domingo, 29 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.2.   Manipulação: Essência antropológica da tradição


 É assim trazida à luz a essência antropológica da tradição, uma forma de manipulação que está por trás de dogmas. Visto que ideias que afrontavam a tradição eram acolhidas geralmente de forma hostil, uma grande parte da humanidade ainda vive à sombra dessa manipulação. E Nietzsche alerta para a possibilidade de que ao longo de nossa existência é a tradição que decide por nós. Sob o império da moralidade dos costumes as ideias novas e divergentes são condenadas. Assim, toda ação individual é malquista quando compreendida segundo o olhar do moralista, visto que o nivelamento massivo de opiniões é assegurado pela covardia, má-fé e preguiça. E mais: chegamos desse modo ao ataque à moral reduzida a mero tradicionalismo, haja vista a moralidade não passar de obediência incondicional ao costume. Não importa de qual tipo, o costume foi sempre um modo tradicional de agir e julgar.
Nesse contexto, como compreendemos a tradição aqui problematizada? Com justeza, podemos compreender esta como sendo um tipo de autoridade superior à qual obedecemos cegamente, não porque nos ordena algo útil, mas simplesmente pelo fato de que ordena. Ora, onde não existe tradição não existe decência. Ou dito de outra forma: se conseguimos manter fidelidade pela tradição, de maneira alguma seremos pessoas decentes, pessoas de caráter moral íntegro. Por isso, podemos concluir que a moral delimita a ação do sujeito, visto que posturas contrárias ao imperativo da tradição não são bem acolhidas em uma comunidade.
Por esse motivo quanto menos a vida é determinada pela tradição tanto mais se restringe a área da moralidade. Não obstante, o que interessa a Nietzsche ao denunciar o encanto e servidão voluntária é justamente seu problema psicológico: o sentimento de medo.
Em que se distingue este sentido da tradição de um sentido geral de temor? É temor de uma inteligência superior que ordena, o temor de uma potência incompreensível e indefinida, de algo que é mais pessoal – há superstição neste temor. (idem, p. 19)
Quando em 1881 Nietzsche publica Aurora: Reflexões sobre Preconceitos Morais ele dá continuidade em sua análise à estrutura da moral que teve início já nos 638 aforismos do primeiro volume de Humano Demasiado Humano (1878). Ampliando a discussão sobre a cultura e introduzindo considerações sobre a vida social Nietzsche trata especificamente de um problema psicológico: o sentimento de medo. Seu argumento problematiza a moral sustentada a mero tradicionalismo legitimada pelo sentimento de medo que vigora perante uma autoridade ou superstição. Nesse contexto prestamos obediência moral, como uma autoridade incontestável, um tipo de moral atrelada à tradição, nos hábitos e modos de agir costumeiros. Nesses termos a costumeira crítica da cultura através da vida social conduz ao problema da moral, visto também como o problema do medo, pois tal sentimento é guia na participação do sentir dos outros. É por medo que somos domesticados pela tradição, escravizados pelo hábito e debilitados pela moral. Onde existe uma comunidade prevalece uma moralidade dos costumes e a moral inflamada de preconceitos será sempre uma moradia dos fracos. A esse respeito escreve Eduardo Rezende Melo:
 A verdadeira cara da moral mostra-se, então, como uma reação ao perigo e, portanto uma busca de conservação, construindo, a partir dessa reação, todo um modo de conceber o homem, o mundo e a vida e, nessa mesma resposta ao perigo, nessa reação moral, encontraram, para Nietzsche, o germe da filosofia. (2004, p. 123) 

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )


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quinta-feira, 26 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.1.  A Falta de sentido histórico e o sentimento de medo


Ora, por moral compreendemos uma estrutura de valorações. Por valorações, condições de existência ou, como dirá nosso filósofo em Para além do bem e do mal: [...] exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida (2005a, p.11). E as valorações puramente humanas estão de uma maneira ou de outra submetidas a mudanças no decorrer do tempo. Dessa forma Nietzsche vislumbra o homem como sendo uma entidade histórica em incessante transformação. Por esse motivo não é prudente falar de essências imutáveis, muito menos de verdades absolutas.
Assim encontramos o principal defeito dos filósofos contemporâneos a Nietzsche, segundo ele: a falta de sentido histórico. Uma falha involuntária de imaginar o homem como uma verdade eterna quando na verdade este veio a ser.
Nesse contexto, torna-se suspeito ainda todo sentimento por determinado costume, por ser proveniente das apreciações de juízos morais errôneos, na maioria das vezes, e por corrermos o risco de perdemos o direito por nosso juízo quando cegamente confiamos em uma tradição. Seja observado que Nietzsche inclina seu desprezo para o instinto de escravidão que vigora mediante a postura a que aderimos de total irreflexão e submissão quando somos guiados pelos sentimentos, visto que estes tem sua proveniência em juízos morais. E, nessa mesma dimensão tomada pelo encanto embriagante do costume – hábito, tradição –, as religiões, ciência e o Estado facilmente fortificam seus alicerces na medida em que se desenvolvem cultivando seu rebanho, adeptos da indiscutibilidade dos costumes. Com efeito, compreendemos nessa perspectiva que o encanto derivado do costume consiste em manter permanentemente na consciência o dever ininterrupto de servi-lo.
Permanecemos preponderantemente, durante toda a nossa vida, vítimas dos juízos infantis aos quais nos habituamos, e isto no que se refere à maneira de julgar nossos próximos (seu espírito, sua classe, sua moralidade, seu caráter, o que tem de louvável ou de censurável, prestando homenagem às suas apreciações). (idem, p. 75)
A genialidade particular dessa crítica consiste na facilidade com que seus argumentos criam uma dimensão corrosiva, instaurando uma problemática no círculo de possíveis perspectivas do objeto posto em discurso. Com efeito, o alcance de sua crítica ao costume é devastador na medida em que ela visa desmistificar as instituições, o Estado, a moral, a filosofia dogmática, as religiões. Enfim, é inegável a ligação de ambos quando nos reportamos ao costume.
É visível na história da humanidade as consequências que pesam sobre aqueles que confrontam a tradição e costumes, denunciando sua insustentabilidade argumentativa e reflexiva. Temos exemplos deploráveis como a condenação à prisão perpétua aplicada sobre Galileu Galilei (1564-1642), tão-somente por afirmar uma determinada doutrina que decerto contrariou as que vogavam em sua época. Sendo obrigado a recitar sete salmos penitenciais uma vez por semana ele teve de abjurar, maldizer e detestar a teoria copernicana. E não menos intrigante, não podemos deixar de citar o pensador holandês Benedictus Spinoza (1632-1677). Este, excomungado da comunidade judaica por afrontar a tradição da época em defesa da sua exuberante doutrina de um Deus inteiramente imanente: Deus sive natura. Pensamento polêmico, de beleza singular, porém um escândalo para a religião do seu tempo. Sendo sua obra Ética publicada apenas depois de sua morte. Assim como Nietzsche, Spinoza seguiu sua filosofia criticando os valores morais transcendentes. Críticas desse gênero que se chocavam bruscamente com a tradição religiosa. Vale lembrar ainda o trágico fim do pensador Giordano Bruno. Queimado no mercado de flores de Roma, dentre as acusações que pesou sobre ele, uma delas foi por defender que Deus estava presente na natureza; e outra, um escândalo para a época: acreditar na infinitude do universo.
Poder-se-ia até mesmo dizer que à primeira vista é mais que gritante a divergência de pensamento de desses intelectuais (Galileu Galilei, Benedictus Spinoza, Giordano Bruno). Entretanto, o que se torna evidente para qualquer um que analise as perseguições sofridas por Galileu, Spinoza ou Giordano foi como os argumentos contra eles se mostraram volúveis e grosseiros no decorrer do tempo. Tornou-se clara a insustentabilidade dos juízos contra as figuras desses pensadores, visto que seus crimes foram suas posturas firmes com as quais não se desprenderam dos seus juízos, não se rendendo a convicções superadas e falsas. Vale observar que o critério do julgamento na maioria dos casos expostos pelos juízes não tinha como princípio a veracidade dos fatos, mas a defesa dos costumes: uma perspectiva moralista.
                                                                                                                            
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Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

quarta-feira, 25 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.     A NOÇÃO DE MORAL COMO SENTIMENTO DOS COSTUMES



E cada um organizará seu próprio caos, voltando-se
para sua vida interior esquecido das aparências
ilusórias. E cada um compreenderá que a cultura
é mais que uma simples ‘decoração da vida’
(Nietzsche,
Considerações Extemporâneas)


Ao adotar uma postura para além do bem e do mal, Nietzsche joga de forma paródica e sarcástica com os até então cultuados ideias da humanidade. Em suas reflexões ele descreve os conflitos da vida moral em termos que para muitos parecem exagerados, talvez pela sua pretensão em ser o primeiro a problematizar até que ponto os valores morais deformam a cultura de seu tempo. Disso decorrem suas contundentes críticas àqueles que falharam na análise da moral até então.
Assinalando um ponto de vista contrário aos costumeiros preconceitos morais, coerentemente, Nietzsche se posiciona de forma “extra moral”, “supra moral” ou “extemporânea”, ao contrário do que fez Kant, que denuncia as falsas pretensões ao conhecimento, mas peca por não colocar em causa o ideal de conhecer: se por um lado denuncia a falsa moral, por outro lado falha em não questionar as pretensões da moralidade nem da natureza nem da origem dos valores. Ou seja, ele critica aqueles que misturam domínios e interesses da razão; mas em seu discurso os sagrados domínios permanecem intactos e os interesses da razão preservados a sete chaves quando estrutura seu imperativo categórico: a verdadeira moral, a verdadeira religião. Por isso seria prudente perguntar: encontrou Kant a ideia de um filósofo legislador, como pensou o Nietzsche?  Não resta dúvida que nesse caso Kant não pôde superar as armadilhas da moral, justamente por ter invocado um estranho fator da razão de ordem transcendental.
Seguindo suas críticas para com aqueles que falharam em suas pesquisas, Nietzsche prossegue questionando a moral do dever shopenhaureriana, visto que este fracassou quando buscou um novo fundamento de uma moral universal no sentimento de compaixão. Como a vida é dor, segundo ele, a caridade para com o outro é antes de qualquer coisa participação de sua dor, ou seja, piedade, compaixão. Dessa forma, nem Kant nem Schopenhauer foram felizes em suas análises da moral, pois, segundo Nietzsche, eles tiveram a pretensão de encontrar e reformular as apreciações da consciência comum e mais imediata. A partir daí, ainda gravitaram em uma posição moral, solidamente fundada frente ao instinto divino infalível da consciência humana.
Cada filósofo, segundo Nietzsche, pensou ter fundamentado a moral. Porém, todos os pensadores conheciam os fatos morais apenas superficialmente e eram mal informados. Ou seja, faltou aos grandes pesquisadores o que nosso autor vai denominar de sentido histórico e, em consequência disso, a moral era tida como dada, faltando assim a suspeita de que ali havia algo problemático. Evitando cometer o mesmo erro, Nietzsche dá a receita de sua análise logo no prefácio do seu precioso livro, Genealogia da Moral:
Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições inventaram os homens para si os juízos de valor bom e mal? (Nietzsche, 1998, p, 9)
O que Nietzsche denuncia aqui de preconceito teológico implica na postura adotada pelo mesmo: uma posição para fora da moral, um alerta para vivência dos valores irremediavelmente comprometidos pelos preconceitos morais. Ou seja, qualquer tipo de sentimento que gravite na órbita dos preconceitos morais tem que ser posto sob suspeita. Como? Mediante qual método? Nesse sentido o aforismo é bem claro: uma análise psicológica embasada sobre dados históricos e filológicos. Um tipo de trabalho voltado para a coisa documentada com hipóteses cinzas. Nessa situação, Nietzsche chega a provocar seus antecessores argumentando que, eles principiavam suas pesquisas sob hipóteses que se perderam no “azul”, desqualificadas por partirem de especulações metafisicas ou teológicas.
 Em Aurora, mais precisamente no aforismo 163, escreve Nietzsche:
Se é verdade que nossa civilização é, por si mesma, algo deplorável, vocês tem a possibilidade de prosseguir com suas conclusões com Rousseau: ‘esta civilização deplorável é causa de nossa má moralidade’ ou de concluir invertendo a fórmula de Rousseau: nossa boa moralidade é causa desta deplorável civilização. (Nietzsche, 2008, p.120)
Percebe-se, pois, que nesse aforismo de 1881 Nietzsche nos oferece o argumento necessário para compreendermos o exercício de seu pensamento, sendo sua principal atividade o problema da moral. Compreender as ideias fundamentais que precedem a formação da moral foi uma das principais metas de Nietzsche. Segundo ele, onde existe uma moral existe uma estrutura de valorações, ou seja, “exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida” (Nietzsche, 2005a, p.11) Por uma questão de sobrevivência questionamos: o que é correto? O que é bom e mal? O que é justo? O que é injusto? O que realmente é necessário? O que é virtude? O que é vício? O que é justiça? O que deveras é moral? E imoral? O que é digno? Por conseguinte, o que é indigno? Enfim, podemos notar que os valores morais desempenham uma função importante em nossa vida, visto que sentimentos e ações são expostos facilitando ou dificultando nossas relações sociais. Para Nietzsche, entender uma moral é também uma tentativa de entender o poder dos costumes. Ora, sabemos que os costumes são a forma tradicional de uma avaliação e representam as experiências dos homens de outrora sobre o que eles consideram útil ou nocivo, aquilo que deveras interessa para estruturar de forma razoável uma comunidade. Mediante uma avaliação inclinada a uma tradição estabelecida ou um costume, aderimos com facilidade a certa postura moral. Assim, podemos concluir que a moral nesse contexto está atrelada ao costume, de modo que, para o pensador Nietzsche, ela é “o sentimento do costume” (2008, p 27).
Nietzsche denuncia o hábito como importante gênero de prazer, fonte de moralidade. Ora, é justamente pela facilidade que aderimos ao hábito, um valor precisamente pronto; melhor: de bom grado; pelo sentimento sereno que vigora e pela possibilidade fortificada na experiência do habitual comprovado, sendo, portanto, útil que acreditamos desse modo em tal costume com o qual podemos viver; diferentemente de todas as possíveis novas tentativas não comprovadas. O costume então se cristaliza na junção do útil ao agradável fundamentando seu caráter inclinado exclusivamente para uma postura prática, rejeitando assim, na maioria das vezes, um pensar reflexivo ou intelectual. Com isso, temos então um tipo de encanto que, ao invés de propagar uma diversidade de pontos de vista, sufoca por assim dizer o caráter dinâmico da vida limitando-a em um medíocre ponto de vista.
O encanto do costume consiste em pensarmos que tal é o nosso único meio, no qual é possível nos sentirmos bem. É pela busca da mais confiável segurança que nos rendemos por sua utilidade aparentemente única, comumente sentida por tudo um grupo ou ordem social. Porém, é justamente para esse suposto encanto que provém do hábito ou costume que Nietzsche imputa sua crítica. Ora, os costumes, até mesmo os mais rudes e duros, com o passar do tempo se mostram mais agradáveis e de bom grado. E por mais áspero, hostil ou desagradável um hábito de visar se apresente, possivelmente tais palpitações venham a se converter futuramente em uma instigante fonte de prazer. Pois bem! A hipótese de Nietzsche nesse contexto é: um objeto que outrora era acolhido de modo hostil provavelmente pode vir a se converter em objeto “sacrossanto”. Sendo assim, é importante observar a estreita relação entre ética e moral, quando estas remetem a um determinado conjunto de costumes. Nesse ponto Nietzsche deixa evidente:
Eis-nos aqui no imenso terreno de manobra da inteligência: não somente se desenvolvem e se aperfeiçoam aqui as religiões, mas também a ciência encontra aqui seus precursores veneráreis, embora terríveis; é ali que o poeta, o pensador, o médico, e o legislador de nossas cerimônias, se revestiu a pouco e pouco do atrativo do que é difícil de compreender e, quando se chegou a aprofundar, aprendeu-se a crer.   (Nietzsche, 2008, p.39)
Uma vez que Nietzsche compreendeu a moral como sentimento do costume, apreciar-se-á por meio dessa hipótese um alerta que permite repensarmos com os critérios os costumes, hábitos e tradições. Torna-se-nos evidente mediante tal observação que o costume é apresentado por Nietzsche como inconstante, longe de tomar uma postura definitiva. E por ser o hábito fonte de uma moralidade, Nietzsche circunscreve sua crítica para o sentimento aderido mediante o encanto do hábito ou costume.

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima ) 

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL

Monografia defendida como Trabalho de Conclusão do Curso de Filosofia, para obtenção do respectivo título de Licenciado.
Orientador
Prof. Ms. William Coelho de Oliveira
DFI-FAFIC



 

                                                               RESUMO



Este trabalho trata da crítica do filósofo Nietzsche à moral e, por conseguinte, aos valores que permeiam a cultura ocidental. Avaliar esses valores consiste em pensar suas origens e como eles estruturam a moral. Em sua obra Genealogia da Moral, o autor constata dois tipos de moral: a moral nobre e a moral dos escravos. Daí segue-se uma avaliação acerca da moral, problematizando o valor dos valores: como os valores “bom e ruim”, criados por uma moral dos senhores, foram transformados em “bom e mau”, pela moral dos escravos? Mediante breve análise fica compreendido que permeia em nossa cultura a moral ressentida que se sobressaiu da moral do tipo nobre: uma moral contra os instintos vitais, responsável pela decadência da cultura europeia e pela asserção do cristianismo. Delimitado o problema da moral, tentar-se-á mostrar a degenerescência da cultura a partir de uma crítica ao pensador Sócrates. Ou seja, tudo que foi dito acerca dos custos negativos da moral acaba dando cor e contorno para uma problemática marcante dessa pesquisa: o otimismo teórico de Sócrates, que para Nietzsche ocupa um lugar central na história da decadência da cultura. Não obstante, o problema da cultura racionalista que finda na ética e o otimismo socrático será o argumento de Nietzsche contra a moral ressentida, do cristianismo e da metafísica.



PALAVRAS-CHAVES: Moral. Decadência. Sócrates.




                                                        

Explicar a análise nietzschiana acerca da cultura ocidental é uma tarefa cuja complexidade se exterioriza de imediato na interpretação do seu campo discursivo. Serenados conflitos tão clarividentes em seu trágico "evangelho", não apenas dificultam, como também instigam em destrincharmos seu complicadíssimo pensamento, este correlato da identidade própria de sua filosofia. No trabalho que nos propomos apresentar parcialmente, teremos como objeto principal trabalhar com imagens, conceitos, expressões, introduzindo ideias que certamente justifiquem a relevância da obra do filósofo Nietzsche ainda em nossos dias.

Nesse contexto, a noção de moral e sua estreita relação com a cultura será problematizada, partindo do princípio de que tais questões são de extrema importância na filosofia nietzschiana. Daí, conforme a leitura de sua obra, principalmente em sua primeira etapa, constantemente são empregados termos como degradação, decadência, degenerescência, quando o panorama da tradição ocidental é diagnosticado. Por sua filosofia se tratar de uma interpretação do corpo, na qual o papel do filósofo se delineia como médico da civilização, compreendemos que sua análise da cultura remete diretamente ao adoecimento drástico do tipo humano. Nesse ponto, foi com extrema audácia que Nietzsche aventurou-se por caminhos profundos, explorando e redescobrindo a natureza humana, problematizando os princípios dos valores éticos constituídos desde a antiguidade clássica até nossos dias.

Com rigor, Nietzsche denuncia uma lamentável depauperação impregnada em várias expressões culturais, principalmente na arte e na filosofia. Aos olhos de Nietzsche isso teve início desde a morte da tragédia grega, sendo consolidada com o domínio da razão a partir de Sócrates. Tal acontecimento deixa marcas indeléveis na modernidade, desqualificando a cultura ocidental. O homem cultuado na história europeia, segundo o diagnóstico de Nietzsche, se personifica na posição de animal doméstico, calmo e pacato, uma serenidade que mascara a degeneração dos instintos vitais na Europa.

 Dessa forma, a descrição de Nietzsche acerca da modernidade e, por conseguinte, da cultura europeia é no mínimo assustadora: esboça uma civilização que se encontra impregnada por uma espécie de “consciência formal” cujo triunfante “você deve” exalta virtudes que supostamente delineiam um padrão humano: o espírito comunitário marcado pela benevolência, diligência, moderação, modéstia, indulgência e a compaixão. Sua crítica dá testemunho inequívoco da dialética entre indivíduo e sociedade. Sua intervenção a respeito da cultura ganha sentido em seu rico diálogo, sempre problematizando as ideias modernas, tendo como referência central o espírito da antiguidade clássica pela qual Nietzsche desqualifica a cultura de seu tempo, por essa não alcançar uma visão abrangente e real sobre a vida. Ao invés disso a sociedade é tiranicamente governada por sentimentos fracos, cultivados por fortes modelos éticos, deixando de joelhos os filósofos e a ciência, perpetuando um novo tipo de indivíduo prisioneiro do imperativo categórico da moralidade.

Nesse contexto, nos situamos num campo de indagações no que tange à temática do nosso problema: o declínio da cultura segundo Nietzsche. Seguindo nessa linha de raciocínio as perguntas imediatas que surgem são: o que e quais são os sintomas da decadência cultural? Qual a relação entre cultura e moral? O que há de espantoso na religião judaica e cristã? Qual foi a principal causa da degenerescência da filosofia na Grécia? Como compreender a mediocrização do tipo homem? Por que a degenerescência da cultura se dá a partir de Sócrates? Qual seria a relação do mestre de Platão com o enfraquecimento e mitigação de certos impulsos vitais? Por que não existe um diálogo entre a cultura grega clássica com as ideias modernas? Até que ponto a moral se dirige contra os instintos da vida? Tal como entende Nietzsche, a moral tradicional passa por caminhos obscuros e antivitais, sufocando a produção das perspectivas e o estabelecimento dos valores, mas como se dá esse processo?

 Pois bem! O fio condutor para um desfecho satisfatório da nossa pesquisa será abordarmos a moral como problema central na análise nietzschiana da cultura. Com justeza, trataremos o tema da moral em dois momentos: no primeiro, a moral se exterioriza como sentimento dos costumes, delimitando nossa pesquisa em seu livro Aurora (1881); e no segundo, a moral será apresentada como antinatureza, delimitando tal problemática especificamente em sua Genealogia da Moral (1887). Se conseguirmos com a apresentação dessas ideias uma aproximação da moral como condição de existência, a partir de uma análise psicológica tentaremos logo em seguida ascender ao problema central de nossa análise: a degenerescência da cultura a partir de uma crítica à metafisica.
 Seguiremos, pois, consistindo em uma observação criteriosa pela qual possamos compreender o problema da cultura sem perder de vista o escopo dessa questão tão ampla, cuja problemática implica em trazermos à tona uma série de outras discussões: a crítica da linguagem, da noção de sujeito, da subjetividade, o niilismo, crítica da racionalidade, crítica à razão, crítica à civilização socrática, crítica ao otimismo teórico, à moral dos ressentidos, à noção de valor, crítica às religiões. Por fim, temas que Nietzsche pensou com tanta genialidade e audácia em seu denso “evangelho” tratando com palavras desesperadas um assunto desesperado: a natureza e o rumo da cultura de seu tempo

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Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima)

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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