quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Literatura latino-americana

HORACIO QUIROGA      
Por Claudio Castoriadis

Exuberância, violência e loucura. Sem esquecer da poesia latente em seu estilo temos na figura do intelectual Horacio Quiroga uma culminação de beleza e Horror. Escritor uruguaio, é sem sombra de dúvida o inventor do conto moderno na literatura latino-americana.

 A tragédia, sombra e abrigo dos maiores gênios, foi constante em sua vida, sucedendo-se um número insólito de mortes acidentais e de suicídios entre familiares e amigos mais próximos do autor, muito jovem, perdeu o pai, afeiçoando-se estreitamente ao padrasto que se suicidou, após ter ficado paralítico na sequência de uma hemorragia cerebral; a sua primeira esposa, Ana Maria Cires, incapaz de se adaptar à vivência na selvas suicidou-se em 1915, após uma violenta discussão com o escritor, deixando-o com a responsabilidade de educar os seus dois filhos. Em 1927, voltou a casar com Maria Elena Bravo, de quem terá mais uma filha. Por fim culminou no seu próprio suicídio. 

Em Los arrecifes de coral, livro dedicado ao seu amigo Leopoldo Lugones, outro grande escritor, temas permanentes em sua obra do tipo: mistério, solidão e melancolia contornam um estilo primoroso e único. Considerado por muitos como o inventor do conto. Com maestria sistematizou a narrativa curta elevando-a à categoria de gênero literário os seus contos se mostram herméticos e quando deseja maior intensidade, cada palavra irradia um espetáculo poético. 

Para os interessados uma boa dica de leitura que retrata bem o estilo contundente do Horacio seria a coletânea de contos intitulada CONTOS DE AMOR, LOUCURA E MORTE lançado pela editora cavalo de ferro, tradução da Ana santos. Se por acaso essa edição não for encontrada visite o site: www.cavalodeferro.com   

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Onde as horas não passam...Mawilda.

Mawilda
                                                         Por Claudio Castoriadis


Quando deixo o refeitório um tênue raio de luz descobre um sorriso com ar de casual, era a garota Mawilda. Franzindo a sobrancelha seu olhar ressumava ternura em um rosto angelical. Uma chuva ligeira caíra na noite anterior, por isso a pequena não se contia de alegria enquanto observa seu pequeno irmão brincar com as galhas secas e as poucas gotas que ainda caiam do teto. Intrigante, muitas pessoas desejariam falar com Deus, manter um contato direto com o criador, no momento contenta-me o simples - só queria ouvir por instantes a voz do pequeno irmão da Mawilda. Tentar compreender o que se passa na cabeça dessa criatura sagrada. Ele é nosso porto seguro, durante toda travessura do vale entre esse mundo pra o outro muitas forças malignas nos cercam, diversos entes das trevas, blasfemando contra ás leis eternas do divino e da compreensão, e graças a sua bravura e orações nenhum mal permanece muito tempo peregrinando sobre nossos passos. Taluiá Heniê, é como costumo denominá-lo, que significa “Filho que caminha sobre a luz da justiça divina”. Quando tive noção do meu dom requeimo-me uma sede ardente; desde então me ocupei em proteger essas duas crianças, verdadeiras e misteriosas. E foi somente a partir delas que passei a modificar todos os meus hábitos. A garota Mawilda foi a primeira a se manifestar para mim. Ainda quando criança ela aprontava no porão da minha casa, era tímida, tinha um modo de chamar atenção um tanto sutil. Não demorou muito ela tinha suas aparições em meu guarda-roupas; não tinha medo, mesmo quando ela passou a ser companhia constante ao lado da minha cama quando pela madrugada eu acordava com sede. Tinha por baixo do seu lindo cabelo encaracolado, um rosto cuja pela imaculada destilava uma imensa brancura. Olhos negros, bem desenhados, que se perdiam entre as têmporas realçadas por longas pestanas. De imediato qualquer um ficaria deslumbrado pelo brilho de seus olhos tão intensos e obstinados - Uma exuberância de juventude. Vestido curto, meio branco amarelado, seus trajes eram bem típicos de uma pequena boneca. Com o tempo suas aparições passaram a ser constantes e duradouras. Ela estava encarregada de ensina-me tudo o que fosse necessário para o aperfeiçoamento do meu dom. Quem a enviou? O porquê? Bem, para essas perguntas ela sempre me negou uma plausível resposta. Eu entendo e deverás respeito; afinal existe tanto mistério nessa vida, coisas que ultrapassam a experiência do possível.
Ninguém desse lugar passa despercebido do olhar dessa garota brincalhona. Bastante talentosa, Mawilda tem sempre ao lado um pequeno caderno onde passa horas rabiscando caricaturas, objetos e figuras extravagantes. As árvores, plantas, esculturas, bancos, cadeiras, instrumentos, enfermeiros e pacientes - todos são modelos que ganham vida nos graciosos traços da garota Mawilda. “O mundo não se resume apenas ao que vivenciamos” diz minha pequena amiga, “mas também a tudo que podemos representar pela arte”. Que assim seja Mawilda; que sua arte possa explodir em alegria e infinitas cores essa medonha realidade, que cada pedaço desse lugar seja abençoado por suas delicadas mãos. Quem não gostaria de possuir um caderno mágico? Sim, um caderno com folhas mágicas. Folhas que na verdade são espelhos encantados onde o feio se delineia como belo, onde as feridas são apenas rabiscos que não ferem. Você nem sabe o quanto é reconfortante seus traços Mawilda. Quando estou triste com a realidade fecho os olhos, tento não perder o controle, controlo minha respiração e deslumbro minha vista para uma só direção: as paginas sagradas de um simplório caderno. Simples assim, Espigão, Naldo, Dona Esperança e todos da clínica são verdadeiros heróis, ganham uma nova vida, todos são felizes com suas famílias, todos são iguais dourados por um novo sol, todos são belas flores cultivadas em um imenso jardim, um lugar onde o equilíbrio é possível.


Por Claudio Catoriadis

veja também : http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

domingo, 21 de agosto de 2011

As dores da minha existência

                                          Por Claudio Castoriadis

 Tem dias em que eu acordo gritando para as paredes as dores da minha existência, nessas horas o silêncio pesa esmagando minha esperança, dizimada por cada infortúnio e miséria, espelhos quebrados entre coisas empoeiradas refletem meu rosto em retalhos. Mesmo assim sou grato por cada lástima.  Tudo acontece como deveria ser afinal, a roda da existência não para, ela é sempre fiel com suas obrigações: gira e gira criando e destruindo tudo que se encontra em seu domínio. Busco por meu lugar onde meu equilíbrio possa ser como deveria. Eles podem destruir meu corpo, dilacerar meus sonhos, mas minha luz será forte. Que venha todo mal, nada temo - meu espírito ainda me pertence. O vale da sombra da morte é pouco para quem sobrevoa abismos. Meu coração está partido, são tantas as feridas. Pássaros selvagens me rodeiam. Eles querem a companhia desse miserável pecador que desde sempre definhou pela escuridão. Silêncio - uma oração cai sobre mim.

sábado, 13 de agosto de 2011

Lágrimas

                             Por Claudio Castoriadis

Hoje eu acordei pensando no infinito
 Por horas me banhei em
Suas águas,
Enquanto descansava pensei em todas
As dores do mundo
Pensei como um solitário perturbado pelo
Silêncio tortuoso,
Pensei em nomes, lugares, pessoas
Dediquei cada lágrima aqueles
Que eu já fiz sofrer
Seja por má-fé, malícia, covardia

Mergulhei nas estrelas
Confuso
Solitário
Clamei pelo fundamento da vida,
Descansei 
Chorei.

Em um canto distante
Longe de qualquer lugar
O sagrado da vida
Refrigera minha alma.

Que meu brilho não pereça
E minha dor não me destrua.

Que minha sombra seja
Refugio, um jardim para
Almas benevolentes,
Bem aventurados.

Que o meu pranto
Não justifique
Minhas feridas
E que meu "eu" seja
Uma centelha de ternura.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O evangelho segundo Nietzsche.

                                     Por Claudio Castoriadis


A novidade da análise nietzschiana acerca da cultura consiste em sua postura permeada de comunicações inauditas utilizando palavras antigas. Seus escritos de tão bem trabalhados se tornam uma obra de arte. Sua fala que muitas vezes gravita em tradições linguístico-religiosas chega a dar um ar de paródia da tradição cristã. De fato existe uma forte tendência entre tantos intelectuais de nosso tempo em considerar sua aparição como “evangelista” sendo tal postura um traço fundamental de sua filosofia. Basta uma breve leitura do seu assim falou Zaratustra para podemos perceber uma inclinação bíblica estritamente poética. Seja como professor da cadeira de filologia clássica ou como filósofo intempestivo, Nietzsche deverás sempre proferiu um tipo de evangelho que clamava uma cultura fiel as forças essenciais da natureza e da vida. Contudo, acerca do seu evangelho seria importante enfatizar que não se trata de um consolo utópico guiado por diretrizes redentoras como, por exemplo: a república de Platão, a nova Atlântida de Francis Bacon, o comunismo marxista ou o consolo compassivo do cristianismo. Muito pelo contrário, acreditando que as diferenças e injustiças são próprias do mundo seu evangelho não promete um sol, sossego, brandura, paciência, remédio ou balsamo. Com rigor suas parábolas e versículos edificam uma escola da suspeita (Schule Des Verdachts) de onde surgirão filósofos legisladores implacáveis, terríveis e tirânicos, estes cientes que crescimento do homem só é possível quando se leva em conta sua grandeza atrelada também no profundo e terrível.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Feio e torto


Feio e torto

Depressão…
Uma ressaca que não tem fim
Um copo com agua que falta
No Haiti,
Um mendigo dormindo em pleno sol
Do meio dia.

Depressão…
Ouvir calado um choro na casa
Ao lado,
Um bater de palmas no portão
Uma criança recém-nascida surda e
Muda
Um reclamar em silêncio toda injuria,
Todo dispêndio.

Depressão…
Um abraço que não abriga
Um amor que feri e humilha
Um sentido que não explica

Depressão…
Que rima com cadeira,
Um final de semana sem brilho
Uma poesia modesta e pobre
Um samba feio e torto.
Um pássaro ridículo em minha
Janela.

Depressão…
Um sapo que não lava o pé
Um sai pra lá exu caveira
Uma mola encolhida
Um filho que ainda não veio
Um palhaço escroto sem graça.

                                     ( Amina ) 



 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Falando em Platão...

Platão foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mestre, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, outro grande gênio, vale lembrar que Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental. Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Arístocles, considerado o grande pilar de todo o pensamento ocidental sendo o mesmo para muito, inovador por tratar de diferentes temas, entre eles a ética, a política, a metafísica e a teoria do conhecimento. Nasceu em Atenas, provavelmente em 427 a.C. (no ano da 88a olimpíada, no sétimo dia do mês Thargêliốn, cerca de um ano após a morte do estadista Péricles, e morreu em 347 a.C. (no primeiro ano da 108a olimpíada).
Para que melhor possamos compreender o alcance desse pensamento em uma breve apresentação convém esquematizar a filosofia platônica, resumindo os seus principais pontos de vista basicamente em duas teses:
Tese metafísica
O verdadeiro ser das coisas é, para Platão, a essência que não muda, conservando-se idêntica nos indivíduos (tal como a espécie humana, que não morre quando os indivíduos se extinguem). Mas como no mundo em que vivemos tudo está em permanente mudança, a essência imutável deve existir não nas coisas materiais e passageiras, porém numa outra dimensão, que o filósofo denomina “mundo inteligível”, oposto ao “mundo sensível” em que nos encontramos. Só as essências, também chamadas universais, existem verdadeiramente, sendo a imutabilidade o sinal distintivo da realidade completa, sem falhas. As coisas, perecíveis, arrastadas pela onda da eterna mudança (vir-a-ser) existem na medida em que participam das essências, paradigmas ou modelos (Idéias ou formas, na terminologia platônica), que elas refletem, e em razão das quais surgiram.
Tese psicológica
A alma tem afinidade com o mundo inteligível do qual se originou. Presa no corpo, como dentro de um cárcere, aspira retomar ao seu lugar de origem, e é essa aspiração, interpretada como desejo de imortalidade, que a conduz quando ela ama. Dividida entre uma parte superior, racional, que a leva para o alto, e uma inferior, dos instintos e paixões, que a puxa para baixo, onde a matéria domina, a alma deve superar as imperfeições do seu estado terreno, libertando-se gradualmente delas, para concentrar-se no conhecimento das essências ou idéias, que a Razão é capaz de apreender, quando consegue fugir ao império das impressões sensíveis, fugazes e ilusórias. Esse processo de libertação, pelo qual o verdadeiro conhecimento se efetiva, e que tem sentido intelectual e moral, é impulsionado pelo Amor (Éros) e ativado pelo Bem (Agathós), luz do mundo inteligível, a mais elevada de todas as idéias, que comparte da natureza da Verdade, e cujo brilho, que atrai e seduz a alma, resplandece nas próprias coisas. Essa sedução é própria dos seres e objetos belos, em que o Amor se fixa e à custa dos quais impulsiona a escalada do espírito, do sensível ao inteligível, sede da verdadeira Beleza e do verdadeiro Bem.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Aprendendo desaprendendo

Onde as horas não passam VI


Bem agasalhada, dou início um passeio pela aleia junto ao muro da enfermaria. Um sol meio toldado me esquenta e reflete nas janelas intensificando as esculturas do jardim. Pássaros cantam e embelezam a vista. Todos estão eufóricos, hoje é dia de visita. Gosto de me sentir assim, centralizada sem expectativas nessas horas. Uma hora. Apenas uma hora é o tempo que todos tem para botar as ideias em dia para alguém próximo, abraçar um ombro amigo, e desaguar suas mágoas. Seja um parente ou um estranho. O importante agora é se sentir alguém. Ser lembrado, nem que seja por um camarada ou até mesmo por algum voluntário. Gosto deles, dos voluntários, não me importa seus motivos. Mas acho nobre quem doa uma parte de seu tempo para visitar pessoas largadas em uma espelunca como essa. Na ala feminina não sinto animo pela parte das garotas, já na masculina, a moçada não consegue disfarçar tamanha alegria. De todos os pacientes o que me chama mais atenção é o “espiga”. Ele fede a mofo, toda noite urina na cama, mas é o mais querido daqui. É como se fosse o mascote desta instituição. Ele anda como se pisasse em brasas; de todos é o mais peculiar. Com poucos dentes tem o sorriso sempre de uma ponta da orelha a outra. Realmente é uma figura carismática. Quem não se alegra com sua alegria? Mesmo com suas perturbações consegue contagiar a todos com sua alegria. De ala em ala vou me habituando a eles. Difícil não gostar de crianças envelhecidas. É assim que vejo todos e a este lugar, uma comunidade de crianças envelhecidas.

O primeiro dia que cheguei aqui não lembro, estava tão exaltada e fraca que me deram medicação o suficiente pra dormir dois dias. No terceiro dia acordei ludibriada em meio a várias camas e pessoas desconhecidas. Fui tomada por uma crise de pânico e tive que ser sedada novamente. Mas tudo ficou bem após horas e horas conversando com um psicólogo e assistente social. Só então a ficha caiu. Caiu no sentido de aprender a desaprender.  Tudo que a escola da vida me ensinou não é utilizável aqui. Todas minhas convicções e ideias foram abaladas. Noções do tipo realidade, amor, amizade, família, segurança. Tudo aqui é diferente. Como é doloroso esse processo que eu defino como aprendendo desaprendendo. Uma cruel ruptura que deixa uma péssima sensação de vazio. De quando em quando sentindo os estertores da morte em minha garganta, como um mal está depois de um vomito interminável. E pra ser bem sincera comigo, acredito que toda a educação que tive no decorrer de minha vida me jogou aqui de paraquedas, fraca, solitária, sem horizonte. “Viver é está com aqueles que não se pertence”. Está foi minha única convicção que não foi denegrida. Uma ideia que é bem aplicável não apenas aqui, mas que ultrapassa os muros desta prisão. Lá fora também é assim, vivemos com aqueles que não pertencemos. Desde que existe comunidade, existiu também essa bomba relógio na qual estão fincadas as bases de uma comunidade de indivíduos: o sentimento de medo que assombra todo aquele sujeito que pertence a quem não se pertence, apenas por buscar segurança no teto de um agregado de estranhos.

Ridículo e sem escrúpulos todo aquele que aliena as pessoas a pensarem dessa forma. É tudo mentira. Será que as pessoas nunca vão entender? Todo amor é amor próprio, por isso estamos sempre manipulando os outros expressando afetos que na verdade são uma estratégia para quem busca viver em comunidade. Com isso, é quase improvável um sentido de segurança duradouro e verdadeiro, visto que todos somos uma explosão de interesses. Dessa forma, pensar a sociedade ou comunidade como um corpo de pessoas com os mesmos interesses, é possível apenas quando o interesse primordial é a auto conservação. A respeito disso, o que realmente acompanha o termo comunidade é o sentimento de segurança e dominação pela parte dos fortes contra os mais fracos, é tudo uma grande piada para por sentido na máxima: “respeite o sistema”.   Se existe um sistema existe um ambiente. E nesse instante nós da clínica somos um tipo de ambiente - entulho do grande sistema. Um ambiente que cria um pequeno sistema que no fim das contas completa o sistema deles. É tudo tão patético, eles empurraram neuroses na cabeça de todos, alienaram cada cabeça desses miseráveis. Agora é bem mais fácil manter tudo no controle de forma lucrativa. Você cresce sofrendo pancadas, fica fraco, mais, ainda tem valia para o todo. Como? Enriquecendo as indústrias farmacêuticas do mundo, engrandecendo o ego dos fortes por existirem pessoas fracas e neuróticas, servindo de estética politica em época das grandes campanhas. É tudo um grande jogo. Um jogo onde pessoas inocentes estão perdendo, um jogo de merda onde as regras são: seja forte, seja humano, domine e destrua quem e quantos estiverem ao seu alcance. E os fracos? Que se danem. Os fracos cuidam dos fracos assim como os mortos cuidam dos mortos. É cada um no seu canto. Essa é a regra imposta pela massa aos fracos. Os retardatários serão sempre os últimos. O Filósofo Sartre já afirmava que o argumento empregado por eles contra a liberdade consiste em martelar em nossas cabeças nossa postura desfavorável. Seu argumento consiste em lembrar-nos de nossa impotência.

Neuroses? Megalomania? Digam o que disserem, está tudo acabado mesmo. O mundo agora cheira até as entranhas a mentiras. Nazistas, fascistas, democratas, socialistas, humanistas, falsos hipócritas no fim são todos farinha do mesmo saco. Todos querem poder. O sol está indo para seu lugar, a vida ainda é um milagre. Toda noite antes de dormir peço a Deus graça e coragem para continuar sendo eu mesma. Arrogante? Só quando necessário. Agressiva? Apenas pra me defender. Mentirosa? Pelo menos sou honesta quando não nego minha falsidade. De todos eu sou a pior? Que seja, pelo menos eu sei quem sou. O mundo é uma ferida e as pessoas estão se autodestruindo de maneira tão mesquinha. Carrego esse fardo todo santo dia. O fardo da honestidade. Mais também levo coisas boas em meus pensamentos. Pois é, tenho lembranças boas que ofuscam os maus pensamentos e isso me torna melhor e mais forte: Enquanto existir uma Amina, estará tudo aqui, quente e confortável em minha memória.  Espelho quebrado, barulho da televisão, um rosto junto ao meu, um velho sofá era minha diversão. Pouco dinheiro, vozes no quintal, era minha realidade. Minha maquiagem borrada por lágrimas, uma frequência, um lugar mal iluminado. Agraciada pelo canto dos pássaros o mundo parecia está sempre suspenso. É bem verdade que a mentira sempre me assolava. Porém, as dores do mundo aparentavam não existir quando minha referência era um sorriso bobo meio que angelical. Enfim, quase tudo se perdeu, mas alguma coisa ficou. Por isso eu tenho o que lembrar nas noites de frio, na solidão entre tantas camas em um quarto escuro abrigo de crianças envelhecidas.





Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)                
        Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Onde as horas não passam V


NICOTINA

Um pouco desnorteada observo pela porta do meu quarto que a fila de pacientes para o único telefone desta ala está tranquila. Estranho, pouca gente querendo manter contato com o mundo lá fora.  Pelo visto o mundo real não está sendo tão requisitado hoje. Deve ser por conta do horário. Depois do almoço, enquanto muitos vão dormir outros preferem alguma distração: Escrever, pintar, varrer seus quartos, ou se divertir em um descontraído jogo de baralho. (Aqui tudo é objeto de aposta, roupas, cigarros, tampas, chapéus, quem vai lavar os pratos). Fora os que se encontram no grupo de terapia. Cada qual buscando “matar” o tempo como pode. No fim das contas todos são assassinos que nunca fizeram uma vítima. Por que o tempo ainda é o mesmo insaciável as concupiscências humanas. É seu maior prazer vislumbrar como paisagem nossa impotência e lembra-nos de nossa falta de grandeza. Quem somos perante tal monstro?  O que deve ser feito perante o fatídico tempo? Eis, então, uma questão que certamente resolvida traria uma possível harmonia ou correlato do sujeito e o tempo. Maldita assassina que sou sempre escrava de uma vitima que me conduz feito um fantoche. Nesse caso eu me pergunto: quem mata quem? Quem é a vitima? Quem é o culpado?  Santo Deus, a vida é uma aventura absurda.

 Hoje não vou servir na terapia ocupacional. Espero que minha desculpa do resfriado tenha sido bem aceita pela minha orientadora. Se não, paciência. Ela tem que entender que assim como os demais pacientes, também tenho meus dias de crise.  Hoje acordei mais tarde, além do café da manhã perdi o horário do almoço. Não é bom, sei disso. Mas, não tem problemas, meu corpo ainda tem nicotina e a cantina geralmente é aberta o dia todo. Devido ao meu trabalho voluntário, que modesta parte é bastante eficiente, tenho crédito naquela espelunca. Eles sabem de minha capacidade intelectual. Não é a toa que sou sempre a escolhida para apresentar o local quando autoridades politicas tiram um tempo para visitar a instituição em um ato de benevolência medíocre que já não engana nem os pacientes mais chapados daqui. Mas faço minha parte, com a cabeça erguida, mesmo não acreditando neles, uso de minha retórica para embelezar cada pedaço sujo desse lugar. Porcos narcisistas- Espero nunca ser tragado por toda sua fome burocrática.

 Em pouco tempo tomo um banho e troco de roupas, o vento toca minha face e sutilmente algumas folhas secas adentram o quarto. Pelo visto hoje a madrugada promete um frio daqueles. Por isso, antes de sair deixo a vista, sobre uma cadeira meu antigo casaco de veludo grosso, luvas e meias de algodão, para assegurar uma boa noite de sono. Alguns acessórios são bem mais eficazes que uma porrada de medicação para dormir. Pelo menos assim ainda sei que estou no comando. Posso fumar um cigarro e sentir a nicotina correndo pelo meu corpo, posso morrer sabendo que um dia tive uma vida. Consciente, longe de artifícios químicos. De química basta a nicotina- já é o suficiente. A nicotina é a arma de muitos aqui para matar o tempo. Principalmente a minha.

Por falar em nicotina esses dias fiquei sabendo seu efeito devastador em nosso organismo. Uma senhora do concelho nacional de medicina veio da uma palestra na sexta passada. Detalhe, a palestra era ótima, mas a moçada da plateia, a grande maioria, de vez em quando acendia um cigarro. Imagina só, uma sala fechada cheia de pessoas mal arrumadas com cheiro sufocante cada uma com seu cigarro na boca. Será que a medica estava no canto certo e na hora certa para trabalhar sua ajuda sem preço?  Enfim, o tema da palestra foi sobre a ação da nicotina no organismo. Como essa porra toda trabalha em cada parte do nosso corpo. Segundo especialistas, a maneira mais comum de levar a nicotina e outras drogas para a corrente sanguínea é pela inalação, ou seja, fumando. Temos que tragar toda essa porcaria para os pulmões. Os pulmões são revestidos por milhões de alvéolos, que são as minúsculas bolsas onde ocorre a troca de ar. Esses alvéolos fornecem uma enorme área de superfície (90 vezes maior do que a da pele) e devido a isso fornecem um amplo acesso para a nicotina e outros compostos-Um prato cheio para nossa destruição. Uma vez na sua corrente sanguínea, a nicotina segue quase que imediatamente para o cérebro. Depois da primeira tragada a nicotina leva segundos para alcançar o cérebro. Embora a nicotina aja de várias maneiras diferentes pelo corpo, e cada corpo é peculiar, a atuação dela no cérebro é responsável pelas sensações "agradáveis" que alguém sente quando fuma, em um período de 10 a 15 segundos após a inalação, a maioria dos fumantes está sob os efeitos da nicotina. Vale lembrar, que a nicotina não fica muito tempo no corpo. Pois é, Sua meia-vida é de cerca de 60 minutos, o que significa que seis horas após um cigarro ter sido fumado, apenas cerca de 0,031 mg do 1 mg inalado continua no corpo. Mas já é tarde o estrago depois de feito faz com que o infeliz ganhe mais um problema pra se preocupar. Depois de um trago as coisas se invertem e o assassino do tempo passa a ser vítima do seu artificio. Aquela que seria uma arma para um crime perfeito se volta a favor de nossa destruição. E o tempo? Apenas continua esmagando um fraco adversário asperamente.

 Maravilha, agora o único consolo para muitos daqui agora é risco de vida.  E o mais cômico, minha relação com o mundo lá fora por intermédio do telefone é somente para isso. Sei que é auto destrutivo mais meus olhos não pregam por um instante frente a fila do telefone. Mesmo da cantina não deixo de observar o movimento de vem e vai dos viciados. Todos apenas com um propósito: encomendar veneno, dos mais variados possíveis por esse outro lado da vida. Nisso eles são os melhores. Do outro lado estão sempre os melhores em destruição em massa. Com sutiliza conseguem te alienar e te empurram veneno como se fosse doce para crianças. O tiro é certeiro. E o grande alvo é sempre o cérebro. É ele o protagonista na ação da nicotina. Como um computador que não para de trabalhar, em atividade constante, o cérebro processa, armazena e utiliza informações.  No cérebro, os neurônios são as células que transferem e integram as informações. Cada neurônio recebe milhares de entradas vindas de outros neurônios pelo cérebro. Cada um desses sinais está incluso na decisão que o neurônio toma de passar ou não o sinal recebido para outros neurônios. É por essa via que a nicotina, encontrar sua via. O caminho da morte para muitos. Mas quem se importa? Alguém já perguntou para um mendigo largado a beira da sociedade se para ele importa? “Espiga” o paciente da ala masculina, ele fuma feito uma maquina, sem família, sem amigos, sem amor, alcoólatra, será que ele se importa com essa descoberta? E dona Zica, ela já passar dos 80, também foi largada aqui, será que ela se importa com a nicotina e seu poder avassalador?  Duvido muito, não só deles, mas como muitos pacientes daqui. Eu diria que mais de 90% deles. É complicado, pois geralmente quando jogamos com as cartas que temos podemos escolher uma saída mais viável. Mas quando o jogo está em seu limiar? Quando não existem mais cartas, é possível um novo fôlego? Enxergar uma centelha de esperança? Ora, não basta uma voz delicada e olhares carinhosos para apaziguar nossas dores. E o caminho que eles buscavam outrora não existe mais. Eles apenas contemplam os terrores da juventude e suportam um dia após o outro da velhice espiritual e física. Um problema a menos em nada ameniza um instante antes do fim. Digam o que disserem, mas o primeiro ato de benevolência que recebi quando aqui cheguei foi de um senhor já de idade que ao me vê sozinha sentada encostada em um pilar foi me oferecer um cigarro. E sem malícia ou má fé ele me pediu pra guardar por que aqui onde as horas não passam e todos buscam alívio àquilo que não te mata lhe fortalece. Fim da tarde, o frio se aproxima, o céu está meio cinza.  Hoje é domingo um dia comum, não tem mais fila, hora de mais um crime, vou até o telefone e peço mais duas carteiras de cigarros.



Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)
       Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

sábado, 4 de junho de 2011

Platão, o ditador.

                                         Karl Popper
Considero o respeito pelos grandes nomes da filosofia clássica uma falta de bom senso e uma postura mal inclinada, uma piada contada de maneira sutil durante séculos que de engraçado apenas temos sua desfigurada mascara totalitária. Será que ninguém nunca parou, ao menos por um momento, para pensar que os grandes monstros da tradição filosófica na pior das hipóteses foram em sua grande maioria um grupo que delimitou uma elite dogmática da mais infeliz má fé? Ora, minhas observações não são aleatórias, elas estão embasadas pelo que entendo por liberdade plena, e também ganham relevância na figura do destemido Karl Popper. Se durante anos o filósofo Nietzsche foi mal quisto pela academia, um tipo de fenômeno que tentaram de toda forma abafar usando argumentos, retóricos e manipuladores, que felizmente não foram bem sucedidos. Pois bem, senhores eruditos, O Karl Popper assim como o autor de Zaratustra vai ser outro “sapo” que os contemplativos e covardes acadêmicos terão que digerir. Que por sorte, o mesmo com toda tranquilidade que lhe é peculiar não foi vítima de tantas apropriações ideológicas de quinta categoria. É certo que Nietzsche ficou louco e morreu sem muita chance de defesa, porém com toda sua irreverência causou um estrago nos centros acadêmicos, isso, é indubitável. E agora o Karl Popper aumenta o estrago na tradição iniciada pela epopeia do angustiado Nietzsche com toda a elegância e simplicidade de um grande gênio.

Elegância que o mestre Popper demostrou na noite de sexta-feira, 25 de outubro de 1946, quando na ocasião a associação de ciências morais de Cambrigde reuniu-se para uma discussão que de imediato deveria ser proveitosa, visto que o orador da noite era o doutor Karl Popper. Sua intenção era apenas apresentar seu artigo intitulado “existem problemas filosóficos?” seria mais uma instigante palestra se entre os ouvintes não estivesse o presidente da associação, o então cultuado professor Ludwig Wittgentein. O que de fato aconteceu naquela noite não se sabe ao certo. O que ficou registrado foi a arrogância do professor Wittgenstein que imerso em fúria teve a postura de um atiçador de fogo saindo da sala em disparada. (Que falta de elegância professor Wittgentein). Todo esse drama por tão pouco: uma mera discursão acerca da moral.  Em resposta quando perguntado pelo alvoroço, Popper apenas provoca dizendo que um bom exemplo de princípio moral seria não ameaçar os palestrantes com atiçadores. (Será que o grande Wittgentein teve um sono tranquilo nessa noite?). Então, como bem sabemos para o Ludwig Wittgentein tudo se resume a linguagem, proposições metafísicas, da ética e da religião são desprovidos de sentido porque tentam ultrapassar o limite da linguagem. Popper em sua inocência filosófica discordou e então uma palestra que era voltada para filósofos e estudantes findou em uma tragédia cômica. Da pra acreditar?

Mas voltemos a questão dos monstros da tradição. Segundo o mestre Popper a filosofia profissional não tem produzido grandes coisas e ainda alerta que ela carece urgentemente de uma defesa, uma defesa de sua existência. O próprio Popper como filósofo se declara culpado e assim como Sócrates, faz sua defesa. E se defende atacando muitos filósofos que ao seu vê não chegaram a produzir algo de bom. Por isso cita quatro dos mais importantes- Platão, Rume, Spinoza e Kant.  Platão, segundo Popper, foi o maior, o mais profundo, e o mais dotado de todos os filósofos. Porém, tinha uma visão de vida humana que ele considerava repulsiva e deveras horripilante. Nossa!!! Mas porque tanto desprezo pelo Platão e sua turminha de intelectuais? O grande problema dessa gama de pensadores e a tantos outros filósofos profissionais que lhe sucederam, era acreditar em uma elite. Uma simples crise de ego no Reino encantado da Filosofia? Que lástima. Platão inflamado em sabedoria achava que os sábios, os senhores filósofos, deviam ser os ditadores, aqueles que deveriam preservar o bem está da razão – absolutos das regras. Nossa quanta responsabilidade. Deve ser por isso que desde Platão, a megalomania tem sido a doença profissional mais difundida entre os filósofos. (intrigante, eu sempre achei que megalomania e Filosofia fossem antípodas). Enfim, como exemplo desse lado tão ridículo da tradição, Popper refresca nossa memória ressaltando que no décimo livro de As Leis, Platão inventou uma instituição que inspirou a inquisição, e um detalhe importante, o sábio Platão chegou até mesmo perto de recomendar campos de concentração para a cura das almas dos dissidentes. Acusação contundente pela parte do Popper, praticamente aproximando a figura do Platão com a de Hitler. Teria algum fundamento tais acusações?  Mas o argumento de Popper é preciso e razoável quando diz que Platão e muitos pensadores seriam mais honestos: tivessem eles convencidos de que, embora brilhantes, talvez; não estavam dando um passo no caminho da verdade. E sim alimentando a ideia de uma elite filosófica e intelectual. Interessante, o nazismo desde o início de sua hegemonia também alimentava essa ideia política e mesquinha. Não foi em nome da liberdade e de uma elite superior, que o chefe de estado Hitler justificou a matança em massa de judeus em campos de concentração?  Uma verdade que deflagrou psicoses de massa seletivas? Com isso uma pergunta deve ser feita: Devemos contemplar um tipo de filosofia “seletiva” que limita a liberdade que em nada assegurar a liberdade individual?  Covardia e preguiça são fatores, que segundo Kant, diminuem o homem. Mas não será a busca da verdade, “única e indiscutível”, um estimulo a covardia e preguiça do homem? Enfim, senhoras e senhores, em que tremenda saia justa nosso querido Karl Popper deixou os grandes nomes da filosofia.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

As Rosas Não Falam, mas eu sinto: Cartola tinha razão.

Bate outra vez...
- Em um tempo sem tempo pra mim
Com esperanças o meu coração...
- Adulterado ainda no mesmo poema
Pois já vai terminando o verão...
- E os dias se arrastam pelas folhas e sorrisos
Enfim...
- Eu tenho o cartola.

Volto ao jardim...
- Com a sorte de um velho cartola
Com a certeza que devo chorar...
- Com a esperança, e a alegria do mestre,
Pois bem sei que não queres voltar...
- Feito teimosia de poeta que inflama meu coração
Para mim...
- Apenas para mim
Queixo-me às rosas...
- Nessas horas tão ridículas e mal amadas
Mas que bobagem...
- É tudo poesia e charme da minha solidão
As rosas não falam...
- Elas apenas são pedaços de um sonho
Simplesmente as rosas exalam...
- Todo o sentido de um mundo em pequenos versos
O perfume que roubam de ti, ai...
- Agora ausente pelo amargo presente instante
Devias vir...
- Lenta como uma suave melodia
Para ver os meus olhos tristonhos...
- Resultado de uma alegria bem vinda
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos...
- Um recanto de poucas palavras
Por fim...
- tenho um mundo e um moinho
- Eu tenho uma poesia
- Eu tenho uma cartola.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uma carta para pequena Sara.

 Meu caminho ainda é um mistério, ainda não tenho certeza onde tudo vai parar, onde meus pensamentos vão encontrar repouso. Estou sempre pensando; meus pensamentos não me deixam ser apenas mais um, disso tenho orgulho. Sei que tenho muitos amigos, amigos de infância, amigos de agora e amigos descartáveis. Uns já se foram, outros estão em clínicas lutando pela vida e muitos outros estão vagando pela madrugada entre a poeira enfadonha do tempo. Por carinho, respeito ou má fé eles me qualificam em vários adjetivos: Polêmico, inconstante, arrogante, sem caráter, amoroso, intelectual, solitário, drogado, ridículo, criança, alcoólatra, ou simplesmente me chamam de “novinho”. Enfim, são meus amigos que ganhei nesse percurso tão grandioso da vida. Todos eles buscam alegria, querem um emprego, falam em família. Todos, cada um do seu modo, buscam por alegria e alívio em um mundo tão complicado e devorador de sonhos. Minha alegria não sei ao certo, tento manter a calma em meio aos meus delírios.  Não sei qual lugar me traz deveras alegria, uma sala de aula entre intelectuais ou em uma mesa de bar fumando, bebendo e falando as coisas mais absurdas. É tudo tão novo e ao mesmo tempo tão velho. É tudo tão “eu.” Gosto de me sentir assim, confuso e fora de moda como uma foto em preto e branco. Gosto de me vê como um nada, ainda em construção, pois ainda não me vejo. Quero sempre saborear a vida como uma incrível novidade. Eu sou um estupido quando penso que sou melhor, sou o ridículo do destino que me pesa feito um imenso rochedo. Fui tanta coisa, hoje sou um nada, amanhã serei bastante coisa. Amei e fui amado, amarei sempre do meu jeito. Gostaria de nunca ter machucado ninguém, gostaria de verdade. Gostaria de não saber de todas as maldades que as pessoas fazem, gostaria de virar as costas para as dores do mundo. Mas não consigo, é inútil é poético ser dessa forma. Eu quero bem mais que um arcabouço teórico com receitas e métodos que em nada ameniza minha fome e as feridas do mundo. Eu quero um lugar, um equilíbrio, força e uma casa. Eu quero continuar dessa forma, com essa luz, porém não quero ser sempre o mesmo.  Quero ser diferente, amo o diferente, e serei assim, enquanto for preciso, um ser como você, cuja leveza sobrevoa os mais belos jardins. Pois bem, pequena Sara... Você passou por aqui, e com todo seu encanto disfarçou sua tristeza. Sua leveza deslizou desse lugar, agora sua luz brilha em outro céu, um lugar feito para seu doce espírito. Guardo de você um pouco do tudo no incrível do existir. Não existe mais dor, não precisa arder em sofrimento, não tenha medo. Durma, descanse, tenha os mais belos sonhos, e quando acordar em seu paraíso. Saiba que o milagre da sua existência falou mais suave em nossos corações.  


Adeus, pequena Sara !      

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Como fechamos os olhos para nós mesmos?

Onde as horas não passam. IV

-Pronto? Está gravando?
- só um momento.
- Olha não sei ao certo como me expressar.
-Ok, bora lá então.
- Olá! Eu me chamo Amina e como paciente dessa instituição fui convidada a falar um pouco de mim e do meu caso. Sendo assim, tentarei ser breve e espero que essa gravação de algum modo sirva pra alguém com sintomas semelhantes. Não sou santa, nem um pouco "boa menina" e detesto olhar de bom samaritano. Pelo contrário, tenho um egoísmo tão egoísta que não quero ninguém vivendo ou sentindo minhas dores.
-É...
- Eu...
- Quero deixar bem claro: Estou aqui, mas não me sinto uma fraca.
- Por isso uma palavra que não me deixa, mesmo com toda essa medicação que vocês me empurram, é a palavra grandeza.
-Reconheço que a grandeza de uma pessoa consiste na forma que ela se olha em seu espelho.  Quando olhamos no espelho sentimentos vêm à tona aos milhares. Pelo menos comigo as coisas são assim. É como se fossem demônios cercando um estandarte sagrado.
- Olha, sei que parece ridículo, mais imagino que todos temos nossos demônios, ou dito de forma menos obscura: todos nós temos sentimentos, que no fim se tornam em neuroses e as neuroses por sua vez podem ganhar outros agravantes... tipo,  fobias entende? É dessa forma que me olho no espelho todo dia: como uma garota imersa em fobias. Tenho varias ideias e teorias sobre esse assunto. Mas penso que a definição mais sucinta e precisa para o termo nesse momento é o diagnóstico do meu médico sobre meu caso. Fobias são reações emocionais e físicas a objetos e situações temidas. Sentimento de pânico, ameaça constante, horror ou terror. Reconheço que o meu medo ultrapassa os limites. E sei que tudo isso é sem sentido para muita gente. Mas, essa sou eu. E não é nada fácil olhar nos olhos de uma pessoa quando estou assim. É... Não sei se são reações automáticas que estão fugindo do meu controle. Às vezes até tento brincar com minha situação. Tento ser forte sabe? Mesmo quando sua tomada por um sentimento de vazio. Poxa, ontem mesmo falei pra moça responsável pela terapia ocupacional que nem sempre é fácil ser eu.
- Como assim Amina? Melhor dizendo: você sabe quem é realmente?
-Então, eu diria com toda sinceridade do mundo que não sei quem sou, mas sei o que não sou.
-Sabe aquele moço que acorda todo dia e vai até o último banco próximo ao jardim? Aquele de baixa estatura, de ombros contraidos e que tem dificuldade pra falar! Então, eu o vejo quase todo dia em sua rotina. Sai do quarto vai até o refeitório tomar um café não demora muito, segue para o pátio, e para em um banco, sem sombra e desconfortável. Sempre senta no mesmo banco. E por lá fica sozinho por horas e horas cantando músicas antigas até cansar a garganta. Não deixo de ficar fascinado com sua solidão.  É uma solidão diferente entende? Ele canta como se tivesse uma imensa plateia lhe cercando- é tão fascinante. E realmente ele tem uma plateia, a mais nobre que ele já teve. Como ele conseguiu isso? Simplesmente fechando os olhos. Lá no cantinho dele não existe solidão. Com os olhos fechados não existe solidão. Porém, tem sempre alguém inteligente, dono da razão, um normal por assim dizer, que o machuca. Como? Quando chega próximo e sem gritar lhe abre os olhos.
- É... Senhor Hans Von Liszt uma coisa devo lhe assegurar, não sou como ele.  Bem queria, mas os meus olhos, quando foram abertos fez com quer eu perdesse uma coisa incrível ingênua e sem malícia mesmo guardando sua luz no mais sagrado, arremessando-me de um lado para outro, despojando-me de toda minha vontade de vida, toda minha ternura.  Arrancaram minha calma quando abriram meus olhos para um mundo sem vida que enruga e racha a alma. Hoje não sei quem sou, talvez uma escultura, sem afetos, desgastada pelo tempo em um canto empoeirado miseravelmente mal quista.  Ainda assim rastejo, lenta como as horas que me pesam, eu rastejo, sem deixar de lado minhas quimeras infantís. E mesmo que meu espírito esteja decorado com sentimentos líricos que de sorte me abraçam. Deixei de ser feliz quando o “mundo de vocês” abriu os meus olhos. Agora estou acordada e mundo de vocês? Dorme feito criança, desprezando os infortúnios da vida. Doutor, antes de terminar eu tenho uma pergunta... Como fechamos os olhos para nós mesmos?



Por Claudio Castoriadis ( trecho do meu conto Onde as horas não passam)
        Mais informações http://claudiosloterdijk.tumblr.com/

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Slavoj Žižek: O rock star da Filosofia.

Sociólogo, filósofo e teórico crítico esloveno, Slavoj Žižek é professor da European Graduate School e pesquisador sénior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É também professor visitante em várias universidades estadunidenses, entre as quais podemos citar a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan. Nascido na antiga Jugoslávia, em Liubliana, hoje capital da Eslovénia, doutorou-se em Filosofia na sua cidade natal e estudou Psicanálise na Universidade de Paris. Também conhecido por sua postura polêmica no cenário acadêmico contemporâneo, Žižek também é visto como uma figura carismática entre a nova geração de intelectuais. Com uma postura contundente perante a ordem vigente do sistema capitalista o mesmo é conhecido por seu uso de Jacques Lacan numa nova leitura da cultura popular, abordando temas como o cinema de Alfred Hitchcock e David Lynch, o leninismo e tópicos como fundamentalismo e tolerância, correção política, subjetividade nos tempos pós-modernos e outros. Enfim, um pensador que está ganhando seu espaço como uma figura “pop star” com uma incrível desenvoltura de tratar temas, que em sua maioria são considerados herméticos, com extrema precisão e rigor filosófico. Os grandes teóricos que se mordam, mais a muito tempo a filosofia, tal qual vivemos hoje nos centros acadêmicos, não presenteava o mundo com  uma figura com tal envergadura se insere no debate sobre nosso conturbado cenário politico. Como aperitivo de uma figura tão irreverente, leiam uma parte da entrevista ao repórter Jorge Pontual em um momento descontraído gravado no estúdio da Globo em Nova York:

Jorge Pontual — Protestos anticapitalistas, movimentos ecológicos, militantes pacifistas, fundamentalismo islâmico, redes de terroristas: à primeira vista, todos seriam inimigos do sistema dominante. Na verdade, apenas reforçam o poder do capitalismo avançado. Esta é uma das teses polêmicas do pensador Slavoj Žižek, o enfant terrible da filosofia, o rock star da psicanálise, o inimigo radical tanto da direita quanto da esquerda. Nascido na ex-Iugoslávia, no que é hoje a pequena Eslovênia, Žižek tomou de assalto o mundo acadêmico internacional com mais de 50 livros publicados em dezenas de países, entre eles o Brasil. Turnês mundo afora com palestras superlotadas e infindáveis vídeos e filmes sobre sua obsessão: o cinema. Aliando a erudição ao gosto por piadas escatológicas, Žižek é um marxista mais próximo de Groucho Marx do que de Karl Marx. Um comunista que segue Jesus e que prega o cristianismo sem Deus. No primeiro de dois Milênios profundos e também hilariantes, gravados no estúdio da Globo em Nova York, Žižek fala do terrorismo e dos impasses da esquerda populista e não deixa pedra sobre pedra.

Jorge Pontual — Olhando por esta janela dez anos atrás, era possível ver as torres gêmeas. Elas ficavam bem ali. Você escreveu muito sobre isso, certo? Vamos falar primeiro sobre isso: os atentados de 11 de setembro, suas consequências, para mostrar aos nossos espectadores como você trata um tema, as ideias preconcebidas, a ideologia escondendo a verdade nesses tipos de situação. Por exemplo, que o liberalismo americano e o fundamentalismo islâmico fazem parte do mesmo sistema, que não é possível entender um sem o outro.
Slavoj Žižek — Se retroalimentam.

Jorge Pontual — Um se alimenta do outro.
Slavoj Žižek — Isso é crucial para o modo como a ideologia funciona hoje. Como disse o grande filósofo Gilles Deleuze, nós não temos apenas respostas erradas para alguns problemas, mas temos também problemas errados. Problemas que talvez tenham relação com problemas reais, mas pela maneira como são formulados, eles são mistificados. Logicamente, o terrorismo é um problema real que enfrentamos. Mas ao formular o problema como uma luta entre a tolerância liberal e o fundamentalismo, você já mistificou o problema. Por quê? Porque eles são, como você disse — e eu concordo plenamente — eles são dois lados da mesma moeda. Não que não importe que eles sejam diferentes, mas é a ordem liberal mundial que, por uma necessidade intrínseca, gera o fundamentalismo. O maior exemplo, que eu sempre cito, é o Afeganistão. Infelizmente, tenho idade suficiente para lembrar o que era o Afeganistão há 35, 40 anos. Talvez fosse o país mais tolerante e menos fundamentalista. Era o país muçulmano menos fundamentalista do Oriente Médio.

Jorge Pontual — Tinham um partido comunista.

Slavoj Žižek — Um partido forte, local. Ao assumir o poder, surpreendeu até os soviéticos.

Jorge Pontual — As mulheres não usavam véu.
Slavoj Žižek — Eles tinham um rei que era uma espécie de reformista progressivo. Mas os comunistas eram tão fortes que achavam que podiam dar um golpe de Estado sozinhos. Quando a União Soviética interveio, os EUA fortaleceram seus próprios agentes para combatê-la, dentre eles, Osama Bin Laden e outros. Então, como resultado, o Afeganistão se tornou fundamentalista. Não se trata de um país que sempre foi fundamentalista. O Afeganistão se tornou fundamentalista porque ficou enredado na política mundial.

Jorge Pontual — Agora o fantoche americano, Hamid Karzai, está recebendo dinheiro do Irã, o “inimigo maligno”, e está dizendo: “O patriotismo tem um preço. Os EUA também me dão dinheiro”.
Slavoj Žižek — Isso é o mais triste desses países que os EUA querem “democratizar” sem o devido trabalho político. O resultado é uma mistura de fundamentalismo religioso e corrupção pura e simples. E você não sabe o que escolher. Eu estive recentemente — na verdade, há mais de um ano — em Ramallah e conversei com alguns intelectuais palestinos que me disseram que a maior tragédia para eles era que, nos últimos 20, 25 anos, a esquerda secular palestina havia praticamente desaparecido. Até mesmo certos rostos. Você se lembra, alguns anos atrás, ela era quase sempre o rosto da OLP na CNN, Hanna Ashrab. Ela ainda está lá, e eu sei... Essa é uma história maravilhosa. Um israelense me explicou que ela desapareceu num acordo estranho entre os dois lados. Os palestinos não queriam que ela... Os fundamentalistas diziam: “Que história é essa? Uma mulher que foi educada no Ocidente não pode nos representar”. Os sionistas de linha dura também não a queriam porque diziam que ela passava a imagem errada. As pessoas iam achar que os palestino eram normais. Eles preferiam os palestinos de Arafat, que balbuciavam num inglês mal articulado. E sobre o que você falou da cumplicidade dos dois lados... Vou contar algo que vai interessar aos espectadores. Uma história incrível que aconteceu com um bom amigo antissionista. Udi Aloni, um cineasta judeu. Alguns dias depois do atentado de 11 de setembro, ele pegou um táxi próximo a Union Square. E, chegando à Union Square, o taxista, um muçulmano fundamentalista, contou a ele a história de sempre: que o atentado tinha sido planejado pelos judeus, que nenhum judeu tinha morrido porque todos haviam sido informados e coisa e tal. O que ele fez em respeito aos seus irmãos judeus? Pediu que o homem parasse o táxi porque não falava com pessoas de visão tão estrita. Ele desceu e atravessou a Union Square, onde viu um grupo de judeus fundamentalistas pregando para as pessoas, e um deles gritava: “Agora temos uma prova de que Deus nos ama. Nenhum judeu morreu no atentado de 11/9!” Ele pensou: “É a mesma coisa!” O sotaque era diferente, a história era igual. O mesmo que aconteceu com o Afeganistão aconteceu com o Kansas aqui nos EUA. Essa é a tragédia americana. Seus telespectadores devem conhecer o livro maravilhoso... Não é uma grande teoria, mas uma boa descrição, de Thomas Frank. Ele diz que o Estado americano que, há 30 anos — e foi assim por mais de 100 anos — era o mais progressivo de todos, sempre foi, começando com John Brown, tinha o mais articulado movimento abolicionista, é agora o alicerce da linha mais dura.

Jorge Pontual — Não se ensina a evolução.
Slavoj Žižek — Pois é. Isso deveria nos fazer pensar.

Jorge Pontual — É o Afeganistão dos americanos. Mas isso é um fenômeno novo, certo? Não é tradição.
Slavoj Žižek — É, mas isso faz parte. E é aí que chegamos a uma tendência geral. Faz parte de uma tendência geral muito preocupante. Estou escrevendo um livro político em que tento desenvolver esse tema. Não posso falar do seu país ou da América Latina. Mais até na Europa do que na América Latina, é uma coisa que realmente me preocupa e me apavora. Deixe-me simplificar ao máximo. Até agora, na disputa política típica, o máximo que temos são dois grandes partidos: um de centro-esquerda, outro de centro-direita, com o mesmo poder, ambos agradam a toda a população. E há outros partidos menores. Agora uma coisa terrível está acontecendo. Cada vez mais, entre esses dois partidos, um deles desaparece, ou eles se unem. Eles deixam de ser dois partidos e nós ficamos com um partido principal. Vamos chamá-lo de “Partido do Puro Capitalismo Global”. Ele é pró-capitalismo, mas, ao mesmo tempo, defende a diversidade cultural, os homossexuais, o aborto. O único sério oponente, o que realmente inflama os ânimos, é o anti-imigrantista, nacionalista, fundamentalista etc. E não apenas em antigos países comunistas do sudeste europeu, como Hungria, Romênia e Albânia. Mesmo naqueles que eram para nós, na Europa, o mito de tolerância: a Suécia, a Noruega, a Holanda etc. Essa é a nossa tragédia. É muito preocupante. Porque a esquerda tragicamente aceitou essa, digamos, “despolitização”. De acordo com os acadêmicos de esquerda, todos os problemas agora são problemas culturais, de tolerância e assim por diante. Pense na Europa Ocidental: a única força política, não essas maoístas com membros em cinco países, mas a única força política relevante que ainda ousa se dirigir à classe trabalhadora são os anti-imigrantes de direita. Na França, Le Pen é a única entre os políticos. E isso me preocupa. Eu me lembro de um velho dito de Walter Benjamin: “Por trás de todo fascismo há uma revolução de esquerda fracassada”. Isso é literalmente verdade nos países árabes, por exemplo. Nós nos esquecemos completamente de como, até 20, 30 anos atrás, havia partidos comunistas muito fortes, seculares. Tudo isso desapareceu. E, por isso, eu digo aos meus amigos liberais: “Não quero mais terrorismo, mas vocês se dão conta de que apenas algum tipo de novas esquerda, não sei qual, poderia salvar suas próprias ideias liberais?” E algo novo, não a velha e conhecida esquerda comunista. E não há ambiguidade nisso. A experiência stalinista do século 20...

Jorge Pontual — Acabou.
Slavoj Žižek — Não apenas acabou, como talvez tenha sido a maior tragédia política, ética, talvez até econômica, da história da humanidade. De certa forma, foi muito pior que o fascismo. Por quê? No fascismo, você sabe. Fazendo uma análise simplista, os fascistas são os caras maus que diziam em seus programas: “Vamos fazer coisas ruins”. Aí, chegaram ao poder e fizeram as coisas ruins. Certo, e daí? Com os comunistas, foi uma verdadeira tragédia. O que quer que se diga sobre eles, no começo, havia um potencial emancipatório que se transformou em terror, de certa forma ainda mais terrível e mais difundido. Então, por que me refiro ao stalinismo de forma quase ambígua? Creio que se trata do maior enigma do século 20. Acho que até o mais liberal crítico de direita anticomunista naqueles grandes livros, como os de Montefiore. Eles não dão conta do recado. Nós ainda precisamos confrontar esse enigma. Mesmo os teóricos de esquerda importantes o evitam, como os da Escola de Frankfurt: Habermas e outros. Eles não descontaram todos os escritos contra o fascismo, e assim por diante. Eles ignoram totalmente o fenômeno do stalinismo. É algo que ainda temos que abordar.

Jorge Pontual — Uma coisa sobre a qual você fala brevemente no seu livro e que gostaria que elaborasse um pouco mais é o capitalismo populista da América Latina. O que é esse capitalismo populista de que você fala?
Slavoj Žižek — Eu não tenho uma teoria muito profunda. O que estou querendo dizer é que... Vou ser bem sucinto. Em primeiro lugar, quero enfatizar bem: talvez até seja uma coisa boa. Posso ser radical de esquerda, mas não sou um idiota completo. Não estou esperando a formação do novo partido leninista. Nós devemos ser realistas e aproveitar as oportunidades. Li um texto excelente de Goran Therborn, um sociólogo sueco. O texto é bem simples, mas é fantástico. Ele toma dois conjuntos de valores. Primeiro, ele calcula, de acordo com dados oficiais, o nível de igualitarismo dos países escandinavos. Apesar da crise e tudo o mais, eles ainda são extremamente igualitários. Eu fiquei chocado ao saber que, na Noruega, mesmo em empresas privadas, a variação entre o maior e o menor salário é de 1 para 4, talvez de 1 para 5. Agora, o contra-argumento neoliberal de costume é que, se fizermos isso, se mantivermos o seguro-saúde e tudo o mais, enfraqueceremos a competitividade. Sabe o que ele fez? Ele não analisou publicações parciais de esquerda, mas o Wall Street Journal, a lista oficial dos capitalistas dos países mais competitivos. Eles estão no topo da mesma forma. Mas, no topo do topo temos Cingapura e Hong Kong. Depois, vêm Suécia e Noruega. Isso prova que não é verdade o que os neoliberais estão dizendo, que, ao abolir o Estado assistencial, você perde competitividade. Desculpe, mas não necessariamente. Eu não idealizo Lula, mas vocês, ainda assim, provaram que, nos últimos anos, com Lula na presidência... Volto a dizer que não o idealizo. Como isso se relaciona como a sua pergunta? O que está acontecendo graças ao imortal presidente George Bush, o filho? Por causa de uma coisa que ele fez, todo esquerdista deveria rezar pela alma dele todos os dias. Nos seus oito anos de governo, ele, com certeza, enfraqueceu a hegemonia e a liderança mundial dos EUA. Depois de seu governo, os EUA são, cada vez mais, apenas um entre muitos. Agora estão surgindo novos blocos hegemônicos. Vamos chamar ainda de bloco dos EUA e países anglo-saxões, a Europa ainda está buscando o seu caminho. Temos o que chamamos ceticamente de “capitalismo com valores asiáticos” nos países orientais mais autoritários e temos o populismo latino. Se você me perguntar, nenhum deles me agrada. Em primeiro lugar, eu não gostaria de viver num mundo onde as escolhas fossem apenas China ou EUA. Eu gostaria de elaborar mais sobre as diferenças. Diferentemente de alguns amigos meus... Não estou falando aqui do Brasil, mas de populistas de esquerda latinos, como Perón e Chávez atualmente. Eu não confio neles. Para mim, este foi o meu grande mal-entendido — e ele literalmente me odeia por isso — com meu ex-amigo Ernesto Laclau. Ele ainda acha que o populismo é algo originalmente progressivo, que promove o avanço da esquerda. Não. O populismo está sempre, por definição, na origem do fascismo. Populismo significa construir um grande bloco nacionalista acima das diferenças de classe. Então, quem passa a ser o inimigo? Não há mais a luta de classes, então precisamos de alguém, mesmo que não os judeus, de alguém como os judeus, contra quem possamos nos rebelar. Por isso, infelizmente, não concordo com meus colegas argentinos que elogiam o peronismo de esquerda. Acho que o peronismo foi uma catástrofe. Nesse nível, não estou tentando bajular o Brasil, não sei o bastante sobre vocês. Mas acho que, talvez, e me corrija se eu estiver errado, alguns de seus presidentes tenham flertado... Como era o nome dele?

Jorge Pontual — Com o fascismo?
Slavoj Žižek — Não, não. Com o populismo, até o esquerdista Quadros... Kubitschek...

Jorge Pontual — Jango.
Slavoj Žižek — É, um pouco. Mas, entretanto, vocês nunca se encaixaram nesse verdadeiro populismo latino-americano. Essa foi a sorte de vocês. É por isso que vocês estão prosperando. É por isso que a Argentina não consegue decolar. É por isso que, mesmo na Venezuela, Chávez, eu afirmo... Eu não entendo. Deixe-me ser bem claro. Primeiro, Chávez fez algo pelo qual deveríamos ser gratos a ele. Pelo que eu sei, ele pelo menos tentou ir mais longe do que Lula e tudo o mais, para realmente incluir no processo político os excluídos das favelas. Isso é muito bom. Se não fizermos isso, vamos nos acercar de uma guerra civil interna. Não é apenas um fenômeno latino-americano. Olhe a França, todos aqueles carros queimados. Olhe a China! Eu estive lá há três meses, e eles me perguntaram se eu sabia quantas rebeliões violentas espontâneas aconteciam dentro da China por ano. Por “rebelião” quero dizer uma comoção tão importante que a Polícia e o Exército têm que intervir, e há derramamento de sangue. Por ano, são 20 mil. Entende? Tudo bem. Mas, na minha opinião, ele se perdeu nesse tradicional. E o petróleo foi a sua maldição, de certa forma.

Jorge Pontual — Chávez?
Slavoj Žižek — É. O mesmo acontece com os regimes árabes. Se você tem uma grande fonte de dinheiro, isso, infelizmente, dá a você espaço de manobra suficiente para adiar o aparato realmente eficaz do Estado, as reconstruções e tudo mais.

Jorge Pontual — E qual é o problema de Chávez?
Slavoj Žižek — Na minha opinião, é funcionar cada vez mais como um país caudilhista latino-americano. Eu sei que ele também tenta implementar umas parcerias, mas é basicamente um estado autoritário.

Jorge Pontual — E a proximidade deles com o governo de Ahmadinejad?
Slavoj Žižek — Foi aí que começaram as minhas suspeitas com relação a Chávez. Primeiro pensei que talvez fosse bom o que ele estava tentando fazer. Mas veja os aliados dele. Talvez você conheça o ditado que diz: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Ahmadinejad! Pior ainda, Lukashenko. Sem falar de Putin. Lukashenko. Ele é um louco. Isso é motivo de muita preocupação. Por exemplo, precisamente... Eu não sou um liberal ingênuo pró-Ocidente, mas acho que as últimas eleições no Irã foram quase um evento histórico mundial. Por quê? Mousavi, o candidato derrotado oficialmente, talvez fosse uma verdadeira solução. Mousavi fazia parte da revolução do Khomeini. Mas ele fazia parte do grupo que foi posto de lado quando os fundamentalistas assumiram o poder. Ele é a prova viva de que a Revolução de Khomeini não foi simplesmente um golpe extremista islâmico. Se você tiver uma certa idade... Alguns de nós têm, que coisa trágica! Você se lembra de que, quando o Xá partiu e Khomeini assumiu o poder, a situação ficou indefinida por cerca de um ano e meio. Até que, finalmente, os fundamentalistas assumiram o poder. Aí, tudo o que havia sido reprimido, um aspecto mais emancipatório, explodiu. Isso é muito importante porque era contra o fundamentalismo, mas não era algo simples: “Vamos adotar o liberalismo Ocidental”. E aqui, meu Deus, como foi que Chávez não viu isso? Frequentemente, quando a esquerda consegue um progresso autêntico, o Terceiro Mundo está envolvido. Você sabe qual é a hipocrisia de esquerda de hoje nos países desenvolvidos? Eles gostam da revolução com uma condição: que ela aconteça bem longe, que não mude a vida deles. Pode ser no Vietnã, em Cuba... É bom que ela aconteça longe para você fazer seu trabalho sujo aqui: você faz esquemas, se corrompe, mas seu coração está lá longe. O mesmo acontece com Chávez hoje em dia. É fácil para os europeus gostarem dele. Mas eu acho que o governo dele vai se tornar, cada vez mais, uma ditadura pessoal quase cômica. Eu desconfio profundamente... não dele pessoalmente, não me importa, mas num sinal de como opera a totalidade do poder. Como, por exemplo, quando ele começou com o programa “Aló Presidente”. Alguém me contou, e me pareceu piada. Mas agora o programa se dividiu em dois: o “Aló Presidente Prático” e o “Aló Presidente Teórico”, em que Chávez se mete a... Eu concordo com... Sabe quem me deu essa indicação? Toni Negri. Meu Deus! Eu não concordo com ele, em tese, mas ele é da esquerda, me alertou sobre isso, e eu não acreditei nele quatro anos atrás. Ele me disse para não ficar fascinado com Chávez e que, embora fosse muito mais modesto, o Brasil era muito mais interessante.


Mais informações? http://ww.zizekstudies.org

Por Claudio Castoriadis

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