sexta-feira, 25 de março de 2011

Por falar em solidão...

Solidão, condição necessária de quem pensa
Tranparente a vivacidade do encanto,
Inconstante leviandade sempre te precede
Amável melancolia
Doçura que aflora
E rasteja sobre meu desprezo.

Até onde for teu reino contentemo-nos com seu
Perfume, fiel companhia e cansaço de quem
Ainda te respira
Luz e ausência, uma casa em chamas
Nobre fraqueza, abrigo dos rejeitados.

Estranho, do outro lado onde eu não me encontro
Descansa meu pensamento.
E nos meus braços ainda perfumado
Pelo teu corpo, agora ausente,
Um outro corpo encontra alívio penoso e apático.

Meu espírito nunca fora de negar afago, tão evidente
Sutilmente claro.
Sofro, não pelo instante, este divinamente uma fraude
Síntese do meu pensamento.
Sofro, em meio a delírios, loucura que deita, rasteja, deseja
Porém, desprovido de qualquer maldade.

Sofro, não pelo desprezo alheio que me rodeia, me sufoca
Me petrifica descansando à sombra da minha benevolência.
Sofro pelo agora, pela minha existência, o instante das horas
Desprezíveis, amáveis mediante a entediante leveza do ser.

Solidão, uma casa em chamas, uma cama de espinhos,
Uma queda livre, espelhos quebrados
Um abismo no nada, uma madrugada
Inteira, uma vida pela metade.

Por Claudio Castoriadis ( novinho)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Estilhaço II

Gosto de pensar tudo que existe como parte de um todo, refrigera minha angústia imaginar meu corpo dançando no frio do inverno. Como posso te abraçar se teu corpo estilhaça meu espírito? Eu tinha um mundo, uma forma, um sentido, mas agora tudo é diferente. Você não vai me procurar por que minha voz corta sua alma. Cada parte do seu corpo se definha quando toca em minha pele. Para eternizar a imagem que tenho do seu sorriso lentamente deixei minha existência no mais longe, depois do infinito, além da escuridão, bem ao lado do nada. Cortaram meus braços, queimaram meu espírito, congelaram meu coração. Mas ainda existo. Você já parou pra ouvir o silêncio? Quantas vezes você ouviu sua lágrima? Pensar em mim é cair verticalmente no fundo do vazio. Você consegue sentir a poesia que no final do paraíso reflete em meu castelo? Meu desprezo é sintoma do cansaço, sinto muito por você não encontrar em mim uma lembrança amiga ou brandura outonal.  Serei sempre incompreensível e inacessível. Cada canto da minha mente despoja sofrimento. E você ainda me procura? Não ponha sentido em minhas palavras, não gaste seu tempo e seu ouro comprando minhas mentiras. Não queira existir em meus sonhos. Não deseje minha pálida face. Mesmo que meu grito clame teu nome fuja. Não tenha medo, existem milhares maneiras gloriosas de me afastar dos seus pensamentos.

Por Claudio Castoriadis ( Novinho )
Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

quinta-feira, 17 de março de 2011

Na altura entendido em sombras: o narcisismo de Nietzsche segundo o Filósofo Peter Sloterdijk.

                                                                                   
                                                                                                         Por Claudio Castoriadis

Quando analisamos as várias leituras empreendidas pelos mais diversos intelectuais e historiadores da filosofia do autor de Zaratustra, devemos considerar que, de forma espontânea, vertentes interpretativas do seu pensamento surgem cada qual com sua particularidade e estrutura argumentativa. Com rigor algumas são mantidas, por ventura outras postas de lado, e, muitas outras concepções por obrigação são retomadas para serem revistas. Porém, uma das questões que ainda implica em uma complexa problemática, considerada, central pela grande maioria dos comentadores, é o tom do discurso de Nietzsche. Torna-se até mesmo embaraçoso para muitos intelectuais falar de um autor que, antes de qualquer coisa se considerava uma dinamite ao invés de um homem; e, nesse caso poderíamos até mesmo entrar em um consenso: Que assim como poucos, Nietzsche tinha o incrível talento em deixar seus leitores, muitas vezes, em posições no mínimo desconfortáveis; afinal de contas não é tão comum encontrarmos nos meios acadêmicos um filósofo que reclama para si uma sabedoria densa e escura prestes a parir um relâmpago, uma peculiar sabedoria que rejeita sua luz para os homens de seu tempo preferindo antes lhes cegar os olhos.

Sua postura um tanto sarcástica fruto de uma forma espontânea de filosofar pode ser vislumbrada num simples correr de olhos pelos títulos e subtítulos dos seus principais livros: Humano demasiado humano- um livro para espíritos livres, Aurora- pensamentos sobre preconceitos morais, Assim falou Zaratustra- um livro para todos e para ninguém, Crepúsculo dos ídolos ou como filosofar com o martelo, Ecce Homo ou Como Torna-se O Que Se É, O Anticristo- Ensaio de Crítica do Cristianismo. Nessa mesma esteira, juízos irreverentes sobre seus antecessores, filósofos e intelectuais, deixam transparecer uma personalidade ousada e surpreendente. René Descartes por exemplo, consagrado como o pai da metafísica moderna é taxado como artificial, Imannuel Kant, grande vulto da filosofia alemã é denunciado pela sua hipocrisia, e Hegel, o maior representante do idealismo filosófico do século XIX é rebaixado á um mero funcionário do estado. Que sentido dar a essas afirmações? Humor? Dramaticidade?

Em cada publicação críticas organizadas com frieza e precisão, sendo cada juízo uma nova dinamite na sociedade de seu tempo; em cada página, precisos aforismos que incitava seu leitor a pensar perigosamente. Sem entranhas e muito menos, sem piedade. Indubitavelmente suas provocações revelavam o foco vulcânico do universo mental de Nietzsche. Com isso, quando entramos em contato com suas obras, de certo modo, somos arrebatados por desconcertantes “alfinetadas” que, no conjunto, exprimem ironicamente o que há de mais sublime acerca da reflexão humana, tudo expresso em livros numa linguagem demasiada cativante digna de um mestre narcisista de primeira categoria. Um manipulador de palavras que paralisa nosso sangue dando tiros certeiros na escuridão de nossa alma. Que enxergando o mundo e a cultura de seu tempo com profunda suspeita falou coisas sérias rindo em um tom irreverente de brincadeira e astucia (Scherz Und List). Sua generosidade intelectual para com aqueles que arriscam respirar a paixão; as alturas das provocações dos seus escritos pode ser caracterizada em dois movimentos: o primeiro movimento se exterioriza pelo fascínio seguido pela paixão súbita contraída das críticas que, na verdade, nada mais são que lamentações de um nobre mestre, que denúncia o estado deplorável em que se encontra a vida e a decadente condição humana tão trabalhada pelo humanismo. Com efeito, foram muitos os intelectuais que reconheceram o encanto que habitava na perfeição de sua linguagem e jogo de imagens que, influenciava artistas de grande envergadura com suas metáforas, parábolas e aforismos.

Um segundo movimento, esse o mais visível, é a postura cautelosa que aderimos quando adentramos no âmago do seu pensamento. Isto é, um movimento caracterizado pela aversão que faz o leitor recuar por insegurança quando se constata um auto-louvor de um pensador eufórico, transbordando uma singular linguagem de júbilo, uma auto- afirmação, explorada em uma esfera laudatória, onde temos um pensador que não faz economia de discursos arrogantes, um tom aderido que lhe acompanhará no decorrer de toda sua produção intelectual. Enfim, o inegável movimento de atração mediante a particularidade do seu estilo pode certamente se converter em um movimento de repúdio ou insegurança quando constatamos um pensador no auge de seu auto-louvor desafiando o leitor a decifrar seu pensamento.

Proposições insuportáveis, megalomania, poesia, loucura, auto-louvor, auto-exposição, auto-elogio excessivo, auto-objetivação, explosões da consciência, extravasamento narcisistico. Ora, todas essas definições são comumente empregadas para designar a capacidade extraordinária de Nietzsche em falar de si mesmo. Mas afinal de contas em qual desses termos seria mais adequado enquadrar a arrogância filosófica, no sentido excepcional da palavra o pai de Zaratustra? Em que medida sua postura dificilmente perdoável seria relevante para seus leitores? Para muitos, seu discurso visivelmente narcisista soa como canção na qual um poeta zomba de todos os poetas; para outros, o pano de fundo de tal retórica seria o delírio que se aproximava. Pois bem, é certo que nesse contexto muitos foram determinados em delinear as ideias principiadas á luz do enlouquecimento; é certo também que existiram aqueles que optaram pensar as possibilidades de analisar os textos escritos sob o efeito de drogas; e é certo ainda que não foram os poucos que se dispuseram em desacreditar obras cujo autor oscilava entre estados de euforia e depressão.

A luz dessas reflexões seria interessante, nesse momento, adotamos um outro ponto de vista; buscarmos argumentos enxergando além daqueles que desacreditam seus manuscritos, deixarmos de lado por enquanto teses que abraçavam eventuais incoerências do autor de Zaratustra. Ora, como tal feito é possível? Como desviar o olhar da megalomania de Nietzsche sem se deixar intimidar ou ser tomado por um profundo sentimento de repúdio? Enfim, como demora-se nestas proposições insuportáveis? Uma vez que até mesmo entre os amantes de Nietzsche há o costume de desviar o olhar evitando citar tais passagens.

Peter Sloterdijk: Filósofo e professor de Estética 
Uma via de resposta plausível a questão do seu discurso é nos ofertada pelo próprio Nietzsche quando sugere que consideremos seus excessos eufóricos como ponto mais alto do cinismo: “acabei de transformar-me a mim mesmo em narrativa, servindo-me de um cinismo que passará a fazer parte da história do mundo”. Encontramos nessa confiança, de um possível grande acontecimento atrelado ao seu nome, um atraente desafio em tentar com seriedade, analisar o que para muitos é motivo de chacota no discurso isento de reservas de Nietzsche. Nesse caso, foi com prudência que Sloterdijk se posicionou. Em seu ensaio o quinto evangelho de Nietzsche propõe-se a explorar as provocações do filósofo ampliando o alcance de sua reflexão, partindo do princípio da existência de toda uma estratégia por traz do auto-louvor nietzschiano. 

Para comemorar o centenário do nascimento de Friedrich Nietzsche, o filósofo Peter Sloterdijk em uma conferência proferida em Weimar, no dia 25 de Agosto do ano de 2000, mantém um diálogo acerca do discurso nietzschiano. Nesse encontro a proposta de demora-se nestas proposições narcisistas é sustentada por serem estas, um modo de falar que resume e perpassa grande parte dos séculos XIX e XX, atravessando todo o século XXI. Para Sloterdijk, pensar Nietzsche como aquele que incorporou a onda individualista que contornou a sociedade civil, permite estabelecemos o mesmo como único teórico que, procurando as bases da oração do sentimento nobre de um povo autoconsciente consegui-o captar a linguagem como um médium que permite a falantes expressar as razões de seu estar por cima. Sendo assim, a catástrofe atribuída a seu nome se deve pela sua intuição de que a matéria que seria tomada para formar o futuro teria que ser procurada no desejo do individuo em se destacar dos demais. Desse modo, segundo Sloterdijk, as linguagens são instrumentos que tem relação com tal narcisismo, pois elas permitem o auto-louvor do individuo. Seja na sua forma primaria como amor próprio no século XVII, em egoísmo santo no século XIX, de narcisismo no século XX e de autodesign no século XXI, a linguagem antes de se tornar técnica, serve para o auto-engrandecimento dos falantes. E, se tratando de Nietzsche, tal tese encontra fundamento e campo de comprovação. Dessa forma, todo aquele que utiliza uma linguagem e um discurso de acordo a sua função pré-narcisista, exterioriza sempre uma auto-afirmação.

Em 1884 Nietzsche escreve a Malvida Von Meysenbug: tenho coisas em minha alma que são centenas de vezes mais pesadas do que a Bêtise humaine (estupidez humana). É possível que eu venha a ser funesto para todos os homens vindouros, uma fatalidade. É bem possível que, no futuro, me torne mudo, por puro amor aos homens. 

Nessa passagem, para nós bastante ilustrativa a que conforme problematizamos, encontramos dois pontos importantes: primeiro que Nietzsche era convicto do tom de sua críticas ao adotar o que ele denominou de “cinismo” e um segundo que ele presumia as desastrosas consequências se fosse mal compreendido. Porém, em nenhum momento se deixou abater em seu projeto. Muito pelo contrário, sua autodeterminação tomou corpo em sua terrível responsabilidade. Encontramos desse modo em sua fala um tipo de egoísmo virtuoso contrario a moral de rebanho subvertendo radicalmente princípios politicamente corretos que serviam de abrigo para esperanças redentoras num céu inflamado pelo imperativo categórico da moralidade de sua época. Por isso ele pôde afirmar: [...] as grandes coisas permanecem reservadas para os grandes, os abismos para os profundos, as sutilezas e calafrios para os refinados e, em geral e resumo, tudo aquilo que é raro para os raros. Em sua quarta consideração extemporânea ao traçar o perfil de Wagner, Nietzsche apontava sua música como renovação cultural não poupando elogios enaltecedores ao estimado amigo. Contudo, logo depois ao se retratar em Ecce Homo, Nietzsche ressalta ser dele o púlpito do qual tanto falara quando prestava homenagem ao velho mestre autor de Tristão e Isolda. Nesse ponto não fica difícil adivinhar a quem ele se referia quando afirmara: “Um acontecimento, para ser grande, deve reunir duas condições: a grandeza de seus autores, a grandeza daqueles que nele estão envolvido”. Devemos, pois, a partir desse fato, considerando a complexidade desse problema, buscar uma reflexão precisa acerca desse cinismo, partindo do principio da condição proposta por Nietzsche, da grandeza do autor intimamente relacionada á grandeza daquele envolvido. Compreendendo dessa forma, o conceito de grande acontecimento no sentido de “catástrofe consentida”.

Para tanto, antes de mais nada, precisamos levar em conta que Nietzsche tinha plena consciência do peso do seu cinismo. Por esse motivo, segundo Sloterdijk, podemos atribuir a grandeza desse autor por professar o caminho que seguiria a linguagem da Europa. Mas, vale lembrar que a grandeza dos seus leitores nesse sentido só é possível quando estes conseguirem apreciar o espírito de um filósofo que lançou mão de diversos recursos para livrar seus leitores das amarras do ressentimento fruto do niilismo de sua época. “E quando se tem um presente a dar, deve-se ter cuidado para que os beneficiários saibam apreciar o espírito com que lhes é dado esse presente”.






Referências bibliográficas

Nietzsche. F. O Caso Wagner. São Paulo, Editora Escala. 2007
________, Ecce Homo, Como Alguém Se Torna O Que É. São Paulo, companhia das letras, 1995.
Sloterdijk, P. O quinto “evangelho” de Nietzsche. Rio de janeiro, Tempo brasileiro, 2004.

Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis
é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

segunda-feira, 14 de março de 2011

Penso logo, "lembro"

Por acaso você sabe quanto vale o sofrimento de um pensamento? Você sabe o que é fechar os olhos mesmo em dias difíceis e respirar uma outra realidade? Você imagina a mágica de nossas lembranças? Você sabe envelhecer em segredo? Lembro de cada momento, lembro da música, lembro de você chegando leve e esgotada. Pensar não é apenas existir, pensar é carregar um mundo encantado de dúvidas. Simulacros de deuses: Não entendo o essencial da vida, não entendo a luz do pensamento. Mas eu lembro. Lembro de cada gota daquela noite de chuva, lembro das suas lágrimas, cada uma delas, seja a mais feliz, seja a mais alegre. Quando eu lembro, tento esquecer o impossível, quando eu lembro eu sou mais eu, mais forte, mais fraco. Quando eu lembro eu sou. Você está em mim, na minha estupidez, na minha alma, em minhas crises. Quando eu lembro o tempo é só uma questão de tempo e a eternidade apenas uma medíocre ideia. Lembro de cada toque, sua respiração, seu corpo invadindo minha escuridão. Sabe o seu sorriso? Ele está comigo. Sabe sua insegurança? Ela me acompanha.

A realidade é uma ferida, machucada toda vez que lembro, porém em cada ferida, seja ela a mais profunda nasce uma flor. Ainda lembro, e isso inflama qualquer motivo de ser; isso me deixa pequeno, sem segurança, sem conforto. Não falo de amor, porque disso não entendo, falo de lembranças. Dizem que quem não esquece adoece, não me importo, porque eu sou sua lágrima descendo de forma involuntária pelo seu rosto. É tudo sem sentido, é tudo tão real, é tudo do meu jeito. Queria um mundo diferente, queria você queimando no fundo de um abismo. Sua voz ainda ecoa em meu espírito, ela me leva para o centro do universo e faz de minha estrela uma cama feita no vazio. Longe da escuridão, eu lembro, longe do absurdo sou retalho. Sinto muito por chegar na hora errada, lamento por cada momento de solidão que te abraçou como único consolo.  Quando me levanto, quando fecho os olhos, eu lembro, adianto meus passos, disfarço minha fúria e tento lembrar. Lembrar que um dia você esteve bem aqui, do meu lado, com hálito congelante, hoje um lugar vazio, sem forma sem razão de ser, demente. Uma página, rasgada em minha existência. É tudo tão incrível, místico, estranho, contundente. Em minhas tremulas e melancólicas palavras eu me perco, mas eu vou me lembrar. Eu me lembro.


Por Claudio castoriadis

sábado, 12 de março de 2011

A solidão em meu deserto

Certa vez o poeta e músico Renato Russo disse em uma de suas músicas que o infinito é um dos deuses mais lindos. Nessa frase, encontro algo de errante e alegre em quase todo aquele que faz de sua existência uma obra de arte. Existir não é fácil, viver será sempre a busca pelo sagrado da vida. Para tanto, nada mais sensato que pensar o deserto como pano de fundo para aqueles que sentem cada fagulha do infinito. Equilíbrio é puro anelo dos solitários. Cada um com sua maneira sonha em alguma medida a liberdade da razão. Trabalha com a alegria de um convalescente, organiza seu caos. Dito de outro modo, o finito desde sempre desejou o infinito. Mas, o infinito é um abismo, um deserto sem heróis, sem sentido estético. O corpo de um solitário definha como escultura nas geleiras. Mas quem disse que um solitário não segue em frente? Não sonha? Não é algo? Solidão não remete necessariamente em vergonha muito menos em infelicidade. Escalando cada vez mais alto no deserto não se rasteja. Caminha abençoado pelo amanhã que nele repousa, sua sensibilidade aflora por ter um percurso próprio longe do portão da cidade. Distante de tudo que muitos adoram como sendo uma realidade. No deserto do solitário ele é príncipe, suas lágrimas alimentam suas flores e sua fome é infinita. Por tal motivo ele se eleva sempre alto e do monte sua luz queima feito uma estrela, seu corpo dança ao som do sagrado e, sua vaidade é estupidez para os fracos. Na solidão tudo pode ser esquecido menos sua existência e quando se vai além, quando chegamos ao outro lado com júbilo: "A liberdade foi alcançada".



Por Claudio Castoriadis

quarta-feira, 9 de março de 2011

O garoto que mora no livro

ILUSTRAÇÃO: CLAUDIO CASTORIADIS
Sinto o piso húmido, todas as minhas convicções caíram em desuso. Meus olhos lacrimejantes ainda resistem, meu quarto adulterado pelo show de luz unifica os múltiplos sentimentos. Ouço música no corredor onde antes andava com entusiasmo. Gosto de me perder e existir nesse lugar. Ele me confunde, me diverte. Sinto-me cansado, vida cintilante, tudo é mais intenso aqui: o estardalhaço de um copo quebrado no chão, uma palavra escrita no espelho, um objeto atirado em minha vitrine, um olhar superficial. 

Com serenidade observo uma sombra mergulhar em sua insignificância. A dor do mundo vem junto com a solidão. Tenho que sorrir, com ímpeto acaso afinal, sou puro sarcasmo. Eu sou um lago, frio e profundo.  Uma velha árvore me tem como hóspede. Uma palavra esmaga meu corpo, eu sou alguma coisa, eu sou um milagre. Eu te amo feito um paciente terminal debruçado sobre uma nuvem, a um só destino eternamente guardo um retrato. Que dia é hoje? O tempo é um fardo e minha existência uma folha ao vento voando em silêncio dentro de um livro.



                           Texto e Ilustração: Claudio Castoriadis

domingo, 6 de março de 2011

O Ser o tempo e o nada.

Depois do último cigarro, minha boca agora se torna abismo. É difícil pensar com uma arma na cabeça.  Em um banheiro sujo, observando demônios tocando cada fio do meu cabelo, nossas escolhas são mentiras, tudo uma cópia de outra cópia. E toda nossa vida é um filme em preto e branco. Minhas palavras não fazem sentido? E sua vida? O que devo falar? De cada passo, cada momento, cada respiração, cada desejo? Faz algum sentido? Desde quando fantasmas tomam posse de sua existência?

Você não sabe o que é morrer enquanto dorme. Poucas pessoas sangram de verdade; sinto o seu silêncio nas palavras que difama meu orgulho. Meu corpo dança como farrapos flamejantes inquietos ao vento. Te odeio, tudo em você fede, suas asas estão sujas; onde foram parar as amarras da sua boca? Eu quero um tempo, eu quero uma casa, quero um copo com água, quero um mundo onde você não exista. Eu desejo você em outro lugar.

 Gostaria que você pudesse me ver agora, sentir o que transborda em mim, definhar como uma borboleta em uma fogueira sagrada. Agora o sol brilha em meu rosto, um lugar para poucos, sou um ímpio nas entranhas do imperscrutável. . Uma estrela dançante abraça meu corpo, carros, pessoas, objetos não podem me ferir. Lamento, nosso jardim foi destruído, todas as flores foram queimadas, uma por uma. É incrível, não existe luz nem escuridão. Ainda tenho medo do seu rosto, das suas palavras, do seu silêncio enfastiado . Uma formiga mergulha em um rio de café, um cigarro queima entre meus dedos, uma ave sobrevoa um abismo, e eu, apenas, existo. Um animal busca sombra, um acidente em outra esquina, e o seu rosto encostado no meu é uma grande doença. Um belo erro, um momento, um segundo, um instante, uma eternidade, uma ideia, tudo em seus olhos, olhe para o horizonte alguém reclama sua vida. Olhe para mim, enquanto meu corpo desliza em sua existência. Sou um mentiroso, um ladrão, uma tragédia. Eu sou “ridículo”. O cigarro acabou, a noite chegou, é hora de voltar para casa.


Claudio castoriadis ( novinho)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Casa de brinquedo

                                                                                    
Em tua beleza uma virtude embriagada,
Sobre tua pele respinga minha lágrima
Sondando minhas feridas
No mais sutil repudio.
Quem falou mesmo
Que pensar é existir?

Existe em mim um instante, uma ideia que
Persiste, onde trevas frias incertas,
Indubitáveis, consomem
Uma luz linda e solitária
Minha esperança amputada
E desgastada, sofre em silêncio,
Tenso e covarde.

Exuberante, ainda que simplório,
Será sempre cruel culpa
Liberdade dos meus dias
Hei de ser triste até meu último        
Suspiro?

Tenho uma alma cuja nudez
Exposta revela imunda morbidez
Mumificada sobre versos trágicos
Sem sentido, sem vida.

Tão logo me vem à angústia sufocando
Em delírio meu espírito, que envelhece,
Junto a um canto sujo, frio, porém,
Aconchegante.
Pequena e imperfeita, minha
Vaidade renascentista.

Ainda sinto a maresia da ferrugem
Que emana do seu túmulo, vazio,
Outrora esquecido,
Quando foi a última visita?
Quem lhe trocou as últimas
Flores?
Retrógrado sentimento,
Hei de trai-lo no altar erguido
Em memória da minha insanidade.

Meu pranto é amenizado quando
Mergulho em teu perfume
Derrama sobre mim toda a
Sua tristeza cuja melancolia
Descansa a sombra da tua perfeição.


  Claudio Castoriadis

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