domingo, 11 de setembro de 2011

Desdobramento de imagens




Minha inteligência é inepta
Quando ouço por ventura
O silêncio- um tipo de silêncio
Que perturba
Entoando seu grasnido.

Desdobramento de imagens.

Maldita hora do meu infortúnio
Equivalente às neuroses
Da minha angustia imaculada
Uma nova forma, um novo
Sentido para meu corpo

Tenho os olhos flamejantes
E em meu corpo o brilho da
Estrela divina.

Minhas palavras tem como
Destino a poesia,
A mesma?
O desprezo pela massa.

A eloquência mais persuasiva
Levo como terno conforto,
Minha gratidão ainda que um gemido.
 — Não me assusta o rufo dos
Tambores, bárbaros, almas
Sombras ébrias que se afastem —.

Tenho uma meta – o mar
E sua suprema esperança
Assim exalta os mais densos
Pensamentos.

É a glória que eu respiro
Um paraíso, pleno e insolente
Eu sei de onde sou.






Por Claudio Castoriadis




sábado, 3 de setembro de 2011

Kant: uma nova revolução copernicana

 Por Claudio Castoriadis

Nunca sistema algum de pensamento dominou tanto uma época como a Filosofia de Emanuel Kant dominou o pensamento do século dezenove. Após quase sessenta anos de desenvolvimento quieto e retirado, o misterioso Filósofo de Kónigsberg despertou o mundo de sua "sonolência dogmática", em 1781, com a sua famosa Crítica da Razão' Pura; e daquele ano até agora a "filosofia crítica" tem dominado o campo especulativo da Europa. Kant nasceu em 1724 em Kónigsberg, Prússia. Com a exceção do pequeno período em que ensinou numa aldeia próxima, esse sossegado professor, que gostava tanto de discorrer sobre a geografia e etnologia de terras distantes, nunca saiu de sua cidade natal. Em 1755, Kant começou seu trabalho conto instrutor da Universidade de Kónigsberg. Durante quinze anos deixaram-no neste posto subalterno; duas vezes foi recusado seu pedido de se tornar professor. Finalmente, em 1770, foi nomeado professor de lógica e metafísica. Após muitos anos de experiência como professor, escreveu um livro didático sobre pedagogia e costumava dizer dele que continha muitos preceitos excelentes nenhum dos quais ele jamais aplicara. E no entanto foi talvez um melhor professor do que escritor; duas gerações de estudantes aprenderam a amá-lo. Um de seus princípios práticos era prestar mais atenção aos alunos de capacidade média; os tolos, dizia ele. não podiam ser auxiliados, e os gênios tratariam de si mesmos.


"das coisas conhecemos a priori só que nós mesmos colocamos nelas".


Kant é considerado como o maior filósofo do Iluminismo alemão. Em seu texto O que é a ilustração, o filósofo sintetiza o otimismo iluminista em relação à possibilidade de o homem se guiar por sua própria razão, sem se deixar enganar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. Com rigor, Ele apresenta o processo de ilustração como sendo "a saída do homem de sua menoridade" e a tomada de consciência por ele da autonomia da razão na fundamentação do agir humano. O ser humano, como ser dotado de razão e liberdade, é o centro da filosofia kantiana. Quando a teoria geocêntrica não mais conseguia explicar o conjunto de movimentos dos astros, Copérnico vislumbrou a necessidade de tirar-nos do centro do Universo. E, lançando o modelo heliocêntrico, ele resolveu todos os impasses da astronomia da época. Da mesma forma, invertendo a questão tradicional do conhecimento, o papel que Kant atribuiu ao sujeito representou para a filosofia uma revolução comparável à de Copérnico na astronomia. Antes de Kant, afirmava-se que a função de nossa mente era assimilar a realidade do mundo. Nessa operação, alguns filósofos só consideravam importante a atividade mental do sujeito (Racionalismo dogmático), enquanto outros ressaltavam o papel determinante do objeto real exterior (empirismo). Através de seu racionalismo crítico, Kant tentou formular a síntese entre sujeito e objeto, entre racionalismo dogmático e empirismo, mostrando que, ao conhecermos a realidade do mundo, participamos de sua construção mental, ou seja: "das coisas conhecemos a priori só que nós mesmos colocamos nelas".


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Solidão amiga...



“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

                                                                                                               Drummond

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Literatura latino-americana

HORACIO QUIROGA      
Por Claudio Castoriadis

Exuberância, violência e loucura. Sem esquecer da poesia latente em seu estilo temos na figura do intelectual Horacio Quiroga uma culminação de beleza e Horror. Escritor uruguaio, é sem sombra de dúvida o inventor do conto moderno na literatura latino-americana.

 A tragédia, sombra e abrigo dos maiores gênios, foi constante em sua vida, sucedendo-se um número insólito de mortes acidentais e de suicídios entre familiares e amigos mais próximos do autor, muito jovem, perdeu o pai, afeiçoando-se estreitamente ao padrasto que se suicidou, após ter ficado paralítico na sequência de uma hemorragia cerebral; a sua primeira esposa, Ana Maria Cires, incapaz de se adaptar à vivência na selvas suicidou-se em 1915, após uma violenta discussão com o escritor, deixando-o com a responsabilidade de educar os seus dois filhos. Em 1927, voltou a casar com Maria Elena Bravo, de quem terá mais uma filha. Por fim culminou no seu próprio suicídio. 

Em Los arrecifes de coral, livro dedicado ao seu amigo Leopoldo Lugones, outro grande escritor, temas permanentes em sua obra do tipo: mistério, solidão e melancolia contornam um estilo primoroso e único. Considerado por muitos como o inventor do conto. Com maestria sistematizou a narrativa curta elevando-a à categoria de gênero literário os seus contos se mostram herméticos e quando deseja maior intensidade, cada palavra irradia um espetáculo poético. 

Para os interessados uma boa dica de leitura que retrata bem o estilo contundente do Horacio seria a coletânea de contos intitulada CONTOS DE AMOR, LOUCURA E MORTE lançado pela editora cavalo de ferro, tradução da Ana santos. Se por acaso essa edição não for encontrada visite o site: www.cavalodeferro.com   

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Onde as horas não passam...Mawilda.

Mawilda
                                                         Por Claudio Castoriadis


Quando deixo o refeitório um tênue raio de luz descobre um sorriso com ar de casual, era a garota Mawilda. Franzindo a sobrancelha seu olhar ressumava ternura em um rosto angelical. Uma chuva ligeira caíra na noite anterior, por isso a pequena não se contia de alegria enquanto observa seu pequeno irmão brincar com as galhas secas e as poucas gotas que ainda caiam do teto. Intrigante, muitas pessoas desejariam falar com Deus, manter um contato direto com o criador, no momento contenta-me o simples - só queria ouvir por instantes a voz do pequeno irmão da Mawilda. Tentar compreender o que se passa na cabeça dessa criatura sagrada. Ele é nosso porto seguro, durante toda travessura do vale entre esse mundo pra o outro muitas forças malignas nos cercam, diversos entes das trevas, blasfemando contra ás leis eternas do divino e da compreensão, e graças a sua bravura e orações nenhum mal permanece muito tempo peregrinando sobre nossos passos. Taluiá Heniê, é como costumo denominá-lo, que significa “Filho que caminha sobre a luz da justiça divina”. Quando tive noção do meu dom requeimo-me uma sede ardente; desde então me ocupei em proteger essas duas crianças, verdadeiras e misteriosas. E foi somente a partir delas que passei a modificar todos os meus hábitos. A garota Mawilda foi a primeira a se manifestar para mim. Ainda quando criança ela aprontava no porão da minha casa, era tímida, tinha um modo de chamar atenção um tanto sutil. Não demorou muito ela tinha suas aparições em meu guarda-roupas; não tinha medo, mesmo quando ela passou a ser companhia constante ao lado da minha cama quando pela madrugada eu acordava com sede. Tinha por baixo do seu lindo cabelo encaracolado, um rosto cuja pela imaculada destilava uma imensa brancura. Olhos negros, bem desenhados, que se perdiam entre as têmporas realçadas por longas pestanas. De imediato qualquer um ficaria deslumbrado pelo brilho de seus olhos tão intensos e obstinados - Uma exuberância de juventude. Vestido curto, meio branco amarelado, seus trajes eram bem típicos de uma pequena boneca. Com o tempo suas aparições passaram a ser constantes e duradouras. Ela estava encarregada de ensina-me tudo o que fosse necessário para o aperfeiçoamento do meu dom. Quem a enviou? O porquê? Bem, para essas perguntas ela sempre me negou uma plausível resposta. Eu entendo e deverás respeito; afinal existe tanto mistério nessa vida, coisas que ultrapassam a experiência do possível.
Ninguém desse lugar passa despercebido do olhar dessa garota brincalhona. Bastante talentosa, Mawilda tem sempre ao lado um pequeno caderno onde passa horas rabiscando caricaturas, objetos e figuras extravagantes. As árvores, plantas, esculturas, bancos, cadeiras, instrumentos, enfermeiros e pacientes - todos são modelos que ganham vida nos graciosos traços da garota Mawilda. “O mundo não se resume apenas ao que vivenciamos” diz minha pequena amiga, “mas também a tudo que podemos representar pela arte”. Que assim seja Mawilda; que sua arte possa explodir em alegria e infinitas cores essa medonha realidade, que cada pedaço desse lugar seja abençoado por suas delicadas mãos. Quem não gostaria de possuir um caderno mágico? Sim, um caderno com folhas mágicas. Folhas que na verdade são espelhos encantados onde o feio se delineia como belo, onde as feridas são apenas rabiscos que não ferem. Você nem sabe o quanto é reconfortante seus traços Mawilda. Quando estou triste com a realidade fecho os olhos, tento não perder o controle, controlo minha respiração e deslumbro minha vista para uma só direção: as paginas sagradas de um simplório caderno. Simples assim, Espigão, Naldo, Dona Esperança e todos da clínica são verdadeiros heróis, ganham uma nova vida, todos são felizes com suas famílias, todos são iguais dourados por um novo sol, todos são belas flores cultivadas em um imenso jardim, um lugar onde o equilíbrio é possível.


Por Claudio Catoriadis

veja também : http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

domingo, 21 de agosto de 2011

As dores da minha existência

                                          Por Claudio Castoriadis

 Tem dias em que eu acordo gritando para as paredes as dores da minha existência, nessas horas o silêncio pesa esmagando minha esperança, dizimada por cada infortúnio e miséria, espelhos quebrados entre coisas empoeiradas refletem meu rosto em retalhos. Mesmo assim sou grato por cada lástima.  Tudo acontece como deveria ser afinal, a roda da existência não para, ela é sempre fiel com suas obrigações: gira e gira criando e destruindo tudo que se encontra em seu domínio. Busco por meu lugar onde meu equilíbrio possa ser como deveria. Eles podem destruir meu corpo, dilacerar meus sonhos, mas minha luz será forte. Que venha todo mal, nada temo - meu espírito ainda me pertence. O vale da sombra da morte é pouco para quem sobrevoa abismos. Meu coração está partido, são tantas as feridas. Pássaros selvagens me rodeiam. Eles querem a companhia desse miserável pecador que desde sempre definhou pela escuridão. Silêncio - uma oração cai sobre mim.

sábado, 13 de agosto de 2011

Lágrimas

                             Por Claudio Castoriadis

Hoje eu acordei pensando no infinito
 Por horas me banhei em
Suas águas,
Enquanto descansava pensei em todas
As dores do mundo
Pensei como um solitário perturbado pelo
Silêncio tortuoso,
Pensei em nomes, lugares, pessoas
Dediquei cada lágrima aqueles
Que eu já fiz sofrer
Seja por má-fé, malícia, covardia

Mergulhei nas estrelas
Confuso
Solitário
Clamei pelo fundamento da vida,
Descansei 
Chorei.

Em um canto distante
Longe de qualquer lugar
O sagrado da vida
Refrigera minha alma.

Que meu brilho não pereça
E minha dor não me destrua.

Que minha sombra seja
Refugio, um jardim para
Almas benevolentes,
Bem aventurados.

Que o meu pranto
Não justifique
Minhas feridas
E que meu "eu" seja
Uma centelha de ternura.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O evangelho segundo Nietzsche.

                                     Por Claudio Castoriadis


A novidade da análise nietzschiana acerca da cultura consiste em sua postura permeada de comunicações inauditas utilizando palavras antigas. Seus escritos de tão bem trabalhados se tornam uma obra de arte. Sua fala que muitas vezes gravita em tradições linguístico-religiosas chega a dar um ar de paródia da tradição cristã. De fato existe uma forte tendência entre tantos intelectuais de nosso tempo em considerar sua aparição como “evangelista” sendo tal postura um traço fundamental de sua filosofia. Basta uma breve leitura do seu assim falou Zaratustra para podemos perceber uma inclinação bíblica estritamente poética. Seja como professor da cadeira de filologia clássica ou como filósofo intempestivo, Nietzsche deverás sempre proferiu um tipo de evangelho que clamava uma cultura fiel as forças essenciais da natureza e da vida. Contudo, acerca do seu evangelho seria importante enfatizar que não se trata de um consolo utópico guiado por diretrizes redentoras como, por exemplo: a república de Platão, a nova Atlântida de Francis Bacon, o comunismo marxista ou o consolo compassivo do cristianismo. Muito pelo contrário, acreditando que as diferenças e injustiças são próprias do mundo seu evangelho não promete um sol, sossego, brandura, paciência, remédio ou balsamo. Com rigor suas parábolas e versículos edificam uma escola da suspeita (Schule Des Verdachts) de onde surgirão filósofos legisladores implacáveis, terríveis e tirânicos, estes cientes que crescimento do homem só é possível quando se leva em conta sua grandeza atrelada também no profundo e terrível.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Feio e torto


Feio e torto

Depressão…
Uma ressaca que não tem fim
Um copo com agua que falta
No Haiti,
Um mendigo dormindo em pleno sol
Do meio dia.

Depressão…
Ouvir calado um choro na casa
Ao lado,
Um bater de palmas no portão
Uma criança recém-nascida surda e
Muda
Um reclamar em silêncio toda injuria,
Todo dispêndio.

Depressão…
Um abraço que não abriga
Um amor que feri e humilha
Um sentido que não explica

Depressão…
Que rima com cadeira,
Um final de semana sem brilho
Uma poesia modesta e pobre
Um samba feio e torto.
Um pássaro ridículo em minha
Janela.

Depressão…
Um sapo que não lava o pé
Um sai pra lá exu caveira
Uma mola encolhida
Um filho que ainda não veio
Um palhaço escroto sem graça.

                                     ( Amina ) 



 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Falando em Platão...

Platão foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mestre, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, outro grande gênio, vale lembrar que Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental. Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Arístocles, considerado o grande pilar de todo o pensamento ocidental sendo o mesmo para muito, inovador por tratar de diferentes temas, entre eles a ética, a política, a metafísica e a teoria do conhecimento. Nasceu em Atenas, provavelmente em 427 a.C. (no ano da 88a olimpíada, no sétimo dia do mês Thargêliốn, cerca de um ano após a morte do estadista Péricles, e morreu em 347 a.C. (no primeiro ano da 108a olimpíada).
Para que melhor possamos compreender o alcance desse pensamento em uma breve apresentação convém esquematizar a filosofia platônica, resumindo os seus principais pontos de vista basicamente em duas teses:
Tese metafísica
O verdadeiro ser das coisas é, para Platão, a essência que não muda, conservando-se idêntica nos indivíduos (tal como a espécie humana, que não morre quando os indivíduos se extinguem). Mas como no mundo em que vivemos tudo está em permanente mudança, a essência imutável deve existir não nas coisas materiais e passageiras, porém numa outra dimensão, que o filósofo denomina “mundo inteligível”, oposto ao “mundo sensível” em que nos encontramos. Só as essências, também chamadas universais, existem verdadeiramente, sendo a imutabilidade o sinal distintivo da realidade completa, sem falhas. As coisas, perecíveis, arrastadas pela onda da eterna mudança (vir-a-ser) existem na medida em que participam das essências, paradigmas ou modelos (Idéias ou formas, na terminologia platônica), que elas refletem, e em razão das quais surgiram.
Tese psicológica
A alma tem afinidade com o mundo inteligível do qual se originou. Presa no corpo, como dentro de um cárcere, aspira retomar ao seu lugar de origem, e é essa aspiração, interpretada como desejo de imortalidade, que a conduz quando ela ama. Dividida entre uma parte superior, racional, que a leva para o alto, e uma inferior, dos instintos e paixões, que a puxa para baixo, onde a matéria domina, a alma deve superar as imperfeições do seu estado terreno, libertando-se gradualmente delas, para concentrar-se no conhecimento das essências ou idéias, que a Razão é capaz de apreender, quando consegue fugir ao império das impressões sensíveis, fugazes e ilusórias. Esse processo de libertação, pelo qual o verdadeiro conhecimento se efetiva, e que tem sentido intelectual e moral, é impulsionado pelo Amor (Éros) e ativado pelo Bem (Agathós), luz do mundo inteligível, a mais elevada de todas as idéias, que comparte da natureza da Verdade, e cujo brilho, que atrai e seduz a alma, resplandece nas próprias coisas. Essa sedução é própria dos seres e objetos belos, em que o Amor se fixa e à custa dos quais impulsiona a escalada do espírito, do sensível ao inteligível, sede da verdadeira Beleza e do verdadeiro Bem.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Aprendendo desaprendendo

Onde as horas não passam VI


Bem agasalhada, dou início um passeio pela aleia junto ao muro da enfermaria. Um sol meio toldado me esquenta e reflete nas janelas intensificando as esculturas do jardim. Pássaros cantam e embelezam a vista. Todos estão eufóricos, hoje é dia de visita. Gosto de me sentir assim, centralizada sem expectativas nessas horas. Uma hora. Apenas uma hora é o tempo que todos tem para botar as ideias em dia para alguém próximo, abraçar um ombro amigo, e desaguar suas mágoas. Seja um parente ou um estranho. O importante agora é se sentir alguém. Ser lembrado, nem que seja por um camarada ou até mesmo por algum voluntário. Gosto deles, dos voluntários, não me importa seus motivos. Mas acho nobre quem doa uma parte de seu tempo para visitar pessoas largadas em uma espelunca como essa. Na ala feminina não sinto animo pela parte das garotas, já na masculina, a moçada não consegue disfarçar tamanha alegria. De todos os pacientes o que me chama mais atenção é o “espiga”. Ele fede a mofo, toda noite urina na cama, mas é o mais querido daqui. É como se fosse o mascote desta instituição. Ele anda como se pisasse em brasas; de todos é o mais peculiar. Com poucos dentes tem o sorriso sempre de uma ponta da orelha a outra. Realmente é uma figura carismática. Quem não se alegra com sua alegria? Mesmo com suas perturbações consegue contagiar a todos com sua alegria. De ala em ala vou me habituando a eles. Difícil não gostar de crianças envelhecidas. É assim que vejo todos e a este lugar, uma comunidade de crianças envelhecidas.

O primeiro dia que cheguei aqui não lembro, estava tão exaltada e fraca que me deram medicação o suficiente pra dormir dois dias. No terceiro dia acordei ludibriada em meio a várias camas e pessoas desconhecidas. Fui tomada por uma crise de pânico e tive que ser sedada novamente. Mas tudo ficou bem após horas e horas conversando com um psicólogo e assistente social. Só então a ficha caiu. Caiu no sentido de aprender a desaprender.  Tudo que a escola da vida me ensinou não é utilizável aqui. Todas minhas convicções e ideias foram abaladas. Noções do tipo realidade, amor, amizade, família, segurança. Tudo aqui é diferente. Como é doloroso esse processo que eu defino como aprendendo desaprendendo. Uma cruel ruptura que deixa uma péssima sensação de vazio. De quando em quando sentindo os estertores da morte em minha garganta, como um mal está depois de um vomito interminável. E pra ser bem sincera comigo, acredito que toda a educação que tive no decorrer de minha vida me jogou aqui de paraquedas, fraca, solitária, sem horizonte. “Viver é está com aqueles que não se pertence”. Está foi minha única convicção que não foi denegrida. Uma ideia que é bem aplicável não apenas aqui, mas que ultrapassa os muros desta prisão. Lá fora também é assim, vivemos com aqueles que não pertencemos. Desde que existe comunidade, existiu também essa bomba relógio na qual estão fincadas as bases de uma comunidade de indivíduos: o sentimento de medo que assombra todo aquele sujeito que pertence a quem não se pertence, apenas por buscar segurança no teto de um agregado de estranhos.

Ridículo e sem escrúpulos todo aquele que aliena as pessoas a pensarem dessa forma. É tudo mentira. Será que as pessoas nunca vão entender? Todo amor é amor próprio, por isso estamos sempre manipulando os outros expressando afetos que na verdade são uma estratégia para quem busca viver em comunidade. Com isso, é quase improvável um sentido de segurança duradouro e verdadeiro, visto que todos somos uma explosão de interesses. Dessa forma, pensar a sociedade ou comunidade como um corpo de pessoas com os mesmos interesses, é possível apenas quando o interesse primordial é a auto conservação. A respeito disso, o que realmente acompanha o termo comunidade é o sentimento de segurança e dominação pela parte dos fortes contra os mais fracos, é tudo uma grande piada para por sentido na máxima: “respeite o sistema”.   Se existe um sistema existe um ambiente. E nesse instante nós da clínica somos um tipo de ambiente - entulho do grande sistema. Um ambiente que cria um pequeno sistema que no fim das contas completa o sistema deles. É tudo tão patético, eles empurraram neuroses na cabeça de todos, alienaram cada cabeça desses miseráveis. Agora é bem mais fácil manter tudo no controle de forma lucrativa. Você cresce sofrendo pancadas, fica fraco, mais, ainda tem valia para o todo. Como? Enriquecendo as indústrias farmacêuticas do mundo, engrandecendo o ego dos fortes por existirem pessoas fracas e neuróticas, servindo de estética politica em época das grandes campanhas. É tudo um grande jogo. Um jogo onde pessoas inocentes estão perdendo, um jogo de merda onde as regras são: seja forte, seja humano, domine e destrua quem e quantos estiverem ao seu alcance. E os fracos? Que se danem. Os fracos cuidam dos fracos assim como os mortos cuidam dos mortos. É cada um no seu canto. Essa é a regra imposta pela massa aos fracos. Os retardatários serão sempre os últimos. O Filósofo Sartre já afirmava que o argumento empregado por eles contra a liberdade consiste em martelar em nossas cabeças nossa postura desfavorável. Seu argumento consiste em lembrar-nos de nossa impotência.

Neuroses? Megalomania? Digam o que disserem, está tudo acabado mesmo. O mundo agora cheira até as entranhas a mentiras. Nazistas, fascistas, democratas, socialistas, humanistas, falsos hipócritas no fim são todos farinha do mesmo saco. Todos querem poder. O sol está indo para seu lugar, a vida ainda é um milagre. Toda noite antes de dormir peço a Deus graça e coragem para continuar sendo eu mesma. Arrogante? Só quando necessário. Agressiva? Apenas pra me defender. Mentirosa? Pelo menos sou honesta quando não nego minha falsidade. De todos eu sou a pior? Que seja, pelo menos eu sei quem sou. O mundo é uma ferida e as pessoas estão se autodestruindo de maneira tão mesquinha. Carrego esse fardo todo santo dia. O fardo da honestidade. Mais também levo coisas boas em meus pensamentos. Pois é, tenho lembranças boas que ofuscam os maus pensamentos e isso me torna melhor e mais forte: Enquanto existir uma Amina, estará tudo aqui, quente e confortável em minha memória.  Espelho quebrado, barulho da televisão, um rosto junto ao meu, um velho sofá era minha diversão. Pouco dinheiro, vozes no quintal, era minha realidade. Minha maquiagem borrada por lágrimas, uma frequência, um lugar mal iluminado. Agraciada pelo canto dos pássaros o mundo parecia está sempre suspenso. É bem verdade que a mentira sempre me assolava. Porém, as dores do mundo aparentavam não existir quando minha referência era um sorriso bobo meio que angelical. Enfim, quase tudo se perdeu, mas alguma coisa ficou. Por isso eu tenho o que lembrar nas noites de frio, na solidão entre tantas camas em um quarto escuro abrigo de crianças envelhecidas.





Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)                
        Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Onde as horas não passam V


NICOTINA

Um pouco desnorteada observo pela porta do meu quarto que a fila de pacientes para o único telefone desta ala está tranquila. Estranho, pouca gente querendo manter contato com o mundo lá fora.  Pelo visto o mundo real não está sendo tão requisitado hoje. Deve ser por conta do horário. Depois do almoço, enquanto muitos vão dormir outros preferem alguma distração: Escrever, pintar, varrer seus quartos, ou se divertir em um descontraído jogo de baralho. (Aqui tudo é objeto de aposta, roupas, cigarros, tampas, chapéus, quem vai lavar os pratos). Fora os que se encontram no grupo de terapia. Cada qual buscando “matar” o tempo como pode. No fim das contas todos são assassinos que nunca fizeram uma vítima. Por que o tempo ainda é o mesmo insaciável as concupiscências humanas. É seu maior prazer vislumbrar como paisagem nossa impotência e lembra-nos de nossa falta de grandeza. Quem somos perante tal monstro?  O que deve ser feito perante o fatídico tempo? Eis, então, uma questão que certamente resolvida traria uma possível harmonia ou correlato do sujeito e o tempo. Maldita assassina que sou sempre escrava de uma vitima que me conduz feito um fantoche. Nesse caso eu me pergunto: quem mata quem? Quem é a vitima? Quem é o culpado?  Santo Deus, a vida é uma aventura absurda.

 Hoje não vou servir na terapia ocupacional. Espero que minha desculpa do resfriado tenha sido bem aceita pela minha orientadora. Se não, paciência. Ela tem que entender que assim como os demais pacientes, também tenho meus dias de crise.  Hoje acordei mais tarde, além do café da manhã perdi o horário do almoço. Não é bom, sei disso. Mas, não tem problemas, meu corpo ainda tem nicotina e a cantina geralmente é aberta o dia todo. Devido ao meu trabalho voluntário, que modesta parte é bastante eficiente, tenho crédito naquela espelunca. Eles sabem de minha capacidade intelectual. Não é a toa que sou sempre a escolhida para apresentar o local quando autoridades politicas tiram um tempo para visitar a instituição em um ato de benevolência medíocre que já não engana nem os pacientes mais chapados daqui. Mas faço minha parte, com a cabeça erguida, mesmo não acreditando neles, uso de minha retórica para embelezar cada pedaço sujo desse lugar. Porcos narcisistas- Espero nunca ser tragado por toda sua fome burocrática.

 Em pouco tempo tomo um banho e troco de roupas, o vento toca minha face e sutilmente algumas folhas secas adentram o quarto. Pelo visto hoje a madrugada promete um frio daqueles. Por isso, antes de sair deixo a vista, sobre uma cadeira meu antigo casaco de veludo grosso, luvas e meias de algodão, para assegurar uma boa noite de sono. Alguns acessórios são bem mais eficazes que uma porrada de medicação para dormir. Pelo menos assim ainda sei que estou no comando. Posso fumar um cigarro e sentir a nicotina correndo pelo meu corpo, posso morrer sabendo que um dia tive uma vida. Consciente, longe de artifícios químicos. De química basta a nicotina- já é o suficiente. A nicotina é a arma de muitos aqui para matar o tempo. Principalmente a minha.

Por falar em nicotina esses dias fiquei sabendo seu efeito devastador em nosso organismo. Uma senhora do concelho nacional de medicina veio da uma palestra na sexta passada. Detalhe, a palestra era ótima, mas a moçada da plateia, a grande maioria, de vez em quando acendia um cigarro. Imagina só, uma sala fechada cheia de pessoas mal arrumadas com cheiro sufocante cada uma com seu cigarro na boca. Será que a medica estava no canto certo e na hora certa para trabalhar sua ajuda sem preço?  Enfim, o tema da palestra foi sobre a ação da nicotina no organismo. Como essa porra toda trabalha em cada parte do nosso corpo. Segundo especialistas, a maneira mais comum de levar a nicotina e outras drogas para a corrente sanguínea é pela inalação, ou seja, fumando. Temos que tragar toda essa porcaria para os pulmões. Os pulmões são revestidos por milhões de alvéolos, que são as minúsculas bolsas onde ocorre a troca de ar. Esses alvéolos fornecem uma enorme área de superfície (90 vezes maior do que a da pele) e devido a isso fornecem um amplo acesso para a nicotina e outros compostos-Um prato cheio para nossa destruição. Uma vez na sua corrente sanguínea, a nicotina segue quase que imediatamente para o cérebro. Depois da primeira tragada a nicotina leva segundos para alcançar o cérebro. Embora a nicotina aja de várias maneiras diferentes pelo corpo, e cada corpo é peculiar, a atuação dela no cérebro é responsável pelas sensações "agradáveis" que alguém sente quando fuma, em um período de 10 a 15 segundos após a inalação, a maioria dos fumantes está sob os efeitos da nicotina. Vale lembrar, que a nicotina não fica muito tempo no corpo. Pois é, Sua meia-vida é de cerca de 60 minutos, o que significa que seis horas após um cigarro ter sido fumado, apenas cerca de 0,031 mg do 1 mg inalado continua no corpo. Mas já é tarde o estrago depois de feito faz com que o infeliz ganhe mais um problema pra se preocupar. Depois de um trago as coisas se invertem e o assassino do tempo passa a ser vítima do seu artificio. Aquela que seria uma arma para um crime perfeito se volta a favor de nossa destruição. E o tempo? Apenas continua esmagando um fraco adversário asperamente.

 Maravilha, agora o único consolo para muitos daqui agora é risco de vida.  E o mais cômico, minha relação com o mundo lá fora por intermédio do telefone é somente para isso. Sei que é auto destrutivo mais meus olhos não pregam por um instante frente a fila do telefone. Mesmo da cantina não deixo de observar o movimento de vem e vai dos viciados. Todos apenas com um propósito: encomendar veneno, dos mais variados possíveis por esse outro lado da vida. Nisso eles são os melhores. Do outro lado estão sempre os melhores em destruição em massa. Com sutiliza conseguem te alienar e te empurram veneno como se fosse doce para crianças. O tiro é certeiro. E o grande alvo é sempre o cérebro. É ele o protagonista na ação da nicotina. Como um computador que não para de trabalhar, em atividade constante, o cérebro processa, armazena e utiliza informações.  No cérebro, os neurônios são as células que transferem e integram as informações. Cada neurônio recebe milhares de entradas vindas de outros neurônios pelo cérebro. Cada um desses sinais está incluso na decisão que o neurônio toma de passar ou não o sinal recebido para outros neurônios. É por essa via que a nicotina, encontrar sua via. O caminho da morte para muitos. Mas quem se importa? Alguém já perguntou para um mendigo largado a beira da sociedade se para ele importa? “Espiga” o paciente da ala masculina, ele fuma feito uma maquina, sem família, sem amigos, sem amor, alcoólatra, será que ele se importa com essa descoberta? E dona Zica, ela já passar dos 80, também foi largada aqui, será que ela se importa com a nicotina e seu poder avassalador?  Duvido muito, não só deles, mas como muitos pacientes daqui. Eu diria que mais de 90% deles. É complicado, pois geralmente quando jogamos com as cartas que temos podemos escolher uma saída mais viável. Mas quando o jogo está em seu limiar? Quando não existem mais cartas, é possível um novo fôlego? Enxergar uma centelha de esperança? Ora, não basta uma voz delicada e olhares carinhosos para apaziguar nossas dores. E o caminho que eles buscavam outrora não existe mais. Eles apenas contemplam os terrores da juventude e suportam um dia após o outro da velhice espiritual e física. Um problema a menos em nada ameniza um instante antes do fim. Digam o que disserem, mas o primeiro ato de benevolência que recebi quando aqui cheguei foi de um senhor já de idade que ao me vê sozinha sentada encostada em um pilar foi me oferecer um cigarro. E sem malícia ou má fé ele me pediu pra guardar por que aqui onde as horas não passam e todos buscam alívio àquilo que não te mata lhe fortalece. Fim da tarde, o frio se aproxima, o céu está meio cinza.  Hoje é domingo um dia comum, não tem mais fila, hora de mais um crime, vou até o telefone e peço mais duas carteiras de cigarros.



Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)
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sábado, 4 de junho de 2011

Platão, o ditador.

                                         Karl Popper
Considero o respeito pelos grandes nomes da filosofia clássica uma falta de bom senso e uma postura mal inclinada, uma piada contada de maneira sutil durante séculos que de engraçado apenas temos sua desfigurada mascara totalitária. Será que ninguém nunca parou, ao menos por um momento, para pensar que os grandes monstros da tradição filosófica na pior das hipóteses foram em sua grande maioria um grupo que delimitou uma elite dogmática da mais infeliz má fé? Ora, minhas observações não são aleatórias, elas estão embasadas pelo que entendo por liberdade plena, e também ganham relevância na figura do destemido Karl Popper. Se durante anos o filósofo Nietzsche foi mal quisto pela academia, um tipo de fenômeno que tentaram de toda forma abafar usando argumentos, retóricos e manipuladores, que felizmente não foram bem sucedidos. Pois bem, senhores eruditos, O Karl Popper assim como o autor de Zaratustra vai ser outro “sapo” que os contemplativos e covardes acadêmicos terão que digerir. Que por sorte, o mesmo com toda tranquilidade que lhe é peculiar não foi vítima de tantas apropriações ideológicas de quinta categoria. É certo que Nietzsche ficou louco e morreu sem muita chance de defesa, porém com toda sua irreverência causou um estrago nos centros acadêmicos, isso, é indubitável. E agora o Karl Popper aumenta o estrago na tradição iniciada pela epopeia do angustiado Nietzsche com toda a elegância e simplicidade de um grande gênio.

Elegância que o mestre Popper demostrou na noite de sexta-feira, 25 de outubro de 1946, quando na ocasião a associação de ciências morais de Cambrigde reuniu-se para uma discussão que de imediato deveria ser proveitosa, visto que o orador da noite era o doutor Karl Popper. Sua intenção era apenas apresentar seu artigo intitulado “existem problemas filosóficos?” seria mais uma instigante palestra se entre os ouvintes não estivesse o presidente da associação, o então cultuado professor Ludwig Wittgentein. O que de fato aconteceu naquela noite não se sabe ao certo. O que ficou registrado foi a arrogância do professor Wittgenstein que imerso em fúria teve a postura de um atiçador de fogo saindo da sala em disparada. (Que falta de elegância professor Wittgentein). Todo esse drama por tão pouco: uma mera discursão acerca da moral.  Em resposta quando perguntado pelo alvoroço, Popper apenas provoca dizendo que um bom exemplo de princípio moral seria não ameaçar os palestrantes com atiçadores. (Será que o grande Wittgentein teve um sono tranquilo nessa noite?). Então, como bem sabemos para o Ludwig Wittgentein tudo se resume a linguagem, proposições metafísicas, da ética e da religião são desprovidos de sentido porque tentam ultrapassar o limite da linguagem. Popper em sua inocência filosófica discordou e então uma palestra que era voltada para filósofos e estudantes findou em uma tragédia cômica. Da pra acreditar?

Mas voltemos a questão dos monstros da tradição. Segundo o mestre Popper a filosofia profissional não tem produzido grandes coisas e ainda alerta que ela carece urgentemente de uma defesa, uma defesa de sua existência. O próprio Popper como filósofo se declara culpado e assim como Sócrates, faz sua defesa. E se defende atacando muitos filósofos que ao seu vê não chegaram a produzir algo de bom. Por isso cita quatro dos mais importantes- Platão, Rume, Spinoza e Kant.  Platão, segundo Popper, foi o maior, o mais profundo, e o mais dotado de todos os filósofos. Porém, tinha uma visão de vida humana que ele considerava repulsiva e deveras horripilante. Nossa!!! Mas porque tanto desprezo pelo Platão e sua turminha de intelectuais? O grande problema dessa gama de pensadores e a tantos outros filósofos profissionais que lhe sucederam, era acreditar em uma elite. Uma simples crise de ego no Reino encantado da Filosofia? Que lástima. Platão inflamado em sabedoria achava que os sábios, os senhores filósofos, deviam ser os ditadores, aqueles que deveriam preservar o bem está da razão – absolutos das regras. Nossa quanta responsabilidade. Deve ser por isso que desde Platão, a megalomania tem sido a doença profissional mais difundida entre os filósofos. (intrigante, eu sempre achei que megalomania e Filosofia fossem antípodas). Enfim, como exemplo desse lado tão ridículo da tradição, Popper refresca nossa memória ressaltando que no décimo livro de As Leis, Platão inventou uma instituição que inspirou a inquisição, e um detalhe importante, o sábio Platão chegou até mesmo perto de recomendar campos de concentração para a cura das almas dos dissidentes. Acusação contundente pela parte do Popper, praticamente aproximando a figura do Platão com a de Hitler. Teria algum fundamento tais acusações?  Mas o argumento de Popper é preciso e razoável quando diz que Platão e muitos pensadores seriam mais honestos: tivessem eles convencidos de que, embora brilhantes, talvez; não estavam dando um passo no caminho da verdade. E sim alimentando a ideia de uma elite filosófica e intelectual. Interessante, o nazismo desde o início de sua hegemonia também alimentava essa ideia política e mesquinha. Não foi em nome da liberdade e de uma elite superior, que o chefe de estado Hitler justificou a matança em massa de judeus em campos de concentração?  Uma verdade que deflagrou psicoses de massa seletivas? Com isso uma pergunta deve ser feita: Devemos contemplar um tipo de filosofia “seletiva” que limita a liberdade que em nada assegurar a liberdade individual?  Covardia e preguiça são fatores, que segundo Kant, diminuem o homem. Mas não será a busca da verdade, “única e indiscutível”, um estimulo a covardia e preguiça do homem? Enfim, senhoras e senhores, em que tremenda saia justa nosso querido Karl Popper deixou os grandes nomes da filosofia.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

As Rosas Não Falam, mas eu sinto: Cartola tinha razão.

Bate outra vez...
- Em um tempo sem tempo pra mim
Com esperanças o meu coração...
- Adulterado ainda no mesmo poema
Pois já vai terminando o verão...
- E os dias se arrastam pelas folhas e sorrisos
Enfim...
- Eu tenho o cartola.

Volto ao jardim...
- Com a sorte de um velho cartola
Com a certeza que devo chorar...
- Com a esperança, e a alegria do mestre,
Pois bem sei que não queres voltar...
- Feito teimosia de poeta que inflama meu coração
Para mim...
- Apenas para mim
Queixo-me às rosas...
- Nessas horas tão ridículas e mal amadas
Mas que bobagem...
- É tudo poesia e charme da minha solidão
As rosas não falam...
- Elas apenas são pedaços de um sonho
Simplesmente as rosas exalam...
- Todo o sentido de um mundo em pequenos versos
O perfume que roubam de ti, ai...
- Agora ausente pelo amargo presente instante
Devias vir...
- Lenta como uma suave melodia
Para ver os meus olhos tristonhos...
- Resultado de uma alegria bem vinda
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos...
- Um recanto de poucas palavras
Por fim...
- tenho um mundo e um moinho
- Eu tenho uma poesia
- Eu tenho uma cartola.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uma carta para pequena Sara.

 Meu caminho ainda é um mistério, ainda não tenho certeza onde tudo vai parar, onde meus pensamentos vão encontrar repouso. Estou sempre pensando; meus pensamentos não me deixam ser apenas mais um, disso tenho orgulho. Sei que tenho muitos amigos, amigos de infância, amigos de agora e amigos descartáveis. Uns já se foram, outros estão em clínicas lutando pela vida e muitos outros estão vagando pela madrugada entre a poeira enfadonha do tempo. Por carinho, respeito ou má fé eles me qualificam em vários adjetivos: Polêmico, inconstante, arrogante, sem caráter, amoroso, intelectual, solitário, drogado, ridículo, criança, alcoólatra, ou simplesmente me chamam de “novinho”. Enfim, são meus amigos que ganhei nesse percurso tão grandioso da vida. Todos eles buscam alegria, querem um emprego, falam em família. Todos, cada um do seu modo, buscam por alegria e alívio em um mundo tão complicado e devorador de sonhos. Minha alegria não sei ao certo, tento manter a calma em meio aos meus delírios.  Não sei qual lugar me traz deveras alegria, uma sala de aula entre intelectuais ou em uma mesa de bar fumando, bebendo e falando as coisas mais absurdas. É tudo tão novo e ao mesmo tempo tão velho. É tudo tão “eu.” Gosto de me sentir assim, confuso e fora de moda como uma foto em preto e branco. Gosto de me vê como um nada, ainda em construção, pois ainda não me vejo. Quero sempre saborear a vida como uma incrível novidade. Eu sou um estupido quando penso que sou melhor, sou o ridículo do destino que me pesa feito um imenso rochedo. Fui tanta coisa, hoje sou um nada, amanhã serei bastante coisa. Amei e fui amado, amarei sempre do meu jeito. Gostaria de nunca ter machucado ninguém, gostaria de verdade. Gostaria de não saber de todas as maldades que as pessoas fazem, gostaria de virar as costas para as dores do mundo. Mas não consigo, é inútil é poético ser dessa forma. Eu quero bem mais que um arcabouço teórico com receitas e métodos que em nada ameniza minha fome e as feridas do mundo. Eu quero um lugar, um equilíbrio, força e uma casa. Eu quero continuar dessa forma, com essa luz, porém não quero ser sempre o mesmo.  Quero ser diferente, amo o diferente, e serei assim, enquanto for preciso, um ser como você, cuja leveza sobrevoa os mais belos jardins. Pois bem, pequena Sara... Você passou por aqui, e com todo seu encanto disfarçou sua tristeza. Sua leveza deslizou desse lugar, agora sua luz brilha em outro céu, um lugar feito para seu doce espírito. Guardo de você um pouco do tudo no incrível do existir. Não existe mais dor, não precisa arder em sofrimento, não tenha medo. Durma, descanse, tenha os mais belos sonhos, e quando acordar em seu paraíso. Saiba que o milagre da sua existência falou mais suave em nossos corações.  


Adeus, pequena Sara !      

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Como fechamos os olhos para nós mesmos?

Onde as horas não passam. IV

-Pronto? Está gravando?
- só um momento.
- Olha não sei ao certo como me expressar.
-Ok, bora lá então.
- Olá! Eu me chamo Amina e como paciente dessa instituição fui convidada a falar um pouco de mim e do meu caso. Sendo assim, tentarei ser breve e espero que essa gravação de algum modo sirva pra alguém com sintomas semelhantes. Não sou santa, nem um pouco "boa menina" e detesto olhar de bom samaritano. Pelo contrário, tenho um egoísmo tão egoísta que não quero ninguém vivendo ou sentindo minhas dores.
-É...
- Eu...
- Quero deixar bem claro: Estou aqui, mas não me sinto uma fraca.
- Por isso uma palavra que não me deixa, mesmo com toda essa medicação que vocês me empurram, é a palavra grandeza.
-Reconheço que a grandeza de uma pessoa consiste na forma que ela se olha em seu espelho.  Quando olhamos no espelho sentimentos vêm à tona aos milhares. Pelo menos comigo as coisas são assim. É como se fossem demônios cercando um estandarte sagrado.
- Olha, sei que parece ridículo, mais imagino que todos temos nossos demônios, ou dito de forma menos obscura: todos nós temos sentimentos, que no fim se tornam em neuroses e as neuroses por sua vez podem ganhar outros agravantes... tipo,  fobias entende? É dessa forma que me olho no espelho todo dia: como uma garota imersa em fobias. Tenho varias ideias e teorias sobre esse assunto. Mas penso que a definição mais sucinta e precisa para o termo nesse momento é o diagnóstico do meu médico sobre meu caso. Fobias são reações emocionais e físicas a objetos e situações temidas. Sentimento de pânico, ameaça constante, horror ou terror. Reconheço que o meu medo ultrapassa os limites. E sei que tudo isso é sem sentido para muita gente. Mas, essa sou eu. E não é nada fácil olhar nos olhos de uma pessoa quando estou assim. É... Não sei se são reações automáticas que estão fugindo do meu controle. Às vezes até tento brincar com minha situação. Tento ser forte sabe? Mesmo quando sua tomada por um sentimento de vazio. Poxa, ontem mesmo falei pra moça responsável pela terapia ocupacional que nem sempre é fácil ser eu.
- Como assim Amina? Melhor dizendo: você sabe quem é realmente?
-Então, eu diria com toda sinceridade do mundo que não sei quem sou, mas sei o que não sou.
-Sabe aquele moço que acorda todo dia e vai até o último banco próximo ao jardim? Aquele de baixa estatura, de ombros contraidos e que tem dificuldade pra falar! Então, eu o vejo quase todo dia em sua rotina. Sai do quarto vai até o refeitório tomar um café não demora muito, segue para o pátio, e para em um banco, sem sombra e desconfortável. Sempre senta no mesmo banco. E por lá fica sozinho por horas e horas cantando músicas antigas até cansar a garganta. Não deixo de ficar fascinado com sua solidão.  É uma solidão diferente entende? Ele canta como se tivesse uma imensa plateia lhe cercando- é tão fascinante. E realmente ele tem uma plateia, a mais nobre que ele já teve. Como ele conseguiu isso? Simplesmente fechando os olhos. Lá no cantinho dele não existe solidão. Com os olhos fechados não existe solidão. Porém, tem sempre alguém inteligente, dono da razão, um normal por assim dizer, que o machuca. Como? Quando chega próximo e sem gritar lhe abre os olhos.
- É... Senhor Hans Von Liszt uma coisa devo lhe assegurar, não sou como ele.  Bem queria, mas os meus olhos, quando foram abertos fez com quer eu perdesse uma coisa incrível ingênua e sem malícia mesmo guardando sua luz no mais sagrado, arremessando-me de um lado para outro, despojando-me de toda minha vontade de vida, toda minha ternura.  Arrancaram minha calma quando abriram meus olhos para um mundo sem vida que enruga e racha a alma. Hoje não sei quem sou, talvez uma escultura, sem afetos, desgastada pelo tempo em um canto empoeirado miseravelmente mal quista.  Ainda assim rastejo, lenta como as horas que me pesam, eu rastejo, sem deixar de lado minhas quimeras infantís. E mesmo que meu espírito esteja decorado com sentimentos líricos que de sorte me abraçam. Deixei de ser feliz quando o “mundo de vocês” abriu os meus olhos. Agora estou acordada e mundo de vocês? Dorme feito criança, desprezando os infortúnios da vida. Doutor, antes de terminar eu tenho uma pergunta... Como fechamos os olhos para nós mesmos?



Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)
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