quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Por que não me mato? Considerações acerca do suicídio




Como um sério problema de saúde pública, a prevenção do comportamento suicida não é uma tarefa fácil. Uma estratégia nacional de prevenção, como a que se organizou no Brasil a partir de 2006, envolveu uma série de atividades, em diferentes níveis, e uma delas foi a qualificação permanente das equipes de saúde. Uma vez que várias doenças mentais se associam ao suicídio, a detecção precoce e o tratamento apropriado dessas condições são importantes na sua prevenção. O que pensou alguns filósofos e intelectuais sobre o assunto? Conheça um pouco alguns pensadores que lidaram com esse sentimento extremamente delicado diante de tantos horrores inflamados por tal problemática.

Nada mais sensato para começar a tratar uma temática tão virulenta para o ser humano do que pensar o sentido último de uma pessoa depressiva: a busca da felicidade. É bem verdade que todo aquele que existe deseja continuar existindo o mais distante dos sofrimentos e  infortúnios. Afinal, não seria a felicidade o que realmente interessa a todo ser vivente? O filósofo Pascal já dizia: "Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar..."

Temos mediante essas considerações  o desejo de felicidade se convertendo no desejo de morte. Ou seja, um tipo de busca da felicidade a qualquer custo. Sobre o assunto comenta Freud: "Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás da conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo." Declaração importante que traz à tona um esbanjamento de palavras pondo em questão a felicidade, o sentido da vida e a problematização do suicídio.


Seguindo esse raciocínio certa vez indagou o filósofo Emil cioran : Por que não me mato? Que vale lembrar  não se matou, mas certamente desejou fazê-lo muitas vezes. Ideias como essa são típicas de uma mente suicida. Encarar a morte de frente tencionando a libertação a qualquer custo, mais do que coragem, exige consciência de que tudo está perdido, nada faz sentido e não há mais saídas no vasto horizonte da vida? Os casos de suicídios na sua maioria das vezes são marcados por um contorno peculiar: a solidão. Geralmente suicidas são solitários alheios ao mundo. O filósofo Cioran por sua vez visualiza na solidão um ar apropriado para culminar o ato da seguinte maneira: “Quando levantamos em meio à noite buscando desesperadamente por uma derradeira explicação, mas ao constar a nossa solidão, porque todos dormem, desistimos de nossa intenção, pois como abandonar um mundo onde se pode ainda estar sozinho?”

Sem dúvidas um relato medonho do filósofo romeno sobre os infortúnios da vida. Podemos notar esse sentimento constante em sua obra O Mau Demiurgo. Cioran chega a dizer que “faz bem pensar que a gente vai se matar”. Palavras de um pensador atormentado e trágico retratando sua desgraça de ser.

Ainda em uma entrevista o mesmo declarou: na minha juventude eu vivi com essa ideia do suicídio. Mas tarde também, e até agora, mas talvez não com a mesma intensidade. E se eu ainda estou vivo é graças a ela, ela foi meu suporte: “És mestre de tua vida, podes matar-te quando quiseres, e todas as minhas loucuras, todos meus excessos, foi assim que eu pude suportá-los. E pouco a pouco essa ideia começou a se tornar algo como Deus para um cristão, um apoio; eu tinha um ponto fixo na vida.” Apesar desse relato Cioran não se suicidou, morreu naturalmente aos 84 anos.

Coragem ou covardia? O fato é que o filósofo Cioran representa um pouco nossa realidade marcada pelo medo do nada, da possibilidade do não ser. Um mundo que beira cada vez mais ao vazio da existência; uma série de compromissos, e luta intermináveis entre o ego e seu ambiente como disse o Freud. Um mundo doente alienado pelo consumismo. Já não causa espanto ver pessoas chocadas e neuróticas com os absurdos do mundo. A recusa da comunidade pode ser considerada um isolamento auto-destrutivo, mas para muitos parece mais preferível  do que declarar submissão à fabrica diária de um crescente mundo auto-destrutivo. Alienação coletiva não é uma condição escolhida por aqueles que insistem no verdadeiramente social sobre o falsamente comunal. Está presente em qualquer caso, pelo conteúdo da comunidade. Frente ao abismo do existir e conviver em uma comunidade ignóbil o filósofo Nietzsche desabafa: “A ideia de suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim.” Certamente as ruínas estão aí para todos verem. Uma paisagem mórbida e cruel. Incluindo formas impotentes pronunciadas de "progresso" que não passam de "micropolíticos" e "esquizopolíticas", óbvios sintomas de uma fragmentação e desespero em cadeia. Nós existimos em uma "paisagem de ausência" na qual a vida real está sendo sistematicamente massacrada pelo falso ciclo do consumismo e das futilidades mediadas pela dependência tecnocratica. Mas se por um lado Cioran cultivava na solidão e na ideias de suicídio um sentido sublime em Nietzsche a solidão é, pois, restauradora; mais ainda, ela converte-se na marca distintiva do seu ser. Não é por acaso que a angústia impregnada na solidão se põe como condição necessária para o seu pensar. “Tenho necessidade de solidão”, assegura Nietzsche.

Mas nem todos conseguem lidar com as amarguras da vida. Hoje, parece que vivemos de uma forma negativa. São vários os fatores que influenciam na doença da alma. Os problemas psíquicos (que recebem os nomes da moda, de acordo com os interesses dos especialistas, produtores e reprodutores do mercado consumidor composto pelos portadores de tais problemas, consumidores de remédios, terapias, psicocirurgias etc.) assombram os seres humanos, condenados em uma existência alienada, ao lazer alienado, ao mundo depalperado. Resultado? O comportamento suicida vem ganhando impulso em termos numéricos e principalmente de impacto. Como foi dito, a morte voluntária é o extremo da solidão, angústia e desespero.

Suicidas: doentes? Covardes? Quem sabe ao certo? Como compreender o sofrimento contido na própria solidão? Desejar a morte realmente é a solução? Como  explicar ao certo a busca pela morte? Que essa problemática não se limite apenas ao enfoque especulativo. Faz-se necessário  a  transmissão de informações básicas que possam orientar a detecção precoce de certas condições mentais associadas ao comportamento suicida, bem como o manejo inicial de pessoas que se encontrem sob risco suicida e medidas de prevenção. 



Por Claudio Castoriadis



Referências

-ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da saúde em atenção primária. Genebra, 2000.

-www.conhecimentopratico.com.br/filosofia

 -http://www.freudpage.info/entrevista_freud-3.html
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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