sábado, 30 de abril de 2011

Niklas Luhmann?

Nascido em 1927 em Lüneburg, Niklas Luhmann produziu, a partir de meados dos anos 60 até à sua morte, em 1998, um intelectual de peso nos meios acadêmicos, único pela sua dimensão, pluralidade temática e, sobretudo, colossal ambição teórica, se tornou uma referência incontornável muito para além das fronteiras académicas habituais da sociologia. O intuito do sociólogo de Bielefeld, cidade onde viveu boa parte da sua vida e em cuja Universidade se desenrolou quase toda a sua carreira académica (mais precisamente, de 1968 até à jubilação, em 1993), não se limitou à elaboração de uma teoria social capaz de tornar visíveis, caracterizar e explicar os aspectos centrais da sociedade moderna e da cultura da modernidade. A sua ambição vai ainda mais longe, na medida em que inclui a tentativa de renovar em profundidade as categorias do modo ocidental de pensar o homem e a sociedade, a que a tradição chamou “filosofia prática”, ou mesmo as categorias do pensar enquanto tal, que seriam igualmente as do ser, e que a tradição tematizou sob o nome de ontologia ou metafísica. É, desta feita, uma tradição provocadoramente apelidada de alteuropäisches Denken (pensamento velho europeu) que a ambição teórica de Luhmann desafia. E é um propósito teórico tão “totalitário” que torna compreensível uma afirmação como a do filósofo Robert Spaemann, para quem (se a teoria dos sistemas da Luhmann devesse ser comparada, numa comparação de teorias, com uma qualquer figura filosófica, uma tal figura só poderia ser a de Hegel). Um autor contundente e complexo em sua estrutura conceitual principalmente quando o mesmo tem uma assombrosa facilidade de ser qualificado como um filósofo. E de fato, muitos o enquadram nessa roupagem: na figura de um filósofo. Porém, é importante lembrar que a sua teoria dos sistemas não é uma filosofia propriamente dita. Spaemann tem toda a razão em considerá-la como (a forma mais moderna da não-filosofia). Esta afirmação não constitui, de modo algum, um juízo depreciativo, a denegação de dignidade filosófica ao pensamento de Luhmann, mas a simples constatação factual de uma partilha de tarefas, ou, em termos luhmannianos, de uma diferenciação funcional. A teoria como “não-filosofia” apenas tornaria transparente, inteligível, “o que acontece” , ou seja, de que modo os sistemas sociais resolvem o problema universal de reduzir a complexidade do mundo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pessoas, intolerância e música. * Em memória de Kurt Cobain*



Creio que pensar em intolerância é mais saudável para nossa essência. Digo mais, pensar assim não torna alguém sombrio. Pois, desde que se é uma pessoa temos a necessidade da intolerância para somente assim asseguramos nosso espaço. Os falsos moralistas que desapareçam com suas chagas e conceitos retóricos manipuladores. Não tolero moralistas, não tolero racistas, não tolero filosofias antiquárias, não tolero dogmas doutrinários nocivos à liberdade. Que minha intolerância garanta minha integridade intelectual e sirva de escudo para minha liberdade espiritual. O meu corpo tem necessidade da arte, disso não tenho dúvidas. Tenho sede pelo dramático para livra-me da tensão do trágico da vida. Dessa forma o pínaculo da emoção abraça o reino da liberdade, um estado onde sou transportado num misterioso jardim de cores banhado por uma luz fulminante onde a melodia ressoa.  Devo confessar que sou movido à música. Como seria o mundo sem música? Sei que parece estranho para muitos, mas para cada pessoa que se acomoda em de minha vida, uma canção especifica como trilha sonora, ecoa em minha imaginação. Ninguém fica alheio as minhas mirabolantes trilhas sonoras. Ora, alguém com sensibilidade humana não deve se contentar com um mundo sem música? Seria tudo sem graça, sem sentido, desprovido de beleza. Ouvir música é facilitar a nobre tarefa em interpretar a realidade, tornar belo o estranho. É como se fosse uma motivação especial para cada momento de nossa vida. E, como cada pessoa é única em sua existência, porquê não olhar cada movimento, cada detalhe por uma ótica artística? Sim, nada mais incrível que deduzir personalidades tendo como pano de fundo uma peculiar trilha sonora. Parece mágica, mas acredite, não vejo pessoas, ouço música. E isso não me cansa, minha vista ganha outro sentido. Sabe, dizem que um olhar tem sempre algo a dizer, no meu caso me sinto um bem aventurado, meus olhos vão além, eles não condenam nem distorcem formas. Muito pelo contrário, eles se deleitam em música. Meu olhar se encanta, meu espírito dança, e as pessoas? São harmonias no meu horizonte. Que fique bem claro, não é qualquer música que me refiro, falo daquele tipo que chega com suave reconhecimento, como uma suave brisa, com toda uma amável delicadeza. É divino se mover pensando assim sabia? Não enxergar, mais ouvir. Agora será que alguém entende quando choro? Ou quando distraído deixo um sorriso como presente? Será que agora alguém entende minha fúria? Impossível. Sabe por quê? Ninguém me ouve. Ao invés disso, observam uma forma, cristalizam uma pessoa. Mas nunca param para me escutar, ouvir minha melodia. Por favor, estimado observador não me veja. Ouça minha existência- um dramaturgo ditirâmbico.





Por Claudio Castoriadis

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