ter ficado paralítico na sequência de uma hemorragia cerebral; a sua primeira esposa, Ana Maria Cires, incapaz de se adaptar à vivência na selvas suicidou-se em 1915, após uma violenta discussão com o escritor, deixando-o com a responsabilidade de educar os seus dois filhos. Em 1927, voltou a casar com Maria Elena Bravo, de quem terá mais uma filha. Por fim culminou no seu próprio suicídio. 

Em Los arrecifes de coral, livro dedicado ao seu amigo Leopoldo Lugones, outro grande escritor, temas permanentes em sua obra do tipo: mistério, solidão e melancolia contornam um estilo primoroso e único. Considerado por muitos como o inventor do conto. Com maestria sistematizou a narrativa curta elevando-a à categoria de gênero literário os seus contos se mostram herméticos e quando deseja maior intensidade, cada palavra irradia um espetáculo poético. 

Para os interessados uma boa dica de leitura que retrata bem o estilo contundente do Horacio seria a coletânea de contos intitulada CONTOS DE AMOR, LOUCURA E MORTE lançado pela editora cavalo de ferro, tradução da Ana santos. Se por acaso essa edição não for encontrada visite o site: www.cavalodeferro.com   

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Onde as horas não passam...Mawilda.

Mawilda
                                                         Por Claudio Castoriadis


Quando deixo o refeitório um tênue raio de luz descobre um sorriso com ar de casual, era a garota Mawilda. Franzindo a sobrancelha seu olhar ressumava ternura em um rosto angelical. Uma chuva ligeira caíra na noite anterior, por isso a pequena não se contia de alegria enquanto observa seu pequeno irmão brincar com as galhas secas e as poucas gotas que ainda caiam do teto. Intrigante, muitas pessoas desejariam falar com Deus, manter um contato direto com o criador, no momento contenta-me o simples - só queria ouvir por instantes a voz do pequeno irmão da Mawilda. Tentar compreender o que se passa na cabeça dessa criatura sagrada. Ele é nosso porto seguro, durante toda travessura do vale entre esse mundo pra o outro muitas forças malignas nos cercam, diversos entes das trevas, blasfemando contra ás leis eternas do divino e da compreensão, e graças a sua bravura e orações nenhum mal permanece muito tempo peregrinando sobre nossos passos. Taluiá Heniê, é como costumo denominá-lo, que significa “Filho que caminha sobre a luz da justiça divina”. Quando tive noção do meu dom requeimo-me uma sede ardente; desde então me ocupei em proteger essas duas crianças, verdadeiras e misteriosas. E foi somente a partir delas que passei a modificar todos os meus hábitos. A garota Mawilda foi a primeira a se manifestar para mim. Ainda quando criança ela aprontava no porão da minha casa, era tímida, tinha um modo de chamar atenção um tanto sutil. Não demorou muito ela tinha suas aparições em meu guarda-roupas; não tinha medo, mesmo quando ela passou a ser companhia constante ao lado da minha cama quando pela madrugada eu acordava com sede. Tinha por baixo do seu lindo cabelo encaracolado, um rosto cuja pela imaculada destilava uma imensa brancura. Olhos negros, bem desenhados, que se perdiam entre as têmporas realçadas por longas pestanas. De imediato qualquer um ficaria deslumbrado pelo brilho de seus olhos tão intensos e obstinados - Uma exuberância de juventude. Vestido curto, meio branco amarelado, seus trajes eram bem típicos de uma pequena boneca. Com o tempo suas aparições passaram a ser constantes e duradouras. Ela estava encarregada de ensina-me tudo o que fosse necessário para o aperfeiçoamento do meu dom. Quem a enviou? O porquê? Bem, para essas perguntas ela sempre me negou uma plausível resposta. Eu entendo e deverás respeito; afinal existe tanto mistério nessa vida, coisas que ultrapassam a experiência do possível.
Ninguém desse lugar passa despercebido do olhar dessa garota brincalhona. Bastante talentosa, Mawilda tem sempre ao lado um pequeno caderno onde passa horas rabiscando caricaturas, objetos e figuras extravagantes. As árvores, plantas, esculturas, bancos, cadeiras, instrumentos, enfermeiros e pacientes - todos são modelos que ganham vida nos graciosos traços da garota Mawilda. “O mundo não se resume apenas ao que vivenciamos” diz minha pequena amiga, “mas também a tudo que podemos representar pela arte”. Que assim seja Mawilda; que sua arte possa explodir em alegria e infinitas cores essa medonha realidade, que cada pedaço desse lugar seja abençoado por suas delicadas mãos. Quem não gostaria de possuir um caderno mágico? Sim, um caderno com folhas mágicas. Folhas que na verdade são espelhos encantados onde o feio se delineia como belo, onde as feridas são apenas rabiscos que não ferem. Você nem sabe o quanto é reconfortante seus traços Mawilda. Quando estou triste com a realidade fecho os olhos, tento não perder o controle, controlo minha respiração e deslumbro minha vista para uma só direção: as paginas sagradas de um simplório caderno. Simples assim, Espigão, Naldo, Dona Esperança e todos da clínica são verdadeiros heróis, ganham uma nova vida, todos são felizes com suas famílias, todos são iguais dourados por um novo sol, todos são belas flores cultivadas em um imenso jardim, um lugar onde o equilíbrio é possível.


Por Claudio Catoriadis

veja também : http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

domingo, 21 de agosto de 2011

As dores da minha existência

                                          Por Claudio Castoriadis

 Tem dias em que eu acordo gritando para as paredes as dores da minha existência, nessas horas o silêncio pesa esmagando minha esperança, dizimada por cada infortúnio e miséria, espelhos quebrados entre coisas empoeiradas refletem meu rosto em retalhos. Mesmo assim sou grato por cada lástima.  Tudo acontece como deveria ser afinal, a roda da existência não para, ela é sempre fiel com suas obrigações: gira e gira criando e destruindo tudo que se encontra em seu domínio. Busco por meu lugar onde meu equilíbrio possa ser como deveria. Eles podem destruir meu corpo, dilacerar meus sonhos, mas minha luz será forte. Que venha todo mal, nada temo - meu espírito ainda me pertence. O vale da sombra da morte é pouco para quem sobrevoa abismos. Meu coração está partido, são tantas as feridas. Pássaros selvagens me rodeiam. Eles querem a companhia desse miserável pecador que desde sempre definhou pela escuridão. Silêncio - uma oração cai sobre mim.

sábado, 13 de agosto de 2011

Lágrimas

                             Por Claudio Castoriadis

Hoje eu acordei pensando no infinito
 Por horas me banhei em
Suas águas,
Enquanto descansava pensei em todas
As dores do mundo
Pensei como um solitário perturbado pelo
Silêncio tortuoso,
Pensei em nomes, lugares, pessoas
Dediquei cada lágrima aqueles
Que eu já fiz sofrer
Seja por má-fé, malícia, covardia

Mergulhei nas estrelas
Confuso
Solitário
Clamei pelo fundamento da vida,
Descansei 
Chorei.

Em um canto distante
Longe de qualquer lugar
O sagrado da vida
Refrigera minha alma.

Que meu brilho não pereça
E minha dor não me destrua.

Que minha sombra seja
Refugio, um jardim para
Almas benevolentes,
Bem aventurados.

Que o meu pranto
Não justifique
Minhas feridas
E que meu "eu" seja
Uma centelha de ternura.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O evangelho segundo Nietzsche.

                                     Por Claudio Castoriadis


A novidade da análise nietzschiana acerca da cultura consiste em sua postura permeada de comunicações inauditas utilizando palavras antigas. Seus escritos de tão bem trabalhados se tornam uma obra de arte. Sua fala que muitas vezes gravita em tradições linguístico-religiosas chega a dar um ar de paródia da tradição cristã. De fato existe uma forte tendência entre tantos intelectuais de nosso tempo em considerar sua aparição como “evangelista” sendo tal postura um traço fundamental de sua filosofia. Basta uma breve leitura do seu assim falou Zaratustra para podemos perceber uma inclinação bíblica estritamente poética. Seja como professor da cadeira de filologia clássica ou como filósofo intempestivo, Nietzsche deverás sempre proferiu um tipo de evangelho que clamava uma cultura fiel as forças essenciais da natureza e da vida. Contudo, acerca do seu evangelho seria importante enfatizar que não se trata de um consolo utópico guiado por diretrizes redentoras como, por exemplo: a república de Platão, a nova Atlântida de Francis Bacon, o comunismo marxista ou o consolo compassivo do cristianismo. Muito pelo contrário, acreditando que as diferenças e injustiças são próprias do mundo seu evangelho não promete um sol, sossego, brandura, paciência, remédio ou balsamo. Com rigor suas parábolas e versículos edificam uma escola da suspeita (Schule Des Verdachts) de onde surgirão filósofos legisladores implacáveis, terríveis e tirânicos, estes cientes que crescimento do homem só é possível quando se leva em conta sua grandeza atrelada também no profundo e terrível.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Feio e torto


Feio e torto

Depressão…
Uma ressaca que não tem fim
Um copo com agua que falta
No Haiti,
Um mendigo dormindo em pleno sol
Do meio dia.

Depressão…
Ouvir calado um choro na casa
Ao lado,
Um bater de palmas no portão
Uma criança recém-nascida surda e
Muda
Um reclamar em silêncio toda injuria,
Todo dispêndio.

Depressão…
Um abraço que não abriga
Um amor que feri e humilha
Um sentido que não explica

Depressão…
Que rima com cadeira,
Um final de semana sem brilho
Uma poesia modesta e pobre
Um samba feio e torto.
Um pássaro ridículo em minha
Janela.

Depressão…
Um sapo que não lava o pé
Um sai pra lá exu caveira
Uma mola encolhida
Um filho que ainda não veio
Um palhaço escroto sem graça.

                                     ( Amina ) 



 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Falando em Platão...

Platão foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mestre, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, outro grande gênio, vale lembrar que Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental. Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Arístocles, considerado o grande pilar de todo o pensamento ocidental sendo o mesmo para muito, inovador por tratar de diferentes temas, entre eles a ética, a política, a metafísica e a teoria do conhecimento. Nasceu em Atenas, provavelmente em 427 a.C. (no ano da 88a olimpíada, no sétimo dia do mês Thargêliốn, cerca de um ano após a morte do estadista Péricles, e morreu em 347 a.C. (no primeiro ano da 108a olimpíada).
Para que melhor possamos compreender o alcance desse pensamento em uma breve apresentação convém esquematizar a filosofia platônica, resumindo os seus principais pontos de vista basicamente em duas teses:
Tese metafísica
O verdadeiro ser das coisas é, para Platão, a essência que não muda, conservando-se idêntica nos indivíduos (tal como a espécie humana, que não morre quando os indivíduos se extinguem). Mas como no mundo em que vivemos tudo está em permanente mudança, a essência imutável deve existir não nas coisas materiais e passageiras, porém numa outra dimensão, que o filósofo denomina “mundo inteligível”, oposto ao “mundo sensível” em que nos encontramos. Só as essências, também chamadas universais, existem verdadeiramente, sendo a imutabilidade o sinal distintivo da realidade completa, sem falhas. As coisas, perecíveis, arrastadas pela onda da eterna mudança (vir-a-ser) existem na medida em que participam das essências, paradigmas ou modelos (Idéias ou formas, na terminologia platônica), que elas refletem, e em razão das quais surgiram.
Tese psicológica
A alma tem afinidade com o mundo inteligível do qual se originou. Presa no corpo, como dentro de um cárcere, aspira retomar ao seu lugar de origem, e é essa aspiração, interpretada como desejo de imortalidade, que a conduz quando ela ama. Dividida entre uma parte superior, racional, que a leva para o alto, e uma inferior, dos instintos e paixões, que a puxa para baixo, onde a matéria domina, a alma deve superar as imperfeições do seu estado terreno, libertando-se gradualmente delas, para concentrar-se no conhecimento das essências ou idéias, que a Razão é capaz de apreender, quando consegue fugir ao império das impressões sensíveis, fugazes e ilusórias. Esse processo de libertação, pelo qual o verdadeiro conhecimento se efetiva, e que tem sentido intelectual e moral, é impulsionado pelo Amor (Éros) e ativado pelo Bem (Agathós), luz do mundo inteligível, a mais elevada de todas as idéias, que comparte da natureza da Verdade, e cujo brilho, que atrai e seduz a alma, resplandece nas próprias coisas. Essa sedução é própria dos seres e objetos belos, em que o Amor se fixa e à custa dos quais impulsiona a escalada do espírito, do sensível ao inteligível, sede da verdadeira Beleza e do verdadeiro Bem.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Aprendendo desaprendendo

Onde as horas não passam VI


Bem agasalhada, dou início um passeio pela aleia junto ao muro da enfermaria. Um sol meio toldado me esquenta e reflete nas janelas intensificando as esculturas do jardim. Pássaros cantam e embelezam a vista. Todos estão eufóricos, hoje é dia de visita. Gosto de me sentir assim, centralizada sem expectativas nessas horas. Uma hora. Apenas uma hora é o tempo que todos tem para botar as ideias em dia para alguém próximo, abraçar um ombro amigo, e desaguar suas mágoas. Seja um parente ou um estranho. O importante agora é se sentir alguém. Ser lembrado, nem que seja por um camarada ou até mesmo por algum voluntário. Gosto deles, dos voluntários, não me importa seus motivos. Mas acho nobre quem doa uma parte de seu tempo para visitar pessoas largadas em uma espelunca como essa. Na ala feminina não sinto animo pela parte das garotas, já na masculina, a moçada não consegue disfarçar tamanha alegria. De todos os pacientes o que me chama mais atenção é o “espiga”. Ele fede a mofo, toda noite urina na cama, mas é o mais querido daqui. É como se fosse o mascote desta instituição. Ele anda como se pisasse em brasas; de todos é o mais peculiar. Com poucos dentes tem o sorriso sempre de uma ponta da orelha a outra. Realmente é uma figura carismática. Quem não se alegra com sua alegria? Mesmo com suas perturbações consegue contagiar a todos com sua alegria. De ala em ala vou me habituando a eles. Difícil não gostar de crianças envelhecidas. É assim que vejo todos e a este lugar, uma comunidade de crianças envelhecidas.

O primeiro dia que cheguei aqui não lembro, estava tão exaltada e fraca que me deram medicação o suficiente pra dormir dois dias. No terceiro dia acordei ludibriada em meio a várias camas e pessoas desconhecidas. Fui tomada por uma crise de pânico e tive que ser sedada novamente. Mas tudo ficou bem após horas e horas conversando com um psicólogo e assistente social. Só então a ficha caiu. Caiu no sentido de aprender a desaprender.  Tudo que a escola da vida me ensinou não é utilizável aqui. Todas minhas convicções e ideias foram abaladas. Noções do tipo realidade, amor, amizade, família, segurança. Tudo aqui é diferente. Como é doloroso esse processo que eu defino como aprendendo desaprendendo. Uma cruel ruptura que deixa uma péssima sensação de vazio. De quando em quando sentindo os estertores da morte em minha garganta, como um mal está depois de um vomito interminável. E pra ser bem sincera comigo, acredito que toda a educação que tive no decorrer de minha vida me jogou aqui de paraquedas, fraca, solitária, sem horizonte. “Viver é está com aqueles que não se pertence”. Está foi minha única convicção que não foi denegrida. Uma ideia que é bem aplicável não apenas aqui, mas que ultrapassa os muros desta prisão. Lá fora também é assim, vivemos com aqueles que não pertencemos. Desde que existe comunidade, existiu também essa bomba relógio na qual estão fincadas as bases de uma comunidade de indivíduos: o sentimento de medo que assombra todo aquele sujeito que pertence a quem não se pertence, apenas por buscar segurança no teto de um agregado de estranhos.

Ridículo e sem escrúpulos todo aquele que aliena as pessoas a pensarem dessa forma. É tudo mentira. Será que as pessoas nunca vão entender? Todo amor é amor próprio, por isso estamos sempre manipulando os outros expressando afetos que na verdade são uma estratégia para quem busca viver em comunidade. Com isso, é quase improvável um sentido de segurança duradouro e verdadeiro, visto que todos somos uma explosão de interesses. Dessa forma, pensar a sociedade ou comunidade como um corpo de pessoas com os mesmos interesses, é possível apenas quando o interesse primordial é a auto conservação. A respeito disso, o que realmente acompanha o termo comunidade é o sentimento de segurança e dominação pela parte dos fortes contra os mais fracos, é tudo uma grande piada para por sentido na máxima: “respeite o sistema”.   Se existe um sistema existe um ambiente. E nesse instante nós da clínica somos um tipo de ambiente - entulho do grande sistema. Um ambiente que cria um pequeno sistema que no fim das contas completa o sistema deles. É tudo tão patético, eles empurraram neuroses na cabeça de todos, alienaram cada cabeça desses miseráveis. Agora é bem mais fácil manter tudo no controle de forma lucrativa. Você cresce sofrendo pancadas, fica fraco, mais, ainda tem valia para o todo. Como? Enriquecendo as indústrias farmacêuticas do mundo, engrandecendo o ego dos fortes por existirem pessoas fracas e neuróticas, servindo de estética politica em época das grandes campanhas. É tudo um grande jogo. Um jogo onde pessoas inocentes estão perdendo, um jogo de merda onde as regras são: seja forte, seja humano, domine e destrua quem e quantos estiverem ao seu alcance. E os fracos? Que se danem. Os fracos cuidam dos fracos assim como os mortos cuidam dos mortos. É cada um no seu canto. Essa é a regra imposta pela massa aos fracos. Os retardatários serão sempre os últimos. O Filósofo Sartre já afirmava que o argumento empregado por eles contra a liberdade consiste em martelar em nossas cabeças nossa postura desfavorável. Seu argumento consiste em lembrar-nos de nossa impotência.

Neuroses? Megalomania? Digam o que disserem, está tudo acabado mesmo. O mundo agora cheira até as entranhas a mentiras. Nazistas, fascistas, democratas, socialistas, humanistas, falsos hipócritas no fim são todos farinha do mesmo saco. Todos querem poder. O sol está indo para seu lugar, a vida ainda é um milagre. Toda noite antes de dormir peço a Deus graça e coragem para continuar sendo eu mesma. Arrogante? Só quando necessário. Agressiva? Apenas pra me defender. Mentirosa? Pelo menos sou honesta quando não nego minha falsidade. De todos eu sou a pior? Que seja, pelo menos eu sei quem sou. O mundo é uma ferida e as pessoas estão se autodestruindo de maneira tão mesquinha. Carrego esse fardo todo santo dia. O fardo da honestidade. Mais também levo coisas boas em meus pensamentos. Pois é, tenho lembranças boas que ofuscam os maus pensamentos e isso me torna melhor e mais forte: Enquanto existir uma Amina, estará tudo aqui, quente e confortável em minha memória.  Espelho quebrado, barulho da televisão, um rosto junto ao meu, um velho sofá era minha diversão. Pouco dinheiro, vozes no quintal, era minha realidade. Minha maquiagem borrada por lágrimas, uma frequência, um lugar mal iluminado. Agraciada pelo canto dos pássaros o mundo parecia está sempre suspenso. É bem verdade que a mentira sempre me assolava. Porém, as dores do mundo aparentavam não existir quando minha referência era um sorriso bobo meio que angelical. Enfim, quase tudo se perdeu, mas alguma coisa ficou. Por isso eu tenho o que lembrar nas noites de frio, na solidão entre tantas camas em um quarto escuro abrigo de crianças envelhecidas.





Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)                
        Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Onde as horas não passam V


NICOTINA

Um pouco desnorteada observo pela porta do meu quarto que a fila de pacientes para o único telefone desta ala está tranquila. Estranho, pouca gente querendo manter contato com o mundo lá fora.  Pelo visto o mundo real não está sendo tão requisitado hoje. Deve ser por conta do horário. Depois do almoço, enquanto muitos vão dormir outros preferem alguma distração: Escrever, pintar, varrer seus quartos, ou se divertir em um descontraído jogo de baralho. (Aqui tudo é objeto de aposta, roupas, cigarros, tampas, chapéus, quem vai lavar os pratos). Fora os que se encontram no grupo de terapia. Cada qual buscando “matar” o tempo como pode. No fim das contas todos são assassinos que nunca fizeram uma vítima. Por que o tempo ainda é o mesmo insaciável as concupiscências humanas. É seu maior prazer vislumbrar como paisagem nossa impotência e lembra-nos de nossa falta de grandeza. Quem somos perante tal monstro?  O que deve ser feito perante o fatídico tempo? Eis, então, uma questão que certamente resolvida traria uma possível harmonia ou correlato do sujeito e o tempo. Maldita assassina que sou sempre escrava de uma vitima que me conduz feito um fantoche. Nesse caso eu me pergunto: quem mata quem? Quem é a vitima? Quem é o culpado?  Santo Deus, a vida é uma aventura absurda.

 Hoje não vou servir na terapia ocupacional. Espero que minha desculpa do resfriado tenha sido bem aceita pela minha orientadora. Se não, paciência. Ela tem que entender que assim como os demais pacientes, também tenho meus dias de crise.  Hoje acordei mais tarde, além do café da manhã perdi o horário do almoço. Não é bom, sei disso. Mas, não tem problemas, meu corpo ainda tem nicotina e a cantina geralmente é aberta o dia todo. Devido ao meu trabalho voluntário, que modesta parte é bastante eficiente, tenho crédito naquela espelunca. Eles sabem de minha capacidade intelectual. Não é a toa que sou sempre a escolhida para apresentar o local quando autoridades politicas tiram um tempo para visitar a instituição em um ato de benevolência medíocre que já não engana nem os pacientes mais chapados daqui. Mas faço minha parte, com a cabeça erguida, mesmo não acreditando neles, uso de minha retórica para embelezar cada pedaço sujo desse lugar. Porcos narcisistas- Espero nunca ser tragado por toda sua fome burocrática.

 Em pouco tempo tomo um banho e troco de roupas, o vento toca minha face e sutilmente algumas folhas secas adentram o quarto. Pelo visto hoje a madrugada promete um frio daqueles. Por isso, antes de sair deixo a vista, sobre uma cadeira meu antigo casaco de veludo grosso, luvas e meias de algodão, para assegurar uma boa noite de sono. Alguns acessórios são bem mais eficazes que uma porrada de medicação para dormir. Pelo menos assim ainda sei que estou no comando. Posso fumar um cigarro e sentir a nicotina correndo pelo meu corpo, posso morrer sabendo que um dia tive uma vida. Consciente, longe de artifícios químicos. De química basta a nicotina- já é o suficiente. A nicotina é a arma de muitos aqui para matar o tempo. Principalmente a minha.

Por falar em nicotina esses dias fiquei sabendo seu efeito devastador em nosso organismo. Uma senhora do concelho nacional de medicina veio da uma palestra na sexta passada. Detalhe, a palestra era ótima, mas a moçada da plateia, a grande maioria, de vez em quando acendia um cigarro. Imagina só, uma sala fechada cheia de pessoas mal arrumadas com cheiro sufocante cada uma com seu cigarro na boca. Será que a medica estava no canto certo e na hora certa para trabalhar sua ajuda sem preço?  Enfim, o tema da palestra foi sobre a ação da nicotina no organismo. Como essa porra toda trabalha em cada parte do nosso corpo. Segundo especialistas, a maneira mais comum de levar a nicotina e outras drogas para a corrente sanguínea é pela inalação, ou seja, fumando. Temos que tragar toda essa porcaria para os pulmões. Os pulmões são revestidos por milhões de alvéolos, que são as minúsculas bolsas onde ocorre a troca de ar. Esses alvéolos fornecem uma enorme área de superfície (90 vezes maior do que a da pele) e devido a isso fornecem um amplo acesso para a nicotina e outros compostos-Um prato cheio para nossa destruição. Uma vez na sua corrente sanguínea, a nicotina segue quase que imediatamente para o cérebro. Depois da primeira tragada a nicotina leva segundos para alcançar o cérebro. Embora a nicotina aja de várias maneiras diferentes pelo corpo, e cada corpo é peculiar, a atuação dela no cérebro é responsável pelas sensações "agradáveis" que alguém sente quando fuma, em um período de 10 a 15 segundos após a inalação, a maioria dos fumantes está sob os efeitos da nicotina. Vale lembrar, que a nicotina não fica muito tempo no corpo. Pois é, Sua meia-vida é de cerca de 60 minutos, o que significa que seis horas após um cigarro ter sido fumado, apenas cerca de 0,031 mg do 1 mg inalado continua no corpo. Mas já é tarde o estrago depois de feito faz com que o infeliz ganhe mais um problema pra se preocupar. Depois de um trago as coisas se invertem e o assassino do tempo passa a ser vítima do seu artificio. Aquela que seria uma arma para um crime perfeito se volta a favor de nossa destruição. E o tempo? Apenas continua esmagando um fraco adversário asperamente.

 Maravilha, agora o único consolo para muitos daqui agora é risco de vida.  E o mais cômico, minha relação com o mundo lá fora por intermédio do telefone é somente para isso. Sei que é auto destrutivo mais meus olhos não pregam por um instante frente a fila do telefone. Mesmo da cantina não deixo de observar o movimento de vem e vai dos viciados. Todos apenas com um propósito: encomendar veneno, dos mais variados possíveis por esse outro lado da vida. Nisso eles são os melhores. Do outro lado estão sempre os melhores em destruição em massa. Com sutiliza conseguem te alienar e te empurram veneno como se fosse doce para crianças. O tiro é certeiro. E o grande alvo é sempre o cérebro. É ele o protagonista na ação da nicotina. Como um computador que não para de trabalhar, em atividade constante, o cérebro processa, armazena e utiliza informações.  No cérebro, os neurônios são as células que transferem e integram as informações. Cada neurônio recebe milhares de entradas vindas de outros neurônios pelo cérebro. Cada um desses sinais está incluso na decisão que o neurônio toma de passar ou não o sinal recebido para outros neurônios. É por essa via que a nicotina, encontrar sua via. O caminho da morte para muitos. Mas quem se importa? Alguém já perguntou para um mendigo largado a beira da sociedade se para ele importa? “Espiga” o paciente da ala masculina, ele fuma feito uma maquina, sem família, sem amigos, sem amor, alcoólatra, será que ele se importa com essa descoberta? E dona Zica, ela já passar dos 80, também foi largada aqui, será que ela se importa com a nicotina e seu poder avassalador?  Duvido muito, não só deles, mas como muitos pacientes daqui. Eu diria que mais de 90% deles. É complicado, pois geralmente quando jogamos com as cartas que temos podemos escolher uma saída mais viável. Mas quando o jogo está em seu limiar? Quando não existem mais cartas, é possível um novo fôlego? Enxergar uma centelha de esperança? Ora, não basta uma voz delicada e olhares carinhosos para apaziguar nossas dores. E o caminho que eles buscavam outrora não existe mais. Eles apenas contemplam os terrores da juventude e suportam um dia após o outro da velhice espiritual e física. Um problema a menos em nada ameniza um instante antes do fim. Digam o que disserem, mas o primeiro ato de benevolência que recebi quando aqui cheguei foi de um senhor já de idade que ao me vê sozinha sentada encostada em um pilar foi me oferecer um cigarro. E sem malícia ou má fé ele me pediu pra guardar por que aqui onde as horas não passam e todos buscam alívio àquilo que não te mata lhe fortalece. Fim da tarde, o frio se aproxima, o céu está meio cinza.  Hoje é domingo um dia comum, não tem mais fila, hora de mais um crime, vou até o telefone e peço mais duas carteiras de cigarros.



Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)
       Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

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