quinta-feira, 29 de outubro de 2015

eu não tenho um alicate de unha


duas enfermeiras colocam a conversa em dia num quarto de hospital
uma delas pergunta pelo alicate de unha
enquanto a outra
troca as flores murchas do jarro
colado à janela
com precisão cirúrgica de um açougueiro
entre elas
uma cama aparelhada semelhante a uma ratoeira
embrulha um velhinho todo arrebentado
em posição fatigante de barriga para baixo
o velhinho todo arrebentado vira o rosto
encara as duas enfermeiras com seu melhor sorriso
agradece pelo jarro
agradece pela flor no jarro colado à janela
e se desculpa por não ter um alicate de unha 

by: claudio castoriadis
imagem font web
.

.

sábado, 17 de outubro de 2015

a insegurança na forma mais transparente da fala


sei que alguém já disse isso, ou algo parecido, sobre o medo do escuro
mas deixa eu falar
quem tem medo do escuro nada tem no colo
ou
nada tem que lhe sirva de consolo
cobertor, calor materno
é a insegurança na forma mais transparente da fala| voz que assusta na sua ausência de lugar, útero|
é assim que zumbe
o vidro inconsciente
quem tem medo do escuro na verdade sente falta de alguém que não seja ele mesmo

by claudio castoriadis
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sábado, 10 de outubro de 2015

o que vejo no olhar do Ian Curtis


1
um sistema nervoso germinado por milhares de fatores internos*
usineiros liberando órgãos delinquentes em volta da barraquinha de cigarros do tio wallace

*explosões, fenômenos gélidos &
variações climáticas do antigo testamento hebraico |?|

2
um corpo de mosca com cabeça de peixe perfurado por um tugúrio de tinta

3
revistinhas, tampinhas, uma máscara de gás soviética, caixas de lata, pilhas de rádio e uma porção de prédios congelados

4
a inteira presença da falta do sentimento de ausência naquilo que foi dito

5
o temor animal da literatura depravada alojando convulsões no ângulo da refração absurdamente indescritível

6
poesia
patinando metáforas entre outras
metáforas| confluências orgânicas desabando mais do que escrevendo|



by : claudio castoriadis
imagem: Ian Curtis. font web

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

você pode desenhar um poema bonito


você pode carregar uma geleira com seu trenó de esquimó? e
este uniforme de esquimó?!


você é este grão de neve imóvel neste nesgo de terra informe
cortado por navios quebra-gelo ( prédios barrocos
turistas, catedrais e quirinais)

você pode escrever sobre o gosto da neve
que tem gosto branco leve

você pode desenhar
um poema bonito
rimando gosto
com leve


claudio castoriadis
imagem font ewb
.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

berinjela com geada


I

o floco dispara uma cor no meu quarto

no peito aberto um tiro congela roupa

entre os dentes aparelhados sou hálito
   
tangido pela sede enfastiada em saliva


II

crianças ocupam o asfalto empoçado

o dia tem gosto de janela com geada


III

observo coisas que ainda não existem

assim picoto o tempo corado de neon

o inverno cospe uma geladeira por dia

e por dia bordo uma berinjela congelada



by claudio castoriadis
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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

notas para uma caixa registradora



III


       [quem sou eu? escrevia ela
          quando lembrava de mim
               
                      [quem era você?
pensava eu
como uma barrinha
de cereal repartida

- e se o passado for isso? partido
e repartido?

partindo daquela prateleira
com mostruários
de
cartões postais e
                 marcadores de livros
com as iniciais 9 ¾ da estação thin lizzy?  



by: claudio castoriadis
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

meu documentário não autorizado pelo morrisey


 disparo em volta de alteneiras
      fremindo todos os círculos
         amainando meus cachos
                             insuflados

de costas para uma janela
sob o cortinado
que recorta o firmamento
das torres telefônicas

desconfio 
dessas coisas 
nada sei da geologia
dos toldos e balcões ulcerados 
dessa gente que se acha connor macleod
do baloçar em cada esquina
das figuras midianitas
das vielas urinadas
das latrinas

por isso, talvez
deixo suturas estarradas na porta


longas são as noites naquele borrão
   sempre estridulando woody allen
          a roda púrpura do cairo

é assim que me vejo
esmurrando
raias da galhofice
repetindo annie
naquela festa 
neurótica
com imensos bigodes 
com formas jocojas
sobrepujando
(aparentemente
pelo menos)
        meu documentário
não autorizado pelo morrisey
    nas estrofes espessas

&

trechos nacarados
deserto
inseto
certo
chorando
pelo avesso
da gruta lascux
digerindo
interpenetrações 
destrinçando envilecimentos 

(ele não entrou 
em nada
tecnicamente
nada sobrou dele)

.

retiro a baixa temperatura 
incendiando mouriscos 
com gasolina

por ensejo da gravidade 
quem sabe, glândulas
c/
estrídulo 
incandescente 
entre meus dentes 
uma pálida herbicida 


alto no ar
toco no clarim
e o andaime desaba
sem encontrar estadia

vergasto veias do libérrimo
visto meu estômago revirado

   (casos em que uma coisa 
         segue-se a outra)

               numa fresta 
      molduras vaticinadas 
improvisam
sifonias de chaleiras 
com som zimbro
monotônico

astucci
no entardecer 
um poema
de ezra pound
alícios
escarpas em curvas 
rambras poucas vezes vistas 

não entendo
dos quirinais lívidos
dos sibilantes fora de frequência
da educação sentimental do jovem flaubert
dos peixes arrastando o lustro de lentilhas
na dúvida não olho com cílios
não há ninguém fluindo
não deixo o vento mergulhar 
um gole d'água sequer na forja 

by claudio castoriadis
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[Publicado originalmente: http://www.germinaliteratura.com.br/ ]

terça-feira, 25 de agosto de 2015

AllanStewartKönigsberg

















sou grato pela minha estupidez
plantada num bornal de balas
neste peito barrento
cheio de panelas
batendo planuras
sem menção
esmola
ou
caridade


[(...)]



by claudio castoriadis
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domingo, 23 de agosto de 2015

eu todo mundo


eu não queria que todo mundo pensasse que eu
era o que eu não sabia que todo mundo queria
que eu pensasse que todo mundo sabia que eu
era o que eu não sabia que eu queria era que
todo mundo pensasse que eu era todo mundo

Arnaldo Antunes

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

ainda sobre a caixa registradora*




velho
seu nome tem cara de vinte cinco
                                      de maio
























(...)

by: claudio castoriadis 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

caixa registradora com poucas linhas de diálogos*


da grama
o velho parnasiano fala da gramática

             fala da palavra enforcada na
                                        [gramática

fala da redondilha removida e isolada

da ulceração
dos dentes soltos pelas cotovias

                             fala do verso

inverso- branco

ou
livre-  dos  afetos


fala do casal de fetos enseados
no órfico dístico da gramá

tica

§


por claudio castoriadis
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* projeto literário

quinta-feira, 9 de julho de 2015

muquifo


um dia eu monto uma bicicleta e aprendo a andar sozinho
sem as mãos, com os olhos vendados de costas na garupa
libidinoso trajando peripécias assegurando minha epopeia 

um dia serei abduzido pelo tempo
desmaterializado numa galáxia muito distante
vou pedalar até disparar as mucosas do chão na velocidade do riacho
levitar o caminho cismado no meio da pedra onde a sociedade é um muquifo

de grão em dragão deixarei a poeira empinada confinada na matéria que repousa
quem sabe um rochedo salta da calçada e germina no meu ombro o primeiro alarde do dia


claudio castoriadis

quarta-feira, 8 de julho de 2015

vasilhas refrescadas molhando garrafinhas pets

o inverno nublou na sua mão

confinada no bolso

com a reborda

gelada

o inverno passou resfriado pros dedos na sua 

unha encharcada


segurando vasilhas refrescadas, protegendo-as 

com sua mão refrigerada

o inverno descongelou sua mão da minha 

molhando garrafinhas pets com lacinhos nublados




por claudio castoriadis



sexta-feira, 26 de junho de 2015

quisera ser de carne essa mente


sensação robusta de uma rapina
ruflando minha pele
acho graça
poderia ser melhor
na cerâmica não pisca uma gota
desacelero o tique do relógio
quisera ser de carne essa mente
neste canto, fieiras de tralhas metálicas a céu aberto
no outro, bactérias se fundem, parafusos, programas
placas mães                      malocas orgânicas
sombras nas marquises
aqui e ali
mágoas, parricídios
faixas, pedestres, táxis
sorrisos, parques
algazarra
etc



por claudio castoriadis
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domingo, 21 de junho de 2015

probabilidade de experimentos sublinhados


sábado, probabilidade de experimentos sublinhados, um resultado, feliz ou infeliz, que acrescenta marcadores de páginas por entre espaços poucos vistos. desses que não encontram em si, até segunda ordem, figuras ingênuas arrastando o luto de domingo como se segunda fosse diferente da imaginação porta-voz de um feriado, paciente e lento, que aos poucos conforma a mentalidade calçada de sandálias.

claudio castoriadis

sexta-feira, 19 de junho de 2015

pedacinhos de papel sulfite


eu não consigo escrever chorando

não consigo chorar 

em pedacinhos de papel sulfite

não consigo

ser alguém que rir de quem chora

por alguém escrevendo para alguém que

foi rindo de quem tanto escreveu chorando


por claudio castoriadis
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quarta-feira, 17 de junho de 2015

ontem você falou dormindo

ontem você falou dormindo
                você disse que
tomou minhas dores
                            tomou
de
volta e guardou às pressas
todos meus scraps
             meus caracteres
minhas mágoas
                grifadas
                         cada qual
&
um pouco mais
num canudinho fast food

-coração de isopor
não faço mais isso
disse você

como quem gorjeava, distraída
trollando com a voz do kenny
vacilando uma
                                   duas
ou até três
gargalhadas

dizendo

quadro de rabiscar palavras
                                 que
se rabiscam
no
                              quadro
rabiscado pela palavra
quadro

por claudio castoriadis


quinta-feira, 11 de junho de 2015

meysenbug


curiosamente um crupiê se inclinou sobre a tela e
lhe disse
aproveitando a verticalidade
q não era permitido pastiche naquele local
o mundo girava na sua voz
tecida de cores
em traçados desentendidos
e ela sabia
tinha ouvido antes
na noite que foste embora
que na alfaia havia um locus
sabia do alento
que se molhava do lado de dentro
sabia q seu nome bolorento alimentava-se da minha luz

por claudio Castoriadis
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terça-feira, 19 de maio de 2015

o último troiano




no seu colo derramou-se a geada
o estilhaço da regência
e pela narina da beleza
ilíada ensolarada
com sua crina
prefacial e
úmida
)servindo
de
proteção(
(i)
servindo de incêndio
(ii)
servindo de penacho
((iii))
servindo pela manhã

por claudio castoriadis
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quinta-feira, 7 de maio de 2015

sobre o velho escriba


seu tinteiro encharcado
não deriva de estopas
do mau cheiro
dos laudos
não deriva
da tessitura pisoteada
não há nele
uma naco obliterado
uma infâmia epidérmica
um enervante encefálico

claudio castoriadis
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domingo, 3 de maio de 2015

liszt


perdeu-se reaparecendo na eletrola
não hesitando no alheamento
pela orla eclodida
com seus cavalos
no trecho
escrito com estilete

primeiro, foi seu esôfago
                    extasiado

logo, foram todas as tíbias
todos os dedos canhestros
em consonância materna
de quem o proferiu
rótulo dissonante


(claudio castoriadis)
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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Unleft


considerações do subterrâneo
memórias biodegradáveis
digo, lamentações
com sinalizadores
desfraldados

última refeição do maquinário
último
cigarro antes de ser cremado
derradeira rua antes de alcançar outra rua

frustrada tentativa de violação do importuno
ou
qualquer meridiano que chega na hora
nas datas certas de todos os ponteiros

e assim
alterna-se desajeitado

cor moletom desbotado

bem, pode ser
isso

rodas girando a cidade
depois encharcando os monitores da cidade
digerindo o asfalto encharcado nos olhos da cidade



por claudio castoriadis

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terça-feira, 21 de abril de 2015

hipsters


e, cantava uma infinidade de corinas
dessas que não conseguimos
em definitivo
a priori
sabe como é
diferente daquelas que constituem
a natureza por necessidade lancinante
percorrendo onde restava percorrer

de costas com sua camisa xadrez
interpolando hipsters flanelados
e o que sobrou
ficou c/ os standards
esquemas semânticos, lânguidos, palhetas
cães de aluguel e engenheiros diacrônicos

por claudio castoriadis
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segunda-feira, 13 de abril de 2015

olsen olsen

II

quando o vate excelso caiu na curvatura
a carne de cor sanguínea rosada
perdeu seus guelfos
com apenas dois lustros de amnióticos
gritava em plena interestadual 
&
                             gritava seus recintos
                                                 tecidos
conjuntivos
nomenclaturas
de tudo como qualquer entralhado
objetos incorporais, objetos cortantes
e versões espessas a partir dos cortiços
gritava, decomposto em dois componentes:
o arrasto, antiparalelo à velocidade
e a sustentação, perpendicular

por claudio castoriadis
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sexta-feira, 10 de abril de 2015

olsen


III
sem pressa, resenhou planuras de alcantilas
quase como se quisesse ser indecidível
na qualidade de respingo ao contrário
disposto em séculos
é o que estás a ver
as devas estão surdas
e, no seu estômago, estiletes engatilham
dispostos em forma de decotes redobrados

por claudio castoriadis
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terça-feira, 7 de abril de 2015

untitled



eu vou pela esquerda e você pela direita
não se preocupe com as garatujas
todas foram enjauladas
saracoteadas
por pontas de cigarros
qualquer coisa
já sabe
¿objeções
vestir-se de luto?
!não
seja solstício
quero dizer nesse cataclismo, claro
siga pelas sendas recobertas por cardos

claudio castoriadis
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domingo, 5 de abril de 2015

enquadramentos


seguro uma plaquinha de saída-exit
inteiramente fora da escala
quilomentrado em prelúdios
                 quase tarantino
aurático
não preciso do menor esforço inventivo
ou
rito
confessionário
para pronunciar ranhuras
carnadura botânica
bustos contorcionistas tombados
nunca precisei cerrar os pulsos de ninguém
para me perder

nem confundir minhas parolagens
nem profanar a respiração de quem dorme 

por claudio castoriadis
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

om


as nuvens que não se convertem
em objetos não identificados
se prendem na chuva
fugindo do céu
                          [na terra tambor
gestos aquáticos
                        [batidos na crina

do meu criador
meu mantra sânscrito


por claudio castoriadis
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city and colour


congregávamos numa constelação enigmática
enquanto eu contava os trocados 
você fazia diagnósticos sobre meu humor
fazia uso da verticalidade ao seu dispor
sempre pelos astros inabitáveis
desses, de um extremo ao outro - descontrolados
tínhamos mantimentos, cobertores, comida, abrigo
tínhamos cabelos tumultuados
parafusos cambiantes
tínhamos a gente
eu carregava crônicas na mochila
carregava o clima dallas green
aquele do city and colour...
.

por claudio castoriadis
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o homem unidimensional


algo de ruim se alojou nos olhos das pessoas
fez da vista, relações catalogadas
portões unidimensionais 
apodrecendo a gravidade que sustentava a sensibilidade
que sustentava o entendimento, que sustentava tudo quanto
enquanto benevolência - fertilidade, redenção

claudio castoriadis
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quarta-feira, 25 de março de 2015

despistando helicópteros pela freeway



você sempre chegava como um milagre

perseguindo pipas sem escalas

girando no eixo pela freeway

quebrando pelos contornos

despistando helicópteros

explorando vi adultos

não ligava pro tombo

nem ligava avisando

e chegava em casa

sempre como

um milagre



por claudio castoriadis
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sexta-feira, 20 de março de 2015

scrap-trailer: IV


plugado


kit básico de sobrevivência:
válido em dias de improbabilidades infinitas
não se importe
não se importe
não se importe
prossiga
não se importando, não sendo modesto
não precisa embrulhar quem realmente não se importa

claudio castoriadis

quinta-feira, 19 de março de 2015

mesmo dormindo numa frase de efeito




no momento mais tranquilo da noite
coisas impossíveis escalam ruídos
florestas, obreiros, gencianas
afloram no desfiladeiro
antúrios fecham as paredes
recompõem a eternidade
com sua modesta
moldura
a noite é feita
de melodias articuladas
vc falava disso tudo
debruçada numa frase de efeito

lembra?

você explicava
que o som mais próximo
poderia ser o mais inaudível
rodopiando sobre o próprio single

(risos)

eu esperava seu sono
virar prosa
narrativa
não
poesia

por isso lembro
de como você adorava os sons emoldurados
dos acordes despertos nas molduras tricotadas
de quando em sempre você acompanhava o realejo do tio lauro
você tinha razão, os sons não são sucessivos, são simultâneos

§

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terça-feira, 17 de março de 2015

avalon


por lirismo
eu entendo o girar sem descanso
de uma arquitetura etrusca em semáforos 

                                o sentido da calefação 
                insígnias arejadas por entrechos
          
meus olhos esgalhados
lábios agônicos
neblina consubstanciada



by: claudio castoriadis
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sexta-feira, 13 de março de 2015

afinidades eletivas


já um pouco chamuscado
como um esboço para algo maior


alguém escuta novelle
tracejando sobre paragens
(em algum triunvirato
ao leste
conduzido em contração
na zona estriada
clivada
desde as narinas
queimadas )
em making-of
sonata a kreutzer
atravessa pelo soslaio
soltando rutilante entalhe
lanternas, pulseiras molhadas
a poucos quarterões do funcho
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