sábado, 26 de novembro de 2011

E O SONHO VAI PARAR NO TEATRO...


 Sinopse



Sonho de um Homem Ridículo conta a história de um personagem solitário de São Petersburgo em pleno século XIX. Na época, a cidade era o centro de toda a Rússia, e como em toda grande cidade, os homens são introspectivos e mais voltados para si mesmos. É um personagem fantástico, pois com a introspecção a alma aflora de maneira exuberante, define Frateschi.

O personagem, um funcionário público, sabe que é ridículo desde a infância. Motivo de desprezo e zombaria de seus semelhantes,já não tem mais nenhum interesse na continuação da sua existência. Num dia inútil como todos os outros, em que mais uma vez esperava ter encontrado o momento de meter uma bala na cabeça, foi abordado por uma menina que clamava por ajuda. Ele não só recusa o apoio à criança, como a espanta aos berros.

Ao voltar para casa, não consegue dar fim a sua existência. Adormece e sonha com a sua própria morte, com seu enterro e com uma vida após a morte. Viaja pelo espaço e por desconhecidas esferas. Experimenta a terra não manchada pelo pecado original e conhece os homens na plenitude da sabedoria e equilíbrio. Ele acredita que aquilo tudo foi real, pois as coisas terríveis que sucederam não poderiam ter sido engendradas num sonho.

Ficha Técnica

Texto  Fiódor Dostoiévski
Dramaturgia e interpretação   Celso Frateschi.
Direção Roberto Lage
Cenário e Figurino Sylvia Moreira
Luz  Wagner Freire
Trilha Sonora  Aline Meyer
Imagens  Elisa Gomes






Suspiros de um solitário : "O Sonho de um Homem Ridículo"

Quem se atreveria a escutar os suspiros
Dos solitários e dos extraviados?
Ai, concedei-me a loucura, poderes divinos!
A loucura, para que, ao fim, acabe por crer
Em mim mesmo!

(Friedrich Nietzsche)

Creio que são poucas as pessoas que ao se deparar com as obras do Filósofo Nietzsche não se deixa levar pela sua bela e conturbada trajetória. Marcado por uma vida errante própria de um génio solitário suas palavras arrebatam as mais diversas almas pelo seu encanto e melancolia. Sua solidão grita em nosso imaginário da mesma forma que martelava seu nobre espírito. Com isso, faço das suas palavras inflamadas de solidão um convite para o mundo de um belo conto cujo título "O Sonho de um Homem Ridículo", de certo modo retrata o sentimento daqueles angustiados heróis que tanto suscitam exuberância em nossos corações. Narrado em primeira pessoa, "O Sonho de um Homem Ridículo", escrito por Dostoiévski, centra-se no relato feito por um sujeito acerca das suas amarguras e neuroses. Exaurido por conflitos teóricos durante sua trajetória intelectual o mesmo reconhece sua condição medíocre. Assim como em todas suas obras essa trama traz um forte apelo emocional cravando na alma dos seus leitores questionamentos existenciais e contundentes. De forma peculiar e intensa esse conto traz à tona toda a introspecção de um personagem dramático desorientado pelo racionalismo e moralismo que desde sempre lhe tortura. Com o decorrer do texto nos deparamos no centro de um monólogo de tirar o fôlego onde um sujeito no auge do desespero decide tirar a própria vida. Obra do acaso ou não durante suas andanças pelas ruas de São Petersburgo, o narrador olha para o céu e vê uma estrela solitária, pouco depois, uma menina vem correndo na direção dele. O narrador supõe que algo está errado com a mãe da menina, ainda assim a garota é deixada de lado, e solitário sujeito finda em seu apartamento amparado apenas por seus dispêndios. Um dos pontos auto da narrativa acontece especificamente quando o conturbado narrador se deixa tomar pelo sentimento de compaixão para com o sofrimento de uma pobre garotinha; o que possivelmente lhe traz reflexões sobre sua ligação afetiva com a humanidade, retardando a ideia de cometer suicídio. Numa noite desconfortante e sombria tal como a sua existência, ele irá adormecer em sua velha poltrona, e irá sonhar com uma espécie de “paraíso”, mas um paraíso que é na Terra e não em outro mundo. Com isso, o texto ganha um novo sentido onde o narrador-protagonista, tem uma revelação através de um sonho utópico. Mediante magnifico sonho o homem ridículo é agraciado por uma nova visão do instinto humano. O que ele vê são homens e animais convivendo pacificamente, numa terra onde todos se amam e compreendem a vida e a morte em perfeita harmonia. Os vivos não choram diante dos mortos, se alegram; e os mortos não lamentam, partem amando. Ele se convence de uma verdade exuberante: Pois eu vi a verdade, sei-o; os homens podem tornar-se belos e felizes sem que, para isso, tenham de deixar de viver na Terra. Eu não quero nem posso crer que a maldade seja o estado normal do homem. Mas eles troçam desta minha crença. Não acreditam em mim! Eu vi a verdade!  Certo dia, o narrador começa a ensinar os outros habitantes como cultivar novos valores. Isto gera a corrupção do paraíso: Indiferenças, mentiras, orgulho e um diluvio de outros pecados. Logo, o primeiro assassinato ocorre. As divisões são feitas, as guerras são travadas a discórdia é propagada. A ciência sufoca os valores mais nobres, o conhecimento se personifica como uma pérfida ferida e os membros da antiga utopia são incapazes de lembrar a sua forma de vida anterior- Esse momento da narrativa é incisivo por abrir um leque de possibilidades para se pensar a natureza humana em sua complexidade e morbidez. O narrador então acorda. Agora agraciado por um novo sentido, completamente transbordando de alegria com a vida. Ele promete passar o resto de seus dias pregando a verdade que ele viu. Sua principal lição? É a de amar os outros: e desde então anuncio a boa nova!...Amo-os a todos, e mais que a ninguém, aqueles que riem de mim. Por amo mais a estes? Não sei, nem tampouco posso explica-lo, mas é assim. Dizem que estou enganado...

Boa leitura!!!

Por Claudio Castoriadis 

Veja também o curta : O sonho de um homem rídiculo
Direção: Aleksandr Petrov
Roteiro: Alexandr Petrov, baseado na obra de Fiódor Dostoiévski
Título Original: Son smeshnogo cheloveka
Origem: Rússia
Duração: 20 min
Idioma: Russo
Legendas: Português

http://www.youtube.com/watch?v=LZZPMxxqZPo&noredirect=1
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

UMA CRIATURA DÓCIL SEGUNDO DOSTOIEVSKI


É indubitável a importância de Dostoievski na literatura mundial. Não por acaso, o escritor russo é universalmente conhecido como um dos maiores romancistas que já existiram. Um grande número de escritores se inspirou no trabalho dele e utilizou um ou outro aspecto do seu estilo para suas próprias finalidades. O escritor russo renovou o gênero literário, o de romance, ao ter criado romance polifônico, ou seja, seus personagens se exteriorizam com vida própria. Essa é a grande cartada do autor: não criar escravos do narrador, mas gente livre, capaz de contradizer o próprio autor.

 Em sua edição de 2 de outubro de 1876, o jornal Golos (A voz), de São Petersburgo, estampava a notícia do suicídio de uma certa Maria Boríssova, jovem costureira moscovita que  viera tentar a sorte na capital do império. Sozinha na cidade grande, ela caíra na miséria e, por desespero, jogara-se do alto de um prédio, abraçada a um ícone da Virgem. A tragédia de imediato chama a atenção de Dostoievski. O escritor, que já publicara três de seus romances – Crime e castigo saiu em 1866, O idiota foi publicado em 1868, e 1872 é o ano de Os demônios –, dedicava-se então ao Diário de um escritor, uma coluna de sucesso no jornal Grazhdanin (O cidadão) que logo se tornou uma revista mensal autônoma, dirigida pelo próprio Dostoievski. No número de outubro de 1876, sobre a tragédia ele comenta nos seguintes termos: “Durante muito tempo não conseguimos deixar de pensar em certas coisas, por mais simples que pareçam, elas como que nos perseguem, e até nos parece então que temos culpa dessas coisas. Essa alma doce e humilde que destruiu a si mesma forçosamente tortura o pensamento.” Compara ainda o caso de Maria Boríssova ao de Liza, filha do revolucionário Aleksandr Herzen, que pouco antes também cometera suicídio. Esta última deixara um bilhete de despedida que parece “frívolo” ao escritor: a jovem estipulava as providências a serem tomadas para um enterro “chique”. Da notícia de jornal, Dostoievski retém particularmente um detalhe concreto, que deve ter atiçado sua imaginação de romancista: “Essa imagem nas mãos é um traço estranho e ainda desconhecido nos suicidas!”. Prova disso é que, no mês seguinte, o Diário de um escritor é inteiramente ocupado pela novela Uma criatura dócil, em que o artigo de jornal se transforma em uma “história fantástica”.  Com grande amor e detalhes precisos nesse pequeno ensaio o mestre russo desenvolve um estudo sobre a opressão. A trama que de imediato aparenta ser simples trata sobre uma mulher em busca progressiva de liberdade, e que afinal é envenenada por desigualdades de sexo, idade e classe. A novela narra a trágica trajetória de seu casamento, pontuado de orgulho e humilhação. Um tiro certeiro na alma humana e no moralismo tirano de sua época. Por isso, perguntas pesam no decorrer da obra: até que ponto estamos cegos por nossas neuroses? Qual o verdadeiro papel da mulher na sociedade? Nossas virtudes não seriam vícios disfarçados? Quando floresce na alma humana a ideia de suicídio? Enfim, Uma criatura dócil é mais uma exuberante narrativa do final da vida de Dostoievski que vale a pena preencher nossa biblioteca.

"Uma criatura dócil", Fiódor Dostoiévski, tradução de Fátima bianchi, editora Cosac & Naify, 1a. edição (2003) brochura 13.5x20cm, 96 págs., ISBN: 978-85-7503-197-X

Por Claudio Castoriadis

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O romance o idiota vai ao teatro e as telas


A peça foi uma das três finalistas do Prêmio BRAVO 2010 como Melhor Espetáculo e recebeu o Prêmio APCA de Teatro 2010 na categoria Prêmio Especial da Crítica pela realização do projeto. 

Direção: Cibele Forjaz
Texto: Fiódor Dostoiévski
Trilha Sonora: Otávio Ortega
Elenco: Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luís Mármora, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado, Vanderlei Bernardino
Indicação: Maiores de 14 anos

Conlheça também a Minissérie russa - "O Idiota"

confira o trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=ChZ9P3-8snU&feature=related

domingo, 20 de novembro de 2011

“Meio” bebo


Eu acordo meio dia
De ressaca meio tonto
Vou ao banheiro meio apressado
Tomo um café meio zonzo

No trabalho meio expediente
Eu cheguei meio atrasado
O meu chefe meio nervoso
Ameaça meio salário

Chego em casa meio cansado
Mas logo saio meia noite
Vou pra festa meio liso
Encontro um amigo meio doido

Já me encontro meio lento
Meu amigo meio que cambaleia
Tomo pinga meio litro
E beijo uma nega meio feia

Com altura meio baixa
Uma cintura meio gorda
Olhando bem é meio corcunda
Parece até meio doida

O meu amigo é meio culpado
Tomei sozinho meio litro
O espertinho tomou meio copo
E eu fiquei com todo o prejuízo.

Por Claudio Castoriadis

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Mestre e o idiota: Dostoievski

O Idiota é sem dúvidas uma das obras-primas do autor russo Fiódor Dostoievski, um romance que explora uma perspectiva especificamente existencialista. Livro criado na cidade de Florença, entre 1867 e 1868, ao longo de quatro meses. Vale lembrar, que ao trabalhar nesse romance o escritor foi profundamente influenciado pela clássica novela de Cervantes, Dom Quixote. Há várias semelhanças entre o herói espanhol e o príncipe russo Míchkin. Mesmo o autor russo não gostando da roupagem cômica explorada na novela de Cervantes. Publicado em 1869, este volume perturbador foi, na época, sucesso de crítica. Nele Dostoievski narra a história de um príncipe herdeiro que, por alguns anos, permanece na Suíça para se recuperar de uma enfermidade conhecida como idiotia. Ao se considerar curado ele retorna para reivindicar o trono da Rússia. Nesta mesma ocasião ele conhece a inconstante e imprevisível  Aglaia, uma das filhas do casal Epantchiná, com quem ele tem remoto parentesco, e passa a nutrir pela jovem uma profunda afeição. O príncipe, que também é epilético, é a encarnação da bondade, da sinceridade, da fantasia e da inocência, qualidades que muitas vezes são confundidas com patetice e estupidez - Não se surpreenda com qualquer semelhança com a figura do Jesus Cristo.
Na verdade, porém, Míchkin é mais perceptivo, sagaz e inteligente que muitos daqueles que o injuriam e perseguem. Ele tem o poder de vislumbrar o interior das pessoas, de conhecer a essência dos que o cercam. Assim, o príncipe conhece muito bem cada ser a sua volta, embora ninguém sequer desconfie disso. O protagonista deste romance, além de ser o último de sua linhagem familiar, parece também ser o único remanescente de uma Rússia mais verdadeira e correta, idealizada, de certa forma, pelo autor. Desencantado com seu país, ele retrata nas páginas desta obra momentos intensos e terríveis. Sucedem-se convulsivamente episódios nos quais o dote combinado em uma transação de noivado é queimado em uma lareira; uma crise convulsiva no meio da escada de um hotel causa profunda confusão; uma mal sucedida cena de suicídio se desenrola publicamente; um homicídio inesperado choca os leitores. São atos dramáticos como estes que compõem O Idiota. E, como sempre nas criações de Dostoievski, estão presentes questões que assombram sua existência, tais como os surtos convulsivos, a crise financeira, autodestruição, a humilhação e o assassinato, além da analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio e o vício nos jogos. Ele também enfoca, na tentativa de resgate o passado de sua terra natal, as problemáticas do nacionalismo típico da Rússia e da religião católica na região eslava. O escritor russo inflama sua obra com precisas interpretações de natureza psicológica, narrativas inquietantes e humor corrosivo. Sua visão de mundo e seus ideais delineiam cada página de O Idiota, bem como os lances de sua própria existência, como a epilepsia que o assediou por toda a vida e as mulheres que ele amou. Enfim, Fiódor Dostoievski (1821–1881) foi um dos maiores escritores da literatura russa, sendo considerado referência para o existencialismo: "O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoievsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo." JEAN PAUL SARTRE. O reconhecimento definitivo de Dostoievski como escritor universal surge somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances, que além dessa belíssima obra O idiota, lembremo-nos também de Crime e Castigo e seu último romance, Os Irmãos Karamázov, que foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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